sábado, 28 de março de 2015

sábado, 21 de março de 2015

prolixo



... ou pouco mais de um quilo de cinza!


A minha vida assemelha-se a um furo num daqueles cartões que sorteiam qualquer coisa, mas no meu caso, um furo sem prémio. Mas isto não é uma reclamação, é meramente uma observação, uma consequência de acordar dez minutos antes de acordar. Este desfasamento matinal, permitiu-me ver a coisa de uma perspectiva diferente. Aqui vai o pensamento fantástico: não adianta pressagiar, o que conta é o dia de hoje e o dia de hoje é um furo sem prémio. 

Tenho pensado seriamente nisto, é raro pensar seriamente em alguma coisa, e cheguei à conclusão que morrendo hoje, nada do que fiz seria digno de registo, apenas um vulgar consumo de oxigénio, banda-desenhada e muita cerveja.

Posso comprovar o que digo usando a teoria dos 50 anos. Não fui eu que a inventei, deus me livre de ter ideias tão boas, não sei se li ou se foi de algum filme, nem tenho bem a certeza se eram 50 anos, mas 50 está na moda e para o caso pouca diferença faz, 50 ou 60, ou até mesmo 100, o que ela explica é que se eu morresse hoje, exactamente hoje, daqui a 50 ou 60 anos, vá, ninguém se lembraria de mim, e como a memória seria a minha única presença, eu deixaria de existir. Recapitulando, se eu morresse hoje (estou a usar o passado porque afinal não morri) a probabilidade de em 2075 todas as pessoas que me conheceram estarem mortas, ou com Alzheimer é bastante grande, logo em 2075 tudo o que sou simplesmente teria escoado em espiral por um gigantesco ralo, deixando ao mundo apenas um quilo e duzentos gramas de cinzas.

É claro que isto não se aplica a quem tem descendência, e por isso se dá algum valor aquela velha máxima de José Martí, "Hay tres cosas que cada persona debería hacer durante su vida: plantar un árbol, tener un hijo y escribir un libro."

Mas isto não é assim tão trágico quanto possa parecer, nem tão importante que me tire o sono. Acordar dez minutos antes de acordar é aborrecido, mas é tudo uma questão de adiantar o despertador dez minutos. E se pensar bem até já devo ter plantado alguma coisa, não sei se lá continua de pé ou se uma via rápida lhe passou por cima. Quanto aos "hijos" e "libros", a worldometers calcula que este ano já se publicaram 547.205 livros em todo o mundo, mais de 30.300.200 pessoas nasceram, 210.000 só hoje. Talvez o mundo esteja a abarrotar de "hijos" e "libros" e até agradece que fique quieto, sóbrio (545.084 morreram este ano devido ao consumo de álcool, quase tantos quanto livros publicados), mas quieto no meu canto. Consigo viver com isso.



pro·li·xo |cs| 

(latim prolixus, -a, -um, alongado)


adjectivo

Que usa demasiadas palavras
"prolixo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 

sexta-feira, 20 de março de 2015

eclipse

Sabia que não devia ter olhado,
mas não resisti, estava ali de permeio entre mim e o sol,
nua, sem pudor.


domingo, 15 de março de 2015

espiclondrífico

Não será com certeza das minhas palavras predilectas, prefiro mil vezes prolixo, mas espiclondrífico faz parte do inventário: “VOCÁBULOS EM SEGUNDA MÃO”. Não é uma espécie de medusa, nem o nome que se dá às células urticárias existentes nos seus tentáculos, essas são conhecidas como cnidócitos, porque as medusas pertencem ao filo Cnidária, do grego knidos, urticante. As anémonas também pertencem ao mesmo filo, mas da classe Anthozoa, do grego anthos= flor mais zoon= animal, porque se parecem mais com flores, ou plantas marinhas, do que com animais. As anémonas vivem normalmente em mutualismo com peixes e caranguejos, protegendo-os de predadores e em troca recebem os restos de alimentos ou “patas” para se deslocarem. Chama-se a isso uma relação interespecífica ou heterotípica.
Para o caso não interessa para nada e tão pouco nos coloca mais próximos do significado de espiclondrífico. Não obstante, acrescento que medusas e alforrecas são a mesma coisa, e anémonas é outra coisa bem diferente, e que a palavra espiclondrífico pode ser encontrada desde ontem no meu caderno negro intitulado: “RECEPÇÃO DE INSULTOS, versão multilíngue”.
Já não me recordo qual o motivo da conversa, mas a certa altura confessei que não consegui passar do primeiro episódio do Game of Thrones, achei aborrecido e acrescentei que talvez fosse uma série boa para curar insónias, embora tivesse adormecido, a seguir também disse que achava o Prision Break estúpido, o House chato, How I Met Your Mother patético, Grey's Anatomy fraco, e por ai… Espiclondrífico, julguei ouvir. Depois foi a vez do Dan Brown e quase me cravaram numa cruz com pregos. Optei por ficar calado o resto da noite, escangalhei o bife de soja no prato e elogiei o risoto, apesar de detestar risoto, e aquele estava especialmente empapado. Se calhar estou mesmo espiclondrífico, ou talvez seja uma sintomatologia da idade, mas dizer o que penso é como uma doença contagiosa e cada vez que espirro, parece que faço um inimigo.

es·pi·clon·drí·fi·co (origem obscura)
adjectivo
[Jocoso]  Que é estranho ou extravagante. = ESQUISITO
"espiclondrífico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa



sexta-feira, 13 de março de 2015

vermelho

Compreendo que pouco te interesse o estado em que se encontra. Por fora ninguém diria, mas o interior está uma lástima. Podes trazer o bisturi, as tenazes, o microscópio, não te esqueças das lamelas e dos corantes. Podes mergulhar o que resta em parafina e depois corta-lo em fatias, ou congela-lo em porções, não vais ter muito trabalho, já está bastante despedaçado. Quando dúvidas não existirem de que é humano e que bate compassado, pede que recite todos os verbos, que conjugue amor em todos os modos e tempos. Não esqueças de me dar a mão na descida da rua, perguntar de onde venho, para onde te levo e com que medos me atravesso. E na volta, tira-me alíquotas, marca-me com beijos, anota o que escrevo e aquilo que leio. Fica depois mais um pouco, ouve a minha playlist, enquanto uno tudo com fita, se quiseres gravo-te uma cassete. Abre sem presa o roupeiro e todas as gavetas, são só quatro, mede-me em pés, usa o meu cheiro. Podes mesmo esburgar a ementa, faz também caretas ao que bebo, alimenta-me de sonhos ou daquilo que preferires, só quero que apontes tudo, e no fim pedimos um café, se ainda tivermos tempo.  



terça-feira, 10 de março de 2015

azul

Só bebi uns copos, não os suficientes para esquecer. A noite pareceu durar uma eternidade, levando-me a deambular de sítio em sítio, não achando em nenhum deles motivos para ficar. Por duas vezes quiseram vender-me algo ilícito, três vezes ter-me-ei achado perdido. E a noite continuava infindável, iluminada por uma lua cheia.
Estava a amanhecer quando cheguei, sóbrio como uma anémona. Nunca conheci uma anémona, pelo menos uma verdadeira, mas contaram-me que quando acordam não bocejam nem espreguiçam, alias, pouco fazem para além de se manterem sóbrias. Escovei os dentes todos e deitei-me, desolado e com fome. Miniaturas de pickles e copos de vodka, era o que ela pedia sempre que estávamos juntos. E foi com isso que sonhei, pelo menos na primeira parte, miniaturas de pickles que ela comia com as mãos e copos de vodka. Na segunda parte ela desapareceu, sugada misteriosamente por debaixo do pano. A sala estava vazia, as paredes ostentavam as marcas das molduras e nada me era familiar, mas teria vivido ali toda a vida. Era o que dizia o registo.
No fim do terceiro sonho acordei sem certezas e na boca o gosto amargo da bebida.

“Boom boom boom boom
I'm gonna shoot you right down”-ressoava, como uma banda sonora.

Havia por todo o quarto zonas iluminadas e outras que permaneciam intocadas pela luz, à medida que o sol se escoava pelas fendas, tépido. Dormitei o resto do tempo, sonhando metades inacabadas de sonhos, acordando quando não restavam vestígios de dia. Esvaziei a bexiga, escovei os dentes e voltei a deitar-me, desolado e com fome. Não tardei a sonhar com miniaturas de pickles e copos de vodka, onde se afogavam anémonas sóbrias.

“Right off your feet
Take you home with me, put you in my house
Boom, boom, boom, boom”