sexta-feira, 20 de junho de 2014

apartamento

Demorei um pouco mais a arranjar lugar para estacionar, ela já estava à porta do prédio, cabelo apanhado num novelo no topo da nuca, pescoço sensualmente vulnerável, andorinhas estampadas na blusa que descia por um dos ombros. Apresentei-me, ela estendeu a mão um pouco fria que segurei na minha bastante quente sem apertar, afinal era da Nova Zelândia.

Sustive a porta em madeira recuperada cedendo-lhe passagem, o corredor sombrio ladeado de caixas do correio, desembocava no pátio comum para onde todas as varandas interiores convergiam. Encaixou os óculos de sol na cabeça para apreciar com a merecida atenção o trabalho em ferro forjado do gradil.
Pelas varandas pendiam diversas floreiras com ervas aromáticas, avencas, e outras plantas, algumas floridas outras quase secas. Tinha sido precisamente aquela disposição das casas e a elegância do ferro que me tinham cativado. O apartamento em si não conquistava, era desproporcionado, alto e mal dividido. Não dei com a chave à primeira, com excepção da mais comprida e estranha que abria a porta de entrada do prédio, todas as outras eram idênticas e algumas entravam na fechadura mas não rodavam.
Não tinhas futuro como assaltante! Disse, puxando a blusa até ao ombro. Se ela soubesse.

Apesar das janelas da frente estarem abertas, o apartamento ainda cheirava a tinta. Já não havia vestígios do perfume de Alicja, e sem mobília parecia que os tectos eram ainda mais altos e as paredes estreitas. Mostrei o óbvio, uma cozinha/sala espaçosa e um quarto com uma pequena casa de banho, em que o poliban encaixava na medida certa atrás da porta.
Se ela for gira podes baixar ao preço, disse-me o Péter.
Fechamos negócio.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

molares

A claridade já enchera o quarto dificultando a leitura da informação que corria nos painéis da estação. Pela hora só podia ser aquele, mas não tinha a certeza de estar na plataforma certa, podia perguntar, mas as pessoas caminhavam com pressa, sem olhos.
Um sinal sonoro entoou pelo recinto, aproximava-se um comboio na linha contrária, difundiam os altifalantes.
A plataforma oposta ficou momentaneamente tapada pela composição de 19 vagões, e assim que as portas se fecharam e o comboio seguiu viagem, instalou-se o silêncio.
Confirmei as horas no relógio, depois procurei novamente o bilhete no bolso da camisa. Alguma coisa estava fora de sítio, talvez o sol. O mesmo sinal sonoro voltou a tocar, desta vez não anunciaram nada. Então algo no interior da boca se soltou. Como um caroço de cereja sem a doçura do fruto carnudo. Cuspi para a mão, um dente molar, com saliências estranhas e raiz, depois mais cinco, grandes e largos, do fundo da boca, angustiado guardei-os na bolsa superior da mochila. lá vinha o comboio...


sábado, 14 de junho de 2014

pousio

Desde que Alicja voltou para Szczecinek, levando o scirocco e as festas divertidas, Jochen deixou de sair de casa. Passam o tempo a trocar mensagens pelo telefone e depois ao fim do dia instala-se em frente ao portátil e adormece online. Chega a dar vómitos quando lá vou acordá-lo.
Não foi difícil convencer o moço a deixar tudo para ir com ela, os pais têm uma residencial perto do lago e ela vai tomar conta do negócio, daqui mais ou menos um mês darão inicio a uma nova e idílica vida. Ele ainda não foi e já lhe sinto falta. É uma maçada este apego, prometi-lhes uma visita assim que conseguir uns dias de férias, mas o mais provável é não nos voltarmos a ver.

Entretanto o “bolchevista” desapareceu e do grupo de quatro que costumava encontrar-se na explanada do Ankert, só resto eu e o bonitão do Péter. Um dia destes encontrei-o em Ecseri piac, a feira da ladra cá do sítio, estava a regatear o valor de um relógio de bolso, pelo menos era o que parecia. Acabamos por ir beber uns copos. Péter é um bom vivant, com trinta anos já feitos e uma grande marrafa, nunca precisou de trabalhar, vai vivendo do aluguer de uma mercearia no décimo quinto distrito e do apartamento onde Alicja já não mora. Também se dedica a uns quantos negócios pouco honestos, mas tudo o que ganha acaba por gastar com mulheres, ou a pagar copos aos amigos.  Como não tem muitos amigos, e os que tem ultimamente andam desaparecidos, decidiu assim do nada comprar um bilhete de avião e foi atrás de uma espanhola que seguia para Malta.

A meio da semana passada ligou-me, tinha uma inglesa interessada no apartamento, mas como não ia cá estar, pediu se eu no sábado podia mostrar. Regateámos as condições… na minha folga, sair do choco para descer até Peste em transportes públicos, parecia-me demasiado. Acabei por aceitar em troca do uso da “máquina” para as minhas deslocações. Já o tinha conduzido uma vez, na M7, quando o ponteiro passou os 200 o gajo quase tinha uma síncope e jurou que não voltava a acontecer. Um Mitsubishi Lancer Evolution X, em preto mate, 295 cavalinhos, suspensão independente e um acelerador que parece não ter fim. Um pouco quitado demais para o meu gosto, mas a cavalo emprestado…


segunda-feira, 9 de junho de 2014

atracção



Atraída pela luz do candeeiro, sobrevoou junto à janela, mirando-me como se estivesse exposto na vitrina de um restaurante. Como aqueles lavagantes nas marisqueiras, enfiados ao monte num tanque oxigenado à força, uma pessoa aponta e o empregado vai com uma rede e em menos de meia hora está no nosso prato… Como a janela estava fechada, a melga foi pregar para outra freguesia, e eu continuei na minha introspecção sobre humanos expostos em tanques.

Será que as melgas têm alguma predilecção pelo tipo de sangue? Há quem se dedique a isto, até já se fizeram estudos e chegaram à conclusão que melgas e mosquitos são mais atraídos por pessoas que bebem cerveja. Outros estudos revelaram que mosquitos tendem a escolher pessoas de sangue tipo O e são atraídos pela emissão de dióxido de carbono. 

Fica por explicar o motivo de tanta excitação do outro lado do vidro, o meu tipo de sangue é AB e hoje ainda não bebi cerveja, mas talvez eu seja simplesmente irresistível… 






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