domingo, 31 de maio de 2015

barba

Apesar do meu distúrbio psicológico não constar do ICD nem do DSM, toda a gente sabe que não fecho bem a mala, ou por outras palavras, não jogo com o baralho todo. Há duas maneiras de lidar com isto, mas a maioria opta por não me contradizer, regra básica já bem estabelecida, ou então fazem-se mortos, o que geralmente só resulta com ursos. Já me disseram que não há cura para doenças que não estão descritas e lá me vou aguentando, as pessoas são simpáticas e às vezes até me atiram amendoins, ou tentam fazer festas. Pontualmente há períodos de regeneração, são curtos mas dão-me esperanças de que este meu mal tenha cura. A última vez que isso aconteceu dei por mim a jantar um hambúrguer num desses restaurantes de fast-food enquanto assistia ao jogo entre os NY rangers e os tampa bay lightning. Não sei como ficou o resultado, o surto de normalidade durou pouco mais de uma hora e rapidamente voltei ao meu estado enfermo, arrotando a picle de pepino. No início do jogo até pensei que se tratava de um documentário sobre vikings, pois todos usavam espessas barbas e cuspiam ininterruptamente, mas depois vi que afinal era hóquei no gelo. Tenho saudade do tempo em que os meus pêlos faciais cresciam livremente. As mulheres gostam de uma barba bem cuidada, e eu podia ficar na cama mais quinze minutos se não a desfizesse todos os dias. Vai-se a ver e se calhar é por isso que ando com pouca sorte, falta-me a barba e mais 15 minutos de sono, e talvez só assim se explique como é que acabo a jantar sozinho, como um ruminante diante de um ecrã... vá, não me contradigam, isto já não tem cura!


sábado, 30 de maio de 2015

achados

nunca contei como foi a primeira vez que a vi cair por estes lados, estava a sair do supermercado e fiquei parado na entrada, recebendo o frio na sua forma mais bela, pequenos flocos frágeis, numa valsa moderada até tocarem o chão. 
fragmento de janeiro achado em maio


sábado, 23 de maio de 2015

ocaso

esta é a minha hora preferida, quando o mundo fecha as portas, janelas são corridas. há um breve silêncio, talvez por respeito aos que não terminaram o dia, espera-se que as flores recolham. o cimento começa a arrefecer, os pássaros adormecem, o ar torna-se respirável e bocejo. a iluminação começa aos poucos a nascer um pouco por toda a cidade, tenho tempo, repito palavras, esta é a minha hora preferida e então caminho devagar, conto os passos que dei. não era sobre isto que ia escrever, mas entretanto esqueci e depois o mundo começou a fechar e bocejei. entrei só para uma cerveja, nem costumo lá ir, muito menos na minha hora preferida e foi então que ouvi "que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim..."


quinta-feira, 14 de maio de 2015

natural


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"

sexta-feira, 1 de maio de 2015

tosar

Assim como começou sem nada, ou com muito pouco, chegava agora ao fim, praticamente com o mesmo. Não era uma decisão, o fim sempre ali estivera, distante mas sempre presente. Em cada linha sentia-o, cada vez mais próximo, e quando o velho escolheu sentar-se ao seu lado, a sua respiração era alta e difícil. Cada sopro exigia esforço de vários músculos, o ar entrava contrariado, como as letras nas palavras, forçadas a existirem. Mas com que finalidade, a não ser aproximarem-se do fim? Quando era pequeno também queria ser o Bugs Bunny, mas já nem isso era só dele, e em cada capítulo sentia faltar-lhe a animosidade inicial. Mas de pouco vale remar para trás quando nos encontramos na orla do fim, atraídos pelo abismo, chapinhamos em vão. Não é um desígnio, simplesmente não foi talhado para o ser, as letras escolheram outro. Ponto final.