sábado, 15 de julho de 2017

ecoponto

Talvez seja esse o propósito: estou aqui para aprender a difícil arte do desapego. volto a sentar-me. ninguém se manifesta. o professor faz sinal ao próximo que se levante. se calhar estou na turma errada. não ouvi nada do que foi dito até agora. o meu cérebro ficou aprisionado na saliença da sua clavícula. ela tem das mais belas clavículas que já vi. preciso urgentemente de a deslargar ou perderei o interesse antes do fim do primeiro semestre. sou mesmo um péssimo aluno. começar por pequenas coisas, objetos, distinguir o que realmente faz falta daquilo que não necessitamos. diz o professor. durante a missa também não ouvi nada, só pensava na quantidade de afeição que deixei em objetos e que após a minha morte, deixam de ter qualquer utilidade. imaginei os meus pais a desocupar o sótão, o ecoponto cheio da minha existência. haviam de fazer uma pilha e queimar-me com todos os meus pertences. principalmente as palavras. todas as que deixei depositadas em cadernos, gostava de arder no meio delas. 


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Jugoslávia

O homem de meia idade de barriga escorada no polo XL, diz que finalmente me apanhou. Estremeço, mas não reajo. Reconheço nas suas mãos sapudas a minha mochila. O homem parece grande apesar de estar de calções e chinelos de dedo, ou serei eu pequeno, agora que fui apanhado. Já fui apanhado algumas vezes, mesmo nos sonhos. Estamos num parque de campismo e ele apanhou-me, ou julga que me apanhou. Abre a mochila e começa a tirar as provas do crime como se fosse um agente da autoridade. Há objectos que não me pertencem, como aquele relógio antigo da casio. É provável que o tenha roubado. A minha avó tinha um assim. Lembro-me muito bem porque uma vez ela estava doente e fiquei com ela todo o dia sem sair de casa. Era como uma penitência pela doença dela, e ela deu-me uma tarefa muito simples. Vai ao meu quarto e na gaveta de cima tira o relógio e na debaixo, o termómetro. Disse, entrecalando duas tossidelas secas. Entre o quarto e a salinha da televisão não distava assim muito, mas pelo caminho consegui deixar cair o termómetro. Na altura pensei que me tinha corrido bem, pois se tivesse deixado cair o relógio era muito mais grave, não imaginando a fragilidade daquela coisa cheia de mercúrio que chegou às mãos da minha avó sem qualquer utilidade. Deixaste cair o termómetro? Perguntou vermelha de raiva. Mas o relógio estava inteiro, um casio digital de bracelete em plástico, exactamente igual ao que o homem gordo atirara para a pilha de pilhagem que crescera aos seus pés. Nunca mais fiquei a tomar conta da minha avó. Nem nunca mais ela me pediu que executasse tarefas que envolviam o transporte de objectos frágeis. O homem dos calções também estava vermelho de raiva e despenteara a meia dúzia de pelos que lhe corriam pela cabeça, sem encontrar o atlas de tamanho A3, capa forrada a pele verde e letras douradas, muito desactualizado, que tinha misteriosamente sumido durante a sesta. Sabia desde o início que não estava na mochila, mas mesmo assim foi agradável a súbita subida de adrenalina. 



domingo, 25 de junho de 2017

volátil

Já tinha decidido esquecê-la quando apareceu na noite de quinta, transmutada num sonho. Disse-lhe coisas desagradáveis, mas mesmo assim ela não arredou pé, conservando um sorriso que podia ser de troça ou desequilibrado. Precisava de uma amostra do meu sangue. E eu que até estava capaz de a destratar pela tampa que me deu, rendi-me à ideia de lhe ceder sem hesitar uma parte de mim. É só um pouco, disse, encostando-me na pele do braço um capilar de vidro muito fino, aberto no fundo. Não senti qualquer dor, apenas a proximidade magnética do seu corpo que eu não via, hipnotizado pelo liquido vermelho vivo que subia lentamente na extremidade do tubo. 


sexta-feira, 9 de junho de 2017

meias

Ela, a vizinha do quarto, jura-me que ninguém dobra meias. Sou o último da minha espécie de dobra meias. Ela não dobra, assegurou-me, mas como faz para as manter juntas, não me disse. Começo a desconfiar que ela não tem cinquenta tons de preto e cinzento gasto, com ligeiras variações de uma ou duas riscas nos tornozelos. Amanhã se calhar compro um rolo de fita adesiva.



segunda-feira, 5 de junho de 2017

ensopada

Malmequeres de um branco muito leitoso, com estames de amarelo-vivo, coroavam a cabeça pousada aos pés de um salgueiro. Aproximei-me dos lábios purpúreos e vulneráveis, julgando-a ensopada na morte. O pescoço de porcelana pintado de veias finas, pulsava levemente, ritmado com o voo das libelinhas azul-eléctrico.


domingo, 4 de junho de 2017

pandicídio

hoje matei um panda. confesso que nem o vi aproximar-se. era um panda pequeno.
preto e branco.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

mizeria

cheguei com uma hora de atraso e mil pedidos de desculpa. é normal atrasar-me, mas nunca mais de uns minutos. andei perdido, disse. era meio dia e eu sem mapa e um sol que era um pináculo, perdi o sentido. enquanto andei perdido, andei feliz, mas não disse. ocupei o lugar vazio e comemos. só lá fui para me perder, pensava, enquanto engolia um pedaço de carne sem sabor e recusava a salada de pepino com natas. estava do outro lado da porta e já lhe sentira o cheiro. não suporto salada de pepino com natas. no regresso era necessário perder-me de novo, repetir ruas nos dois sentidos e observar as sombra que dantes eram plenas de luz. vejo mais quando estou perdido. sinto o dobro quando estou sem sentido. 


mizeria- salada de pepino e natas, muito típica.