sábado, 15 de setembro de 2012

salkin*

Na véspera de Hara Nor completar dezassete anos, Taniec partia para sul, escoltando a comitiva do príncipe. Regressaria em menos de quinze dias, dando o tempo necessário para os preparativos da boda. Taniec e Hara Nor flutuavam como nuvens, em tudo idênticas às que ainda hoje cobrem as imensas estepes que vão-se apeando nas encostas montanhosas. Imagino o Tártaro levantando a cabeça em direcção à grande massa ameaçadora, vendo o mesmo que eu vejo agora, cerca de 800 anos depois.

A dois dias de distância do coração de Hara Nor, chegavam à corte emissários de Arghyn Khan, governante do Ilkhanato, com o pedido de uma nova esposa. Quem os recebeu foi a segunda imperatriz, o grande Khan recusava-se a sair da cama da concubina, deixando nas suas mãos a escolha de uma esposa para o sobrinho. Num ápice a notícia espalhou-se pela corte, Arghyn era um velho nojento que concentrava um poço de saliva nos cantos da boca enquanto falava. Era precisamente a parcela que faltava ao plano maquiavélico da imperatriz, de modo a por fim à felicidade dos dois enamorados, simplesmente acrescentaria uns quantos atributos a Hara Nor, e oferecia a criada já prometida.

Ao sétimo dia de distância, todo o império sabia do triste destino da tocadora de morin khuur. Taniec regressava ao palácio em metade do tempo, cavalgando dois dias e duas noites sem parar, esgotando rapidamente as montadas. Encontraram-se os dois amantes em segredo, Hara Nor pressentindo que fosse a última vez que via o noivo com vida, implorou-lhe que este partisse de imediato para norte, e reunisse os clãs vizinhos ao seu. Taniec confiante como um enorme calhau, segurou a mão trémula e fria da amada, beijando-a carinhosamente. Que par estranho este, um enorme fantasma coberto de pó, os olhos negros carregados de cansaço, e ela uma figura sumida, tão frágil que lembrava um cristal de gelo.
Foge por favor, foge que não vejo bom presságio nos sonhos que me atormentam as noites, tu meu amor, sem olhos, cavidades ensanguentadas, segurando na mão esquerda a lança, onde jaz empalado um colossal dragão imperial.

Mas Taniec era imutável como se espera de uma montanha, deixou a amada beijando-lhe a fronte e pediu audiência ao Grande Khan. Este recebeu-o ainda meio ensonando, apertando o robe com gestos ásperos.
Que ousadia a tua, oh Tártaro! Fazes-me abandonar os braços da minha amada a esta hora do dia, refilou o Imperador.
Ousadia a tua, oh Grande Khan, prometer a minha mulher a outro… esqueceste o nosso acordo?
Não sei do que falas soldado, objectou Kublai, mas não me agrada o tom de voz que usas. Quem julgas tu que és para te dirigires a mim nesses modos? rugiu o Imperador.
Tens razão, perdi a lucidez nestes dois dias de viagem sem descanso, mas Hara Nor prometida a Arghyn Khan? Diz-me que foi apenas um pesadelo…
Estás a sonhar Tártaro, a delirar… que ideia a tua. O riso do Grande Khan retumbou pela sala quase vazia, sobrepondo-se ao som da porta que temerosa se abria. Um criado acanhado entrou, mirando Taniec com receio.

* vento em mongol

Sem comentários:

Enviar um comentário