terça-feira, 24 de setembro de 2013

ressaca II

Jochen levantara-se cedo para ir trabalhar como fazia num dia normal, disfarçando o gozo que lhe dava a minha expressão sujeita às leis de uma ressaca. Da noite anterior só restava a dor de cabeça e uma lição para a vida: Nunca, mas nunca beber com Polacos! Inventam tradições que nos levam a despejar o copo pela garganta abaixo e repetidamente o enchem até derramar, brinde após brinde, num decíduo vértice.

No final do jantar ofereceu a companhia da namorada para me levar a ver Budapeste no dia seguinte, a minha folga. Quando a própria insistiu no passeio, não resisti e interroguei-me se haveria alguém que lhe recusasse fosse o que fosse! Nessa altura ainda estava bastante sóbrio, depois saímos e paramos num bar checo de dois andares, lembro-me do sítio, dos seguranças como colunas gémeas ladeando a entrada, dos bancos corridos de madeira, da música ao vivo a meia-luz, do chão bastante sujo e gasto, do sabor da cerveja num grande jarro e dos vários shots de vodka que me atiraram direito para dentro de uma centrífuga.

Não devia ter dito que sim, uma tour pela cidade naquelas condições tinha tudo para correr mal, seria um longo e doloroso desperdício de tempo. Mas era tarde para voltar atrás, e lá estava ela à minha espera no Scirocco perfumado, acenando como uma estrela de Hollywood.
Arrancou a todo gás, com a terra a girar demasiado depressa, cada depressão na estrada assemelhava-se a um Grand Canyon de mil e muitos metros de profundidade, e à medida que voltava a ser cuspido para o assento, conseguia distinguir as diferentes camadas de sedimentos. Agoniado, concentrava-me na próxima cavidade do piso. Guinou sem aviso parando abruptamente em segunda fila em frente a um pequeno mercado dizendo que já voltava, não fosse o cinto teria lambido o porta-luvas. Aproveitei para baixar o som ao rádio, fechei os olhos e por breves instante olvidei o perfume, riscando por cima até deixar de ser legível, mas assim que voltou e num gesto automático de todos os dias, subiu ainda mais o volume, acompanhando a música com um playback teatral, empunhando o microfone a poucos centímetros da minha cara. Apesar de irritante, não deixava de ser extremamente sensual, mexendo os lábios vermelho vivo sem soltar um ruído."Do I wanna know?"

A segunda paragem foi na outra margem do Danúbio, direcção assistida a músculos, estacionou o desportivo de dezasseis válvulas com destreza num espaço mínimo. Mesmo de estômago vazio, sentia insegurança no vácuo, do rio subia um ar renovado, agradável, e sem querer saber de destino caminhamos por entre prédios de arquitectura harmoniosa. "A unique blend of old and modern..." foi o que ela disse!

“A unique blend of old and modern..." servia para descrever a arquitectura de Budapeste mas também o conteúdo das nossas conversas, bem como a aparência dos interlocutores. De barba por fazer e olhos pesados, assemelhava-me a uma pilha de ruínas romanas decrépitas, na sombra de um belo edifício art nouveau com “curvas violentas e repentinas geradas pelo estalar de um chicote”.

Três mil forints e uns trocos, o equivalente a cerca de onze euros por uma fatia de Csoki Álom, ou sonho de chocolate, e uma água gasificada com dois copos. A aversão pela comida afastava-me o olhar pela decoração rica da sala, suspensos lustres, espelhos embutidos em molduras trabalhadas, mesas espaçadas com turistas que fotografavam os pratos. Mas tinha bom aspecto, Alicja fechava os olhos a cada colher cheia que levava à boca, exuberante nos seus vinte e poucos anos, calções curtos e lingerie berrante. Não fosse a ressaca amarrar-me ao mastro, e esta sereia com lábios de chocolate e corpo de mulher seria irresistível, mesmo sem cantar.

Deixamos a praça József Nádor e acompanhamos o rio de eléctrico, a paisagem como pano de fundo é só um pretexto, trocamos palavras como quem troca presentes entre estranhos numa cidade estranha, muito se vai perdendo na tradução. Como se diz lábios em polaco? Como se diz fode-me em português...
Deixamos o eléctrico e corremos para um autocarro, ligeiramente alheios do resto, a cidade passa por nós e não se incomoda.
Planeou um passeio pela ilha Marguarita, bem no meio do Danúbio, antes do almoço alimentamos os póneis, visitamos as galinhas e os porcos peludos. No saco de lona traz os restos do jantar, kotlet schabowy e mizeria, até o cheiro me dá náuseas, e ela molha o pão nas natas com iogurte onde bóiam pedaços de pepino, em tudo parecido com o que vomitei na noite anterior.

Deito-me na relva, a fraqueza foi tomando conta dos membros, o estômago não pede alimento, as nuvens afastam-se e o sol por momentos ganha protagonismo aquecendo-me. Ouço-a falar, mas cada vez mais longe, mais distante até deixar de a entender e o tempo parar, talvez tenha adormecido, talvez me acorde com um beijo de ninfa e bafo a pepino!

sábado, 21 de setembro de 2013

ressaca

Quando acordei, a noite passada era só um borrão indefinido, na boca o sabor amargo do arrependimento e no estômago, dois copos de água não se vão aguentar por muito tempo. A custo levantei-me, meia hora e ela vai estar à porta, buzinando num Volkswagen Scirocco GTX 16V. A cabeça pesa o dobro sobre os ombros, equilibrada cuidadosamente, cambaleando os pés até ao chuveiro.

Debruço-me pela sanita, uma convulsão seguida por um arrojar de água e espuma, espero pelo resto, mas não há mais nada. O cheiro do desinfectante pendendo no bordo aviva-me a memória, fragmentos da noite vão-se colando. Quando aqui chegamos, Jochen encheu um copo de água e mandou-me para a cama, lembro-me que ajoelhei em frente à sanita, devoto ao deus misericordioso da ressaca, e vomitei pedaços de kotlet schabowy e vestígios da salada de pepino, tudo desregradamente regado com vodka.

A barba vai ficar por fazer, já não sobra tempo, por baixo dos olhos acham-se duas manchas escuras. Podiam ser mais escuras, ainda estava no bar quando me levantei e apercebi-me que tinha transposto o limite, mas já o bar ia deslizando nas ondas de um mar revolto, e agarrado ao balcão lá consegui alcançar o balneário. Recordo-me que em frente ao espelho ofereci a mim mesmo duas bofetadas, na estúpida tentativa de readquirir os sentidos. Com dificuldade, lá consegui acertar no urinol.

Na saída volto atrás pelos óculos de sol, buzina duas vezes, nas próximas horas irá fazê-lo muitas mais vezes, a buzina aqui é tão utilizada quanto os travões ou o espelho retrovisor. O cabelo muito loiro apanhado no topo, cruzado por um lenço colorido, os óculos completam o conjunto, escondendo o azul limpo que faz com que os mais velhos cantem blue eyes quando ela passa. Acena.
É estranho como os sentidos estão mais apurados, parece que tentam recuperar o estado entorpecido a que foram sujeitos, em revolta, aliam-se fazendo com que o resto do dia seja um verdadeiro tormento.

À luz da manhã não me pareceu tão bonita, mas talvez fosse a doçura do perfume que incomodava tangencialmente o sentido da visão, perfurando com ímpeto o bulbo olfactivo. Cada poro da sua pele clara estava impregnado, as fibras dos estofos embebidas, até Jochen emanava o mesmo cheiro. Reparei quando nos conhecemos, dois metros compactos, órbitas salientes, aperto de mão capaz de pulverizar os ossos, femininamente perfumado. Nunca questionei a origem, subtil para a maioria dos narizes, familiarizei-me até o esquecer.

Quando abriu a porta do pequeno apartamento arrendado, reconheci de imediato o cheiro, mais concentrado, Alicja recebe-nos de braços abertos, o jantar quase pronto, é difícil de desviar a atenção dos seus olhos intensamente azuis. Pequenos oceanos quentes e pacíficos.
O prédio recuperado possui um núcleo fechado, onde o acesso se pode fazer por varandas exteriores, pátios secretos, decorados com vasos, forjados a ferro, estáticos no tempo. Os tectos são altos, iluminados, desproporcionadas as áreas, fundida a cozinha com a sala. Um ninho onde Jochen, grande como um condor, pousa em noites de folga.

Antes de encher os copos até meio, mostra-me com algum orgulho o rótulo de Żubrówka, vodka destilada de centeio, 40% de álcool, aromatizada com erva do parque de Bialoieza onde pastam bisontes. Limpa o gelo que se formou para que repare no pedaço de pasto que vem no interior da garrafa, completa o copo até transbordar com sumo de maçã bem frio. Na zdrowie! Brindamos em polaco, não sei quantas vezes.




domingo, 8 de setembro de 2013

pulo

Na primeira cocheira pegada da casa de arreios, prendi as nuvens carregadas pela argola, corda de nylon reforçada, davam-me água pela barba, as malvadas! atão deixei o vento à solta, como um equídeo feliz, galopando pelo prado sem rédea. Volta e meia, passava por ali, fingindo não me ver, sacundido a copa dos freixos. Era densa a mata, a luz dispersava-se sem beijar o solo, os rios levavam pouca água, e o coração dela estava vazio.
Pela noite aproximou-se o frio, cão de pêlo farto, cheirando o ar, procurando um afecto. Pousei-lhe a mão pela cabeça larga, dócil, fiel, deixava-se ficar encostado ao meu corpo até de madrugada, e aos primeiros sinais de sol, voltava como veio... os dias já estão mais curtos, nem todas as andorinhas partiram, daqui ao natal é um pulo...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

salineira

Quando abriu os olhos, a claridade mal entrava pela janela, e na penumbra que asfixiava os belos corpos despidos, pensou tratar-se de um sonho lúcido. Segurou a vontade de urinar e sem mover um músculo, fechou novamente os olhos, tacteando pelas rédeas em seda, convicto que voltaria ao sonho anterior.

Apesar de exímio domador, nem sempre conseguia agarrar a frágil extremidade desfiada, saltando cenas ou entrando de rompão num outro sonho inacabado. Como tinha sucedido há duas noites atrás, um salto quântico entre uma estrada em socalcos, estreita demais para a camioneta que conduzia, e de repente montava um dromedário obediente, atravessando o vale de Bamiyan, sob o olhar atento dos budas gigantes.
É possível que não tivesse usado a dose prescrita de determinação, meio quilo fazia toda a diferença, e por isso afirmei logo no início, que desta vez o homem estava convicto que voltaria ao sonho anterior. Também sei de antemão que não sonhava com camionetas, nem vias em construção, ou budas escavados em penhascos de arenito. Num cenário improvável, o homem convicto salvava a moça do rancho de um lago gelado, e ela despia a sua saia rodada, e de chinelas sem meias, continuava a bailar de canastra à cabeça.

As ninfas entreolharam-se, procurando entender a reacção do homem. Um murmúrio enchia o quarto, como gotas de chuvas que cessam antes da enchente. Não sei o que vai na cabeça das ninfas, não me é permitida a leitura a criaturas mitológicas que descem das paredes, apenas posso especular a confusão por detrás dos seus olhares, sobrancelhas desalinhadas. A mais audaz e destemida de todas, a que tinha há momentos atrás subido o lençol, toma o homem pela boca, dando-lhe a beber os lábios rosados, linha perfeita que o pintor deixou na tela. Contudo, o enlaçar das línguas não será suficiente para resgatar o mortal do mar onírico onde se afunda, a cada sorvo, mais fundo vai ficando. No sonho, beijava a moça salineira, cabelo apanhado no lenço garrido e é então, sem que ninguém previsse, as 34 ninfas suspiram em conjunto.