sábado, 31 de janeiro de 2015

difuso

Inclinei-me sobre o óculo e surpreendi-me ao ver a vizinha idosa que morava no apartamento ao fundo do corredor, especada à minha porta, num domingo bem cedo insistindo na campainha. Se fosse outra pessoa teria voltado para a cama, mas a senhora vivia sozinha desde que o marido falecera. Encontrava-o muitas vezes à noite, quando andava a passear o cão com focinho de raposa, gordo como um barrasco. Fazia-lhe uma festa e trocava dois dedos de conversa sobre o frio ou a nova contratação para o plantel do sporting. Um mês depois, morreu o cão que parecia um porco.
Vesti uma t-shirt e umas calças de treino e abri a porta, pediu desculpas pela hora, era evidente que me tinha interrompido o sono, o cabelo amassado para o lado mais preguiçoso, remelas condensadas nos cantos dos olhos, encarando com dificuldade a luminosidade da manhã. Tinha-se fechado com a chave por dentro, a idade pregava-lhe estas partidas, e a vizinha de cima, uma moça nova muito bonita por sinal, tinha-lhe contado como eu tinha aberto a sua porta usando um cartão. A minha fama de larápio com cartão crescia, calcei as sapatilhas sem meias, procurei um cartão que não fizesse falta e caminhei com a vizinha até ao fundo do corredor, depois foi só entalar o cartão entre a porta e o caixilho, faze-lo descer com alguma força e a porta abriu-se.  

Uma semana depois voltei a encontra-la no trajecto de casa, dobrada pelo peso dos dois sacos do supermercado, caminhando numa resistência lenta. Pensei na minha avó, o cabelo quase todo branco, a pele enrugada caindo sobre os ossos e então ofereci-me para lhe carregar as compras, diminuindo a passada até a conseguir acompanhar. Foi nessa altura que me falou da reunião de condomínio, e da conversa que tinha tido com a vizinha de cima, a das toalhas amarelas que tinha ficado presa na varanda. O assunto teria vindo à baila por causa do estranho roubo das embalagens de leite, onde eu surgia como principal suspeito. Ao que parece, os vizinhos do último carregaram o elevador com as compras do mês, mas haviam deixado um volume de seis embalagens de leite a segurar a porta. Quando voltaram, o leite tinha desaparecido. Pelo meio da história, voltou a salientar a beleza da jovem vizinha do segundo andar, e de como não via qualquer relação entre a minha capacidade de abrir portas e do roubo do leite. Eu nem sabia da história do leite, muito menos das acusações que me eram dirigidas. Era verdade que tinha alma de ladrão, mas evitava os roubos na vizinhança- Aconselhou-me a estar presente na próxima reunião, segurando-me no braço para reforçar a ideia, o facto de não ir levantava suspeitas, e sempre teria um pretexto para meter conversa com a do segundo, que era solteira, ela tinha a certeza disso. 


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

infiltração


... ou a vontade de ocultar partículas de tempo.



domingo, 18 de janeiro de 2015

lobo


Os lobos não têm grandes bochechas, não são como os esquilos ou os castores, por isso ficava sempre impressionado quando a minha mãe contava como num sopro o lobo deitara abaixo uma cabana de palha, mais impressionado ainda com o que fazia a seguir à construção de madeira. Imaginava que o seu sopro seria dos mais poderosos à face da terra, o bicho dava um passo atrás, enchia os pulmões e arrasava com tudo. Quando era miúdo já tinham tratado de o exterminar por aqueles lados, nunca vi nenhum em liberdade, só uma vez apareceu uma ovelha ferida e toda a gente começou a gritar lobo. Confesso que mantenho uma ténue esperança de um dia vislumbrar um por entre a mata densa. Naquele tempo, por segurança, as casas eram todas de tijolo e cimento.

A minha mãe não lia de um livro, embora não faltassem lá em casa, ela sabia de cor todas as histórias, e as que não sabia, inventava na medida do meu sono. Às vezes tentava trocar os personagens para confirmar se ainda estava desperto, ou dava uma reviravolta surpreendente no guião, levando-nos de supetão para o “e viveram felizes para sempre”. Mas eu estava atento, reparando nas falhas da história, reclamando as cenas cortadas pelo cansaço. Não adormecia com a facilidade de agora, havia tanta coisa boa para fazer, dormir parecia uma perda de tempo quando o mundo fervilhava com lobos que deitavam casas abaixo, pés de feijão gigantes e impressionantes gatos que usavam botas.

A dos três porcos construtores era das minhas favoritas, a minha mãe fazia o lobo soar assustador quando ameaçava os porcos, soprando na minha cara no escuro do quarto, e depois tinha três vozes distintas para os porcos, uma infantil para o mais novo, descontraído para o do meio e sério para o mais velho. Era uma emoção, mesmo quando já sabia que ia terminar com o lobo desmaiado com falta de ar.

Demorei alguns anos a entender o que era o lobo, foi mais ou menos na altura em que comecei a erguer construções de palha na minha vida. A minha mãe bem avisara, o bicho chegava pela calada e nem sequer batia à porta, astuto, silencioso, enchia os pulmões e num sopro forte arrastava tudo o que não era cimento. Com alguma paciência voltei a erguer as paredes, depois um tecto, de palha que sempre foi mais rápido e muito económico, sobrando-me tempo para coisa nenhuma.

Engraçada esta coisa das histórias, vertem-se da memória sem darmos conta delas, escorregadias lições ocultas de valor incalculável. Naquele tempo era comum, sentados em torno da mesa ou junto do lume, ouvindo o que os mais velhos guardavam nas rugas e escaninhos da memória. Ansiava tomar aquele lugar respeitado, possuir a atenção da plateia enquanto narrava com todos os pormenores, por exemplo aquela vez que entrei no avião errado e atrasei o voo a 250 passageiros, ou daquela outra em que cozi o bacalhau no wc numa passagem de ano, porque chovia a cântaros, mas o que importava era terminar com um final feliz, e nessa parte ainda não lhe tomei o jeito, como vão poder reparar.
Como me tornei no porco preguiçoso, é outro mistério. Eu sempre quis ser o lobo.




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015