domingo, 18 de maio de 2014

Bíró



Irritado, atirou com o caderno que embateu na parede mais distante, caindo aberto no chão, precisamente na página em que escrevera “Na comissura do lábio”… encostado à segunda linha esverdeada, no início do canto superior esquerdo, e nada mais que isso. O homem que vivia na sala das cavidades futuras aproximou-se, não reconhecia o caderno fendido, apenas a caligrafia ágil em azul. Rodou a cabeça para conseguir ler sem lhe pegar “Na comissura do lábio”… lembrava-se deste início desgastado, no poder alojado naquelas duas preposições com determinantes, e dois substantivos à solta, vazios de significado na sua solidão. Distraído, pegou no caderno e analisou a encadernação simples, com dois emes pequenos gravados no verso, provando que lhe pertencia mas não se lembrava de alguma vez o ter visto. 

O homem que escreve tinha saído, exasperado batera com a porta. Encostou o caderno ao nariz e aspirou o cheiro a couro. Era demasiado requintado, certamente tinha sido um presente, alguma admiradora, ou um furto bem-sucedido. Folheou o papel pautado coberto de vocábulos e deteve-se na página incompleta, havia ali uma continuação, aquela frase ligava-se pela boca a um corpo. Procurou a esferográfica azul na mesa e sentou-se no lugar do homem que escreve, inspirou fundo e quando se preparava para dar continuidade, a tinta secara. Carregou com força na segunda linha, após o “lábio”, mas a caneta não lhe respondia, deixando apenas uma marca na folha. Impaciente agitou com vigor a caneta para cima e para baixo, várias vezes, mas da esfera só conseguia riscos e mais riscos, sem vestígios de tinta. Até que os riscos comeram a superfície frágil e penetravam nas páginas seguintes, continuados, agredindo as linhas, sem indícios de azul formaram sulcos grotescos. Uma força destrutiva possuíra o homem que vivia na sala das cavidades futuras, irritado, lançou o caderno pelo ar que embateu na mesma parede, caindo aberto precisamente na mesma página onde dificilmente se podia ler “Na comissura do lábio”. 

O homem que escreve voltava, a chave rodava na iminência da fechadura, ele não o conseguiria ver porque pertenciam a diferentes dimensões, mas os estragos no caderno eram irreparáveis. Levantou-se da cadeira onde o homem que escreve se sentava e em quatro passadas alcançou o caderno, regressando à cavidade aberta no tecto em outras tantas passadas, largando no interior do cilindro negro o caderno de capa em couro que se esfumou num outro futuro. 

O homem que vivia na sala das cavidades futuras estava mais calmo, suspenso no tecto como um lustre, esperava que o homem que escreve entrasse na sala a qualquer momento. Ouviu-o arrumar dois sacos de compras, distribuindo enlatados e pequenos volumes entre o frigorífico e uma prateleira da despensa, depois entrou na sala, sentou-se à mesa onde costumava escrever e desatarraxou a esferográfica azul em duas partes, trocando a recarga vazia por uma nova que trazia consigo.
László József Bíró foi um inventor húngaro naturalizado argentino. Apresentou a sua primeira versão da caneta esferográfica na Feira Internacional de Budapeste em 1931 .




Juan Francisco Casas gasta cerca de 14 canetas Bic por quadro, com estilo realista e ângulos diferentes lembrando uma fotografia com dois metros quadrados.

terça-feira, 13 de maio de 2014

beco

Estava sentado num soalho claro de pernas cruzadas, as mãos distantes apoiadas de cada lado com a cabeça inclinada para trás. Quando abri os olhos já não chovia através da abertura que havia no tecto. Otsū entrou no dojo deslizando a porta atrás de si. Os contornos do seu kimono envolvido na claridade, foram tomando cor e forma à medida que se aproximava.
A quantidade de meias amotinadas que se acumulavam sem par à minha frente, rasgou-lhe um sorriso infantil nos lábios. Kawaii!(que fofo em japonês)  Estás a dormir em vez de dobrar as meias! Disse e sentou-se ajeitando o kimono de modo a que nada ficasse fora de sítio ou demasiado visível. Nesse momento reparei que estava a usar um kosode, sem hakama, que é o mesmo que dizer sem calças. O que explicava o constante desviar do seu olhar. (um kosode é um kimono de magas curtas que se pode usar tanto como roupa interior como por cima de outra roupa)
Estava a admirar a chuva! Resmunguei. Podias ajudar-me, era mais rápido.
Ganbatte kudasai! Gritou com uma mão no ar… (nos meus sonhos o tradutor é automático, o que ela quis dizer foi: Dá o teu melhor, força ai!)
Se não me ajudares vou passar aqui o dia fechado a dobrar meias. Choraminguei, atirando uns quantos pares ao ar para enfatizar a dureza da tarefa. Ela sorriu divertida.
Não me importo de ficar a olhar para ti o resto do dia, a resmungar com as meias. E não faças esses olhinhos que não te vou ajudar, farta de dobrar meias ando eu.
Bufei arreliado, escolhendo aleatoriamente meias do monte, tentando emparelha-las pelos fundos. Ela continuou o sermão: Se ainda me convidasses para irmos para um beco, agora dobrar meias…
Otsū! Um beco?! Exclamei incrédulo com o que acabara de ouvir.
Ela corou até à raiz dos cabelos. Estava a brincar! Vá, vou dar-te uma ajuda. Disse acendendo uma lamparina de esperança em mim, mas as mãos dela andavam perdidas pelos bolsos tecidos com frágeis flores de cerejeira. Levantou-se e veio ajoelhar-se atrás das minhas costas.  Que rica ajuda, pensei.
Cheirava a hortelã e jasmim, com uma delicadeza exagerada, de mãos suaves e leves como penas, apanhou as meadas de cabelo que me caiam pela cara, juntando-as num novelo atado no topo da nuca. Fechei os olhos, procurando sentir o contacto de pele com pele, o coração acelerara umas décimas, era impossível controlar a erecção que sacudia na liberdade do kosode.



sábado, 10 de maio de 2014

pochemuchka

Por altura do nascimento da minha sobrinha, ofereci-me para ficar com o miúdo durante uns dias, na altura tinha 3 anos. A minha cunhada estava com umas olheiras que desciam até às maçãs do rosto, e ao contrário do que era habitual concordou de imediato.
Fomos para cima num comboio que esvaziava e enchia, à medida que se aproximava ou distanciava dos grandes centros. Eram tantas as novidades, tanta informação a reter, que foi entretido toda a viagem sem precisar dos jogos e livros que a mãe tinha separado. Olhava ávido a paisagem, as pessoas que entravam ou que permaneciam nas estações, vendo-as desaparecerem no percurso. Depois lá perguntou: O teu carro?
Não tenho carro, respondi sem adiantar mais informação. Ficou pensativo, a contemplar os fios eléctricos que corriam ao longo da linha. O meu pai tem. Disse ele, também sem adiantar mais informação. Quase que estive para perguntar a marca, mas ele só tinha três anos, como é que ia saber essas coisas. E voltamos ao silêncio. Quando chegamos ao destino, já nem me lembrava da conversado do carro, saímos da estação e ele apontou para um automóvel estacionado e disse com um ar muito entendido: é um Toyota, igual ao do meu pai. Era de facto um Toyota, talvez não fosse o mesmo modelo, mas mostrava que distinguia os símbolos. E assim fomos todo o caminho a enumerar as marcas.

Quando chegamos a casa, pousei as mochilas e fui preparar um lanche. Não tinha noção que gente pequena estava sempre a comer e a ir à casa de banho. Já ia sozinho, por isso não me preocupei. Ouvi o barulho do autoclismo, da água a correr possivelmente no bidé e depois um silêncio. Fui dar com ele a olhar para os meus livros e cds empilhados no quarto. Tens fome? Vou comer uma sande mista, também queres? Perguntei. Sim, disse, novamente sem acrescentos imediatos. Bebes uma cerveja? Brinquei. Ele olhou para mim como se eu fosse tolo. As crianças não bebem cerveja.
Sentei-o na cozinha à minha frente, continuava a olhar em volta, “scaneando” os móveis, os azulejos, os electrodomésticos. E lá acabou por regressar às perguntas. Como se chama a tua casa?
Casota, respondi como se a resposta fosse óbvia.
Cerrou os olhos e vi a mesma expressão que eu fazia quando não queria aparecer nas fotografias. Casota é a casa do cão. Repreendeu-me, como se eu fosse um mau aluno. Lá arranjei um nome qualquer, mas ele já estava interessado noutras coisas, e passeava as mãos pelos livros e raros objectos que enchiam a estante na sala.
Tu não vês bonecos? Disse, apontado para a televisão desligada. Respondi que não. Eu via, e ainda vejo, mas era mais fácil responder não do que tentar explicar que os bonecos que eu gostava eram violentos, o herói quase sempre era um criminoso e as namoradas tinham peitos descomunais e roupas muito reduzidas. Não havia portanto bonecos. A próxima pergunta já se desenvolvia no seu pequeno mas muito activo cérebro. Onde estão os teus brinquedos?

Pochemuchka- Palavra russa usada para classificar aquelas pessoas que simplesmente fazem perguntas demais sobre qualquer tipo de assunto, os "perguntadores".




quinta-feira, 8 de maio de 2014

buliceira

Uma agradável buliceira cobrira a cidade, ainda não tinha batido a silenciosa meia-noite na igreja de Mátyás. Por isso não saíram para o szimpla kert, permanecendo amontoados na espaçosa sala barra cozinha de Alicja, em torno da mesa pintada de azul, dispersos em número ímpar de cadeiras e bancos. Alguém enrolara um charro que girava no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio, saltando entre dedos e bocas, misturando-se o fumo forte e adocicado com a fragrância do café acabado de fazer, tal como se misturava a música distante que tocava no rádio, na sobreposição habitual dos dialectos.

Acima da cabeça dos presentes julguei ver amontoados de palavras perdidas. Mas pode ter sido só uma alucinação de narrador não acostumado a tantas línguas.

Jochen nem precisou esticar o braço gigante, Alicja tornara-se pequena e fumava com a cabeça amparada contra o peito do namorado. Saboreou sem pressa, mantendo a nuca muito loira encostada, com um sorriso amplo nos lábios. Sentado junto estava o Maltês no seu triste traje destoando. Alicja arrastara-o, mesmo sabendo que seria difícil separa-lo do olhar de obsidiana, outra vez sentada no extremo oposto da mesa.
Sentia-se responsável pelo sofrimento alheio, mas próximo da uma da manhã já não guardava forças para animar o estrangeiro. Rodeou-o com os braços até onde conseguia, aproximando os seus mares interiores da cara do Maltês, afastando-o da visão de Bálint e Regina juntos, sem constrangimentos, mal apartando as bocas famintas e satisfeitas por provocarem um acesso de ciúme. Alterada do vinho, perdida na ondulação azul, Alicja sussurrava uma cantiga para crianças enquanto o tentava embalar, demasiado grande numa barca pequena, sacudindo o ciúme que teimava em corroer.
Quando Bálint se ausentou da mesa, libertou do jugo Regina, a dos olhos negros de obsidianas. A mesma que antes havia reinado no coração do Maltês fintou-o, com tal intensidade que este retribuiu.

Acima da cabeça dos presentes julguei ver cabos de aço esticados, de um extremo ao outro da mesa, estalando de tensão como chicotes. Mas pode ter sido só uma alucinação de narrador não acostumado a estes fumos.

Ninguém ousou intrometer-se, continuaram nas suas conversas, circulando a mortalha mirrada, descontraídos mas atentos à estática que pairava no ar. Bálint voltava a sorrir pelas costas do Maltês, as negras obsidianas desviavam-se do olhar do náufrago sem resgate para  encarar o mais recente pretendente ao trono. Como um abutre agarrou os ombros tensos de pedra do estrangeiro, atiçando com um discurso que nem todos entendiam, mas pelos rostos, podia dizer-se que agradava, esperando ansiosos o pior dos desfechos.
Só Regina não sorria, mortificada no extremo, engolida pela escuridão das suas íris, imaginava o sangue a ferver nos pulsos do Maltês. Mas ele não iria usar os pulsos, estava a calcular a força exacta que necessitava para se impulsionar e contrariar a força do abutre, aplicando-lhe na subida e usando a cabeça, um golpe na zona do nariz ou da boca, de modo a que ficasse uma semana sem sentir os lábios de Rainha. O corpo estava hirto, desperto, os pés descalços como era costume em casa de polacos, eram uma desvantagem, podia escorregar e falhar o golpe, pensava, quando a mão de Alicja lhe apertou o braço, e numa convulsão demoníaca projectou o tronco para diante, enchendo de vómito as calças e meias de Bálint.

Acima da cabeça dos presentes julguei ver uma auréola coroando a cabeça dourada da dona da casa. Mas pode ter sido só uma alucinação de narrador não acostumado a desfechos destes.


terça-feira, 6 de maio de 2014

lacónico

Não sei onde foi, voou rápido como um pássaro, a quem só a sombra se avista no momento em que levantamos os olhos daquilo que os manteve cativos… quando dei por mim era passado, a noite arrastava o véu pelo horizonte, e um cansaço de morte apoderava-se da carne… menos um dia vivido.


sábado, 3 de maio de 2014

zagaleto



Ela não gosta que me deite nu, diz que lhe parece estranho.

Não aprova o meu fato-de-treino, nem aquele que é castanho!

Ela odeia o meu cheiro, diz que nunca tomo banho

Nem gosta da minha barba, reclama que arranho!





Ela não prova o meu arroz, nem que seja o de tomate!

Ela não beija os meus lábios, só se eu tivesse um iate…

Ela não gosta do que faço, mesmo sendo um biscate,

Ela odeia o meu sabor, só coberto de chocolate!





Ela não gosta das minhas amigas, só arrastadas na lama.

Fica doente de ciúmes, é um belo melodrama!

Ela não quer nada comigo, nem sequer partilha a cama

Contrai-se o meu coração, mas ela nem quer ver o electrocardiograma!





Podia tentar ser um homem melhor, mais sofisticado.

Leva-la a jantar fora, vestir um fato, ver um bailado…

Ela era capaz de gostar disso, até porque sou bem dotado

E a noite podia acabar na cama dela, acorrentado, açoitado…





Mas ela não gosta de jogos, muito menos dos brinquedos

Ela não lê o que eu escrevo, não lhe agrada os enredos.

Ela não partilha o que sente, guarda em si mil segredos,

Oh! Mas eu gosto tanto dela, só queria meter-lhe os dedos!





Ela não gosta de caminhar, ela não me dá a mão

Ela diz que quer ser minha musa, mas não me passa cartão!

Ela não chora por mim, ela não me guarda afeição.

Ela não acredita no que digo, insiste que sou um aldrabão!





Mas talvez ela seja areia a mais na minha carreta,

Ela usa perfume francês, roupa de marca e lingerie preta…

Somos de mundos diferentes, diz que não sou poeta

!Se ao menos ela me deixasse lamber-lhe a buceta…





Ela diz que não lavo os dentes, a isso nem comento!

Ela nunca acorda bem disposta, atira-me um olhar nojento.

Ela tem os pés frios, ela não gosta das coisas que invento

Ela sabe muitas línguas, ela pensa que sou um jumento.





Ela não quer casar comigo, diz que sou um zagaleto…

Mulherengo, um basculho, que passo o tempo com o pau erecto

Ela não gosta de o meter na boca, preferia a de um preto.

Ela é má para mim, mas eu queria escrever-lhe um soneto!








inspirado na mais recente musa... plagiado de "She's Too Good For Me" Sting

quinta-feira, 1 de maio de 2014

baboso

Ontem tentei beber água deitado, hoje mordi o meu próprio dedo quando levava à boca um pedaço de pão molhado em ovo!





O meu cérebro não comenta.