sábado, 25 de janeiro de 2014

estrénuo

Esquecera-se de deixar o telemóvel na mesinha junto à cama e só despertou quando o dia que se vertia pela janela, encheu o quarto até ao tecto. Não se levantou apressado, a manhã teria de esperar por ele, caso contrário seguiria por sua conta e risco. Apreciou o silêncio e imaginou-se sozinho no mundo, sem filhos, mulher, família ou amigos. Sem patrão, colegas de trabalho, nem menina da farmácia. Apurou o ouvido e o silêncio era cada vez mais profundo, fechou os olhos para o saborear no céu da boca. Sem discussões dos vizinhos, relatos de futebol, sem ambulâncias estridentes, obras nas redondezas, aviões rasgando nuvens, nem um único veículo motorizado, escape cuspindo fumo, rodas dentadas paradas, nem um único ser à face da terra excepto ele. Sem pássaros cruzando os céus, insectos zumbindo nas fileiras escaldantes do estio, roedores ou grandes mamíferos migrando nas planícies, nem peixes escamosos em águas profundas, nem mesmo árvores, trepadeiras, algas castanhas, fungos, bactérias, nem uma única célula viva.

Fintou os pés que congelavam no soalho de bambu, costas quebradas de mal dormir, espreguiçou no bordo da cama a moleza que o incitava a voltar ao aconchego dos lençois.
Por fim ergueu-se.


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