segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Júlia

havias de ser Júlia, e a nossa cama cheirar sempre aos sabonetes que guardas na gaveta. e o teu corpo encaixaria no espaço vazio do meu, como prova da minha existência. e sem dicionários na cabeceira, nasceriam das nossas bocas novas palavras, todos os dias. e eu perderia o medo das ondas sempre que me afogasse nos teus olhos, e todos os nossos filhos seriam tolinhos.
-oh Júlia!... vem para a cama comigo, deixa a tesoura quieta e a lua sossegada - havia de te dizer, se o teu nome fosse esse.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

Silenciosamente aproximou-se. Senti-o caminhar das sombras e antes de me tocar, cerrei os olhos, esperei o golpe. E ele beijou-me o rosto, meu inimigo de tantas horas, o maior dos rivais, beijou-me. E na contenda sem armas, caído no campo de batalha, nas mãos de um mau destino; ergui-me. 

Karnak

sábado, 27 de fevereiro de 2016

pardon

Como já disse, perdi a descrição do que me aconteceu naquele desafortunado dia. Eventualmente se alguém encontrar esse registo, pede-se que o devolva com a maior urgência ao vento. Mas tudo terá começado ainda bem cedo, depois de uma série de desentendimentos, o encarregado apareceu e disse para deixar os tijolos. Henri, o electricista francês, estava sentado numa cadeira de campismo, pés apoiados no gradeamento da varanda do terceiro andar, fingindo concentração nas palavras cruzadas. O encarregado barafustou e tornou a descer. Fui saudado com uma palmada nas costas e um irónico buongiorno principessa! 
A pequena revolta custou-nos tempo, fomos os últimos, já não havia luz do dia nem boleia. Uma chuva fina atravessava a pele como agulhas de gelo, a fome enrolou-se na forra do estômago. Lá veio o autocarro cheio, com as suas luzes fracas, abafado sobre o cheiro a gasóleo. Então o cansaço começou a devorar-me pelos tendões, o embalo das paragens chamou o sono sobre mim, ali em pé, seguro por uma mão consciente que guardava o equilíbrio. Quando de repente senti um guarda-chuva a pingar bater-me na cara, sem conseguir reagir, uma segunda velhinha no lugar seguinte, pisava-me o pé. Era sem dúvida um ataque coordenado, duas idosas em simultâneo lutando para saírem, aparentemente sem se conhecerem, donas da mesma urgência. Terão pedido desculpa, quase em uníssono, mas eu estava mudo, petrificado.

Arnold poses for the ladies, 1970
Nenhum animal ficou ferido ou foi maltratado durante a viagem... foi só perplexidade. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

submarino

Ontem foi um daqueles dias do avesso. Se eu mandasse nisto, decretava feriado todas as segundas, e todas as primeiras terças do mês. Foi mesmo mau, até escrevi num papel, mas como foi tão mau, acabei por perder o papel. Isto depois de ter sido selvaticamente agredido por duas velhinhas no autocarro... em simultâneo. E aparentemente, nem se conheciam. Hoje foi um daqueles dias sem costuras à mostra. Evitei o autocarro. Dei por mim a cantarolar We all live in a yellow submarine Yellow submarine, yellow submarine We all live in a yellow submarine Yellow submarine, yellow submarine

aqui

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Macbaca

... ou três bruxas na zundapp, em duas cenas e um único acto!


ACTO I 
Cena I 

Lugar deserto, ali na Trafaria. Trovões e relâmpagos. Entram três bruxas (vindas do salão de chã, depilaram tudo menos o buço). 

PRIMEIRA BRUXA — Quando estaremos à mão com leite, bife e carteira? 

SEGUNDA BRUXA — Depois de calma a baralha e vencida esta batalha. 

TERCEIRA BRUXA — Hoje mesmo, então, sem falha (desrespeitar a ética universalmente aceite de não atacar aos fins de semana)

PRIMEIRA BRUXA — Onde? 

SEGUNDA BRUXA — Da charneca ao pé (no Alentejo abissal). 

TERCEIRA BRUXA — Para encontrarmos Macbaca, acho que a vi numa rede social...

PRIMEIRA BRUXA — Cellerini, não faltarei. 

SEGUNDA BRUXA — Holstein-Frísia, sua patega. 

TERCEIRA BRUXA — Depressa, ou perdemos os saldos! 

TODAS — São iguais o belo e o labrego; andemos da névoa, quem é que vai no meio? (Saem montadas na zundapp, descabeladas, um assombro). 



 Cena II 

Um corsário algures nos trópicos. Alarma dentro. Entram Capitã Cuca, Andhriminir, Reboredo, Polly e pessoas do séquito. Encontram um polvo ferido. Andhriminir afia a faca.

CAPITÃ — Quem é esse indivíduo ensanguentado? Pelo que mostra, pode dizer algo sobre o estado recente da revolta. 

REBOREDO — É o polvo que, como bom e intrépido soldado, se infiltrou no campo inimigo. Salve, valente amigo! À Capitã relata quanto sabes da luta até ao momento em que saíste dela.

POLVO — Duvidoso era o desfecho, como dois cansados nadadores que um no outro se embaraçam, a arte prejudicando mutuamente. As impiedosas bruxas, dignas em tudo de serem mesmo umas rebeldes — que as inúmeras vilanias do mundo em torno delas como enxames esvoaçam — suprimentos das ilhas do oeste receberam, entre elas a nossa sagrada Macbaca. Mas tudo isso foi tornado público, porque as redes sociais são assim mesmo. E assim desdenhando a fortuna, de aço em punho, a fumegar da execução sangrenta, tal como o favorito da bravura, aqui este vosso soldado soube um caminho abrir até postar-se bem na frente da zundapp, e como as bruxas que eram três não sabiam onde era o freio, descoseram-me de alto a baixo. Com a estrada cheia de pernas, nem as bruxas se aguentaram na motoreta, duas partiram a cabeça, a mais feia deslocou a anca. 

CAPITÃ — Oh bravo primo! Que digno gentil-polvo! 

POLVO — Como nascem tempestades terríveis e arrebentam pavorosos trovões do mesmo lado em que o sol principia a levantar-se: da mesma fonte, assim, de onde o socorro parecia manar, surgiu o alarma. Presta atenção agora, Capitã dos sete mares: mal havia a justiça, redobrada pelo valor, quando as bruxas se endireitaram por magia, tendo percebido a vantagem, com cera quente e pinças afiadas recomeçaram o assalto. 

CAPITÃ — E porventura que sucedeu à Macbaca? 

POLVO — A Macbaca está irreconhecível, magra, parece um dálmata. Para dizer o que houve, terei de relatar que a mandaram pastar bites no farmville. Assim elas mantinham a fachada de salão de chá, banhavam-se em rios de dinheiro, do que cobraram no face, a quem pagava para conseguir subir de nível, não sei dizê-lo. Mas temo desmaiar; minhas feridas reclamam por socorro. 

CAPIT× Teu relato te orna tão bem como esses ferimentos; lídimo sabor de honra eles revelam. Ide buscar um cirurgião para ele. (Sai o polvo, acompanhado.) (Entra Gualtiero, o representante dos amantes abandonados) Quem vem aí? 

 REBOREDO — O muito digno Gualtiero. Nos olhos dele, quanta pressa! O olhar assim teria quem nos viesse dar notícias de factos muito estranhos. (Reboredo procura os óculos, afinal estava a ver mal, parecem boas notícias, mas do representante dos amantes abandonados nunca se sabe!)

GUALTIERO — Que Neptuno proteja a Capitã Cuca. 

CAPIT× Mui digno pirato, de onde chegas? 

 GUALTIERO — Grande Capitã, venho da Trafaria, onde capturamos com dignidade a Macbaca. As três bruxas foram derrotadas, essas pérfidas, que deram início a um conflito pavoroso. Mas a vaca é nossa, foi um defrontar-se em combate singular, espada contra espada, braço contra braço rebelde, e fez que seus espíritos altivos se curvassem. Em conclusão: a vitória pendeu do nosso lado. 

 CAPITÃ — Grande felicidade! (bate palminhas!)

 GUALTIERO — De tal medo que Smilenka, a primeira bruxa, paz nos implora. Mas não a deixamos reabrir lá o salão de chá, sem que antes dez mil euros houvesse pago para nossa caixa. 

CAPITÃ — Jamais de novo há de trair o nosso afecto. Sem delongas manda Andhriminir cortar Macbaca às postas, hoje temos bife. 

GUALTIERO — A mim tomo esse encargo. 

ANDHRIMINIR— Aaaarrrrrr! (Saem).

as três bruxas na zundapp
plagiado de MACBETH de WILLIAM SHAKESPEARE

sábado, 20 de fevereiro de 2016

marabunta

Consigo imaginar o céu carregado como me descreve, os seus passos aligeirarem junto às ameixoeiras nuas, terá desviado o guarda-chuva para contemplar as pequenas flores brancas que por mistério desabrocharam durante a noite, tocando-lhe o borriço no rosto. Toma então a carreira com um sorriso de Gioconda na boca; imune à chuva, ao relógio, aos solavancos do percurso. À sua frente uma mãe senta-se com a criança ao colo, um cavalheiro prontifica-se para ceder o lugar, mas a senhora diz que a criança é leve como uma pena; não come, esse é o problema e repete duas ou três vezes sempre a mesma lengalenga. A minha mãe concorda e sorri, não dá conversa a estranhos, para si confessa que teve sorte, principalmente com o mais velho, aos dois meses já lhe dava suplemento, pois o gaiato berrava e as mais entendidas diziam-lhe que aquilo era fome, e era mesmo. Lembra-se dos dias em que chegava do treino, deixava-lhe o jantar na fornalha e ele rapava tudo, e depois corria os armários, e não havia bolachas, ou pão, fruta, cereais que saciassem o apetite voraz. Ainda foram ao registo tentar mudar-lhe o nome, mas na altura não admitiam Marabunta como nome próprio.

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

napastnik

Os dias de fevereiro parecem morrer como o mês, exíguos. O sol cruza o céu por detrás de uma cortina de nuvens; na frisa ao nível do palco, esperas que se apartem, nem que seja na hora em que descansas os ossos e sacias a fome. Mas a cortina congelou, permanece estática nas suas pregas engomadas.
O proprietário polaco cedeu-me roupas velhas, por cima coloco o colete reflector com o nome da empresa. O encarregado estende-me um capacete gasto (noto que ninguém está a usar capacete, ou colete) e chama um dos novos que percebe estrangeiro.
Łukasz fala pelos cotovelos, escreve o nome no pó que cobre as vidraças, faço o mesmo com o meu, mas ele teima em chamar-me Ronaldo. Amanhã vamos abrir uma porta naquela parede e entretanto fui seleccionado para o jogo no domingo; diz-me que estão com falta de um ponta-de-lança, mas eu sempre joguei no banco. Nem imaginam a desilusão que os espera.




No alfabeto polaco, para piorar a coisa, existe a letra Ł, (que não é mais que um L traçado) que supostamente não se lê, de modo idêntico ao que se passa com o w em will ou were, no inglês. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

mewa

Como prometido, depois de muito chafurdar no disco, aqui está ela, a pequena gaivota...

acho que tem cara de Gaspar... 

E para a Teresa, que postou a corte de um majestoso exemplar, deixo aqui uma pavoa muito discreta, com mini-pavões!

Dona Urraca e os infantes...



domingo, 14 de fevereiro de 2016

vulcões

O estudo mais aguardado do ano... "Mamas que Apontam para o Céu, Novas Evidências Científicas".

Para aceder ao artigo completo, abrir aqui, ou aqui, por vossa conta e risco.










quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

jugular

Já me tinha esquecido do chão.
Segui o grupo escada acima, como um visitante silencioso de língua estranha. Conhecia todos os cantos daquela casa, sabia a perpendicularidade das sombras, os fluxos de ar, o ranger das tábuas, o que habita para lá das portas. A oeste da escadaria, os jarrões estremeceram. Meio dia sem ponto de fuga, era aqui que perseguíamos a luz. Alguém se aproxima, uma figura delgada, negra tingida. Quando fala, a boca não mexe, borrão de tinta, vem buscar-me. Despeço-me, dois beijos que nem se tocam, sem pele, sem carne.
A rapariga inacabada na árvore olha para mim, abandonada no tronco. Ausente, distante. Morrerei em breve à sua frente, ainda jovem, sem a terminar.

Wet Girl and Octopus Illustration

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

cycki

Obecnie prowadzimy rekrutację zdrowych ochotniczek (w wieku 18-38) do wzięcia udziału w naszych badaniach medycznych przeznaczonych na czwartym piętrze. Celem będzie udowodnić istnienie piersi wskazując na niebo. Badanie ma charakter czysto naukowy i ma opublikować w czasopiśmie międzynarodowym. Potencjalne ochotnicy zostaną nagrodzone przez naukowca, który nie uczestniczy w procesie. Odpowiedź na następujący adres:
maminhasqueapontamparaoceu@gmail.com

(Wybór uczestników zostanie w zależności od rozmiaru i twardości)


tradução aqui
We are currently recruiting healthy female volunteers (aged 18-38) to take part in our medical research study held at the fourth floor. The aim will be to prove the existence of breasts pointing to the sky. The study is purely scientific and aims to publish in an international journal. Potential volunteers will be rewarded by the scientist who intervene in the process. The answer to the following address :
maminhasqueapontamparaoceu@gmail.com

(Selection of participants will be based on size and firmness).

Estamos actualmente a recrutar voluntários saudáveis ​​do sexo feminino (com idade entre 18-38 ) para participar no nosso estudo de pesquisa médica realizado no quarto andar. O objectivo será o de provar a existência de seios apontando para o céu. O estudo é puramente científico e pretende publicar numa revista internacional. Os potenciais voluntários serão recompensados ​​pelo cientista que intervêm no processo.  Resposta para o seguinte endereço :
maminhasqueapontamparaoceu@gmail.com


(Selecção das participantes será com base no tamanho e firmeza)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

ípsilon

Abriu a porta do quarto e tacteou ao longo da parede, a luz do tecto estava fundida. Havia um pequeno candeeiro na secretária, apontei-lhe e ela acendeu-o. Não entrei, fiquei no corredor alcatifado a púrpura. Cheirava a mofo, a velho. Queria sair dali, voltar à chuva, caminhar pela noite em direcção contrária.
-Cozy! Saiu-me, enquanto a rapariga pendurava o casaco molhado nas costas da cadeira. Ela riu da minha mentira piedosa e queixou-se do cheiro. Havia uma janela interior quase junto ao tecto por cima da cama, dava para o vão das escadas. Senti pena dela, mas não podia fazer mais nada, desejei-lhe boa noite e desci sozinho.

Tinha-a visto uma vez, duas no máximo, no apartamento de Alicja. Ela reconheceu-me, estava diante da minha última cerveja, prestes a regressar a casa quando me abordou. Notava-se que alguma coisa a perturbava, primeiro pensei que me ia pedir dinheiro, mas depois começou a falar do apartamento, como tinha sido posta fora por um motivo qualquer que não cheguei a entender, e entretanto conseguira um quarto, coisa provisória, pagara adiantado, tinha as chaves como garantia, mas agora que lá voltara não conseguia entrar. O receio dela é que tivessem mudado a fechadura. Perguntei aquelas coisas óbvias que nos ocorrem de imediato. Já tinha tentado ligar ao proprietário da casa, mas sem resposta. Tinha visto o anúncio numa rede social, parecia coisa séria segundo ela, mas sem recibos, sem documentos. Comecei logo a perspectivar o pior, não me apetecia passar o resto da noite na esquadra, muito menos cair numa cilada qualquer, mas o meu juízo não votava e propus ir até lá com ela e tentar abrir a porta. Ela agradeceu e entramos na chuva.  

Acendeu um cigarro antes de perguntar se me importava, era perto, esforçava-se por acompanhar o passo. Viramos duas ruas, perguntei pelas coisas delas, já que não trazia nada, nem uma carteira ou um guarda-chuva, só o cigarro que se extinguia rápido nos dedos. Estava tudo no carro de uma amiga, mas essa por algum motivo também não podia ir ter com ela. Quase a chorar, maldizia a sua sorte, “i have no luck” repetia no fim de cada frase. Mais duas ruas, cortamos à esquerda.

A certa altura pensei que podia acabar numa banheira cheia de gelo e um ou vários órgãos a menos, mas deve haver no código um gene ípsilon que torna irresistível o salvamento de donzelas em apuros, e sem corcel lá fui eu. Era uma rua estreita, mal iluminada, de prédios velhos e cinzentos. Já teria por ali passado algumas vezes sem prestar grande atenção. As portas eram idênticas, substituídas no século passado, os números confundiam-se, mas ela jurava que era o 121. Experimentei a mais pequena das duas chaves, nem sequer pertencia aquela fechadura. Era pouco provável que tivessem mudado o ferrolho da rua, o prédio do lado era o 127, a chave entrou e rodei para a direita e depois experimentei para a esquerda, até a porta abrir com alguma resistência. 
O resto já se sabe, subi atrás dela só para garantir que a chave do quarto funcionava. Tirou o casaco, mantive a armadura e a viseira descida, a pingar na alcatifa. 

aqui

domingo, 7 de fevereiro de 2016

corvos

... e outras aves, para a Ana.

corneilles dans le Jardin des Tuileries


estes parecem melros malhados no meio das pombas...


este virou-me as costas...

pardais sem medo, junto ao Sena, Paris, Dezembro 2014

sábado, 6 de fevereiro de 2016

glock

Contei ao todo treze pequenos exercícios de auto-censura rasurados no verso dos talões de supermercado enquanto esperava as oito certas. Amarfanhei os ofícios numa almôndega de condenações e num golpe acrobático, rematei-os numa baliza infinita. Golo! Comecei então a compilar mentalmente os movimentos da noite passada, lembrava-me vagamente da casa construída nas dunas. Um primeiro andar com varanda em janelas amplas, a maresia, o voo parado das gaivotas. Assim que aterrei, senti o calor trepar do solo arenoso pelas pernas. A reflexão da luz incomodava-me, como acontecia nos sonhos matutinos. Um dos indivíduos que usava gabardine bege entregou-me uma glock a par com algumas recomendações e um carregador. Inexplicavelmente sabia o que fazer, ou pensava que sabia. Estava empolgado, capaz de disparar em tudo que mexesse. Então logo a seguir surgiram três elementos do gangue armados, tinham conseguido permanecer escondidos nos sacos pretos de lixo que se amontoavam na entrada. Só os distinguia porque não usavam gabardine beje até aos pés como todos os outros. Estaria a menos de cinco metros, apontei e carreguei no gatilho mas a arma não disparou. Lembrei-me dos filmes, teria a arma travada, mas onde se destravava? Afinal não era assim tão simples, mas por sorte os criminosos eram compreensivos e pacientemente esperaram que descobrisse como destravava a coisa e depois, sem reagirem, foram atingidos com vários tiros. Era quase cómico e não senti qualquer remorso. Nem reparei que não havia som no disparo, e que faltava o cheiro de pólvora e o ligeiro coice da arma. Em câmara lenta era possível admirar a cápsula do projéctil no ar e o sangue a respingar brilhante pelas aberturas do tronco. 

aqui


O mais curioso é que a glock só tem trava externa nos meus sonhos...
29 de Novembro de 2015

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

wróbel

Eu não tenho uma Dona Aureliana.

Não terei feito por merecer uma Dona Aureliana na minha vida. Tive momentaneamente uma Dona Maria na cantina da escola que se esmerava por erigir everestes de arroz e salada no meu prato. Quando a contagem vinha com engano, Dona Maria sorria assim que me avistava de tabuleiro vazio na linha de montagem. Era dia com dose dupla de carne.
Durante aquele ano, Dona Maria deu-me furos extra no cinto. 

aqui
...isto no seguimento do que escreveu Dom Xilre, Dona Ana, Dona Susana, Dona Palmier, Dom Pipoco, Dona NM, Dona Linda Blue, Dona Loira e Dona Filipa.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

febre

Espiava-os do fundo da salinha. Ela ria das coisas que o rapaz dizia, encostados ao balcão da cozinha, partilhando um cinzeiro a transbordar. Era o ciúme que o corroía. Desejava secretamente o lugar dele, dizer-lhe todas aquelas idiotices entre círculos de fumo, orelhas furadas e tatuagens nos nós dos dedos. Olhou em volta. Não havia um único livro pelo escasso mobiliário, nem remotamente esquecido. Reproduções de Warhol ocultavam manchas nas paredes, a mais detestável de todas era os clones da Marilyn Monroe. No sofá um rapaz e uma rapariga vegetavam de mãos dadas, os corpos amolecidos, apartados de olhos pelos pixeis do ecrã. Cobiçava o despojamento deles, o doce entorpecimento. Era a ausência de palavras. Sonhava um dia perder as palavras, esquecê-las nos bolsos ou nos bancos de autocarro. Admirava frequentemente quem nunca sofria da febre de descrever o voo dos pássaros.


 Gregg Deal, The Last American Indian On Earth