sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

lunâtico



andas estranho

estranho como?

não sei, distante, ausente...

mas distante como? onde?

diria que na lua, é isso mesmo, parece que estás na lua!

hum… e desde quando?

não sei, só me apercebi ontem...

queres vir comigo?

onde?

para onde estou, aqui na lua…



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

itinerário

protegeu a cabeça do frio puxando o carapuço do casaco e em corrida cruzou a rua, olhando só para a direita de onde descia o trânsito. entrou no terceiro carro estacionado e antes de dar à chave, encarou o espelho retrovisor, confirmando que ainda se conseguia olhar nos olhos.
pior que uma derrota só uma dupla derrota... mas nem assim deu meia volta.


sábado, 25 de janeiro de 2014

estrénuo

Esquecera-se de deixar o telemóvel na mesinha junto à cama e só despertou quando o dia que se vertia pela janela, encheu o quarto até ao tecto. Não se levantou apressado, a manhã teria de esperar por ele, caso contrário seguiria por sua conta e risco. Apreciou o silêncio e imaginou-se sozinho no mundo, sem filhos, mulher, família ou amigos. Sem patrão, colegas de trabalho, nem menina da farmácia. Apurou o ouvido e o silêncio era cada vez mais profundo, fechou os olhos para o saborear no céu da boca. Sem discussões dos vizinhos, relatos de futebol, sem ambulâncias estridentes, obras nas redondezas, aviões rasgando nuvens, nem um único veículo motorizado, escape cuspindo fumo, rodas dentadas paradas, nem um único ser à face da terra excepto ele. Sem pássaros cruzando os céus, insectos zumbindo nas fileiras escaldantes do estio, roedores ou grandes mamíferos migrando nas planícies, nem peixes escamosos em águas profundas, nem mesmo árvores, trepadeiras, algas castanhas, fungos, bactérias, nem uma única célula viva.

Fintou os pés que congelavam no soalho de bambu, costas quebradas de mal dormir, espreguiçou no bordo da cama a moleza que o incitava a voltar ao aconchego dos lençois.
Por fim ergueu-se.