sábado, 31 de dezembro de 2016

operação

... vamos roubar 2017! 



vão indo, que eu vou só ali vestir qualquer coisa por cima do pijama.
devia ter comprado aquela fantasia do batman.

herpes

Carreguei a prateleira superior do frigorífico com cerveja até abaular.  Tenho vodka e uvas-passas para as doze badaladas. Esqueci de comprar o caviar e as ostras, mas tenho pimentos padrón e laranjas. Desconfio que vai ser uma passagem de arromba. Vou vestir o pijama e esperar pela uma. 


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

obscenidades



As pessoas normais aproveitam esta altura para fazer um balanço do ano que termina, e a partir daí, elaboram uma lista com aquilo que gostariam de mudar ou completar no próximo ano. Tentei usar esse método e estive todo o dia a olhar para a folha em branco. Não foi um tempo completamente perdido, serviu para compreender que os objectivos estavam colocados muito acima, numa altura impraticável, e que a fasquia tinha de ser ajustada. Depois de muita medi(ca)ção e algum trabalho de carpintaria, ei-los:


- Traçar metas desafiadoras, mas concretizáveis no período de um ano.

- Exercitar diariamente o desapego.

- Ler pelo menos 5 livros bons.

- Escrever pelo menos 1 post inspirador.

- Aprender a fazer uma feijoada decente.

- Conservar em bom estado todos os dedos.

- Apalpar mais coxas boas por baixo de mesas.

- Brindar com o copo cheio... e desejar a todos um Bom Ano!








quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

urtigas


qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência...

fraticídio

No dia em que me deu para andar a fazer limpezas, fechei a porta do armário com três dedos da mão direita lá dentro. Precipitei-me para a casa-de-banho e deixei a água fria correr até a sensação ir pelo ralo. Tenho uma colecção de dedos inchados, o médio pisou junto à unha, mas estão inteiros. 
Uma vez fiz algo semelhante no automóvel, era cedo e estávamos a subir para a serra. A mão esquerda apertou o comando eléctrico para fechar o vidro, enquanto a direita abandonava as suas extremidades do lado de fora da janela. Na altura lembro-me que havia alguma neve a derreter na beira da estrada e gritei para ela parar o carro. Ao primeiro ficou preocupada, depois quando entendeu o que tinha acontecido, riu-se imenso, até lhe doer a barriga. Conto isto quando quero animar alguém, mas nem hoje consigo achar piada, nem quando me recordo da minha triste figura, acocorado na beira da estrada, aliviando o sofrimento na neve suja.
No fundo tudo se resume ao alívio, e desde que a mão direita se tornou a minha melhor amiga, temo que a ínvida esquerda se queira ver livre dela. 


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

jazer


Sabia que ao encostar a cama à parede e virando a cabeceira para sul, os sonhos gorgolhariam das profundezas aos magotes. Só não me lembrei de como estaria gelada a parede, e ao tocá-la sem querer, pensei que jazias morta ao meu lado. Adormeci pela madrugada, cansado das batalhas que travei com impossíveis demónios durante a noite. A casa da minha avó era habitada por criaturas deformadas de garras afiadas, bocas podres com exalações chostras, pele de cortiça amarrotada, olhos raiados de sangue. Ouvia-os respirar na escuridão da entrada, sentados no sofá da salinha pequena a bebericar um chá em frente da televisão. Aguardavam por mim, os três monstros, dois deles descomunais, o outro mirrado e seco, feios e bafientos, calados quando me sentiram. Desfiz-me do arnês e da gálea para atravessar o estreito corredor, encostei o daishō na ombreira e parei sob o lintel da salinha. Temi mais por eles do que por mim. O mais pesado dos três ergueu-se e as suas garras envolveram-me o pescoço, levantando-me do chão meio metro. Um fio cristalino de saliva caia-lhe pelo queixo, e em vez de lhe dar luta, tentei abraça-lo. O mais raquítico dos três, coberto de rendas bolorentas e sujas, atirou-se às pernas, rasgando-me roupa e pele, tendões, expondo os ossos. O terceiro, o mais medroso e idoso, encaixou na boca cinzenta duas filas de dentes brilhantes e aproximou-se cauteloso, mas decidido e abriu-me as entranhas à dentada. Era o fim. Mas nos sonhos não se sente dor física, só o aperto, a imobilidade cruciante. E foi então que vi os livros na estante, por cima da televisão, arrumados do pó no interior da cristaleira. Os livros do meu avô, era nos livros que ele ainda vivia, só tinha de pedir que me ajudasse. A katana esvoaçou rápida no ar, dividindo em dois cada um dos demónios 

Nearby Dust Clouds in the Milky Way

pantufas

Andava aqui à procura de pijamas com planetas para a Be, e encontrei as pantufas perfeitas que infelizmente só me servem nas orelhas. Noutra vida fui um monstro. Dos fofinhos.

daqui sim, só há em branco
Isto hoje vai ser um post em expansão, tipo universo, porque agora encontrei um roupão que é a minha cara. Pena também não servir.

daqui
Mas já encontrei alguns pijamas quentinhos e espaciais, depende agora da opinião do expert em pijamas com planetas... ou da mãe do expert! Eu queria o dos piratas.




terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Brachyura


Sonhei que ganhava coragem e te perguntava se estavas apaixonada pelo teu novo chefe, e tu sem abrires a boca acenavas que sim com a cabeça. Estavas sentada na tua cozinha, junto à janela grande voltada a norte e por toda a cara tinhas manchas de pena. Um sol radioso cegou-me logo a seguir e pedi as minhas chaves de volta. Acordei com uma mensagem tua a dar os bons dias, lembrei-me do sonho, mas não falei disso. 
Já não sonhava contigo há muito tempo. Foi a mudança, o alinhamento para a mesma posição em que tu dormes. Ontem deu-me para gastar os excessos do natal em limpezas, e mudei a cabeceira da cama para sul. Ontem também não foste trabalhar, mas estavas ocupada, tão ocupada que nem uma mensagem de bons dias conseguiste enviar. Também não te dei os bons dias, nem boas noites, não quis dar parte fraca. Mas pensei em ti, tudo o que leio e escrevo me leva até ti. 
Mudanças. Essa palavra surge constantemente e tento afasta-la como se fosse um insecto irritante. Até a previsão astrológica de caranguejo para o próximo ano fala em mudanças, muitas mudanças. Parece que vários astros atravessam o céu (coisa estranha), e diz que uma das possibilidades é a tomada de consciência de que a minha "companheira" não corresponde aos meus ideais e é necessário tomar uma decisão, pois continuando como estou, terei de renunciar aos planos de uma vida a dois. 
Lembro-me do início e dos teus planos não me incluírem. Pensei que era preciso tempo, mas agora acho que estou a começar a compreender. Tu tens medo. Medo de amar, medo da entrega, da responsabilidade que é amar outro. Na tua cabeça serás sempre uma criança que precisa de amor, uma criança egoísta e mimada. Tens tanto de bom como de mau, e eu dou por mim a gostar de tudo. Só não compreendo porquê que ainda não devolveste as chaves. 
A minha mãe diz que é isso, o medo, e que há um testo para cada panela. O horóscopo diz que é tempo de mudar, os meus sonhos dizem para pedir a chave, o meu pai diz para não dar ouvidos ao que os outros dizem. Mas se calhar ele está a pensar noutros assuntos, até porque dorme com a cabeça voltada para oeste. Nunca dormi voltado para oeste.  

Graff in Barcelona 

Brachyura - infraordem de crustáceos, caracterizados por terem o corpo totalmente protegido por uma carapaça, cinco pares de patas terminadas em unhas pontiagudas, o primeiro dos quais normalmente transformado em fortes pinças. São por assim dizer caranguejos.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

wiatr

frases úteis:

"Na zdrowie!" - sóbrio nã é o meu estado normal!
"Gdzie jest toaleta?" - prestes a virar o barco, onde fica o wc?
"Przepraszam" - Santinho!
"Bardzo mi miło pana poznać." - vamos para minha casa, fiz a cama de lavado.
"Gratulacje młodej parze i szczęścia na wspólnej drodze życia!" - os meus pêsames.
"Masz piękny uśmiech" - Sobe aqui ao andaime, que eu já estou com ele montado!
"Mój poduszkowiec jest pełen węgorzy" - o meu hovercraft está cheio de enguias



domingo, 25 de dezembro de 2016

sóbrio

Depois da travessia pela noite de natal sóbrio, e empanturrado até às bordas do esófago, ainda me espera o dia de natal, provavelmente sóbrio. Devia ter comprado sais de fruta ou uma garrafa de vodka. A única felicidade é que recebi meias, dois pares, inexplicavelmente, já que o meu comportamento este ano ficou abaixo de razoável, principalmente neste último mês em que desejei que a minha professora da primária morresse na véspera. Se calhar as acções de dezembro já não entraram para a contabilidade deste ano, por uma questão de logística, até porque o mês ainda não terminou. Se assim for, nem vale a pena no próximo ano qualquer tipo de esforço, mais vale ser consistentemente mau até novembro. 

Com o natal quase despachado, resta apenas uma semana para me preparar física e psicologicamente para a passagem de ano. Acho pouco tempo, eles haviam de ter espaçado mais, dar-me tempo para esquecer umas comemorações e assim entrar nas próximas mais relaxado. Não sei se aguento mais festividades no estado sóbrio. Por mim ficava em casa, sozinho. Nunca me aborreço quando estou com a melhor companhia do mundo! 

sim, isto continua em modo integralmente estúpido, até regularizar para mediamente estúpido... num próximo episódio de: 15 sinais de que estás sóbrio. 

sábado, 24 de dezembro de 2016

devaneio

deus me perdoe, mas sou realmente um achado. vendo bem sou geneticamente quase perfeito, dono de uma imunidade sobre-humana, ligeiramente simpático e um pouco afável. agora imaginem coberto de calda de açúcar...






aproveito que está tudo demasiado atarefado para escrever coisas estúpidas.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

hercúlea

Compraste flores no mercado para encher de cor as jarras adornadas pelos ramos verdes de pinheiro. Imagino-te sentada num canto do sofá a planear a véspera, o livro de receitas com folhas soltas aos teus pés, a manta ainda dobrada pelas costas. Todos os ingredientes aguardam no escuro da despensa, vão consumir-se nas voltas que lhes dás antes de serem vertidos na loiça boa e dispostos de forma única pela mesa. Tens pela frente uma tarefa hercúlea, mas nada te abala e verificas mais uma vez todos os passos de dança no silêncio. Estás sozinha no mundo na noite de véspera da véspera. Amanhã por esta altura os mais pequenos vão sentar-se na sombra da árvore a rasgar coloridos papeis de embrulho. A ceia terá passado como um eclipse que todos festejam, mas que dura apenas uns segundos, até se tornar numa pilha amontoada de pratos sujos. Levanta-se a mesa até ao tecto e sacodes o pão dos pássaros na janela. O frio cortou-te os dedos em postas, mas tu prossegues e dás de ti com um sorriso. Amanhã é o dia.

feliz natal

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

acromia

Faltam oito para vinte e um. Apenas oito, mas os dias de inverno são minúsculos, o trabalho aumentou consideravelmente, prazos apertados e subtraio horas ao sono para dar espaço às palavras. Há alturas do dia em que não sei bem se estou dentro de um sonho, ou se o sonho está dentro de um frasco de compota, como aquele veado pálido que vi atravessar diante da paragem do autocarro. Acorda cigano, vais chegar novamente atrasado!


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

tanqueray

A minha avó deserdou-me e tu só sabes falar da má ressaca que tiveste na semana passada, no jantar de natal da empresa. Queimei o arroz e tu continuas a bater na mesma tecla, vinho tinto e gin, péssima combinação. Consigo ver o contorno da aréola na transparência da tua camisa e tu descreves em pormenor os pedaços de canapés que vomitaste. Já não sei há quanto tempo não bebo até esquecer, há quanto tempo não fodo até cair para o lado, há quanto tempo não sinto calor humano. Queria ter segurado a tua cabeça na beira da sanita, afastado os teus cabelos dos salpicos, fazer-te chá e dizer-te que ias ficar bem, e no dia seguinte, não te deixar ir trabalhar com a camisola de pijama. 


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

bússola

Paraste no regresso junto a um entroncamento, perdida sem placas ou estrelas que te guiassem, e disse-te para ires pela esquerda e adiante encontramos a estrada principal. Tens uma bússola na cabeça? Perguntaste. Nessa noite conduziste seduzida pela prata que a lua espalhava sobre o mar, deixamos as roupas num monte no areal e entramos despidos nas águas negras. Dei-te a minha camisa para te secares e o meu coração para o guardares na tua bolsa de pano, era de esperar que o devolvesses intacto juntamente com as chaves.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

quitté

À medida que os dias passam na tua ausência, os sonhos redobram, preenchem por completo todas as horas de sono, rematando o vazio que deixas na cama e nos cantos indivisos desta casa. Tens de saber que neste último foste substituída por duas estranhas e uma terceira mulher com sentimentos dúbios. Estava encurralado entre as três e a parede que tinha estucado, húmida ao encontro das minhas costas. A morena de cabelo apanhado aproximou-se e os nossos lábios encetaram um beijo infantil, lembrando-me que a vida lá fora sem ti continua.

"Love, let me sleep tonight on your couch and remember the smell of the fabric of your simple city dress
oh... that was so real"
Jeff Buckley



domingo, 18 de dezembro de 2016

hífen

A minha professora da primária foi, a par com os velhos edifícios em pedra, dos últimos resquícios deixados pela ditadura. Era por assim dizer um peido de salazar. Vinha da província do norte e parecia ter mais cem anos do que realmente tinha, um dinossauro católico clonado pelo regime. Quando vejo estes sapatos da moda que imitam os antigos, lembro-me sempre dela, e não é uma memória muito agradável. Cada vez que a régua viajava no ar com destino à minha mão, era para os malditos sapatos que eu olhava antes de fechar os olhos. A porca segurava-me os dedos pelas pontas e deixava-me a mão a latejar. Acreditem, a maioria dos castigos corporais que recebi foi devido à minha complexa relação com as palavras. E de nada adiantou todas aquelas reguadas, continuei a trocar letras de sítio, a travar lutas com ligações enclíticas, mesoclíticas ou proclíticas, acentos, pontuação. A última vez que estive com a senhora, quis dizer-lhe que tudo o que ela conseguiu foi que eu temesse as palavras como se elas fossem dolorosos dardos afiados, mas mesmo agora que é uma velhinha com aspecto adorável, continuo a ter medo dela. Desconfio que até a morte anda à procura de coragem para a levar. 

all my friends are dead

sábado, 17 de dezembro de 2016

liquefeito

Viajo quando estou em filas de espera. As leis da física deixam de se aplicar e caminho pelas paredes em direcção à fluorescência estonteante até que alguém me abane, ou grite. Já estava perdido na camada de lã mineral quando um ligeiro embate nas pernas me trouxe de volta. Uma cria humana, fêmea, de chupeta na boca e passos pouco seguros, fintava-me com curiosidade. Disse-lhe "cześć" e desenhei um aceno com a mão. Não sei o que terá entendido, mas de imediato tirou a chupeta da boca e de bracito esticado no ar ofereceu-ma. 

daqui

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

dumb

Desviava-me dos ramos mais baixos que caiam sobre a estrada com receio de os arrancar na passagem do autocarro de dois andares. Estava perdido, mas como sempre continuava em frente, embalado pelo suave deslizar, na esperança de encontrar um sinal. Era cedo, as nuvens coavam o sol em fios de luz e não se viam pessoas nem outros veículos, só alguns corvos e pegas que se atravessavam em voo rasante. A quantidade de casas na berma começou a aumentar e numa reviravolta típica dos sonhos, havia filas de pessoas à espera que as fosse buscar. Parei o autocarro junto ao passeio, não no início da paragem como seria de esperar, mas junto a um grupo de mulheres que usavam vestidos fora de época, lábios vermelhos, penteados curtos, abrindo as portas de par em par. Elas entravam, e explicavam-me que estava a parar fora da paragem, e eu armado em palhaço dizia que hoje só levava comigo as mais bonitas, e elas riam e batiam muito as longas falsas pestanas. 


Elle 1950





quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

iluminar

com a aproximação do natal, parece que as pessoas ficam como se estivessem ligadas à corrente eléctrica, algumas até piscam.
mas não iluminam, apenas dão choque.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

zdemoralizowany

Tudo tem um tempo, um momento. Depois desse tempo deteriora-se, amarelece desde o pé e espalha-se a morte pelo corpo, tornando-se o caule quebradiço, amolecido nos tecidos adjacentes. Picados os nervos pelo bolor, alastrando pelas margens outrora verdes, não adianta deixar de molho ou reanimá-lo com mezinhas. Revirado nas pontas, vai perdendo o viço até ficar translúcido, como uma assombração perdida entre pisos numa mansão de trinta e sete assoalhadas. Desbotado, sem cheiro. E lá vai ele, depreciado, mancando de um joelho, mal-assombrado, varre sem esperança as últimas folhas. E de lá é vê-lo ponderar lançar ou não uma última linha, mesmo que as águas se agitem fulgurantes, barbatanas sacudindo remoinhos de água turva. 




Nunca compreendi como só um nenúfar floria no pequeno lago. Mas só um parece bastar.

9 de Agosto de 2014

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

yeti

... ou síndrome do abandono antes do natal

havia aquele anúncio que passavam na televisão antes dos meses de férias de verão, em que se tentava sensibilizar as pessoas para não abandonaram os seus animais de estimação. fui ler o que escrevi no mês de dezembro do ano passado e já não me lembrava de como a situação era bastante parecida à deste ano, com a única ressalva de que este ano ela ainda não me devolveu as chaves de casa. mas também isso não quer dizer que o mesmo não aconteça, ela pode simplesmente ter esquecido que as tem, ou achar que preciso de uma amiga que as guarde para mim em caso de emergência. não sei se foi por causa das árvores de natal mas dei por mim a pensar que haviam de fazer um anúncio com uma mensagem semelhante, mas a passar durante o mês de novembro, de modo a sensibilizar estas moças para não me abandonarem tão em cima do natal. não é que lhe tenha comprado uma prenda, estou demasiado teso para prendas, mas a neve e as iluminações de natal são mais fáceis de suportar quando se caminha abraçado.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

ostra

Gelado de morango grátis e lama nos pés.
Nos meus sonhos, ainda somos almas gémeas e partilhas sussurros ternos ao ouvido. Os teus seios roçam por mim. Não entendo uma única palavra, mas é como o primeiro de muitos dias de calor. Dias grandes de erva alta, correntes límpidas, sangue nas veias.
Acordo e não há céu.



James Franco

domingo, 11 de dezembro de 2016

아가씨

É o meu primeiro filme do sul-coreano Park Chan-wook, e devo dizer que fiquei bem impressionado. Visualmente é lindo, parece que sobrevoamos um sonho, mas é preciso prestar atenção ao início, entender de onde vêm as personagens, e para onde vão. Até porque não consegui distinguir quando falavam japonês ou coreano, mas se calhar só sou eu. Não vou contar muito do filme. A trama desenrola-se na Coreia do Sul, anos 30, durante a ocupação japonesa. Há um polvo vivo num aquário, desproporcional, mais lá para o fim, na pior de todas as cenas. Há vigaristas, suspense, muito erotismo e uma biblioteca fantástica. O fim não é de todo o que teria idealizado, mas no geral, agradou-me. 




아가씨 (agassi), a criada, ou em inglês, the handmaiden

sábado, 10 de dezembro de 2016

hibernar

Por volta das seis começo a abrir a boca, mas o cansaço vem assim que me levanto e vai comigo no autocarro. Todos os dias atraso o despertador sem dar por isso e atraso-me para o trabalho. Não leio, não escrevo, rendo-me à cama, ao sono e todas as horas parecem não ser suficientes para sonhar. É como se o corpo tivesse decidido hibernar, entrar num estado de adormecimento, desligar. A cabeça está mais pesada, o cérebro engordou durante o outono, as pálpebras cobertas de chumbo, acabei de bocejar.



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

haiku

 Takehiko Inoue

枯枝に
烏のとまりけり
秋の暮

sopra forte o vento
as folhas ocultam o caminho-
esqueci onde vives.


Akutenkō (mau-tempo, ou aquele que julga saber escrever haikus)



outros haikus, dos bons.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

voragem

Sinto falta dos remoinhos de dedos que ao adormecer soltavas na minha cabeça. 
E dos teus pés mergulhados no fundo da cama, numa emboscada branca esperando os meus.
Pés de morta. Quando o resto do teu corpo era um motim. Ferro em brasas a marcar-me.
Privas-me da tua presença, do teu habitar pequeno nos meus dias.
Morres pelos pés. Queria dizer-te. E em vez disso apaguei um terço das tuas palavras com espaços.
Uma chávena fica para lavar mais tarde com restos de café. Tudo voltou à unidade.
O que faço a estas marcas que deixaste?
Podias ao menos cortar-me.



sábado, 3 de dezembro de 2016

dom

Quando nasci dizem que uma das bruxas da região nos visitou e ofereceu-me o dom do esquecimento. Na altura todos acharam que era um dom trivial, vulgaríssimo e de pouca utilidade, principalmente para quem ainda não tinha memórias, mas ninguém ousou interpelar a bruxa e assim cresci com o dom de tudo poder esquecer. É claro que, como qualquer dom, só me foi revelado no dia do meu décimo oitavo aniversário. Não me recordo da totalidade desse dia, uma das vantagens do meu dom, mas lembro-me que fiquei um pouco decepcionado. Era jovem, tinha pouco para esquecer, mas muito por onde desapontar. Foram precisos alguns anos para entender o potencial deste dom, foi preciso sofrer, e desejar esquecer o sofrimento. Podem pensar que se trata de uma das minhas invenções, mas o diabo seja cego, surdo e mudo como tudo aquilo que vos digo é a mais pura das verdades, e a minha esposa foi o primeiro dos meus esquecimentos. 
Casei muito novo, depois de um acidente de automóvel. Talvez o acidente tenha sido a primeira coisa que esqueci, mas sempre atribuí esse esquecimento à pancada que sofri na cabeça. Depois de esquecer o acidente casamos, sem grandes planos, uma viagem e muitos endividamentos. Não ficamos muito tempo. Afinal não tínhamos nada em comum, a não ser o gosto por pimentos padrón, e ela isso fazia muito bem. No decorrer de um ano consegui apagar quase todos os vestígios da sua existência na minha vida, em apenas três anos não sabia o número de telefone, datas de aniversários, caras e nomes dos seus familiares. Dez anos e não consigo deslindar as suas feições, sinais do corpo. Não me lembro se gostava de café, que músicas ouvia. Nem me recordo de alguma vez a ter apresentado como esposa, que é isso do esposa? Terá mesmo ela dito que sim? Às vezes esqueço-me do primeiro nome e alguém por bem mo recorda. 
É um dom. Consigo mesmo fazer desaparecer aquilo que não desejo recordar. Apagar para sempre. Ou pelo menos aprisionar nas catacumbas do cérebro, numa zona pouco acessível. Não me recordo de ter vivido aqueles anos, parece que foi algo que li num livro ou vi num episódio qualquer da vida de outra pessoa. Sinto que nunca fui casado, porque não existe a pessoa com quem casei, não existe uma aliança que deixei no prego, não há sequer memória de dias felizes. E lembrei-me disto porque esta semana comprei pimentos padrón, e ficaram fantásticos salteado num fio de azeite, só com sal.  

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

ilusões


O homem que tinha conservas de ilusões concentradas deitou-se contra as almofadas da cama, com as mãos por baixo da cabeça, insuflando os músculos do peito e bíceps, e em simultâneo encolheu a barriga para dentro. O seu tronco despido fazia um t perfeito, e esperou que ela voltasse, sustendo o ar na posição de um verdadeiro alfa. A mulher entrou no quarto e nem a cabeça voltou para o ver. Encontrou os sapatos junto à cama e sentada na beira, calçou-se. -Já vais? Perguntou o homem que tinha meio quilo de ilusões diluídas no bolso. -Tenho de ir, amanhã acordo cedo. Disse a mulher sem se distrair do seu objectivo. -Bebe mais um chá, disse o homem que tinha gavetas cheias de chá e algumas infusões de ilusões, levantando-se de um pulo, aproximando o tronco do espaço visual da mulher. -Não, obrigada, declinou a mulher de casaco já vestido, tenho mesmo de ir. -Acompanho-te lá em baixo, a porta pode estar fechada. Quis o homem que tinha gavetas vazias, bolsos rasgados, uma cova no peito. -Não é preciso, deixa-te estar, tenho a chave. Disse a mulher em fuga. 



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

วิโรธ

Aye presenciou pela primeira vez um dos meus ataques de fúria em setembro. Habitualmente sou calmo, mas com tendência para o explosivo, facilmente inflamável. É aconselhável manter a distância nessas alturas, podem voar objectos, raramente surge sangue, depois passa, fico em harmonia com o mundo. Faz-me alguma confusão as pessoas que guardam as emoções, imagino que possuam compartimentos secretos, com códigos ou fechaduras. Mas do que não gosto mesmo é de pessoas manipuladoras, que ligam o lume para que eu vá destilando lentamente, atiram achas, mantêm-me a ferver e quando atinjo o limite, ficam surpreendidas, mas aliviadas por ser eu a explodir no lugar delas. Aye diz que tenho de meditar. Diz o que já sei, que a fúria só tem um caminho, um círculo infinito. Aye quer ajudar, tento explicar-lhe que sou assim, de vez em quando preciso de libertar a pressão. Não sou de armazenar, também não sou de facadas pelas costas. Aye quer que imagine que tenho aquele homem diante de mim, aquele que ela não sabe dizer como se chama mas que fala aos domingos na igreja. Não sou católico, explico, não tenho religião. Aye fica confusa, talvez nos faltem palavras que se perderam na tradução, mas depois entende. Nem todos os ocidentais são crentes. Aye julga ter encontrado a origem da fúria.
Buddha Head in Tree Roots

wank

Não consegui escrever mais de dez dias seguidos. 
Que falhanço. 
Dói-me o joelho. 
Contar os dias é capaz de não ser boa ideia. Estou longe dos vinte e um, muito longe, Depois apercebi-me que ando a bater punhetas desde o dia 13. O que me deixa ainda mais desgostoso e com cãibras. 




terça-feira, 29 de novembro de 2016

wàzi

Lista de tarefas:

cicatrizar meias de lã
escrever sobre olhos de peixe
cozer nuvens em lume brando
desenhar aspergillus no ressoado das janelas



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

álacre

O sol ainda não tinha nascido. Levantei a cabeça em busca do lençol enrodilhado ao fundo da cama, não mexi mais que a cabeça e de repente senti-me engolido por um formigueiro, era como mil milhões de formigas a percorrerem-me entre a pele e a carne, desde a planta dos pés até ao pescoço. Pousei a cabeça no travesseiro e deixei que me consumissem o cérebro. Quando acordei o sol continuava para lá dos montes, num lento desapego pelo rebordo do céu. De um só pulo, abandonei a cama sem arrependimentos, sem dores, sem minutos somados, sem sentir o gelo do soalho.
É raro, muito raro, mas volta e meia acontece. Talvez saturno esteja a transitar sobre qualquer coisa, ou então a lua alinhou numa casa favorável, ou saiu-me finalmente a carta do mago, ou então foram as mãos mágicas dela que me livraram das contraturas nas costas... mas seja o que for, é muito bom.

domingo, 27 de novembro de 2016

Paterson

Antes eu não vivia numa gruta. Numa outra era, numa galáxia distante, eu não perdia uma estreia. Eu sabia o nome dos realizadores do momento, dos actores que recebiam óscares, eu era uma agenda cultural com pernas. Assistia a tudo o que se fazia nas proximidades, desde música clássica, até grupos folclóricos, bandas filarmónicas. Não faltava às exposições temporárias, não perdia um festival de música ou gastronómico, feiras, romarias, encontros. Até a ensaios de um grupo de teatro eu conseguia ir. Assisti a bailados, óperas, números de circo. Visitava todos os museus, viajava para visitar museus. Eu comprava livros novos. Todos os que eu queria, sem olhar para o preço. 
Mas os tempos mudaram, a falta de dinheiro tornou-me esquisito, requintado. Escolho gastar o pouco que consigo desviar para algo realmente muito especial. Tem de ser mesmo muito bom. Tem de valer aquele sacrifício. 
Neste momento não tenho nada em mente. Talvez no próximo mês, ou no próximo ano, dê um salto ao cinema para ver um único filme. O cinema ainda é mais ou menos acessível. Mas um filme que realmente seja visualmente apelativo e que valha o dinheiro de o ver num ecrã grande. Mas enquanto não me decido, deixo aqui algumas das minhas escolhas para os próximos meses. Só cinema. 
Como diria o Lauro Dérmio "let's look at the trailer"!

Paterson, novembro de 2016
categoria: comédia, drama
mais valia: condutor de autocarro poeta. 


Sing, dezembro de 2016
categoria: animação, musical e comédia 
mais valia: banda sonora, porcos e marsupiais sem cauda.

Assassin's Creed, janeiro de 2017
categoria: acção, fantasia
mais valia: Marion Cotillard, Jeremy Irons, inquisição espanhola, filmes baseados em jogos 


Fragmentado, Split, fevereiro de 2017
categoria: thriller
mais valia: M. Night Shyamalan, 24 personalidades, James McAvoy


Valerian and the City of a Thousand Planets, julho de 2017
categoria: ficção científica
mais valia: Luc Besson... e a Rihanna 💘


sábado, 26 de novembro de 2016

Ifrit

ou “O estranho caso de Tagik, o berbere contador de histórias”

e ao virar a primeira página ficou suspenso nas linhas do prólogo, encantado pelo movimento das palavras que ecoavam nos labirínticos corredores da biblioteca. Diz-se que o rei nunca mais viu a luz do sol, nunca mais regressou à sua terra, ou beijou os doces lábios da sua esposa. Enfeitiçado pelo conto, perseguiu as palavras sem descanso, sentado naquele canto esquecido, bebendo a humidade da parede norte, sobreviveu até ao último capítulo com teias de aranha no estômago. Há quem diga que ainda hoje a biblioteca é assombrada pelo espírito deambulante do rei, desaparecido nas páginas de um imenso livro de capa vermelha. E se escutarmos com atenção, para lá do murmúrio do vento, é possível ouvir na voz pausada e grave do rei a seguinte história: 
“Conta-se – mas Alá é mais sábio e justo, mais poderoso e bom – que, num tempo antigo e distante, numa terra abençoada de prados, havia um berbere contador de histórias que nasceu quatro vezes. O seu nome era Tagik. Um dia foi-lhe pedido que montasse uma mesinha nordli seguindo as instruções em polaco, mas sem ferramentas apropriadas, sentou-se para descansar e, metendo a mão no alforje, tirou dali um lanche, bem como tâmaras. Quando terminou de comer as tâmaras, guardou os caroços que dão sorte e atirou pela janela as instruções, as chaves foleiras e depois o móvel em pedaços. E, de repente, surgiu diante dele um ifrit de grande altura, que exclamou, sacudindo um braço cheio de braceletes: “Levanta para que eu te mate, como mataste a minha bicha!” E o berbere, espantadíssimo, disse: “Como pude matar a tua bicha?” Ao que o ifrit respondeu: “Quando comias as tâmaras, atiraste a mesinha do ikea, que feriu a minha bicha no peito, porque passávamos por aqui, pelos ares, eu a carregá-la. Ela foi atingida e morreu na mesma hora.” O berbere compreendeu que para ele não haveria apelação nem socorro; estendeu as palmas das mãos para o génio e disse: “Sabe, ó grande ifrit, que sou um plagiador nato, e que não passo um dia sem roubar as ideias dos outros, principalmente daqueles que já morreram, isto quando não invento histórias. Tenho muitas leitoras no blog, mas também tenho azar ao jogo e nenhuma sorte no amor. Permite-me, pois, algum tempo, para que eu te possa escrever uma história, a tua prodigiosa história, e assim dar a conhecer ao mundo a tua grandeza. Tens a minha palavra e meu juramento de que será a melhor de todas as histórias, com reis e rainhas, bibliotecas, sementes de chia e caroços de tâmara. Poderás, então, fazer o que quiseres. Alá é a garantia destas palavras!” O ifrit coçou a cabeça pensativo, tinha o dobro do tamanho do berbere e baixou-se, aproximando a sua cara negra da cara de Tagik, que escorria em gotas de suor. E ele então quis saber o motivo do berbere não montar o móvel e o atirar pela janela, e o berbere confessou que se sentia usado pela filha do vizir, a qual lhe encomendava a montagem dos móveis e em troca pagava com massagens. O ifrit soltou uma gargalhada que levantou um turbilhão de poeira, e agarrou por um braço o berbere que tinha os olhos fechados da poeira, levando-o consigo para o jardim encantado, onde se deitou com ele por baixo de um sândalo; e lhe perguntou se ele preferia montar móveis ou ser montado por um ifrit, ao que o berbere começou a chorar e a soluçar como uma moça; e então o ifrit concedeu-lhe o castigo de quatro vidas, e nas quatro o berbere nasceria e morreria sempre o mesmo, com o mesmo nome, e em troca de algumas moedas, contaria a quem o quisesse ouvir, a história do seu estranho caso com ifrit, o génio."



Plagiado d' As mil e uma noites, prólogo.

Makhan in an enchanted garden, embraced by an ifrit. Illustration from an illuminated manuscript of Nizami’s Khamsa. Central Asia, dated 1648, by an anonymous artist from Bukhara

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

tutorial

Um destes dias uma amiga reclamou que a tinha induzido em erro com um título que usei. Miette, a migalha em francês, que realmente se assemelha a minete, a prática sexual que consiste em estimular os órgãos sexuais femininos com a boca ou com a língua, que por acaso também vem do francês, minet, gatinho. Gostava de escrever sobre essa sagrada arte do minete, mas depois de dar uma vista de olhos pela bloga, assistir a uns tutoriais feitos por quem sabe, desconfio que a minha experiência é muito limitada... falta-me coordenação e talvez me esteja a concentrar muito num único ponto. Por isso, vou continuar a estudar, e praticar. Dizem que é preciso praticar, e comer iogurtes sem colher. 

Dora et le Minotaure, Picasso, 1936



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

baobás

A cabeça anseia encostar na janela, há uma luta interna entre a metade de mim que deseja adormecer, e a outra que teme não acordar na paragem de casa. As ruas parecem linhas e nelas julgo ver letras a trotarem como gazelas, ágeis, juntam-se numa manada, enfileiradas e sem entender são palavras, compridas, complexas, bisontes imensos, sempre a passo de corrida a par com o autocarro. Estremece o asfalto, pedaços da linha saltam no impacto, gnus cansados terminam o parágrafo. Uma nuvem imensa de poeira assenta sobre o texto. O céu ganha movimento nas asas de um bando de grous com penachos de sílabas, e da terra brotam como embondeiros, gigantescos pontos de exclamação invertidos. Estou de cabeça para baixo, suspenso, e eis que acordo, mesmo antes de adormecer.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

desfasamento


Acordei meio segundo antes do estrépito despertar, já o sol sacudia as sombras foçando inquieto pelas frinchas da janela. Um sabor acre persiste agarrado à língua nos dias que acordo assim, descompassado, meio segundo adiantado. Talvez seja o sabor do não sabor, ou do antes do sabor. Porque estou antes do presente, no tempo que ainda não aconteceu, desfasado, na luz que ainda não é luz, na hora que ainda não é minuto saído dos ponteiros, no dia que ainda vai ser dia. Desliguei o silêncio para admirar a claridade, analisando pela sua intensidade se o dia será soberbo ou mediano. Quando o dia chegar a mim.



terça-feira, 22 de novembro de 2016

jardas


Tenho três hábitos (maus hábitos 👿 ) que quero mudar, e vinte e um dias para o fazer. Ou duzentos e cinquenta e quatro. Ou mil quinhentos e trinta e nove.

👿Preguiçar durante horas (perder-me no 9gag, youtube e outros sites que me desligam o computador e que por várias razões não vou mencionar aqui)... trocar por:
😇Escrever diariamente, nem que seja sobre as folhas de coca que parecem de louro, mas que a moça disse que eram de coca, mas eu continuo a achar que é louro. Quero uma manta do Yeti. 

início: 20 de Novembro de 2016   fim:17 de Dezembro de 2016 ou 3 de Agosto de 2022


👿Alimentar as máquinas de vending com todos os trocos que arranjo em troca de chocolates, bolos e refrigerantes... mudar para:
😇Cortar relações com as máquinas de vending, a não ser para consumir café ou água. Comer mais fruta (dobro de nada é nada), beber mais água (pode ser na forma de cerveja).

início: 21 de Novembro de 2016    fim:18 de Dezembro de 2016 ou 14 de Maio de 3109


👿Montar móveis do ikea, ou em móveis do ikea depois de os carregar pelas escadas, dois andares, e montar sem recorrer a aparafusadora eléctrica... trocar por:
😇Não montar... móveis. 

início: 13 de Novembro de 2016   fim:3 de Dezembro de 2016 ... mas nã devo aguentar até ao próximo fim-de.semana.




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

zupa

No sábado acordei às onze mumificado no edredão. Foi a fome que me abriu os olhos, o ecoar do ronco do estômago. As temperaturas desceram até aos três e não ultrapassaram os dez ao longo do dia. Não sai. Troquei o almoço pelo jantar, tinha cogumelos portobello e castanhas congeladas. Num tacho deixei alourar em azeite meia cebola, alho e uma cenoura, tudo picado. Dos cogumelos do tamanho da minha mão, cortei apenas meio em pedaços e juntei ao refogado, com uma pitada de orégãos secos. Em simultâneo cozi um punhado de castanhas golpeadas. O cheiro do cogumelo espalhou-se rapidamente, só de pensar cresce saliva na boca. Descasquei e parti em pedaços pequenos duas batatas médias. Quando as juntei ao tacho, adicionei água morna, uma chávena grande. E por último as castanhas, prontas para entrar em cena, nuas, partidas em metades,  para ficarem bem cozidas. Li uns postes, voltei para acrescentar água, lavei a loiça. Quando as batatas estavam tenras, desfiz tudo com a varinha. Temperei com sal e pimenta, um cisco de azeite. Aguentei a baba, ferveu mais um pouco. Devorei.


daqui

domingo, 20 de novembro de 2016

Ilmatecuhtli

Ilmatecuhtli, a criadora das estrelas, anda pela praia de mãos dadas com Iemanjá. Escolhem beijinhos na maré baixa para terminar um colar. Quando me avista, Ilmatecuhtli corre. De manhã é uma criança traquina que me chama Hurican e cria polvos no meu pescoço. Desfaço a bruma em migalhas e alimentamos as anémonas até ao meio dia. Ilmatecuhtlin tem um riso cristalino e tece com ele uma rede de apanhar memórias.  Quando a noite chega, já se fez mulher e trocamos sonhos de abóbora por chuva. Muita chuva, pede a deusa com ternura antes de adormecer. 


daqui

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

miette

Henri estranha-me a cara e pergunta o que tenho. Respondo que é a mesma que usei ontem e de antes de ontem. Não é das mais bonitas, tento dizer-lhe que ainda tenho remelas, mas não sei como se diz. Deixa o que está a fazer e aproxima-se, observa-me de perto, com curiosidade e volta a perguntar o que tenho. Insisto na mesma resposta, passo a mão pela barba. Talvez migalhas de pão. Abana a cabeça em não, e insatisfeito, acrescenta vários nãos ao gesto.




terça-feira, 15 de novembro de 2016

Cthulhu

A viagem é longa e cansativa, mas assim que avisto a imensa mancha de tolina na forma de uma baleia, sinto-me invadido por uma estranha tranquilidade. É como se regressasse ao momento antes de acordar de todos os sonhos, numa súmula espessa e morna, quase opaca. Talvez ainda esteja dentro do sonho, no limite vazio da fronteira, onde a nuvem de Oort se anuncia.
Noto que são poucos os que voltam. Ao meio dia o sol é um ponto no firmamento e a sua luz não é mais forte que a de uma madrugada de inverno. Não há ninguém à minha espera quando saio da estação, nenhuma alminha a segurar o meu nome com erros numa cartolina. A praça de táxis está às moscas. Antes havia aqui um quiosque que vendia jornais para uma semana, mas com a crise fechou.
Apesar da desolação de edifícios vazios, ruas desertas, a vista continua a ser de cortar a respiração. Num céu quase sem cor, Caronte e as outras luas dançam muito próximas, suspensas no espaço. Enquanto que mais a sul, o horizonte é preenchido por uma cordilheira de vales estreitos e picos montanhosos brilhantes, cobertos por neve de metano. 
Dar-te lume aqui era uma tolice.



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

undécimo

Quando vinha no autocarro senti uma pontada no ouvido. Uma otite! pensei, afinal também apanho disso, e essa ideia deixou-me com um sorriso verdadeiramente estúpido, mas não durou muito. Fui ver e afinal era só uma borbulha. 
Depois lembrei-me que amanhã é feriado e vou dormir até mais tarde. E o sorriso voltou, seguia a meu lado, pelo caminho, espelhado na janela. O dia da independência da Polónia, recuperado em 1918, no final da primeira guerra mundial. O Dia do Armistício. Na "undécima hora do undécimo dia do undécimo mês".

Gavrilo Princip, o estudante sérvio que assassinou Franz Ferdinand




Já passaram dez dias desde a última vez que a vi. Amanhã é o undécimo.


domingo, 6 de novembro de 2016

Valparaíso

As Helvéticas - Hugo Pratt

sábado, 5 de novembro de 2016

Drivelswigger


ousa é esta que se conta neste relato para os homens muito temerem os castigos do Senhor e serem bons cristãos, trazendo o temor de Deus diante dos olhos, para não quebrar seus Mandamentos. Porque Dona Cuca fidalga mui nobre e boa pirata, crida de toda a tripulação, e nas Caraíbas andou gastando seu tempo e mais de cinquenta mil cruzados em dar de beber a muita gente. Foi em boas comemorações sob o pretexto de um dito congresso, que fez a muitos homens infelizes; por derradeiro todos que a bordo ficaram. Que entre os mais foi um Maltês, guardião da gávea, que me contou isto muito particularmente, que por acerto achei aqui em S. Bartolomeu dos Galelos no ano de dois mil e dezasseis.


E por me parecer história que daria aviso e bom exemplo a todos, escrevi os trabalhos e males desta fidalga e, de toda a sua companhia, para que os homens que andam pelo mar se encomendem continuamente a Deus e a Nossa Senhora, que roga por todos. Ámen.

Partiu deste galeão Cuca Melissa Pamela, que Deus perdoe, para fazer esta desventurada viagem às Caraíbas, a dois de novembro do ano de dezasseis. E partiu tão tarde por ir carregar a mala até ao aeroporto, onde carregou obra de quatro mil e quinhentos quilos, praticamente todo o espólio de bom rum que havia a bordo. E com esta carga se partiu para o dito congresso, deixando a tripulação engalanada no convés, lavada em lágrimas, "esgrimindo com lenços intermináveis acenos". E ainda que a nau dali não se mexia, acostados a menos de uma milha da foz do Arelho, nem por isso deixou de ir sem a deixar entregue ao comando de um saco de pulgas rafeiro, no que se havia de ter muito cuidado pelo grande risco que correm as naus muito carregadas de pulguedo.

A três de novembro veio a Capitã haver vista da costa das Caraíbas e dos trinta e dous graus que lá fazia, não sonhando que toda a sua mui crida tripulação lhe encomendara uma surpresa no regresso. Vieram então a bordo sem demora os “cridos mudei o galeão” e seus carpinteiros, serralheiros, electricistas, pedreiros, ladrilhadores, canalizadores, pintores, estucadores e um decorador de interiores. Ter tanto dentro porque havia poucos dias que era partida, e não tardaram muito em ver de novo o chão do convés, a claridade das vigias, a bujarrona cheirando a alfazema, o tombadilho resplandecente. 

Quando os homens terminaram a carranca de uma sereia de belos e redondos seios, e a pregaram na proa com mil cuidados, acharam por bem correr o sabão da quilha para cima, achando por debaixo da pintura negra uma outra encarnada, que fazia pandã com o lenço da Capitã. Mas por causa desta ruim ideia, que foi uma das causas, e a principal, de seu perdimento, porque chegaram do vante à popa sem haver achado por toda a embarcação, o nome de baptismo do galeão...

daqui


Plagiado d' História Trágico-Marítima, prólogo, do caríssimo falecido Bernardo Gomes de Brito.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

moinha

Ao início da tarde Łukasz começou a tossir. Ao primeiro pensei que estava a gozar com Henri e a sua batata corada que exibe com orgulho no lugar do nariz. Desde segunda que está insuportável, dei com ele numa espécie de transe, olhos fechados, dedos enfiados nos ouvidos, a respirar pela boca como um robalo. Solidário, Łukasz começou a perder a voz, camaradagem levada ao extremo, agarrado à cabeça, foi para casa mais cedo. O mês passado foi ao contrário, quem começou a espirrar e gotejar pelo nariz foi o polaco, dois dias depois o francês estava afónico, dores no corpo e muita febre imaginária. Aborreço-me. São dois mariquinhas pé-de-salsa, basta que um apanhe nem que seja uma amostrinha de vírus, três dias depois estão os dois infectados. São tão resistentes como uma folha de alface num cruzeiro em classe económica, repleto de caracóis esfomeados. Fico chateado, como dizia o outro, e sobrecarregado, e como se não bastasse, sem parceiros de copos. E tudo isto para dizer que apesar de hoje ser sexta, continuo de mau humor, sóbrio e saudável.

daqui

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

klucz


segunda pediu-me as chaves.
fui asno em não ter pedido as minhas de volta também.





terça-feira, 1 de novembro de 2016

usta

A chuva parou a meio da manhã. O homem que tinha perdido as vontades olhava o passeio desde o quinto andar. O asfalto brilhava, repelindo o céu sobre ele mesmo. Era magnífico. Na vertigem cinzenta, o ar gelado trazia-lhe a essência das folhas caídas, os riachos sem margens, a terra adormecida para lá dos limites da cidade. Com o rosto frio, os olhos cheios da claridade, sentiu germinar uma minúscula vontade, pouco perceptível, um rebento insignificante, mas suficiente para regurgitar num grito um desgosto.

http://www.frasesparaoface.com/9-entre-10/


sábado, 29 de outubro de 2016

Fenrir

Respondeu-me cinco meses depois. Começou por me explicar o que a tinha atrasado, como andou ocupada com os preparativos para o casamento, depois foi a lua-de-mel, a casa nova. Finalmente sossegou e sentada com os Tratas diante de si, escreveu-me uma longa missiva contando como se sentia feliz e realizada, e que eu estava errado, o casamento era a melhor coisa que já lhe tinha acontecido. Como prova do que afirmava, juntara uma fotografia dela com o caga-tacos a seu lado, uma amostra de homem num fato que sobrava pelos ombros. 
Fui buscar uma lupa. Por muito que tentasse, não conseguia ver a felicidade que ela descrevia. O brilho que emanava das suas íris escuras, negras como obsidiana, tinha desaparecido e em seu lugar surgia um olhar baço, inexpressivo. Aliás, toda ela parecia baça naquele ramalhete de tule e rendas brancas, pálida de braço entrelaçado numa figura ridícula, que mais parecia uma marioneta adoentada, a quem tinham adicionado uns pequenos óculos de arame dobrado.
Até os seus lábios pintados com o mesmo vermelho que sempre usara, onde tantas vezes vira nascer palavras endiabradas e a língua sair insidiosa, agora assemelhava-se a um vermelho gasto, um tom fraco, muito ligeiro. Só havia uma coisa que se mantinha inalterada: o seu perfume. As folhas estavam impregnadas, desde a primeira até à última. Aspirei longamente o papel, era como se por magia se materializasse à minha frente, dançando na sua tola juventude, nua, a capa escarlate a seus pés. Exactamente o mesmo perfume que ela me havia dado a cheirar na cova muito branca e macia entre o ombro e o pescoço, deixando-me ébrio, quase desmaiado de prazer.
Afastei o perfume, a capa vermelha, a pele leitosa e as íris escuras. Afastei-as o mais que pude regressando às paredes frias da gruta, a gotejar de musgo e escuridão. Dormente, continuei a leitura, saltando descrições aborrecidas sobre a decoração da sala, o tamanho da propriedade, a biblioteca do marido, interessando-me mais a vista de montanha, as madrugadas silenciosas no sopé, os bosques densos que lhe lembravam um outro bosque, noutro tempo, quando os nossos caminhos se cruzaram. No verso da última página, com a mesma caligrafia cuidada, concluía que se sentia muito feliz apesar das saudades, assinando "com amor" e o nome de solteira: Capuchinho Vermelho.





domingo, 23 de outubro de 2016

kot

Todos parecem felizes por me ver, até Kot, o gato malhado. Está mais gordo, pançudo, sempre remeloso, um pouco mais domesticado. Roça-se pelas minhas pernas e cheira as mãos, depois desmaia junto aos pés e espera festas pelo dorso. Quando a chuva e o frio regressam, Kot abriga-se em casa, torna-se mais sociável, mas só nas poucas horas em que permanece acordado. Conversamos um pouco enquanto o almoço não é servido, ele entende-me na minha língua, faço por entender a dele. Izabela pede-me que abra o vinho, também a entendo na língua dela quando complementada de gestos. Às vezes esquece de usar o inglês, respondo-lhe simplesmente “tak” e ela brinca: -o teu polaco está perfeito!




sábado, 22 de outubro de 2016

menisco

Tento tudo para a manter distante mesmo querendo-a sempre por perto. -Sexta à noite tenho jogo. Disse-lhe sem ela perguntar. Sorriu e respondeu: -Fazes bem. E como disse que ia, fui, levado pelas pernas surdas ao que o coração gritava. -Liga-lhe! Vai, convida-a para jantar! Esquece esse estúpido jogo. Mas as pernas, que mais tarde se iriam arrepender, fizeram o que a cabeça pouco ajuizada mandava. E assim que começamos todos a aquecer em círculos rectangulares em redor do campo, foram os pés os primeiros a lamentar. Depois o coração resignou-se, ofegante, calou-se sem se emocionar. A cabeça falhou duas bolas, os pés ainda apanharam algumas perdidas, o desempenho no geral era medíocre, por isso a bola só vinha na minha direcção por azar. Os adversários alegravam-se com os meus falhanços e celebravam cada ponto com grande entusiasmo. Eram jovens, pirralhos com idade para serem meus filhos, cheios de energia, músculos em forma, passes perfeitos, velocidade estonteante. Queria ser jovem outra vez, correr sem sentir que a densidade do ar era como estar submerso em lama, os músculos tensos, os ossos a saltarem das articulações doridas, pulmões gastos, um coração martirizado. Ao lado deles parecia ter uns cinquenta anos a mais, depois fiz um bom passe, e foi o ponto alto da minha noite. Reuni à saida toda a energia possível para voltar a pé para casa, estômago a reclamar ao passar diante de alguns restaurantes, onde casais jantavam à luz das velas. Liguei-lhe, ainda podia ir a tempo de a convidar para jantar, mas já era tarde demais, estava a jantar, algures, não disse com quem. O coração entrou em modo silencioso.


notificação de última hora: menisco direito está dado como desaparecido desde ontem. Residente num belo joelho com 38 anos, mede apenas alguns centímetros, fibrocartilaginoso e já teve melhores dias. Foi visto pela última vez ontem por volta das 19 horas. A perna e restante corpo pedem a quem possa ter alguma informação que contacte a polícia, os bombeiros, ou a Rádio Condestável. Obrigado

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

humedecer


Caminhei à chuva sem casaco. Gotas fartas mas espaçadas que atravessaram o céu e se despejaram em mim, morrendo absorvidas pela roupa, escorrendo pela cabeça e braços como canyons em ponto pequeno. Todo o dia andei impregnado do cheiro a chuva, ou do cheiro que a chuva trazia de longe. Tudo misturado agora num único cheiro a mar, floresta, nuvem, poça, terra, tudo concentrado em cada gota. E eu cheirava a tudo pendurado no andaime do primeiro, feliz só por andar à chuva.





reboco

O encarregado nem abriu a boca. Cingiu-se a coçar a cabeça por baixo do capacete e saiu mudo, guardando cautelosamente as palavras no saco de lona onde levava a marmita. O moço aplicava o reboco com a talocha, começando pela parte inferior da parede em direcção ao tecto.  Na outra mão segurava o que parecia ser um coração latejante, ensanguentado, envolvido com cuidado em película aderente. Mantinha-o próximo do corpo, bem seguro, com bater compassado, mas sem o esmagar por entre os dedos. 


sábado, 15 de outubro de 2016

logro

Já ali estivera. Reconhecia aquele desfiladeiro onde o rio só enchia algumas bacias. Nunca chegara de autocarro, essa era a novidade. Numa paragem estava no centro da cidade, na seguinte estava no estreito das montanhas. Demorei um bocado a decidir, nem sabia porque estava ali, nem qual o destino. Pedi ao motorista para sair. Automaticamente as portas abriram e o autocarro desapareceu, assim como as pessoas que seguiam nele. Subi para a primeira pedra por onde se iniciava o percurso. Até ao outro bloco de granito onde se alcançava o caminho em terra, estava tudo alagado. A água era tão límpida e as pedras tão claras que dava a ilusão de ser pouco profundo. Mas lembrava-me da última vez saltar para a pedra seguinte e a água engoliu-me. Era ainda mais fundo. Chovera bastante naquela semana, estava mais frio também. Reparei que havia uma construção em cimento que ligava as duas pedras, tipo um reservatório. Não sei se ali estava antes, mas consegui pendurar-me na beira e balançando as pernas, atravessei sem me molhar. Do cimo do bloco conseguia ver o trilho em terra seguir junto ao rio, perdendo-se o rasto mais adiante entre as montanhas, mas a sensação de contentamento desvanecia-se rapidamente.  Acordei com um gosto de desilusão na boca e o cheiro longínquo de resina. Ainda não amanhecera, mas os pés com as pernas arrancaram sem piedade o corpo à cama. Só quando o autocarro chegou ao destino e as portas abriram é que voltei a recordar o sonho e o estranho reservatório em cimento. Não sabia que era tão fácil cimentar sonhos.