segunda-feira, 27 de março de 2017

desistir

Finto a página em branco. Escrevo que a noite já caiu e depois apago. Não consigo descrever a cor daquela hora. Precisava de uma noite amena propícia a enredos simples, mas nem a noite está amena, nem os enredos são simples. Repito a mesma música até as notas saírem pelos poros, na esperança que elas expulsem palavras alojadas entre as camadas. Fecho os olhos e imagino-a deitada num sonho. Toda a repetição é como uma oração. Volto ao início e tento acalmar a violência dos punhos lutando contra o ar, cansando a raiva, atirando contra o tapete a frustração, mas nem assim as palavras pousam nos ombros e ditam ao ouvido o que vem a seguir. Se desistir, pouco me resta.  


quarta-feira, 22 de março de 2017

sexta-feira, 17 de março de 2017

lanígero

eu queria cinco filhas. o meu avô teve sete, mas eu ficava feliz com cinco, ou quatro, ou mesmo só uma. o meu avô era um bom homem, por isso teve sete filhas. para ele todas elas valiam mais do que ouro, por isso sem ninguém saber, ele era o homem mais rico do mundo. nunca quis ser o mais rico, sempre disse que me contentava com cinco filhas e um rebanho de ovelhas. gostava de ter um rebanho de ovelhas, e atravessar os montes com elas. depois na altura certa, tosava as bichas e tratava a lã, e comprava também um tear, porque sempre me fascinou o entrelaçar dos fios. e com cinco filhas e um rebanho médio de ovelhas, seria o homem mais feliz do mundo.


quinta-feira, 16 de março de 2017

luz

III


A noite foi sem dúvida o pior momento do primeiro dia, e se não fosse o peso do cansaço a esmagar-me como um insecto que é apanhado por um camião a duzentos numa autoestrada, talvez nunca tivesse adormecido. Caminhara com esperanças de encontrar alguém ou um sinal de humanidade quando chegasse ao topo da encosta, mas para onde quer que olhasse só havia mata densa e outras encostas que subiam como corcundas cinzentas do rio. Escureceu rapidamente, não havia qualquer fonte de iluminação até onde a vista alcançava, e o frio enleou-se com cheiro a mar em todas as coisas vivas e não vivas. Valeu-me na altura uma reentrância na rocha abrigada do vento, forrada de musgo seco e caruma. Talvez tenha chorado, não me lembro, fazia tanto frio que as lágrimas congelavam, congestionando os canais. No céu a lua era um risco quase a desaparecer e protegido pela sua luz muito ténue, terei sonhado que a vénus de Botticelli, toda ela pele muito branca e nua, caminhava para mim no areal, empurrada por zéfiro. Acordei com o chilreio de um bando de piscos embrenhados nos arbustos, estiquei o braço para desligar o despertador, mas os pássaros não tinham qualquer respeito. Para além das dores que sentia nas articulações, experimentava uma novidade, tipo um prurido desagradável que não tinha princípio nem fim, e por todo o corpo estalavam bolhas rubras, evidências de que fizera parte do menu degustativo de formigas e aranhas. A sensação de perigo iminente era constante, sabia sem saber muito bem como, que deixara de estar no topo da cadeia, mesmo que os uivos da noite anterior estivessem distantes. Foi com esta ideia em mente que me atirei com todas as forças à fabricação de fogo, já tinha visto vídeos no youtube, precisava de um pau a direito, com cerca de dois palmos, e uma casca de árvore onde, por fricção das duas partes, conseguiria produzir suficiente calor para incendiar um tufo de vegetação seca. Como qualquer indivíduo nascido no século vinte, tinha toda a teoria, mas nenhuma prática. Ao fim de várias tentativas e muitas bolhas nas mãos, uma pequena nuvem de fumo deu origem a umas chamas contidas, quase microscópicas. O primeiro fogo animou-me o espírito, confortou-me a alma,  elevou-me pela cadeia alimentar até ao topo. Estava tão satisfeito com o que havia conseguido que me levantei num pulo e ensaiei uma pequena dança de vitória, quebrando o pau em dois, e apagando o fogo que tão arduamente tinha conseguido avivar. 

domingo, 12 de março de 2017

leucocrata

II

Às vezes penso que o tempo antes daquela madrugada em que acordei na praia, nunca existiu. Era como se tivesse nascido naquele dia, expelido do ventre do mar com quarenta anos, usando apenas umas trusses made in china. Mas onde é que eu estava? Sim, já me recordo, tinha caminhado cerca de três horas pelo areal até à foz do rio, mas nada era como no dia anterior. Não havia casas, nem prédios, estradas, pontes, pessoas. As margens do rio eram aligeiradas no encontro com o mar, arenosas, mas escarpadas, graníticas para o seu interior. Em tudo parecia o mesmo sítio, só que noutro tempo, talvez passado ou futuro. Mas isto sou eu a embelezar o momento, porque naquela manhã de agosto no princípio do mundo, estava completamente cego de sede e não pensava muito. Caminhei o mais rápido que conseguia pela margem do rio até o areal ser substituído por seixos e rochas desgastadas, marcadas pelos diferentes níveis do rio. Desci com cuidado, mas a água era tão cristalina que não me apercebi que o fundo era bem mais fundo e quando o pé não se apoiou na rocha seguinte, caí na água com estrondo. Parecia acabada de descongelar, mas o sabor era algo indescritível, não tinha memória de alguma vez ter bebido assim uma água, mas podia ser da sede excessiva ou da secura da língua. De imediato senti o alívio de todas as dores, a pele que queimara levemente ao sol, recuperou totalmente e as forças voltaram aos membros como por milagre. Completamente saciado, estendi-me numa rocha ao sol, contemplando a margem norte onde era suposto existir a invicta. A escarpa granítica era atravessada por alguns riachos, quedas de água, que desapareciam no volume imenso do rio, brilhando intensamente como fios de prata. Um movimento fora da água fez-me desviar rapidamente o olhar. Não queria acreditar, mas peixes corpulentos saltavam no ar, contra a corrente do rio. Agora que olhava com atenção, via que outros peixes, mais pequenos, se aproximavam nas águas baixas, inspeccionando com cautela a minha sombra. Aqueles peixes não eram exactamente iguais aos que tinha visto na montra do restaurante, pressupus que fossem tainhas, embora nunca tivesse visto tainhas a saltarem à tona. Pus-me de pé e experimentei gritar bem alto “está ai alguém?”; “olá”; “socorro”; “tenho fome”. Mas a única resposta que obtive foi um eco incompleto. Ocorreu-me então que talvez me tivesse inscrito num daqueles programas de sobrevivência em ilhas desertas, mas se calhar tinha batido com a cabeça em alguma árvore e não me lembrava de nada, só daquela noite do restaurante e da mama atrevida que espreitava fora do soutien. Apalpei a cara e a cabeça à procura de uma contusão que atestasse essa novíssima teoria, mas não encontrei nada. Se estava num programa de sobrevivência, era suposto haver câmaras a filmarem, e senti algum embaraço por ali estar de cuecas. Isso era outra coisa que me intrigava, porquê que não tinha mais roupa. Resolvi então escalar a vertente sul até ao ponto mais alto, e daí poderia ter uma perspectiva mais ampliada do sítio onde me encontrava. A subida não foi fácil, descalço e praticamente nu, mas valeu-me o facto de ter encontrado algumas pinhas com pinhões muito mirrados e algumas silvas com amoras silvestres pouco maduras. Foi o primeiro de muitos festins. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

klątwa

Ontem tossi tanto que acabei por perder parte da voz. Mesmo assim, muito rouco, quase afónico, não recusei juntar-me a uns amigos que acenavam de um pub, e é claro também não consegui evitar beber uma (ou duas, isso é irrelevante) cerveja fresquinha, e depois, perdido por cem perdido por mil, também não consegui parar de falar. Tornei-me aquele indivíduo que tem a mania de transformar tudo em piada e tem uma história que se enquadra em qualquer cenário. A mim ninguém me cala. Nem as bactérias. É a maldição dos maneis.