domingo, 26 de junho de 2016

manjerico

fico mesmo aborrecido quando penso em mudar de carreira e as pessoas fecham os comentários... prontos, terei de voltar ao escadote.



quinta-feira, 23 de junho de 2016

jezioro

se não trabalhasse nas obras, gostava de ser comentador profissional de blogs. é que acho que tenho mesmo jeito.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

verde

invejo os que ontem escreveram, e mesmo os outros que os leram. invejo aqueles que tomaram notas, ou que simplesmente acordaram com as palavras certas na espessura dos dedos. invejo os que trouxeram consigo os sonhos, como um saco de roupa suja na chega de uma longa viagem. invejo os que se deitaram sem pensar nos pontos, ou nas repetições e letras trocadas pelo cansaço, e chegados à cama adormeceram . invejo os títulos de tão maduros, frutos adocicados crescidos do sol. invejo a caligrafia aprumada rente à linha ou sem linha, letras que dão à costa, que saltam fora das águas no ajuntar das redes. invejo as cores dos textos, os momentos sem imagens, os céus de junho e as luas. e as vírgulas, sobretudo as vírgulas, eu invejo.

van gogh, patch of grass

segunda-feira, 20 de junho de 2016

rancho

"Quando abriu os olhos, a claridade mal entrava pela janela, e na penumbra que asfixiava os belos corpos despidos, pensou tratar-se de um sonho lúcido. Segurou a vontade de urinar e sem mover um músculo, fechou novamente os olhos, tacteando pelas rédeas em seda, convicto que voltaria ao sonho anterior. Apesar de exímio domador, nem sempre conseguia agarrar a frágil extremidade desfiada, saltando cenas ou entrando de rompão num outro sonho inacabado. Como tinha sucedido há duas noites atrás, um salto quântico entre uma estrada em socalcos, estreita demais para a camioneta que conduzia, e de repente montava um dromedário obediente, atravessando o vale de Bamiyan, sob o olhar atento dos budas gigantes. É possível que não tivesse usado a dose prescrita de determinação, meio quilo fazia toda a diferença, e por isso afirmei logo no início, que desta vez o homem estava convicto que voltaria ao sonho anterior. Também sei de antemão que não sonhava com camionetas, nem vias em construção, ou budas escavados em penhascos de arenito. Num cenário improvável, o homem salvava a moça do rancho de um lago gelado, e ela despia a sua saia rodada, e de chinelas sem meias, continuava a bailar de canastra à cabeça. "

em a salineira, 4 de setembro de 2013



Estava com um grupo de amigos de fora, não me recordo bem onde terá sido, ouvia-se a música e fomos ver os ranchos a actuarem. A certa altura começaram a convidar quem estava a assistir para participar, uma das moças, de boa constituição, puxou-me por um braço e com meia dúzias de instruções lá me orientou, primeiro para um lado, depois para  outro. Parecia talhado para aquilo e só a pisei duas vezes.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

quarta-feira, 15 de junho de 2016

ucho

mesmo com os lábios dela muito próximos dos meus ouvidos, não conseguia entender nada daquilo que ela dizia.
podia ser cera, ou uma língua muito estranha.

extraído daqui

domingo, 12 de junho de 2016

Ézaro

Não estava frio, mas enquanto caminhava junto ao oder, o sol quase tomado pela curvatura terrestre, procurou guardar as mãos por não saber que uso lhes dar. Foi então que deu com o fundo do bolso, e com a meia concha, recordação daqueles indeléveis dias sem estação. Aproximou o pedaço de carbonato de cálcio e calcite recortado para lhe sentir o cheiro. À sua frente podia ver as faldas graníticas do pindo, brilhantes, a desaguar no azul marinho. Ela sorria para a câmara, feliz, com o vento a sacudir-lhe o cabelo.

daqui

sexta-feira, 10 de junho de 2016

kopulacja

Depois de um banho e das unhas aparadas, o macho engoma uma camisa e convida a fêmea para saírem antes de realizar a dança do acasalamento. Ele muitas vezes curva-se diante dela, segura as portas, puxa da carteira, elogia e salta no poleiro para exibir-se. Alguns machos podem não falar durante o jantar ou refeição que se quer ligeira para a coisa correr bem. Fêmeas receptivas irão solicitar a cópula ficando abaixadas no poleiro e tremendo o rabo. Uma pequena briga pode ocorrer, ou falta de interesse. A fêmea escolhe outro para ir tomar chá, com melhores penas.



quinta-feira, 9 de junho de 2016

avesso



Durante dias não vi nem ouvi ninguém, como se toda a humanidade abalasse da terra em magote e me tivessem deixado para trás, a tomar conta dos pardais. Quando voltei a sentir os dedos da mão direita, ouvi uma porta a bater e saltos martelados na escada. Um pouco mais longe uma buzina, ou um alarme, o cortador de relva cheio. A humanidade voltava. Decidi descer para ver como era, apesar da ausência de sombras na rua e os meus olhos fecharem a cada dois passos, julgando ser tudo um sonho. Voltei depressa à penumbra do prédio, torcido pelo peso da massa suspensa nas asas, alinhavado no ombro por um fio de dor. Subi os degraus em pares nos dedos dos pés, com o ouvido atento, temendo novo encontro com a inquilina do terço. Foi por pouco que quase esbarrei na outra inquilina, a de cima, das estrelas pequenas e voz morna que descia às escuras. Trocamos um olá estranho, como se faltasse alguma sílaba e quando pensei que ela não ia dizer mais nada, voltou atrás e pegando na etiqueta da minha t-shirt disse com meio sorriso.- Estás virado do avesso. 


sábado, 4 de junho de 2016

ladrilho

Todas as divisões tinham trinta centímetro de água. O ladrilho a preto e branco da cozinha, o soalho do corredor a entrar para os quartos, até as lombas de linóleo da casa de banho. 




quinta-feira, 2 de junho de 2016

cóccix

vivo sem me entender, entendo quem nã me entende...