domingo, 25 de junho de 2017

volátil

Já tinha decidido esquecê-la quando apareceu na noite de quinta, transmutada num sonho. Disse-lhe coisas desagradáveis, mas mesmo assim ela não arredou pé, conservando um sorriso que podia ser de troça ou desequilibrado. Precisava de uma amostra do meu sangue. E eu que até estava capaz de a destratar pela tampa que me deu, rendi-me à ideia de lhe ceder sem hesitar uma parte de mim. É só um pouco, disse, encostando-me na pele do braço um capilar de vidro muito fino, aberto no fundo. Não senti qualquer dor, apenas a proximidade magnética do seu corpo que eu não via, hipnotizado pelo liquido vermelho vivo que subia lentamente na extremidade do tubo. 


sexta-feira, 9 de junho de 2017

meias

Ela, a vizinha do quarto, jura-me que ninguém dobra meias. Sou o último da minha espécie de dobra meias. Ela não dobra, assegurou-me, mas como faz para as manter juntas, não me disse. Começo a desconfiar que ela não tem cinquenta tons de preto e cinzento gasto, com ligeiras variações de uma ou duas riscas nos tornozelos. Amanhã se calhar compro um rolo de fita adesiva.



segunda-feira, 5 de junho de 2017

ensopada

Malmequeres de um branco muito leitoso, com estames de amarelo-vivo, coroavam a cabeça pousada aos pés de um salgueiro. Aproximei-me dos lábios purpúreos e vulneráveis, julgando-a ensopada na morte. O pescoço de porcelana pintado de veias finas, pulsava levemente, ritmado com o voo das libelinhas azul-eléctrico.


domingo, 4 de junho de 2017

pandicídio

hoje matei um panda. confesso que nem o vi aproximar-se. era um panda pequeno.
preto e branco.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

mizeria

cheguei com uma hora de atraso e mil pedidos de desculpa. é normal atrasar-me, mas nunca mais de uns minutos. andei perdido, disse. era meio dia e eu sem mapa e um sol que era um pináculo, perdi o sentido. enquanto andei perdido, andei feliz, mas não disse. ocupei o lugar vazio e comemos. só lá fui para me perder, pensava, enquanto engolia um pedaço de carne sem sabor e recusava a salada de pepino com natas. estava do outro lado da porta e já lhe sentira o cheiro. não suporto salada de pepino com natas. no regresso era necessário perder-me de novo, repetir ruas nos dois sentidos e observar as sombra que dantes eram plenas de luz. vejo mais quando estou perdido. sinto o dobro quando estou sem sentido. 


mizeria- salada de pepino e natas, muito típica. 

sábado, 27 de maio de 2017

néon

assim que optas por reduzir o consumo de álcool e manter o coração amordaçado, ela senta-se à tua frente, aquela que quase pisaste, a mesma que quase convidaste para um copo. e em menos de uma hora brindamos quatro vezes, e decides que amanhã é um bom dia para ficar sóbrio, porque afinal ela tem um peixe de estimação.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

queda

No momento em que o homem tentava sair do buraco onde tinha caído, pensou: “caso sobreviva, aqui está uma boa história para contar aos meus netos.” O buraco onde tinha caído não era assim tão fundo e sem dificuldade impulsionou-se de lá para fora. Era uma valeta de escoamento de água que estava cheia da chuva que não parava de cair. O homem que queria contar uma história não tinha visto a valeta, ali no seguimento do passeio mal iluminado. De um momento para o outro o chão sólido desaparecera debaixo dos pés, e sem saber como estava submerso até ao pescoço. Não havia ninguém por perto, era madrugada e continuava a chover. O homem que queria contar uma história saiu do buraco e pingou até uma paragem de autocarro, onde se sentou para avaliar o seu estado. O telemóvel no bolso das calças era um pequeno aquário sem qualquer uso. Pensou que tinha de continuar a caminhar ou o frio seria insuportável, mas não tinha bem a certeza de quanto mais teria de caminhar até casa, e uma dor mordia-lhe a articulação do joelho de tal forma que só queria ficar ali e esperar que a manhã lhe trouxesse o primeiro transporte. Foi então que se lembrou de ter passado por uma cabine telefónica e tentou a sorte. A mulher que tinha um sono leve atendeu ao terceiro toque. Dez minutos depois recolhia o homem que queria contar uma história com bafo de álcool, encharcado até aos ossos. Não falaram, o homem estava envergonhado e com dores. Ela ajudou-o a despir-se no meio da cozinha, onde deixou ficar a roupa como se fosse um animal abatido, inanimado na tijoleira. A mancar ligeiramente, meteu-se na banheira e tomou um duche bem quente. A mulher que tinha um sono leve já estava deitada na cama, em breve teria de se levantar e ir trabalhar. O homem que queria contar uma história, deitou-se e abraçou a mulher que não queria saber que o homem tinha bebido um número indeterminado de shots e que por isso não se apercebera do fim do passeio.