terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

ípsilon

Abriu a porta do quarto e tacteou ao longo da parede, a luz do tecto estava fundida. Havia um pequeno candeeiro na secretária, apontei-lhe e ela acendeu-o. Não entrei, fiquei no corredor alcatifado a púrpura. Cheirava a mofo, a velho. Queria sair dali, voltar à chuva, caminhar pela noite em direcção contrária.
-Cozy! Saiu-me, enquanto a rapariga pendurava o casaco molhado nas costas da cadeira. Ela riu da minha mentira piedosa e queixou-se do cheiro. Havia uma janela interior quase junto ao tecto por cima da cama, dava para o vão das escadas. Senti pena dela, mas não podia fazer mais nada, desejei-lhe boa noite e desci sozinho.

Tinha-a visto uma vez, duas no máximo, no apartamento de Alicja. Ela reconheceu-me, estava diante da minha última cerveja, prestes a regressar a casa quando me abordou. Notava-se que alguma coisa a perturbava, primeiro pensei que me ia pedir dinheiro, mas depois começou a falar do apartamento, como tinha sido posta fora por um motivo qualquer que não cheguei a entender, e entretanto conseguira um quarto, coisa provisória, pagara adiantado, tinha as chaves como garantia, mas agora que lá voltara não conseguia entrar. O receio dela é que tivessem mudado a fechadura. Perguntei aquelas coisas óbvias que nos ocorrem de imediato. Já tinha tentado ligar ao proprietário da casa, mas sem resposta. Tinha visto o anúncio numa rede social, parecia coisa séria segundo ela, mas sem recibos, sem documentos. Comecei logo a perspectivar o pior, não me apetecia passar o resto da noite na esquadra, muito menos cair numa cilada qualquer, mas o meu juízo não votava e propus ir até lá com ela e tentar abrir a porta. Ela agradeceu e entramos na chuva.  

Acendeu um cigarro antes de perguntar se me importava, era perto, esforçava-se por acompanhar o passo. Viramos duas ruas, perguntei pelas coisas delas, já que não trazia nada, nem uma carteira ou um guarda-chuva, só o cigarro que se extinguia rápido nos dedos. Estava tudo no carro de uma amiga, mas essa por algum motivo também não podia ir ter com ela. Quase a chorar, maldizia a sua sorte, “i have no luck” repetia no fim de cada frase. Mais duas ruas, cortamos à esquerda.

A certa altura pensei que podia acabar numa banheira cheia de gelo e um ou vários órgãos a menos, mas deve haver no código um gene ípsilon que torna irresistível o salvamento de donzelas em apuros, e sem corcel lá fui eu. Era uma rua estreita, mal iluminada, de prédios velhos e cinzentos. Já teria por ali passado algumas vezes sem prestar grande atenção. As portas eram idênticas, substituídas no século passado, os números confundiam-se, mas ela jurava que era o 121. Experimentei a mais pequena das duas chaves, nem sequer pertencia aquela fechadura. Era pouco provável que tivessem mudado o ferrolho da rua, o prédio do lado era o 127, a chave entrou e rodei para a direita e depois experimentei para a esquerda, até a porta abrir com alguma resistência. 
O resto já se sabe, subi atrás dela só para garantir que a chave do quarto funcionava. Tirou o casaco, mantive a armadura e a viseira descida, a pingar na alcatifa. 

aqui

25 comentários:

  1. Respostas
    1. é um aborrecimento, de armadura à chuva, aquilo nã é estanque...

      Eliminar
  2. Afilhado, afilhado, tu livra-te de te meteres em apuros, se morres por aí, juro, que te mato.

    Abreijo da madrinha

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. quem falou em morrer? desconfio que aquela casa nem tinha banheira... o que me tranquiliza bastante!
      beijos, madrinha :)

      Eliminar
  3. Conde, como é que adivinhou que eu ia ler o texto a partir do rés-do-chão do nº127?
    Depois foi só descer, e fechar a porta. Mais uma cenoura.:)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. nobre que se preze adivinha até quando uma donzela está prestes a suspirar :)
      muito agradecido!

      Eliminar
  4. Manuel!!!!! e se te levam algum órgão que te faça falta?... esse ipsilon não é de confiança... tem cuidado!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. tenho um órgão extra para estas eventualidades :) algumas teclas já não funcionam, mas ainda dá para pequenas composições...

      Eliminar
    2. brinco contigo, mas eu faria igual...tal e qual...

      Eliminar
  5. Tem piada teres escolhido esta palavra para título...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. quando começo a esgotar as palavras, viro-me para as letras :)

      Eliminar
  6. ... ah, e gostei tanto deste conto, Manel!

    ResponderEliminar
  7. Um homem sabe sempre ser um homem e um cavalheiro! :)


    (foi um comentário sexista, mas foi o que se pôde arranjar)

    ResponderEliminar
  8. Respostas
    1. sem cavalo... ao preço do feno, mais vale sustentar um burro, e burro já sou eu!

      Eliminar
  9. E a espada? Onde ficou a espada?

    Beijocas, Dom Stormy :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. a espada nã saiu da bainha... nos dias que correm é preciso ter cuidado :)
      beijos, Dona Maria Tutu

      Eliminar
  10. Um cavalheiro! E nem precisasse usar a espada...

    ResponderEliminar
  11. Excelente :)
    Há coisas que, não tendo preço, valem muito!

    Um beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. às vezes fico a pensar se isto nã será castigo...

      Eliminar