quinta-feira, 20 de setembro de 2012

carreiro

Antes de os ir buscar fiz umas compras na mercearia próxima do apeadeiro. A habitual boa disposição da proprietária não estava, parece que tinha empacotado os parcos haveres e rumado para Este. Daqueles lados sempre me avisaram que nem bons ventos nem bons casamentos, na altura não acreditei ou então queria ver pelos meus próprios olhos e fui jurar fidelidade a uma castelhana, até que a morte nos apartasse. A morte só apareceu mais tarde, numa noite sem céu, já nem havia vestígios de uma vida em comum. Entrou na cama, fria como a própria morte, entrelaçando os pés nos meus, abraçando-me pelo peito, sentia a sua respiração cadenciada junto do meu pescoço, e depois adormeci.
Mas adiante, voltemos à boa disposição que não estava, deixara no rosto agreste da proprietária a sua congénere, a tristeza. Um quadro típico deste país, rostos cinzentos em lamoja, atolados pela crise, arrastados pela azia que provocam palavras como austeridade. A mesma lengalenga de sempre, acusa-se indiscriminadamente sem se achar o culpado, uns dias é o governo, o mau tempo ou o bom, as autarquias, os novos e depois os velhos, as promoções, os cartões, os centros comerciais e os supermercados, refrescados artificialmente, onde as maçãs reluzem sob uma camada de cera e holofotes de luz branca.
Não lhe disse, mas em breve também eu deixo de cá vir, será menos um. Podia despedir-me, dar uma explicação para o meu súbito desaparecimento, mas prefiro assim, faço as malas, levo apenas o que posso carregar e não volto. Imagino que daqui a uns tempos comentem pelo café ou até aqui mesmo na mercearia. O que é feito daquele moço bem parecido, alto… (que foi? também tenho direito a divagar!) Qual? Aquele, o da bicicleta com um falar engraçado… Ah! O Cigano?! Esse mesmo… Num sei, deve ter voltado prá terra dele.
A terra, terrinha, pequena demais para as minhas maltesias… a semana em família passa num voar, mas não fico por lá muito tempo, levanto às costas as minhas tralhas novamente e procuro guarida em casa de amigos, assim como este que está prestes a chegar, no comboio das quinze. Lá para meados de Agosto, habituado ao calor e ao zumbido da mosca, arranjo trabalho na apanha da fruta. Dou descanso à cabeça, metido no meio dos ramos, dedos em ferida até ganharem calo, deixo a escrita, adormeço cedo.

domingo, 16 de setembro de 2012

gov*

A mensagem é breve, não ocupa mais que umas três linhas no pergaminho, o primogénito violentamente assassinado, empalado na lança de Taniec, assim como toda a comitiva, nem um só sobrevivente entre homens e mulheres. O imperador emudece, descorado quase perde a postura. Uma legião de guardas imperiais cruza as enormes portas, apontam armas ao Tártaro. Este nem se mexe, tranquilo, feito de humidade fina, fria e penetrante que na estação abafada e com céu puro, cai de noite.

Como pudeste fazer-me isto? Lamenta o Khan, confiei em ti…
Quando os deixei, todos respiravam o leve perfume dos pessegueiros floridos. É uma cilada, sempre lhe fui fiel. Disse o soldado, apelando à sensatez do soberano.
Matem-no! Ordenou.

Mas ninguém obedeceu, as lanças tremeram sem ferir o Tártaro, os rostos dos guardas destilavam o medo, escorrendo pelas goelas, espremido em cada poro. A coragem abandonava os corpos, empestando com maus cheiros o palácio. Matem-no! Tornou a berrar, ninguém obedeceu.
Dai-me uma espada, eu mesmo o mato! E quase que matava, não fosse o clamor sombrio de Nur Jehan, profetizando a negro quem derramassem o sangue daquele pobre diabo. Respirando de alívio, os guardas levam Taniec agrilhoado, mal tratado, amarrado, desacreditado, sangrando sem ferida, preso num quadrado onde só cabe sentado. Em poucos dias torna-se uma sombra, ainda mais assustador, ninguém nas redondezas ousa feri-lo de morte, só resta a Kublai solta-lo no meio do deserto, os deuses que decidam.

Assim pensou, assim fez. Hara Nor não teve melhor destino, não se suicidou porque os mortos não voltam a morrer. Ao quinto dia no deserto, Taniec sentiu planar sobre si o imenso espectro de um Gypaetus barbatus. Há quem não acredite, mas dizem os antigos que o grande abutre dourado pousou mesmo em frente do Tártaro, e este já esgotado de forças, lábios amofinados de areia, lhe sussurrou o seguinte:
Os negros globos que tanta morte viram, alimenta-te primeiro deles, para que lá do alto eu possa seguir sempre a minha amada. Depois, serve-te das minhas entranhas, tendões e carne, dar-te-ão força e resistência contra os ventos que se formam a sul. Por fim, quebra-me os ossos, esvazia-me da massa que os preenche, e o meu espirito viverá em ti e nas asas que te elevam aos céus, para que eu possa amaldiçoar estes e os que hão-de nascer.
E assim foi.

Cerca de um ano mais tarde, a caravana que transportava Hara Nor reaparece em Cambaluc, forçada a regressar por tribos hostis que habitavam a Ásia central. Os emissários foram então conduzidos por mar, incluindo a futura esposa, navegaram para sul ao longo da costa da China, contornando o Vietname, descendo até Samatra, dirigindo-se a Ceilão e India, rumando depois para norte em direcção a Ormuz, sempre sob o olhar atento de um pássaro estranho. Conta-se que a viagem levou dois anos, morrendo metade da tripulação que os acompanhava, mas apesar de todos os perigos que atravessaram, a noiva foi entregue, sã e salva, não a Arghyn Khan que já tinha falecido entretanto, afogado na própria saliva.

*(gobi) deserto em mongol

sábado, 15 de setembro de 2012

salkin*

Na véspera de Hara Nor completar dezassete anos, Taniec partia para sul, escoltando a comitiva do príncipe. Regressaria em menos de quinze dias, dando o tempo necessário para os preparativos da boda. Taniec e Hara Nor flutuavam como nuvens, em tudo idênticas às que ainda hoje cobrem as imensas estepes que vão-se apeando nas encostas montanhosas. Imagino o Tártaro levantando a cabeça em direcção à grande massa ameaçadora, vendo o mesmo que eu vejo agora, cerca de 800 anos depois.

A dois dias de distância do coração de Hara Nor, chegavam à corte emissários de Arghyn Khan, governante do Ilkhanato, com o pedido de uma nova esposa. Quem os recebeu foi a segunda imperatriz, o grande Khan recusava-se a sair da cama da concubina, deixando nas suas mãos a escolha de uma esposa para o sobrinho. Num ápice a notícia espalhou-se pela corte, Arghyn era um velho nojento que concentrava um poço de saliva nos cantos da boca enquanto falava. Era precisamente a parcela que faltava ao plano maquiavélico da imperatriz, de modo a por fim à felicidade dos dois enamorados, simplesmente acrescentaria uns quantos atributos a Hara Nor, e oferecia a criada já prometida.

Ao sétimo dia de distância, todo o império sabia do triste destino da tocadora de morin khuur. Taniec regressava ao palácio em metade do tempo, cavalgando dois dias e duas noites sem parar, esgotando rapidamente as montadas. Encontraram-se os dois amantes em segredo, Hara Nor pressentindo que fosse a última vez que via o noivo com vida, implorou-lhe que este partisse de imediato para norte, e reunisse os clãs vizinhos ao seu. Taniec confiante como um enorme calhau, segurou a mão trémula e fria da amada, beijando-a carinhosamente. Que par estranho este, um enorme fantasma coberto de pó, os olhos negros carregados de cansaço, e ela uma figura sumida, tão frágil que lembrava um cristal de gelo.
Foge por favor, foge que não vejo bom presságio nos sonhos que me atormentam as noites, tu meu amor, sem olhos, cavidades ensanguentadas, segurando na mão esquerda a lança, onde jaz empalado um colossal dragão imperial.

Mas Taniec era imutável como se espera de uma montanha, deixou a amada beijando-lhe a fronte e pediu audiência ao Grande Khan. Este recebeu-o ainda meio ensonando, apertando o robe com gestos ásperos.
Que ousadia a tua, oh Tártaro! Fazes-me abandonar os braços da minha amada a esta hora do dia, refilou o Imperador.
Ousadia a tua, oh Grande Khan, prometer a minha mulher a outro… esqueceste o nosso acordo?
Não sei do que falas soldado, objectou Kublai, mas não me agrada o tom de voz que usas. Quem julgas tu que és para te dirigires a mim nesses modos? rugiu o Imperador.
Tens razão, perdi a lucidez nestes dois dias de viagem sem descanso, mas Hara Nor prometida a Arghyn Khan? Diz-me que foi apenas um pesadelo…
Estás a sonhar Tártaro, a delirar… que ideia a tua. O riso do Grande Khan retumbou pela sala quase vazia, sobrepondo-se ao som da porta que temerosa se abria. Um criado acanhado entrou, mirando Taniec com receio.

* vento em mongol

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

eel*

A tradição ditava que os homens cuidavam de escolher as noivas para os seus filhos, irmãos, sobrinhos e netos. Aos vinte e oito, muito se conjecturava sobre Taniec não ter pelo menos duas ou três esposas, seleccionadas de outro clã ou tribo, geralmente em tenra idade. Mas Taniec sofrera de uma grave doença quando era jovem, febres altíssimas atiraram-no para as portas da morte. Por recomendação do Xamã não foram escolhidas noivas, em transe profundo apenas disse que a seu tempo o auspicioso cavaleiro tomaria o seu destino nas mãos como as rédeas do cavalo. O pai com receio de ofender Tangri, o Deus-céu, assim fez, e Taniec foi prorrogando a escolha até ao dia em que se cruzou com Hara Nor.

Por alturas de uma festa que se estendeu noite adentro, celebrando a chegada de mais uma concubina ao real harém, Taniec aproveitou a ocasião e pediu autorização ao grande Khan para desposar a criada. Este estranhou o pedido, oferecendo-lhe as mais belas concubinas que o tártaro desejasse.
Grande Khan, eu amo Hara Nor desde que os meus olhos pousaram sobre as suas mãos delicadas, seus negros cabelos, seu olhar rasgado e tímido, seus lábios fechados, botão de cerejeira que leva o Inverno.

O imperador era astuto como uma serpente, e viu ali a oportunidade de usar as qualidades de Taniec em troca de Hara Nor.
Não costumo intrometer-me nos assuntos da corte das minhas esposas, Hara Nor terá um preço caro!
O tártaro que não era tão ingénuo quanto aparentava, imediatamente percebeu as intenções do imperador.
Diz o que queres em troca, nada do que me possas pedir é demais comparado com o amor de Hara Nor. Retorquiu o soldado.
Aí é que te enganas, Tártaro! Também eu amo uma mulher, sua beleza é infinita. Troco uma pela outra, que te parece?
Como assim? Perguntou Taniec. Tens todas as mulheres que possas desejar…
Todas as que não são casadas! Completou o Imperador.
Queres então que torne viúva uma mulher. E em troca Hara Nor será minha esposa?
Isso e muito mais! Prometeu o soberano.

E assim foi, Taniec cumpriu com a parte dele. Nur Jehan, que significava "A luz do Palácio" tornou-se viúva e na mais amada das mulheres dentro do harém. Porém o ciúme é um líquido viscoso, mortal como a ricina, que escoa denso por entre os gentios sem ser visto. Rapidamente as noticias se espalharam, contos a que se acrescentavam pontos, e por toda a corte ouvia-se dizer que a imperatriz jurara vingança!

* montanha em mongol

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

ool *

Hara Nor não era a mais bela das mulheres, conquistara um sólido estatuto na corte pela agilidade com que tocava o morin khuur, acompanhando a dança, o canto, a récita de contos ou outras cerimónias que alegravam os serões imperiais. Corpo franzino de menina, rosto minúsculo riscado por um olhar tímido, somente desviado das cordas quando encontrava os negros e abissais olhos de Taniec. Admirava-o nos seus trajes tradicionais tártaros, tecidos bordados a ouro e seda, debruados com ricas peles de marta e arminho, em contraste com as vestes do imperador, que gradualmente abandonara os costumes mongóis e usava o dragão imperial chinês. O grande Khan apreciava a rica cultura chinesa, mas também a usava como estratégia para ganhar a simpatia por parte do povo ocupado. Discutam constantemente a respeito dos trajes e costumes, mas Taniec não cedia, e o imperador não querendo ter como inimigo um tártaro tão poderoso, mantinha-o nas suas cortes, convidando-o com frequência para longas estadias nos seus palácios.
Durante séculos, tártaros e mongóis disputaram entre si o domínio das pastagens da Mongólia, por volta de 1200 surgira um poderoso chefe mongol que depois de submeter os tártaros, se tornara soberano com o nome de Genghis Khan, unindo os nómadas e dando início a uma série de conquistas. Kublai Khan era neto, não possuindo metade da bravura do seu antepassado.

Com apenas vinte e oito anos, primogénito do chefe de uma tribo abastada, Taniec tornara-se uns dos principais generais na frente de batalha. Graças aos seus feitos, o império estendia-se desde a Hungria ao litoral da China. Treinado praticamente desde que a mãe o parira em grande sofrimento, dizia-se que os cavaleiros nómadas aprendiam a montar mesmo antes de saberem caminhar, habituados logo à nascença a suportar todo o tipo de privações. Contavam-se histórias terríveis sobre estes soldados, exímios no uso do arco composto, obedecendo a um restrito código de disciplina, punível com a pena de morte. A sua reputação de crueldade e habilidade de movimentos enquanto montavam velozes como o vento, precedia-os de tal modo que alguns povos se entregavam sem dar luta.

A primeira vez que se viram foi em Shangdu, no magnífico palácio de Verão de pedra e mármore, erguido num parque com mais de quarenta quilómetros quadrados, irrigado por numerosos riachos que o atravessavam em todas as direcções, onde árvores trazidas dos quatro cantos do império, serviam de abrigo a veados e outros animais, que o grande Khan caçava com chitas e falcões. Hara Nor fazia parte da comitiva que contava com mais de dez mil pessoas que constituíam a corte da esposa de Kublai, a segunda de quatro legítimas, todas usando o título de imperatriz. Para além destas legitimas, mantinha cerca de uma centena de concubinas, adquirindo todos os anos mais vinte, escolhidas cuidadosamente pela sua beleza, passando por rigorosos critérios de selecção que podiam ir desde o odor corporal até à leveza do respirar nocturno.

A candura de Hara Nor não passou indiferente a Taniec, atrevo-me até dizer que foi amor à primeira vista, destinados os caminhos, bastava os rumos colidirem. E foi isso que aconteceu, a segunda esposa e toda a sua extensa comitiva viajaram até ao palácio de Verão, onde Taniec se encontrava a pedido do grande Khan. Pela primeira vez o rosto sério e vincado do tártaro, ganhava uma expressão de felicidade jamais sentida, devolvendo os sentimentos com um dialecto antigo que Hara Nor mal conhecia.

*(üül) nuvem em mongol

terça-feira, 11 de setembro de 2012

espinho

Deixaste-me mais de um quarto de hora plantado, anelado na esplanada virado para o mar. Do sóleo inserindo-se no calcâneo, brotaram radículas fibrosas emergindo de um único feixe, enoveladas lentamente nas perneiras metálicas da cadeira. Bebi meio litro de água enquanto procurava o teu rosto nos gentios que passeavam, desinibidos pelo sol, apartada a conspiração das nuvens que traziam a chuva. Foi tempo suficiente para desencantar palavras parvas, confusas e difíceis, e depois as atirar ao papel como pedras, almejando corromper a tranquilidade da prosa.

Um desassossego instalou-se no meu ombro, pousou ao de leve, melro escuro sem olhos, bico alaranjado. E se tu afinal não vinhas? Devia-te explicações, mas podias ter decidido não as receber. Já não nos víamos desde Fevereiro, fui ter contigo ao Porto, esperaste-me em Campanhã. Ainda te lembras? Tinhas cortado o cabelo, usavas uma franja que ficava suspensa nos óculos de massa pretos. Levaste-me pela cidade no teu agitado smart, mostraste o que não conhecia, paramos naquele tasco, bebemos “finos” em vez de imperiais, ainda não era meio-dia. Depois descemos pela rua, agarrada pelo meu braço, trocavas os pés e cantavas muito alto. Convidaste-me para voltar e ficar no fim-de-semana seguinte, já tinha Coimbra nos meus planos…

E então tocaste-me, muito ao de leve pelo bordo da orelha já queimada do sol. Trôpego, preso pelas raízes, demorei um pouco a deslaçar-me delas. Tu sorrias, gostas de me ver atrapalhado, mal perco o norte entras em delírio. Adoro o teu sorriso.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

suão

Já me tinha esquecido como era longe… nos confins do mundo, prolongava-se por horas a viagem.
Já me tinha esquecido como era o caminho… perdia o fôlego na paisagem, ribeiras correndo vazias.
Já me tinha esquecido como era o silêncio… banhado a ouro, das praças vazias sem sombras no pico do meio-dia.
Já me tinha esquecido do cheiro… e enchia os pulmões… a uva redonda, do vinho tão manso, a planície a perder de vista.
Já me tinha esquecido da luz desta casa… da janela do meu quarto, destes troncos de sobreira despida.
Já me tinha esquecido como era pequeno o abraço de minha mãe… e como cabia nele o meu universo… os seus cabelos de prata, olhos marejados de saudade.
Já me tinha esquecido das mãos de meu pai… pesadas no castigo… aperto duro calejadas de fouçar, desprovidas de afectos.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

pernicioso

Pernicioso (nocivo, perigoso)… ou acendalha terceiro lote

Alguém escreveu amo-te no asfalto, conta debruçada na janela, ninfa nua que expele fumo, esgotando libidinosa um cigarro. Por fim, espreme nos dedos o filtro. Também me esgotou a mim, esvaziando-me as forças, deixando-me despido na cama, destapado aos raios solares, desprotegido, mais morto que vivo. Volta sabendo a passas, cheirando a solanáceas… Não sei como resistes, suspira sobre mim, enrola os dedos pelo meu cabelo. A quê? Pergunto, de olhos fechados, fingindo defunto. Fumar… como consegues? Resisto a tudo… Não resistes a mim! Interrompeu, cortando-me a palavra no meio, como quem corta uma laranja e espera que se lhe verta o sumo da verdade, fatalmente irresistível, possuía os direitos sobre a minha vontade. Com o gume sagaz encostado ao pescoço, continuei. O problema reside em ti, não em mim, há algo que te coloca acima… Acima assim? Dizia, sorriso cristalino, passando uma perna por cima de mim, sentando-se no meu tronco. Confortável a menina? Oh, sim… Puxo-a pelas coxas, arrasto-me por baixo dela, solta um grito de surpresa, um outro depois de prazer, derrete-se deliciosa na minha boca, pernicioso o sabor, corpo que estremece no vai e vem da língua… vem-se.

Limpo a cara besuntada na ponta solta do lençol. Inclino-me na janela, amo-te escrito no asfalto, imperceptível a quem passa, versal desgastado, mas visível a quem aterra na lua. Há momentos na vida de um gajo, em que uma subida de quatro lanços de escada, dariam a altura necessária para uma visão mais clara, amplificada. Em situações mais complicadas, aconselharia o aluguer de uma grua… olhe, por favor, quanto leva à hora? Preciso de pelo menos duas para perspectivar a minha vida!

Acende-me um cigarro, pede esticando o braço preguiçoso. Tenho algo muito mais interessante para abraçares com os teus lábios…

terça-feira, 4 de setembro de 2012

fundear

fundear (ir ao fundo)... ou acendalha segundo lote

A atenção violentamente desviada pelo desejo carnal, ou pela blusa que expunha uma copa perfeita, esmigalhava pedaços de pormenores cruciais pelo chão da estação, debicados em segundos pelos pombos. Quando o ponteiro mais longo atingiu a hora de partida, o comboio saiu lento sob o jugo do relógio que pendia lá no alto, e não era mais que um ponto que desaparecia no infinito em que duas linhas paralelas se tocam. Para trás ficamos nós e as ripas do banco, num beijo abstracto de línguas enraizadas, trocando fracções de humor aquoso e um tanto viscoso. Sem partida restava a chegada, e ela deixava-se levar escada abaixo sem dúvidas ou reclamações, segura pelo pulso onde mandou tatuar um dia o ás de espadas.

O calor mordia a urgência dos passos, atiçava o desejo de quem procura um recato para satisfazer o apetite, ânsia que crescia na boca ressequida... bebia uma parede, e o Mondego ali ao lado, arrastando-se pastoso pelas margens sem pressa.
Entramos na primeira hospedaria da avenida, despojados de vergonha, enrubescidos de desejo, despejei do bolso o pagamento adiantado e conduzi-a até ao quarto, um quase antro onde se deitam meretrizes. Atravessou a porta estendida ao tecto, olhou em volta apreciando o vulgar, desabotoou a blusa e de lábio mordido atirou-se contra o meu peito, constringindo-me com as pernas pela cintura.
A porta deu sinal que talvez não aguentasse as arrebatadas investidas, e antes que a cedência da fechadura nos levasse de rompam ao corredor, meios despidos, fundeado nela, experimentamos a resistência das molas do colchão, cabeceira que chocalhava contra a parede. O resto das roupas ficou pelo chão, semelhante a fragmentos de pele arrancada, e na nudez contrastante, pálida a dela, trigueira a minha, um corpo começa onde o outro termina.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

acendalha

Meia hora de espera em Coimbra, um dia quente atípico da estação, não alimente os pombos dizia numa parede… e eles rondavam abutres cinzentos, em volta do banco em ripas já velho. Lavrava suado as cruzadas do jornal de ontem, dobrado a meio sobre o joelho, e ela em blusa diáfana distraindo as massas, agitava um caderno de folhas já gastas.
Tenho fome, reclamou amuada, beiço de menina mal-educada.
Come uma parede, gaguejei distraído… nove letras, treze horizontal, o que serve para acender o lume…
Pousou a mão sobre a cruzada dobrada, sólida na junta que serve o joelho, aproximou-se do auditivo e num sussurro arrepiado disse ao meu ouvido.
Come um homem, é o que se responde, cigano malcriado.
E sem aviso prévio ou brisa que a refreie, da boca escancarada lançou-se a língua húmida, corre a saliva o pescoço, lambendo do lóbulo suspenso até ao vértice provocatório da clavícula. Prendem botões a camisa, perco eu a letra no sinónimo, sentindo a garra afiada fincando a perna, subindo a esquina… e de tão duro que o encontrava, descarado ali no banco, voltava a dizer agora baixinho.
Tenho fome ciganito.

Dentro de momentos vai dar entrada na linha número dois, o comboio com destino…

sábado, 1 de setembro de 2012

sepulto

na noite que já caiu, sepulto a cabeça na almofada, sem remorsos ou honra, sem penas que sumaúma é mais barata... atirado pelo cansaço, batido pelo tapete, fecho os olhos às imagens, e no vagar, sinto o corpo assentar poemas de amor pelo colchão...