terça-feira, 17 de outubro de 2017

ratos

É difícil extrair todo o conteúdo enquanto preparo o pequeno-almoço. Se tivesse acordado ao primeiro sinal, talvez o sonho não sublimasse das remelas para o esquecimento. Assim só ficou cristalizada a parte dos ratos. Estava num pátio espaçoso, bem iluminado e quente. Quando caminhava para o interior da casa, três ratos saíram das floreiras e dançaram em volta dos meus pés. Talvez fossem ratazanas jovens, ou ratos bem alimentados, mas eram meus, de estimação. Baixei-me para lhes fazer festas. Primeiro foi o cinzento que tinha pelo raro e uma orelha deficiente, depois o tigrado, que era muito educado e me deu os bons dias. Em português. 


sábado, 14 de outubro de 2017

Ofélia

“Fechado” podia ler-se do lado de fora na tabuleta dupla, apesar de serem dez da manhã. Nas traseiras, o funcionário carregava os últimos sacos de escarcha e nevoeiro para o ecocentro da vila, esvaziando finalmente a loja. Apesar do negócio ter caído bastante depois da subida do imposto sobre as perturbações atmosféricas, ainda recebiam de vez em quando umas encomendas lá do sul, sobretudo aguaceiros e borrascas. Mas as despesas eram muitas, mesmo reduzindo o pessoal a um único funcionário, havia ainda a renda da loja e as contas de electricidade com vários dígitos. Manter trovoadas e tornados, mesmo em pó, tornara-se demasiado dispendioso. As nortadas esvaziavam-se das embalagens seladas, o borriço tinha de ser sacudido todas as semanas e as neblinas perdiam a validade em meia dúzia de dias. Já para não falar da manutenção do aquário de nuvens, a principal atracção da loja, mas que exigia uma atmosfera controlada e várias encomendas mensais de gases; um balúrdio! Agora estava vazio. Por ordem do patrão, o Sr. Mau-tempo, o funcionário carregara tudo no seu motociclo com caixa e descartou aleatoriamente num dos contentores do ecocentro. 

Sir John Everett Millais, 'Ophelia' (1851)



sábado, 19 de agosto de 2017

koszmar

... ou a fábrica de pesadelos

a mulher que cheirava a bolo de laranja e biscoitos de manteiga, atravessou a rua em modo automático vinda do talho, direccionando o carrinho das compras para a última paragem daquela manhã: a frutaria. assim que dobrou a esquina, com o carro a rolar atrás de si bem pesado, percebeu que a compra de limões e pêssegos teria de ficar para outro dia. a culpa era do carregamento de figos negros que o moço empilhava à porta do estabelecimento, atraindo fregueses como moscas gigantes que se acotovelavam e aos safanões, enchiam sacos quase atirando os cestos ao chão. atravessou para o outro passeio, evitando a confusão assassina e o piso escorregadio de fruta esmagada. talvez fosse a primeira vez que atravessava a rua naquele sítio, fora da passadeira, sem rampa para o carrinho. reparou que aquele passeio era mais sombrio, mas também mais largo, bem nivelado e livre dos obstáculos que normalmente os comerciantes colocavam no exterior de forma a chamarem os clientes. já esquecida dos limões e dos pêssegos do Paraguai que os miúdos gostavam, o carrinho das compras corria veloz atrás de si, sem rodas a lamentarem-se ou quebras no cimento para contornar, quando travou de repente mesmo em frente de um estranho edifício.  



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

órbita

Cruzei-me com a mulher que canta no coro. No meio de tanta gente foi como se as nossas órbitas sofressem o efeito de atracção de um astro maior e sem controlo, colidimos. Caminhava contra o vento, o cabelo bastante mais curto, a pele beijada pelo sol. Ainda mais perfeita, cada vez mais distante.


domingo, 13 de agosto de 2017

jesteśmy

O melro pousou no muro branco e dali ficou a admirar a erva do jardim. Não há vizinhos, foram todos de férias. Mas o melro não sabe, por isso espera, olha demorado para as aberturas da casa por onde é normal sair o som das pessoas. Quando se sente seguro, o melro salta do muro branco para a erva do jardim e eu perco-o do meu campo de visão. 

Boy and cat. New York City. 1954. Vivian Maier

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Żabka

Enquanto esperava pela minha vez na fila do supermercado, reparei que a t-shirt da pessoa que estava à minha frente, tinha marcas das molas nos ombros.

 Nazaré Portugal, 1956  Edouard Boubat

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

serrote

isto das novelas e dos romances de faca e alguidar não são invenções recentes, e se agora vendem muitos livros, imaginem o impacto que tinham quando nem sequer havia televisão, ou rádio, ou escrita, e o pessoal se entretinha em volta de uma fogueira a ouvir histórias que nem sempre tinham finais felizes. na Grécia antiga não era muito diferente, mas para não parecer assim tão mal chamaram-lhe mitologia. temos por exemplo o caso do senhor Dédalo, conhecido por ser pai daquele moço, o Ícaro, que resolveu voar até ao sol e ficou mais do que bronzeado. era um inventor muito conceituado naquela época, mas foi obrigado a fugir de Atenas porque, segundo reza a história, num acto de raiva, empurrou o sobrinho Perdix por uma ravina, só porque este inventou o serrote e outras cenas muito à frente. Dédalo não era boa pessoa, mas tinha muitos contactos, convivia na altura com gente famosa e dai que conseguiu refugio em Creta, onde conheceu o rei Minos. mas Dédalo era dado a meter-se em sarilhos e deu consigo numa valente alhada quando resolveu ajudar a mulher de Minos, Pasífae, construindo-lhe uma vaca em madeira, tão perfeita que enganou o touro branco de cornos dourados que Minos tinha recebido de Poseidon. da relação de Pasífae com o tal touro nasceu o lendário Minotauro, que foi mantido num labirinto projectado por Dédalo. quando o rei descobre que a mulher foi ajudada pelo inventor, este foge de Creta com Ícaro, usando umas asas construídas de penas e cera. o que aconteceu ao pobre moço já todos sabemos, mas Dédalo salva-se e consegue chegar à Sicília, onde novamente se torna famoso e o preterido do rei Cócalo. quando Minos descobre que Dédalo está vivo, exige ao rei da Sicília que o entregue para ser punido. mas Cócalo não está preocupado com a raiva de Minos e ignora o pedido do monarca. este então resolve invadir a Sicília, mandando para lá uma horda de selvagens. mas Cócalo não é completamente estúpido e quando vê aquele pessoal a invadir as belas praias, resolve ir pessoalmente ter com Minos e convida este para o seu palácio. o desfecho é inesperado. Cócalo assassina Minos durante o banho, fervendo o monarca de Creta em água fervente. 

Laerte Coutinho