quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

tosquia

e é isto, descobri como se publicam GIFs... bom feliz ano novo!





terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Lapónia


Partimos de Puerto Seco em uma segunda, que eram sete dias do mês de Dezembro da dita era de dois mil e quinze. Mandou a capitã levantar âncora das calmas e quentes águas do Caribe sob os lamentos surdos da tripulação; indo traçar rota para norte, arrochada com o cacete a cabeça do pai natal, pilhariam todos os presentes das crianças do mundo.

À terça pela manhã houvemos vista de terra, o albugíneo farol de Inagua cuidando pelos baixios. Contornamos em leste as Bahamas, navegando a dez léguas[1] ou mais. Seguimos nossa rota, e na tarde faleceu-nos o vento e andamos em calmaria até à sexta-feira seguinte. À revelia da capitã, aproveitou-se para encimar a estrela no mastaréu[2], espalhar presépio em palha pelos cantos e enfeitar a proa com luzes dos chineses.

E em doze do dito mês, indo na volta do mar norte quarta do sudeste, achámos muitas aves, feitas como corvos-marinhos, e, quando veio a noite, a barca amainou nos sargaços “retardam o navio como se fossem arbustos (...) Aqui, as bestas marinhas movem-se vagarosamente de um lado para o outro, e grandes monstros nadam languidamente”[3]

À Capitã não houve força que levasse o ânimo e à sexta-feira em dezoito dias do mês de Dezembro, daqui andámos tanto pelo mar sem tomarmos porto, que não tínhamos já água que bebêssemos, nem rum que dali fizéssemos grande agasalho do frio, e pela manhã houvemos vista de terra, as derradeiras colinas das ilhas Faroé. E ao outro dia fomos em uns batéis[4] a terra e fomos recebidos com muito contentamento, lhe fizeram muita honra de mantimentos, pelo qual a capitã lhes deu cascavéis[5] e anéis de estanho.

Em este dia, depois de termos jantado muito pescado, em metendo uma moneta[6], achámos o mastro com uma fenda, abaixo da gávea[7] uma braça[8]. Pelo qual o remendamos com brandais[9], até que fossemos tomar porto no Báltico onde o Maltês esperava.
E ao domingo pousámos ao longo da costa, e, quando veio o sol-posto, tornámos a dar nossas velas e seguir o nosso caminho pelo mar do norte; e aqui nos ficou uma âncora, que nos quebrou um calabrete[10], com que estávamos ao mar, junto a verdejantes encostas Vikings.

Segunda-feira que foram vinte e um dias do dito mês, passamos ao largo da ponte de Orësund sobre o túnel, no estreito entre a Dinamarca e a ilha de Saltholm, admirando o seu vão estaiado[11] de sessenta metros suspensos por cabos. E às doze horas do dia, houvemos vista da Polónia, avante nós obra de cinco léguas; e sobre a tarde nos viemos a falar com o Maltês com alegria, onde tiramos muitas bombardas[12] e tangemos trombetas, e tudo com muito prazer por o termos engajado[13] e a vinte tonéis[14] de rum.

Partimos sem perda de dias do porto de Kołobrzeg para a Lapónia, que são mais de trezentas léguas pelo menos. Quarta-feira à noite, vinte e três dias de Dezembro, nos abordou um navio de cruzeiro cheio de velhinhos nórdicos, e andámos abalroados obra de meia hora, que não nos podíamos apartar no estreito de Kvarken.  E quando veio a manhã, véspera de vinte e cinco, fomos de frecha[15] a terra e achámos-nos na gélida e deserta cidade de Kemi. E a capitã saiu com gente armada, onde iam alguns com balesta[16], alfange[17] e mosquetes; e a capitã lhes mandou então que se apartassem e que achassem veiculo, e baixássemos nos olhos as palas e apanhamos um autocarro que cento e trinta e duas paragens depois nos deixou no centro de Rovaniemi, cidade do pai natal.
Yo-ho-yo-ho…



Tudo devidamente plagiado, como se espera de um pirata:
Diários de bordo da pirata Cuca
Relação da primeira viagem de Vasco da Gama (1497), texto modernizado de Luís de Albuquerque.












[1] Uma légua equivale a 5,5km
[2] Pequeno mastro suplementar
[3] Passagem de Ora marítima de Avieno
[4] Pequenas embarcações
[5] Ninharias, bagatelas
[6] Pequena vela suplementar por baixo dos papa-figos
[7] Plataforma do mastro
[8] Medida de duas varas ou 2,20 metros
[9] Cabos que aguentam os mastaréus
[10] Amarra ou cabo de pouca grossura
[11] Seguro por estais, os estais são cabos que servem para aguentar a mastreação do navio no sentido da vante
[12] Morteiro que arremessava grandes pedras
[13] Que ou quem se envolveu politicamente ou ao serviço de uma causa
[14] Vasilha de aduela de grande lotação.
[15] O mesmo que flecha
[16] Arma antiga composta por um arco e por um cabo tenso com que se arremessam setas e pelouros.
[17] Sabre largo e curvo

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

... ou a rapariga que não gosta de livros.

Na Hungria os livros eram absurdamente baratos, o problema residia no facto de estarem cheios de palavras em húngaro. Sabem que há quatro maneiras diferentes de ler a letra “o” e outras quatro para a letra “u”? Na Múzeum körút (avenida) havia umas quantas livrarias e alfarrabistas, de vez em quando desviava-me do meu caminho e ia até lá respirar o pó dos livros.
Cresci rodeado de livros, o cheiro leva-me às estantes da infância. Tive sorte. A minha família não era muito abastada, e com excepção de um ou outro membro, não possuem mais que a escolaridade mínima. Um doutor sabe tanto como um pastor, se nunca viajou nas páginas de um livro. É claro que nascer rodeado de livros não chega. Tenho primos que ficaram pelas aventuras da Ana Maria Magalhães e da Isabel Alçada. Mas também tenho outros que devoram literatura, mais viciados que eu, não se contentam por snifar o pó amiúde e possuem verdadeiras bibliotecas privadas.
Crescer sem livros é como aquelas plantas que vingam no cimento, que crescem nas frontarias dos prédios, com o mínimo. Tenho uma amiga assim, uma raridade exótica que floresceu na rachadura do betão de uma auto-estrada. Declarou-me, já farta das minhas insistências, que não gostava de livros e que a leitura do jornal era mais do que suficiente. Não encontro explicação para a minha insistência, não sou de pregar aos peixes, nem aprecio o cansaço que este tipo de lutas origina. Talvez goste dela com demasiada determinação, como se gosta de um filho. Ela está ali, nasceu e é minha obrigação zelar que siga pela vida absorvendo o pó dourado, provando a vida em colheres cheias, cuidando que sofra o menos possível. Mas ela não é minha filha, poucos anos nos separam, eu não estava lá quando nasceu. Quando ensaiou os primeiros passos, eu mal corria. Nunca teria conseguido afastá-la dos dias maus, ou das más companhias, alimentar-lhe a alma com histórias de lobos e porcos, e gatos com botas.
Não sei bem porque o faço. Diz com amargura na voz que não gosta de livros, mesmo não tendo lido nenhum. Culpa a escola com a imposição dos textos, ganhou aversão, estimou um ódio muito particular. Aposto que abandonou os livros que lhe emprestei nalgum canto sossegado, ganham uma fina camada de pó enquanto esgrimo até à exaustão. É uma batalha perdida, digo para mim enquanto ato o arnês e coloco a gálea. Ajoelho-me numa última prece a Minerva e parto convicto, sem esmorecer, até à derrota.

Gustav Klimt, Pallas Athene (1898)


domingo, 27 de dezembro de 2015

脇差

Wakizashi é uma espada curta japonesa, que pode ter entre 30 a 60 centímetros, similar à katana. Os guerreiros samurai usavam as duas, ao conjunto dá-se o nome de daishō, literalmente “a longa e a curta”. Era usada principalmente em combates de curta distância ou em espaços pequenos, possibilitando um ataque mais rápido, geralmente no joelho do oponente. Também se usavam na prática do seppuku.

Durante dias o homem recortou nuvens montado num escadote. A maior parte eram cúmulos de contornos nítidos e bases planas, um ou outro cúmulo-nimbo com os seus longos desenvolvimentos verticais. Com a wakizashi afiada aparou as pontas soltas e rematou-as com fio grosso da cor do céu. 
Naquela manhã levantou-se antes do mundo e ficou a olhar para o tabuleiro onde pensara levar-lhe o café e as torradas, forrado de nuvens. Era um presente mas agora não tinha utilidade para elas, abriu a janela e o vento levou-as.

Vagabond, by  Takehiko Inoue

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

noite

O homem pensou que era estanque. Na noite de natal sentou-se no meio dos amigos na sua melhor fatiota, usando o melhor dos seus sorrisos, mas a tristeza extravasou. E incomodou-o que os outros reparassem em si, e lhe perguntassem o que se passava, insistindo que repetisse um dos doze pratos ou que esvaziasse de uma vez por todas o copo. O homem pensou que era imune. E numa sala que se enchia lentamente de amor até cobrir os candeeiros, sentiu faltar-lhe o ar, o apetite e todas as forças para prosseguir. Juntou os talheres na borda do prato sem voltar a servir-se, o copo à sua frente manteve-se meio. O homem pensou que estava morto. Um espírito encurralado pelos vivos, deambulando pela sala de peito mal costurado, via-se translúcido e levítico, desejando desaparecer de vez. Então o homem descarnado fechou os olhos e esperou o frio, mas em vez disso sentiu dois braços num abraço, e depois mais dois e ainda mais dois, numa sucessão de abraços infinitos.   

noite estrelada, Van Gogh

domingo, 20 de dezembro de 2015

koń

Ando tão mal cotado nestes dias que até ia por um prato de rabanadas. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, cedido aquela senhora de verde alface e cabelo púrpura com o chihuahua ao colo! Mas ser estrangeiro tem algumas vantagens, primeiro toda a gente me oferece comida, segundo estou desobrigado de fazer conversa de circunstância e sou atendido com prioridade no comércio local. No início ainda esperava pela minha vez, mas descobri que toda a gente gosta de ficar a par sobre as minhas preferências alimentícias e higiénicas, então cessam as conversas, fazem-me sinais para passar, a proprietária soma os valores numa máquina forrada a plástico, depois do pagamento volta tudo à normalidade.

Na quinta-feira reparei noutra coisa, mesmo mal cotado e com ar de quem tinha sido atropelado por um comboio e arrastado pelo mesmo durante vários quilómetros, assim que entramos no estabelecimento habitual para a cerveja habitual, provoquei um ataque de risinhos numa mesa só com mulheres que teriam lá ido por engano. Foi agradável. Mas depois fiquei a pensar se teria a braguilha aberta.



koń- cavalo

sábado, 19 de dezembro de 2015

zote

alguma alma caridosa que por favor se disponha a ler e partilhar aqui comigo a previsão da dica da semana para caranguejo?

dizem que depois da tempestade vem a bonança, mas no meu caso acentua-se mais a estupidez...

by Stormie

banho

Promovido e exonerado do distinto cargo de muso, em menos de 24 horas. Bebo uma cerveja. Antes das onze começo a bocejar.

Corto e Pandora em A Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

transbordar

O homem transbordou. Na beira da cama com os pés no frio, cobriu a boca com ambas as mãos na tentativa de suster o destilado. Comprimia com firmeza a própria carne contra os ossos, usava toda a força que lhe restava, mesmo assim derramava por entre os dedos, pelo nariz, ouvidos. Até a visão turvava líquida. 

 Franco Fasoli – JAZ, Minotaur in Berlin

domingo, 13 de dezembro de 2015

nylon

Desejo que acabe.
Que cheguem os dias às noites e na solidão esvaziar.
Amo o torpor do congelamento,
O fremir diminui e em silêncio convoco as nuvens, o céu cheio.
Estimo a neve suja na beira da estrada,
O vento gelado rasgando a pele, pregado nos trilhos que me levam a lado nenhum.
Sorrio de dor.
Afoguem-se os apaixonados no molhe.
Morram com eles as borboletas que nascem no estômago.
Sucumbam as chamas, lampejos,
os lumes eternos na cortina espessa de chuva.
Lançarei daqui suplicas ao bora, preces ao aquilão, ao garroa,
Dispersem essas cinzas malditas na borda do mundo,
Que nelas não renasça nem um pensamento.
Um cabelo, uma letra.
Macerem meus sonhos em boiões de ácido, até ao rebordo da noite.
Espinhas brancas sem carne.
Sem nome.
Que nada sobeje colado à pele,
só o vazio dos dias nas costas e a ridícula costura de nylon no peito.

"I'm not human at all; I have no heart" Bruno Nogueirão



sábado, 12 de dezembro de 2015

cachinho

...ou sobre incompletudes humanas.

Julguei que a Grandiosa tinha encontrado um cachimbo, quando aos pulos de contente gritou no meio da erva alta "Cigano, cigano, encontrei um cachinho!" .
Nunca tive a felicidade de me cruzar com um cachinho, esse racimo que a natureza criou para alegria dos mortais. Felizmente, há quem os encontre por mim.

Van Gogh: Grasgrond 1887


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

unhas


hoje sonhei que tinha as unhas cortadas. estava a jantar com alguns membros da "Cosa nostra" e reparei que todas estavam perfeitamente aparadas.


Three hands, two holding forks, Vicent van Gogh, 1884

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

bezoar

… ou a fuga de Kiri

O pontão estende-se alguns metros mar adentro, terminando num pequeno cais quase submerso. Na largura alberga uns quantos quiosques fechados, voltam a abrir no verão quando o areal se enche de toalhas. Dos lados arredondados avultam varandins com bancos onde casais se demoram a olhar o mar, adiante uma rapariga repousa a cabeça num ombro.
Eles caminham à minha frente de mãos dadas, sigo atrás segurando a vela que a chuva em pó ameaça colher. O voo de duas gaivotas perturba a superfície espelhada, levam-me o olhar, arriscando uma rota sobre as águas. Tudo parece existir em duplo, mesmo o céu mesclado.


Kiri deixou-me. Num dia sem chuva voltou para casa levando destroços na mala. Os meus destroços, bezoares preciosos embrulhados nas meias. E mesmo longe, na distância do precipício do mundo, parece que nunca partiu, ou então o mundo gira tão rápido que nos leva ao encontro um do outro, na fila das compras, num autocarro perdido, no cais submerso de céu. 

molo Międzyzdroje by Dagmara

domingo, 6 de dezembro de 2015

naifada

há claramente um conluio na cozinha, na medida em que o que quer que caia no conjunto de pratos e talheres empilhados, as facas gozam do privilegio de se lançarem desalmadas em direcção ao tarso descalço...

Rohini Devasher: Detail from mural Parts Unknown at the Max Planck Institute for the History of Science, Berlin

sábado, 5 de dezembro de 2015

logograma

Na monumental sala dos troféus de falhanços, com as suas paredes de três metros onde se amontoavam em cristaleiras o espólio de fiascos, havia ali um pouco de tudo cuidadosamente exposto, não fosse cair no vácuo do esquecimento. Taças douradas e prateadas, umas asadas outras compridas, “pior defesa central” gravado a azul, “péssimas notas a francês” em letra pequena. No outro extremo medalhas engalanadas com coloridas fitas em requintados estojos de veludo, uma das maiores “mérito por tempo desperdiçado”, numa pastilha barata de alumínio “promissor arroz de tomate queimado”. Na parede mais longa exibiam-se os troféus em acrílico em forma de telhas, bicicletas, motas, escadotes e escadas na categoria de “honras distintas por tralhos”, ou em forma de sanitas, quase uma por ano, destoando em tamanho “pior ressaca 2013”. Por cima da porta de entrada, havia uma sucessão de cabeças em resina montadas em tabuletas envernizadas onde se podia ler o nome do espécime. O detalhe era grande, ligeiros cortes, narizes desviados, derrames oculares, gotas de sangue a aflorar nas narinas, em comum tinham vitórias, na parede conhecida como “as idas ao tapete”.
Em destaque no centro da sala, iluminado por várias tiras de leds, um expositor em plexiglass no topo de uma coluna romana, encerrava uma flecha de ponta afiada em forma de coração. Ela representaria a malograda tentativa de tomar o lugar de Cupido, de arco e aljava cheia ao ombro, o maior falhanço de todos, aquele de que mais se arrependia.

Num banner lateral anunciava 10% de desconto na subscrição online do pacote “Deus greco-romano por vinte dias”, que incluía seguro, kit básico e asas nas modalidades Eros, Tânato ou Hipnos. Quatro semanas depois recebia em casa duas caixas de cartão seladas com várias camadas de fita adesiva e logogramas de aviso em chinês. As asas eram réplicas toscas em papelão, mas o arco e as flechas pareciam genuínos, assinadas junto às rémiges pelo próprio Cupido. O software fornecido era user-friendly, as flechas possuíam um chip bluethooth activado pelo telemóvel, bastava aproximar o suficiente do dispositivo da vítima e acertar com a flecha na sua futura cara-metade.
O plano estava em vias de ser executado, acomodou a aljava e o arco por baixo de uma gabardine comprida, estavam trinta graus e o suor escorria-lhe em bica. Tinha marcado encontro com as duas cobaias nas ruínas do fórum, procurou a sombra de uma coluna de Saturno enquanto distraia as vistas num grupo de turistas eslavas. Sentia-se muito bem no papel de um deus, mesmo que só por vinte dias, se realmente as flechas funcionassem, podia emparelhar uma data de gente. Envolto numa espessa nuvem de pensamentos diuréticos, não se apercebeu da chegada do amigo que o mirava com estranheza, achando que o caso era sério e sujeito a medicação.
-Dá-me o teu telemóvel. Pediu o aspirante a Cupido, vá, rápido antes que ela chegue.
-Que se passa contigo? Está um calor de morrer e tu estás de gabardine até aos pés. Tens manchas de suor do tamanho de bolas de futebol debaixo dos braços.
-Isso agora não interessa, dá-me o teu telemóvel, depois explico-te tudo… vais ver que é desta, tenho cá um feeling…
O amigo que era mesmo muito amigo não discutiu e confiou no pouco juízo do aprendiz de deus a vinte dias. A flecha estava pronta, só faltava a última parte, o “grand finale”.
-Achas mesmo que ela vai aparecer? Não é um sítio um pouco estranho para marcar um encontro? E isto hoje tá apinhado de gente, achas que ela te reconhece? Pareces o inspector Clouseau…
-Cala-te pá, vou ligar-lhe, és capaz de ter razão, não foi o melhor sítio mas precisava de campo aberto, não ia disparar uma flecha no meio de uma esplanada no centro.
-Uma quê? Disparar onde?
-Tou? Se calhar já passaste por nós mas não me reconheceste… junto ao templo de Saturno… esse mesmo, sim estou com uma gabardine… é, ao vivo sou mais distinto, é o que dizem… vá.
Ela já ai vem, passou por nós duas vezes, chega-te pra lá, não quero apanhar-te.
-Tás bem? Se calhar apanhaste muito sol…


Mas o incipiente deus já não ouvia, concentrado na imagem felina que desfilava na sua direcção, desfez-se da gabardine e de arco em punho, apontou a flecha. Era agora ou nunca, pensou, uma aberta à sua frente, sem brisa nem correnteza, esticou ao máximo a corda e disparou. Assim que a ponta fria tocou no coração da mulher, ela sentiu o chão sumir-se-lhe dos pés, cambaleou, olhando incrédula para o seu atacante, com a flecha cravada cinco centímetros no peito. Ele também estava incrédulo, hipnotizado, amaldiçoado, e sentia a mesma pontada, a mesma falência, a garganta ressequida, estava apaixonado. O amigo desmaiara aos pés do templo, ao ver tanto sangue, fraquejara nas tensões. Nenhum dos dois lhe valeu, mas continuaram amigos, ainda hoje são. 

John William Godward,Mischief and Repose (detail)1895