terça-feira, 1 de julho de 2014

ofídios



Ela chegara como um dia de chuva no verão, transtornando o marasmo fecundativo dos insectos com gotas obscenas, amotinando de supetão os olhares descomprometidos que se juntavam pelas ruínas de prédios ocupados, onde o mobiliário nunca se combinara e algo habita no forro de cada sofá. O ar então se enchia de ferorvalho, palavra inventada por Kika Castro, soando mais cheirosa que petricor, e ela caminhava rente ao chão no reflexo da iluminação nocturna, como se toda ela deslizasse de sandália aberta. 

Era a segunda noite consecutiva que sonhava com serpentes, enroladas em algas marinhas, oscilando num lento movimento, todas as cabeças me fitavam com as suas pupilas verticais. Não as temi e continuei a descer em direcção à enorme carapaça vazia, ignorando os aviso sobre a que chegava de nuvens cinzentas bordadas na esclavina, alvoraçando os répteis, julgando-me livre dos seus efeitos, não prevendo a tempestade nem o tamanho da vontade que a movia. 

Eu olho tudo e raramente vejo. 

Três ou vinte vezes tentou reproduzir o meu nome acima do ressoar eléctrico, deixando que a chuva a marcasse, chamou-me até acertar o tom. Desmaiavam-lhe pelo rosto partituras a negro caídas dos olhos, o copo vazio invertido na mesa, a blusa colada ao peito e na transparência senti-lhe a perfeição aureolar destacar-se no toque. A boca entreaberta exalava apenas desejo, confundindo a fome com a necessidade que sacudia por dentro, ardendo sem palavras, sem idioma para gritar ou corrigir. Apenas lábios, expectantes por sentir o sal lavado da pele na insipidez da chuva. 

Fode-me líquida, pediu.



glossário mínimo:
petricor: (do grego petros, "pedra" + icor, "fluido eterno" ) é o nome do aroma que a chuva provoca ao cair em solo seco.
ferorvalho: termo inventado por Kika Castro para petricor
http://kikacastro.com.br/2011/07/16/o-nome-das...
esclavina: opa de escravo ou de cativo resgatado
ofídios: Ordem de répteis colubriformes.

Sem comentários:

Enviar um comentário