quarta-feira, 28 de novembro de 2012

assaltante


*um 'A' que salta compulsivamente

Admirei a porta antiga antes de a puxar com cuidado. Já não se vê muitas assim, caixilhos de madeira envidraçados, distorcidos pela diluição imperfeita a quente. O longo puxador em latão rodou, solta a madeira suja, e baixei a cabeça para entrar numa dimensão condensada, um universo paralelo, aquecido pelas lãs empilhadas por gradações, mais escuras no topo. Trapos enrolados enchiam as prateleiras médias, linhas coloridas em novelos para todos os tamanhos, bobinas de fitas e caixinhas com botões sem casas, alinhados da esquerda para a direita. Desde o tecto até ao chão velho, grandes estantes cobriam as paredes, dois balcões emparelhados, corridos em paralelo, delimitavam a arena central onde não coabitariam muitos clientes.
A minha entrada surpreendeu uma senhora que acabara de chegar aos cinquenta, e o dono da loja, atrás do balcão esquerdo, que não teria setenta, mas que lá perto andava. A senhora com um penacho emproado muito loiro, sacou com frieza e desconfiança exagerada a bolsa grande posta no balcão oposto.
Boa tarde, disse, tentando um sorriso de venho em paz, não ando no gamanço, mas não foi suficiente para os tranquilizar, a senhora apressou-se na escolha de dois metros daquele e três do outro.
Passei a mão pela barba e reparei na minha figura espelhada na porta, sobre o contraste negro da noite que já se tinha posto, e ainda não eram sete da tarde… até eu teria medo de mim. Amanhã vou cortar esta guedelha, pensei, já me cobre as orelhas, sabe bem de manhã cedo, mas fico com ar de ministro… e a barba, compro lâminas a caminho de casa, não passa de hoje.
A tesoura tremia no balcão à medida que abria o tecido e os olhares postos de lado deixavam-me incomodado. Para comprar linha e uma agulha podia ter ido ao chinês. Enfiei as mãos nos bolsos do capote marinho e trauteei o fado do ladrão enamorado,
Nunca fui grande ladrão
Nunca dei golpe perfeito…

terça-feira, 27 de novembro de 2012

महिलाओं *

*(aurat) mulher

quando por fim repousou a cabeça sob a almofada ortopédica, já o marido roncava de bruços, tal e qual uma morsa de farto bigode, esparralhado no colchão como se tivesse acabado de dar à costa. nem deu pela sua presença, nem quando aproximou os pés frios e cheios de joanetes, na esperança que ele rodasse para o lado oposto, e quem sabe até tombasse do leito.
estava quase a adormecer, embalada pelo assobio seguido do grunhido que sacudiam as molas com harmonia, imbuída nas vidas alheias, satisfeita com as nomeações lá da casa da dona teresa, quando uma música estranha ecoou por todo o apartamento. tacteou no escuro a cabeceira e atirou num golpe veloz o copo, onde guardava em água a dentadura. levantou-se aflita e confusa, pisando a alcatifa bordô encharcada, maldizendo em surdina o vizinho de cima… é o diabo aquele, a mim não me engana…

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

impressão

Dona Filomena sempre vestira e falara como uma professora de província. Ali debaixo de cristo pendurado na cruz, despedaçava um pedaço de giz na ardósia, e no negro nasciam palavras odiosas. Naquele dia anunciou “expressão escrita”, um murmúrio insatisfeito atravessou a classe, e mesmo depois de revelar o tema com um sorriso irónico, o gaiato continuava a fintar o gesso branco, reduzido a palavras pelo deslizamento contra a superfície escura e brilhante do quadro. Engoliu em seco, e com as mãos unidas, não rogando aquele ou outro cristo por ai dependurado, pensou no doloroso encontro com a régua de madeira.

Se bem me lembro era uma régua maciça, nascida não sei de que árvore, sem marcações, cujo único propósito era o castigo. A mão estendida era segura pela ponta dos dedos, e na palma eram aplicados quantos golpes, em proporção directa com a quantidade de erros.

Ainda estava o gaiato de esferográfica a pairar incerta no ar, driblando sobre a linha vazia, e toda a turma já havia partido, enchendo pelo menos quatro ou cinco rectas, letras perfeitas, outras nem tanto, organizadas, provavelmente sem erros. O moço embirrava com as letras, desprovidas de cheiro, cor ou paladar, trocava-lhes a ordem e o som, abdicava da acentuação, não se entendia com a semântica, muito menos com a pontuação… o medo e a vergonha enchiam-lhe o rosto, no apoio da carteira, cruzava as pernas evitando que estas tremessem, e a mão assente junto ao caderno deixava um contorno ressoado, em tudo parecido a uma outra mão que tinha visto, pintada a vermelho no interior de uma caverna.

Os últimos grãos espremeram-se na âmbula superior e a professora deu por terminado o tempo, recolhendo um a um os cadernos. A classe estava frenética, partilhando com contenção e alguma unanimidade as ambições de serem astronautas e jogadores de futebol, ou bailarinas e professoras, cópias exactas daquela que lia, segurando os óculos no delíquio do nariz. O gaiato mantinha-se reservado, nem tentou explicar, cometera um erro gravíssimo, pior que qualquer erro ortográfico, sabia que seria a chacota de toda a turma, zombariam dele até ao fim da instrução primária… e tu, o que é que queres ser? Não respondeu, desligou os sentidos e viajou pelos sulcos do soalho muito velho.

Organizou simetricamente os pequenos cadernos pautados, e da gaveta superior retirou a régua. O silêncio instalou-se confortavelmente num dos lugares vazios para assistir ao rol de condenações e condecorações, que também as havia em forma de quadradinho de papel com um carimbo, quase sempre representaçõs da fauna e flora. Hesitante a professora levantou-se, e dirigiu-se para o quadro preto, deixando bem no centro a palavra “arqueólogo”. Ninguém sabia dizer o que era, ou o que fazia, nem mesmo o gaiato que escrevera “quando for grande quero ser um cientista que cava buracos e desenterra o passado. Vi num livro que o meu avô tem, cavernas com desenhos e ossos de animais grandes, que já não existem. Foram uns senhores que descobriram, estava tudo coberto de terra. Se calhar quando for grande já não há coisas dessas para descobrir, mas posso sempre desenterrar computadores e coisas que agora usamos.”

Nesse dia a professora não usou a régua, mas também não distribuiu prémios.
O gaiato para além de descobrir a vocação, descobriu que afinal gostava das palavras e as palavras gostavam dele, de tal forma que se tornariam próximos no futuro, como amantes.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

salsa

Desta vez parti para a cozinha com pouca convicção, compelido mais pelo desconforto que um vento de norte vestiu, do que pela ausência de forro no estômago. Precisava de uma sopa, daquelas capazes de aquecer o corpo e erguer o espírito, mas desde manhã que não conseguia enfrentar a pilha de loiça que se amontoava com data incerta, garantindo-me pelo cheiro que os pratos mais abaixo tinham vestígios de organismos recém-formados, pedaços escuros de vida mofada. Respirei fundo, mergulhando na espuma do fairy tudo o que era prato, copo, talheres, até ficar com um amontoado de loiça brilhante e cheirosa, equilibrando-se perigosamente na vertigem da pia vazia.

Procurei a receita no meio dos papéis promocionais, havia algures uma sopa de castanha num desses do minipreço. Devo ter passado por ele meia dúzia de vezes e não o vi, parece que é algo que está relacionado com uma característica que acompanha os homens desde o paleolítico, não encontrar o que está diante dos nossos olhos e esquecer sempre de lavar aquele tacho que fica em cima do fogão. Pergunto-me se haverá uma explicação desse tipo para aquela atitude comum em muitas mulheres, à porta do supermercado, prometendo o que já sabem ser impossível:
“já volto, vou só buscar um raminho de salsa!”
duas horas depois lá aparecem, empurrando três carros cheios de compras, e quase sempre chegam a casa sem a salsa. Não me interpretem mal, não me incomoda ficar à espera, nem de carregar depois as compras cinco andares sem elevador, nem mesmo ter de voltar ao supermercado para comprar a bendita da salsa... há 160 mil anos, mais coisa menos coisa, teria de dar caça a um mamute, usando nada mais que pedras lascadas e um cérebro acima da média, imaginem o que seria depois carregar o bicho… e sem carrinho de compras, que a roda ainda não tinha sido inventada… Salsa, vou precisar de salsa, castanhas, e cogumelos.