terça-feira, 29 de julho de 2014

idiota

Irrita-me ter uma ideia, uma daquelas mesmo boas que começava como todas as boas ideias supostamente haviam de começar. Mas esta coisa da preguiça, esta pouca vontade de pegar na caneta e assentar e porque afinal parecia tão boa, que dificilmente a esqueceria, repetindo para mim três vezes exactas as palavras como começava... e agora é só uma folha em branco.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

brava

Entrou na gruta com os pés enlameados e o javali ao ombro de língua pendurada a pingar sangue. Estava exausta, primeiro da caçada e depois o caminho carregando o bicho, debaixo de uma chuva que parecia não ter fim. As peles que a cobriam estavam pesadas, encharcadas e o trilho de volta à caverna transformara-se numa massa de lama e pedras soltas. Pousou a lança antes de se desembaraçar da pesada carga que os alimentaria nas próximas semanas, aproximando-se da fogueira no centro da gruta para se aquecer.
Onde é que ele anda? Terá grunhido para si. Despiu as peles de auroque enfeitadas com conchas e sentou-se perto do lume reconfortante. Quando ele regressou com uma bolsa meia cheia de bagas, já o sol pairava na linha do horizonte e ela dormia seminua, o corpo musculado marcado por cicatrizes das caçadas e batalhas.
Não acredito! Grunhiu o macho na entrada da gruta, não viste que tinha acabado de limpar? Encheste tudo de lama e sangue. Sangue, sabes o quão difícil é tirar nódoas de sangue?
Ela acordou estremunhada, mas não se levantou ou se importunou pelos grunhidos dele.
Onde é que andaste? Quis saber num dialecto primitivo com poucas silabas, no seu tom sempre altivo de dominância feminina.
Achei bagas. Disse o macho, engolindo em seco e aproximou-se a medo dela, oferendo a bolsa com os frutos. Comeu tudo sem partilhar, lambendo os dedos e a boca satisfeita. Ele ainda estava ali especado a olhar, aterrorizado, sem saber o que dizer. Mesmo sem os adornos e pinturas com que se enfeitava, era dona de uma beleza assustadora. O cabelo escuro brilhante, entrançado com contas de ocre, a pele levemente dourada do sol e aquele olhar de lanças frias que lhe acertavam sem desviar.
O javali não se cozinha por ele. Disse-lhe a guerreira, com os lábios sensualmente vermelhos dos frutos. Anda, vai tratar disso, despacha-te que tenho fome!
Arrastou o javali para o exterior onde lhe retirou a pele e depois cortou a zona das costelas com uma lâmina em sílex, colocando sobre as brasas da fogueira suspensa a carne pelos ossos até ficar cozinhada. Ela não tirava os olhos dele, seguindo os movimentos, fazendo comentários sobre o tempo que ele demorava, não gostava de o ver com o cabelo em desalinho preso no topo com um pedaço de tendão de musaranho, e aquelas peles largas de urso que usava faziam-no gordo. Começava a ficar irritada e excitada, talvez fosse das bagas, ou o cheiro que ele emanava enquanto suava para se livrar das manchas de sangue.
Acariciou-se debaixo do pedaço de pele que lhe cobria o sexo, estava húmida mas os dedos não seriam suficientes para apagar o fogo que sentia. Levantou-se e caminhou decidida na direcção do macho que estava de cócoras distraído, raspando como podia o sangue salpicado. Aplacou-o pelos cabelos como um coelho agarrado por uma águia, arrastando-o para junto da fogueira sem oferecer resistência, deslizando pelo chão imaculado, arrancou-lhe as roupas e com uma mão no pescoço, quase asfixiando, montou-o até a carne estar assada.
Dorido, sacudiu as areias e pequenos galhos da fogueira que se tinham cravado nas costas e nádegas. Ela agarrou o naco maior e despedaçou a carne junto ao osso, engolindo grandes pedaços ainda quente e sem tempero. Sentou-se junto dela, mas não muito junto, aguardando que ficasse satisfeita e lhe atirasse os restos, como um cão obediente à espera do osso. Arrotou alto, sinal que estaria cheia, toda besuntada de carne e sangue, recostada sobre as peles. A saliva crescia-lhe na boca, estava esfomeado depois de tanta actividade, ainda lhe doíam as costas e o pescoço, marcado pelos dedos dela. Atirou-lhe um pedaço de carne preso ao osso que rolou pelo chão, esticou-se para o apanhar, mas quando o alcançou na extremidade, ela puxou-o por uma perna, arrastando-o até junto de si com a mesma facilidade com que esquartejava um alce.
Não tinha como escapar, ela voltava-o para cima e o chão fugia dele, e ela prendia-o enquanto deslizava a sua mão desde o tornozelo até o agarrar no membro flácido, presa fácil.
Ainda não estou satisfeita, disse rouca de libido, mergulhando os dedos dentro de si e depois colocando-os na boca do macho que os lambia obediente. Era bom, uma mistura temperada de carne de javali salgada, faltava talvez um pouco de piripiri, mas o Brasil só seria descoberto onze mil e quinhentos anos depois.

Acariciou-lhe o membro antes de deslizar os lábios por ele, sentindo-o endurecer na boca à medida que o sangue enchia os corpos cavernosos. Fechou os olhos, entregando-se sem oferecer resistência, era como se a lança já o tivesse atingido e só esperava a morte. Sorriu satisfeita, vitoriosa, mostrando pequenas pevides pretas das amoras entre os dentes. Sentou-se sobre ele, montando-o mais uma vez como se fosse um animal manso ou moribundo, domesticado, cravando-lhe as unhas no peito para se segurar enquanto o galopava com força, amazona de seios duros.


sábado, 26 de julho de 2014

solecismo


A paciência tem limites e escoa-se como areia em ampulheta, enquanto o gajo se diverte, deixa-me a obrigação de relatar os factos, mesmo que isso acabe comigo. No início achei que era sorte, agora começo a pensar que é um desperdício de talento, podia estar a escrever sobre algo mais interessante e com conteúdo, em vez de estar praqui a relatar as aventuras e desventuras deste Don Juan de trazer por casa. Mas já pagou adiantado, é esperto o Cigano, tem olho para o negócio, que sirva de lição a mim e a vós que caís na tentação de lhe achar graça, abram esses olhos. 
Mas adiante, já falta pouco para despachar a encomenda, agora que o leite está derramado, de nada vale chorar sobre o branco. Da última vez ficamos no mesmo sítio mas por pouco tempo, não vou entrar em pormenores a respeito da loira e do Maltês, só acrescentar que foram interrompidos pela estrangeira da blusa das andorinhas que não se estava a sentir bem e quando voltou da casa de banho, numa segunda volta, encontrou a mesa ocupada por outro grupo de gente. Não estava habituada a beber tanto, acontecia a quase todos os estrangeiros que aqui chegavam com muita garganta, muito paleio e pouco estômago! Eu isto… eu aquilo… e depois era o “ai deus me ajude!” neste caso sobrava para o Maltês, que não era deus mas sentia-se imortal agarrado pela loira, logo ia dar tudo ao mesmo. Ainda lhe passou pela ideia chamar um táxi, mas nem sabia pronunciar o nome da rua, não era longe, pelo seu pé o mais certo era cair numa valeta e só ser encontrada um mês depois. A cena até foi divertida, pelo menos para mim que já estava com o copo vazio e cheio de sono, não tenho pedalada para isto. O Maltês coberto pela loira e chegou-lhe a outra ao lado muito lívida a bater-lhe no braço, olha, preciso que me leves a casa! A dos calções curtos até pulou assustada com a assombração, mas pior foi quando um jacto de vómito saltou pela boca pálida, aljofrando tudo num raio de, vá lá, três metros. Compreendem agora a vantagem da distância. 
Aljofrar! Andava mesmo desejoso de usar esta palavra, talvez não se adeqúe ao contexto, salpicar de vómito não é bem o mesmo que “aljofrou de pranto a lápide sob a qual jazia o morto…” ou “as pétalas aljofravam-se de orvalho na manhã fria…” mas uma das poucas vantagens de narrador é ter o poder de escolher e por assim dizer, vomitar a torto e a direito palavras, mesmo que não sejam as mais usadas. Retomemos ao que nos trouxe aqui. Lá foi o Maltês levar a estrangeira a casa, a pé para dispersar o cheiro, por um caminho que já tinha feito imensas vezes. À estrangeira pareceu-lhe mais distante do que nunca, uma viagem lenta e interminável quase em silêncio, tomando o ar fresco. O que nos deixa no início da história, a chaleira e o tokaj quente e o Maltês equilibrado a tirar os sapatos. 
Agora fiquei a pensar que talvez seja possível começar por aqui e ir ao contrário, e mesmo assim o enredo fazer algum sentido. Compreendo como estes apartes possam ser irritantes, prometo solenemente que foi o último, e que logo logo termino. 
O Maltês só bebeu o tokaj por educação, era doce e normalmente servia-se frio. Não é um dos meus favoritos apesar da fama e este que o proprietário húngaro ofereceu nem era mau. Ao contrário da maioria dos vinhos, este alcançava o fim da fermentação por ele mesmo. Era um processo interessante, antes de deixar a estrangeira o Maltês explicou-lhe como era produzido, a partir de uvas que eram colhidas tardiamente e cobertas de um fungo que lhes retirava a água, elevando o teor de açúcar. A estrangeira pediu desculpa pela noite, mas o Maltês no fim até estava satisfeito.




sexta-feira, 25 de julho de 2014

analepse

Há narradores de todos os géneros e feitios, os que pairam sobre a acção como almas penadas, os observadores que se contentam em contar a história a partir do que vêem, há o típico comentador desportivo que se emociona com os golos, e depois os intrusos que arranjam forma de entrar em cena. Uma coisa é certa, evitem imaginar-me a levitar por cima da mesa ou colado ao tecto enquanto atento às conversas. Não sou desses narradores com mania de suspensão, nasci com um dom e consigo ver e ouvir e até sentir o que palpita em cada um dos intervenientes desta história sem precisar de me debruçar demasiado. Se prestarem atenção, aquele sou eu sentado à distância a desfrutar do meu gin tónico. Voltemos então ao szimpla kert, ainda não falei da turca com nome estranho.
É precisamente quando o irmão do bochevista chega acompanhado pela moça turca, que a noite do Maltês começa a correr bem. Apresentações feitas, levanta-se o Maltês muito prestável e sempre cavalheiro para providenciar uma cadeira para a moça, ele e o proprietário húngaro são só sorrisos. Até eu lhe sorri, mas ela não viu ou se viu fez de conta. Trazia uma blusa curta a ver-se o piercing no umbigo e quase também se lhe via o peito daquele ângulo, lá foi o Maltês novamente cavalheiro e levou-lhe uma bebida, espreitou e dessa até lhe viu a tatuagem de uma serpente a trepar por ela acima. É fino este, quem diria! E o marido ou namorado ou lá o que ele é, sentado ao lado dela. Quem não achou muita piada foi a estrangeira, cansada de ouvir as teorias socialistas, bebia de todos os copos da mesa, no meu gin ela não tocou. A turca para além da blusa e da tatuagem, tinha um tique divertido de passar a língua sobre o lábio e uma pronúncia difícil de entender. O que pode ser grave quando se ambiciona ascender ao lugar de narrador, mas no caso dela parecia não ser prejudicial, eles ouviam-na atentos, curiosos e sempre expectantes que ela lambesse o lábio em busca da palavra certa. O namorado, irmão do bolchevista, não parecia incomodado pelos olhares que os outros homens lhe atiravam, mas cada vez que ela se enganava numa palavra ou expressão, ele apertava-lhe o braço para a corrigir. E ela obedecia com um sorriso. Ora bem, se até aqui não percebeu patavina do que estou a narrar é porque não leu o que está para trás, acho que apesar das minhas falhas me faço entender e preocupo-me por explicar todos os passos, por isso mais vale não continuar e dar uma vista de olhos ao anterior, o prolepse ou coisa assim, o moço ainda não atinou com os títulos.
Para além de mim, só a estrangeira da blusa das andorinhas reparou neste gesto controlador que lhe pareceu asqueroso. Levantou-se não sentindo o chão seguro, desaparecendo pela zona dos balneários. Foi mais ou menos nesta altura que uma das raparigas que trabalham no bar e normalmente só levanta copos vazios pelas mesas, se aproximou com um shot kamikaze que pousou em frente do Maltês, dizendo que era oferta da mesa em frente. Tem a certeza que não é para mim? perguntou o bolchevista, bastante confiante depois da atenção que a estrangeira lhe tinha dedicado. Ou para mim? Perguntava o proprietário húngaro, habituado a ofertas de ambos os sexos. Não havia engano, era mesmo para o Maltês e na outra mesa uma loira sorria, levantando um shot na sua direcção, fazendo a vodka mergulhar pelos seus lábios exageradamente vermelhos.
O kamikaze desceu pela garganta do Maltês aquecendo-o para a conversa que não precisaria de ter, quando a estrangeira regressou já ele estava na outra mesa, trocando brindes de vodka e triple sec. Entretanto eu perdi-me dos acontecimentos, demasiado electrizado com os calções curtos da loira, esqueci-me da tatuagem da turca e das andorinhas da estrangeira. Os bolsos saiam-lhe pelos rasgos, e até se conseguia ver-lhe a renda da calcinha, o Maltês não precisava de usar muito a imaginação, estava ali diante dele, e ela pavoneava-se deixando-se tocar, beijar, e entre mais um brinde, um recanto menos frequentado, roçava-se pelas pernas dele, quase tinha um ataque do coração.
Nunca se ouviu falar de narradores que têm ataques do coração, mas acontece, só que ninguém fala nisso. Preciso recuperar o fôlego para continuar, já volto…






quarta-feira, 23 de julho de 2014

prolepse

Apostar tudo enquanto a sorte está sentada do nosso lado, e podia ficar por aqui que já é tarde, quase meia-noite e estou cansado, pesam-me os olhos nas órbitas como se fossem de chumbo. Mas quando se é narrador a tempo inteiro, não nos permitimos arredar a atenção, dormir é para os fracos e mesmo que a cena pareça uma reprise, um déjà-vu contínuo, há pormenores que farão toda a diferença. Perdoem-me as eventuais falhas na prosa, as minhas limitações e um grão na asa serão culpas suficientes, mas fui bafejado pela sorte, estava ali quando aconteceu.
Ligou a chaleira para preparar um chá e lembrou-se da garrafa de tokaj que o húngaro lhe oferecera. O Maltês ainda estava na entrada, equilibrado numa perna descalçava o pé direito.
Já te estás a despir? Perguntou-lhe a estrangeira com um sorriso trocista e uma garrafa de vinho. Ganhara o hábito de se descalçar desde que chegará à Hungria, e quando entrou pareceu-lhe normal deixar os sapatos à porta e as meias suadas. Corou envergonhado com a observação, voltando a enfiar a meia e o sapato.
 Sentaram-se no sofá, ela mergulhou uma saqueta na chávena e deixou que ele se servisse do vinho. Só tinha copos rasos, mas ele não tinha vontade de ficar, bebeu meio copo em dois tragos e despediu-se.
Já vais? Disse coberta de desânimo, mas o Maltês estava irritado. A noite até começara bem no szimpla kert, previsão de aguaceiros a norte, com possibilidade de trovoadas e vento forte. Inesperadamente o grupo ganhara novas aquisições e na mesma mesa apertados sentava-se o bolchevista, o proprietário húngaro, o maltês que se descalçava, a estrangeira da blusa das andorinhas, e o irmão do bolchevista com a sua parceira turca.
Podia tentar usar os nomes com que foram baptizados, mas não consegui entender o nome da moça turca, e o “bolchevista” sempre o trataram por bolchevista, e a das andorinhas também tem um nome esquisito, maori ou coisa assim, e não sou muito bom com nomes, por isso vou referir-me às pessoas em questão baseando-me numa característica ou traço de personalidade.
Começo pela estrangeira da blusa das andorinhas, a que chegou há pouco tempo como um dia de chuva no verão, e vive agora no antigo apartamento de Alicja. A mesma que vai chegar a casa e ligar a chaleira, e procurar uma garrafa de tokaj que o proprietário húngaro lhe ofereceu juntamente com uma caixa de pastéis. Não levou o que queria em troca, o proprietário húngaro teria de se esforçar mais. A estrangeira era exigente, perder o chão era requisito e o proprietário húngaro apesar da sua marrafa e dos pastéis e do tokaj, faltava-lhe quelque chose! Depois foi a vez do Maltês. Este não precisa de apresentações nem que lhe some mais nomes, já todos o conhecem e Maltês será suficiente. Quando a chuva chegou, a estrangeira de olhos claros testou-o decretando que a tomasse ali mesmo, num recanto mal iluminado do terraço. Mas o Maltês raramente fazia o que lhe mandavam e muito menos fornicaria uma mulher sem que esta o desejasse. Dou por mim a pensar como mede ele essa intensidade. Ali estava ela a pedir-lhe que a fodesse, e ele a declinar porque não lhe parecia suficiente. Burro seria mais apropriado chamar-lhe.
A estrangeira passou então ao terceiro candidato, o “bolchevista”. Ora ai está uma alcunha apropriada que faz todo o sentido, mas será preciso acrescentar que o “bolchevista” apesar de bem-falante, não costumava ter muito sucesso com as mulheres. Talvez um banho, corte de cabelo e uma camisa de vez em quando, as mulheres apreciam essas subtilezas. E foi assim que encontrei a estrangeira da blusa das andorinhas no szimpla kert, babando atenção para cima do “bolchevista”.
Nesta altura as coisas ainda não estavam a correr bem para o Maltês. Ainda não cheguei a essa parte, talvez esteja a precisar de descansar um pouco, retomar a narrativa pela fresca.


quarta-feira, 16 de julho de 2014

fuçar



É possível ferir sem que o gume alguma vez toque a superfície frágil da pele e uma finíssima corrente delgada de sangue escorra pelo vértice do corpo.
É possível sim, não sentir o bafo das bebidas a mais que tomamos, nem seguir o olhar à procura das sombras no meio de tantos nomes, não roçar sequer ao de leve se não estamos no mesmo quarto, nem na mesma metade do dia.
É possível a dor. A soma obediente caída na cama de pernas entreabertas, esperando o peso morto fuçar.

Salientava à mesma hora nunca aqui chegar vindo de acolá como previu na cristaleira da família. Deixará de funcionar já no tempo do afonso quarto, mas ligava a tomada cada vez que aparecia para jantar, tirando nabos da púcara com muita destreza. Naquele tempo estranhava saber que pensava em mim e em gumes afiados, ambos citados na mesma página. Não lhe senti a falta quando a cortei, é possível esquecer que sentimos.
É possível sim, ferir sem grito ou uivo. Admitir a natureza áspera num recanto tão obscuro e remoto, mas gostava do controlo do leme, de segurar pelos braços numa amarra, curvada pelo colo tão servil e húmida, mas a pele era desfeita de vidro, fria à tona mesmo na intimidade.
Uma coisa é certa, nunca estivemos tão próximos... a não ser em sonhos impossíveis.


domingo, 6 de julho de 2014

fornício



... ou “Passos Coelho vai apresentar estudo para natalidade” 

Afinal parece que deu poucos resultados aquele "franchising" Governo/Agência de viagens, e depois de mandarem tantos portugueses lá para fora, melhorando um pouco os números do desemprego, agora querem que os portugueses tenham mais filhos. Diz assim o expresso ”blá, blá, blá… apresentação de um estudo encomendado por Passos Coelho para promover a natalidade (…) o Governo deverá tomar medidas para incentivar os nascimentos.” 

Já estou a ver que terão de colocar mais uma adenda à tabuleta Governo/Agência de viagens/Clínica de fertilidade… por mais voltas que dê, não sei como vai o governo descalçar esta bota. Para começar, talvez fosse boa ideia deixar de distribuir gratuitamente contraceptivos nos centros de saúde, substituir as aulas de educação sexual por festas de finalistas, descer a idade mínima permitida para a compra e consumo de bebidas alcoólicas assim para os 14 anos… começava por ai, para incentivar os mais novos! E depois uns subsídios, para quem tivesse muitos e assim os casais podiam ficar em casa em frente à tv todo o dia, bem todo o dia não… se calhar também era uma boa medida baixar um pouco o nível da qualidade da programação, repetir várias vezes ao longo do dia as mesmas novelas, muitos anúncios, ou então passar o discurso do cavaco no dia de Portugal por exemplo, para incentivar o acto de copular… 

Mas os gajos fizeram bem em encomendar um estudo, afinal pago impostos para alguma coisa, nunca me tinha ocorrido que isto seria um problema. Quem não tem filhos nem se apercebe, não lhes sinto falta… mas no futuro, quem vai garantir a minha reforma? Quem vai trabalhar e fazer descontos para que eu possa ter uns anos de descanso? E o que vamos fazer a tantos infantários, escolas e professores, e maternidades, e pediatras, parteiras… e a nestlé…? Quem vai comer as papinhas para bebés? E a dodot, o que vai ser da dodot quando não houver bebés em Portugal? E a super bock? E os festivais de verão quando não houver jovens em Portugal? Que será dos velhos quando não houver quem tome conta deles? 
Não posso estar mais de acordo com o Passos, encomenda-se um estudo e vamos lá resolver a coisa. Se calhar vão recomendar aos jovens que retornem ao país, ou pelo menos as mulheres em idade fértil, e manda-se para fora os velhos, os que já não estão em condições. Se calhar até os púnhamos em icebergues como fazem lá no norte… eles estão muito à frente! E se tudo isso não for suficiente, se calhar em vez de premiarem um audi, premiavam um berço, uma cadeirinha ou 100 unidades de fraldas, sei lá… só estou a ver isto assim de repente, por exemplo o desemprego e a precariedade do mercado de trabalho, o aumento do número de horas de trabalho, a diminuição dos ordenados, aumento de impostos, a instabilidade profissional… não vejo como isso possa ser problemático, nã sei… 

... o que sei é que estamos sempre a ser fodidos, mas desta vez será sem preservativo!


sábado, 5 de julho de 2014

estômago

Subiu os três lances de escadas com a bicicleta ao ombro, o suor escorria-lhe pela fronte, pingando pelo tapete da entrada. Descalçou-se sem desatar os nós e depois descolou a roupa pegada à pele, refrescando-se rapidamente com um duche de água fria. Sentou-se exausto no fundo onde o esmalte ia sendo arrancado à superfície da banheira, pelo corpo corriam-lhe gotas apressadas que se uniam no precipício do ralo. Fechou os olhos, no andar de baixo discutiam, e se não fosse o rádio alto do vizinho maneta, quase que podia ouvir o mesmo de sempre.
O estômago roncou, tão alto que se calaram no segundo, de olhos postos no tecto faziam as pazes por respeito. No apartamento do lado, o velhote baixava o volume do rádio e vinha à janela ver o que se passava. Não tinha almoçado, aguentara o dia com uma carcaça branca barrada com manteiga e um café. Enrolou uma toalha ruça pela ilharga e abriu o frigorífico.
Desde março que a lâmpada estava fundida, mas como se atrasava sempre no pagamento da renda, e a senhoria era compreensiva, pensou ele mesmo comprar e trocar, mas só quando abria o frigorífico é que se lembrava. A ideia desaparecia assim que fechava a porta, porque durante o dia nem lhe fazia grande diferença, e mesmo à noite não era grave, às apalpadelas dava com a garrafa de água reenchida da torneira a refrescar no compartimento da porta.

Havia uma lata de cerveja, ainda presa ao anel de plástico da embalagem de seis. Meteu uma refeição congelada no forno, lavou um talher e ligou a tv. “…austeridade empurra por ano mais de 100 mil pessoas para fora do país em busca de melhores condições de vida.” O estômago voltou a roncar.

terça-feira, 1 de julho de 2014

ofídios



Ela chegara como um dia de chuva no verão, transtornando o marasmo fecundativo dos insectos com gotas obscenas, amotinando de supetão os olhares descomprometidos que se juntavam pelas ruínas de prédios ocupados, onde o mobiliário nunca se combinara e algo habita no forro de cada sofá. O ar então se enchia de ferorvalho, palavra inventada por Kika Castro, soando mais cheirosa que petricor, e ela caminhava rente ao chão no reflexo da iluminação nocturna, como se toda ela deslizasse de sandália aberta. 

Era a segunda noite consecutiva que sonhava com serpentes, enroladas em algas marinhas, oscilando num lento movimento, todas as cabeças me fitavam com as suas pupilas verticais. Não as temi e continuei a descer em direcção à enorme carapaça vazia, ignorando os aviso sobre a que chegava de nuvens cinzentas bordadas na esclavina, alvoraçando os répteis, julgando-me livre dos seus efeitos, não prevendo a tempestade nem o tamanho da vontade que a movia. 

Eu olho tudo e raramente vejo. 

Três ou vinte vezes tentou reproduzir o meu nome acima do ressoar eléctrico, deixando que a chuva a marcasse, chamou-me até acertar o tom. Desmaiavam-lhe pelo rosto partituras a negro caídas dos olhos, o copo vazio invertido na mesa, a blusa colada ao peito e na transparência senti-lhe a perfeição aureolar destacar-se no toque. A boca entreaberta exalava apenas desejo, confundindo a fome com a necessidade que sacudia por dentro, ardendo sem palavras, sem idioma para gritar ou corrigir. Apenas lábios, expectantes por sentir o sal lavado da pele na insipidez da chuva. 

Fode-me líquida, pediu.



glossário mínimo:
petricor: (do grego petros, "pedra" + icor, "fluido eterno" ) é o nome do aroma que a chuva provoca ao cair em solo seco.
ferorvalho: termo inventado por Kika Castro para petricor
http://kikacastro.com.br/2011/07/16/o-nome-das...
esclavina: opa de escravo ou de cativo resgatado
ofídios: Ordem de répteis colubriformes.