segunda-feira, 31 de março de 2014

zagalote

ou simplesmente... Carta para mim, a ler daqui a 10 anos

Olá eu,
Que rico começo, mesmo patético, nem sei bem o que escrever. Nem sequer que registo utilizar. É tão raro nos dias que correm escrever uma carta, mais raro ainda escrever uma para ser lida daqui a 10 anos. Escrever para nós próprios não posso dizer que seja raro, é mais do tipo estúpido, mas vendo bem, é um bom exercício de escrita, e daqui a 10 anos será com certeza hilariante.
Assim sendo, não vou ser sério, seria um desperdício de seriedade, já tenho tão pouca… pois é, este sou eu há 10 anos atrás, no ano de 2014, lembraste? Pouco sério, mas com cabelo, uma ou outra branca.

Espero não ter mudado assim tanto, e que passado todo este tempo, esta carta te vá encontrar, ou que nos vá encontrar bem de saúde. Espero também que tenhas feito algo útil da nossa vida, em 36 anos não consegui grande coisa. Nunca fui de pensar muito no futuro, mas imaginava-me por esta altura casado, com três filhas e a caçadeira atrás da porta sempre carregada com cartuchos de zagalote.
Casei cedo, cedo demais talvez. É nisto que dá as pressas… Mas conto sinceramente que tenhas pensado bem no nosso futuro, e que não vivas sozinho, nem debaixo da ponte. Que tenhas pelo menos um canto teu, não é preciso que seja um castelo, um tecto humilde é mais que suficiente. Era bom que tivesses encontrado uma companheira, e que até tivessem uns rebentos, até pode ser só uma menina. Menina, ouviste? Tenta fazer alguma coisa de jeito...

Não imagino sequer no que estejas a trabalhar, a vida já deu tantas voltas, mas o que importa é que sejas feliz, que isso basta. Nunca vi este destino, nem quando a Mira descalçava as botas e me agarrava a mão nas suas encarquilhadas de velha, mas quem sabe esta linha foi traçada muito depois, torta, sem sentido. É curioso que estou a escrever para mim no futuro e pareço o meu próprio pai!

Disse que não ia ser sério, mas raramente faço o que digo. Agora pega num papel se ainda houver disso e escreve-te para daqui a mais 10 anos, vá, não tenhas receio. Mesmo que não te chegue às mãos, alguém é capaz de a encontrar por mero acaso em cima do guarda-fatos.
Com saudades,

Eu


decíduo


Todos os anos, em meados do mês de março, tinha o hábito de anunciar a meio de qualquer conversa, que a prima estaria para chegar, e todas as vezes conseguia a mesma pergunta: qual prima? Ao que ele respondia, mal contendo um sorriso, a Vera…! Qual Vera? agitava-se a minha avó, caindo sempre na esparrela. 
Por essa altura também, estação dedicada a grandes limpezas e arejo das roupas lá em casa, a minha avó encontrou escondido por cima do guarda-fatos, uma lista. O meu avô tinha falecido no último inverno, depois de uma renhida luta com a doença. No fim já pouco sorria, sabia que não chegaria a ver o cerquinho com nova folhagem, ninguém anunciaria a chegada da prima, aquele comboio parava por ali. Exausto baixou os braços, arrumou as luvas e despediu-se com relutância. 
A lista ficou por lá, não muito tempo, um pequeno pedaço de papel escrito pelo seu punho, onde deixou registado todos os livros que havia emprestado. Porque para ele não havia maior tesouro que os livros, estimados, folheados, absorvidos na curta existência, sim, que a vida era uma dádiva, como se fossemos leões livres na savana, e as árvores tratava como amigos. 


sábado, 15 de março de 2014

metamórfico

Como se chama o maldito do cão? Pensei, enquanto o via descer pela rua numa correria insana, apavorando os transeuntes de caraças esquálidas. Acho que era a primeira vez que tinha de o chamar, nunca antes surgira aquele pastor-alemão de juba reluzente muito farta pelo lombo. Então atirei um nome antes que o perdesse de vista. Leon, gritei, como se fosse íntimo com o escritor russo, e o encontrasse por mero acaso longe de Astapovo. O cão derrapou no passeio, fincou as orelhas espertas no ar e rápido como um raio inverteu a marcha, correndo como um doido com a língua ao dependuro na minha direcção, quase deixando-me no chão com a força do reencontro. 
Só hoje reparei que nos sonhos as esquinas cruzam ruas que nunca se encontraram. Aquela que descia parecia Pinto Bessa, larga e cinzenta na sua promiscuidade, desaguando desinteressante na estação de Campanhã. A outra que lhe dava esquina parecia a travessa de S. Brás, estreita deitada à sombra de um muro morto, que na verdade faz esquina noutra parte da cidade com a Antero de Quental que desce abrupta, rematada no largo da Igreja da Lapa. 
Lá o chamei e dobramos a esquina que não cruzava com a rua certa e senti que fazia falta uma trela. Era obediente o canídeo, mas precisava de ir a uma loja não sei de quê, que perdera entretanto todo o interesse porque não tinha como o segurar. E era grande, como um lobo. Mas afinal já não morava ali perto, ainda tínhamos muitas ruas para atravessar e em cada uma voltava o receio de que algo de mal lhe pudesse acontecer. 
Procurei o caminho mais curto, acelerando a passada, e em cada esquina despontava uma rua aleatória, mas eu seguia convicto. Perdi-o de vista por breves segundos na reentrância de um prédio. Leon, gritei duas vezes, e ele surgiu transformado num grande penacho de dente-de-leão, pairando na brisa amena à espera que o alcançasse. As cípselas compostas por pêlos finos estavam húmidas, esquecerá por completo que quando se molhava no dorso transformava-se num outro ser. Sequei-o com cuidado, patas articuladas tomavam o lugar das sementes, e de um tronco minúsculo surgiam duas esferas muito negras que me olhavam com a mesma dedicação. 
Agora cabia num bolso, fiquei mais tranquilo e pensei voltar à tal loja ou então procurar uma paragem de autocarro e regressar a casa com o estimado metamórfico. As camélias já estavam floridas, e o cão seco passeava feliz pelas minhas costas na forma de um aracnídeo pernilongo. Mal o sinto, até que o perco. 


terça-feira, 4 de março de 2014

escala



Nas imediações de Szombathely vivia um homem sozinho. Era um homem de meia-idade, sem qualquer atributo físico que valesse a pena destacar, de estatura mediana e destituído de finura, igual a tantos homens nascidos por aqueles lados. Talvez o mais inusitado na sua pessoa fosse o facto de viver algures perto de Szombathely. Para quem não sabe, Szombathely foi a capital de Panónia Prima, uma província romana criada por volta do ano de 296 que incluía partes da moderna Hungria, Croácia, Áustria, Eslovénia e Eslováquia. 

E podia ficar por aqui, tudo o que havia para dizer sobre este homem resumia-se a meia dúzia de linhas, não fosse ele ter respondido a um pequeno teste de felicidade relativa composto por dezoito perguntas e obter um resultado muito abaixo dos vinte e seis pontos normais, concluindo-se que seria a pessoa mais infeliz nas imediações de Szombathely. Um mês depois espalhou-se até à capital, em menos de meio ano a notícia alastrara-se pelo globo, e no jornal da noite directamente das imediações de Szombthely, podia contemplar-se o homem mais triste do mundo, que lá vivia sozinho.