quinta-feira, 28 de março de 2013

ímpio

Tinha vertido o último pacote de leite no fervedor e agora metade escorrera espumoso e fervido, empoçando no fogão. Perdido pela metade o pequeno-almoço, perdida por inteira a vontade de deixar a cama para uma corrida pela aurora. Talvez se me deitasse mais cedo não fosse necessário ser arrancado do fundo dos lençois, talvez se as noites fossem mais lentas o acordar não fosse tão sério e atarantado e o leite tinha aguentado nos limites do ponto de ebulição. Saí com pressa, atrasado, sem um último relance pelo estendal da vizinha. Ontem não esteve todo o dia, a roupa pendurada à sua espera foi secando à mercê do vento, sacudida até nova chuva lhe aliviar as fibras.
Quando cheguei à porta do prédio, duas mulheres estavam voltadas para as campainhas, jeovás diria, pela opacidade e sobriedade das saias pelos joelhos. A mais nova usava uma boina sobre o entrançado, olhos de medo, provavelmente filha da que me fintou de frente, entrepondo-se entre mim e a cria.
Dei-lhes os bons dias mas não segurei a porta, elas responderam e juntando forças num acto de aparente loucura, a mais velha resolveu iniciar o processo de conversão, preparando-se para debitar toda a cassete da pregação. Lamentei não ter tempo, desculpando-me que estava atrasado, com pressa. Normalmente são homens e deixo que a fita chegue ao fim, e depois de abrir a boca enfadado três ou quatro vezes digo-lhes que não foram suficientemente convincentes, voltem mais tarde com argumentos mais apelativos, a concorrência ofereceu-me 72 virgens e nem assim me converti...
Só mais adiante me lembrei que as campainhas do prédio estão sem funcionar já lá vão uns dois meses, podem carregar em todas que ninguém vai atender, nem mesmo a beata do rés-do-chão... e isso podem agradecer a deus!

segunda-feira, 25 de março de 2013

anacrónico

Oficialmente passei de moda, velho, antiquado, um dinossauro desorientado a vasculhar os restos do passado, desajustado nos modos e costumes, dos cumprimentos e convivências informais em que toda a gente se trata por tu. Determinantemente recuso-me a estas modernices.

Recebi ontem à noite o memorando oficial, e nele protocolado que já não se seguram as portas às senhoras! Acabaram com isso e com a cedência de lugares, os isqueiros estendidos aos seus cigarros, suster os casacos também já não se faz, muito menos puxar a cadeira para se sentarem. É também o término para o auxílio mecânico ou troca de pneus, mesmo que a noite seja escura como breu ou as condições atmosféricas desfavoráveis. As despesas pagam-se a meias ou à vez, incluindo nesse item despesas de combustível, optando os envolvidos na maioria dos casos por chegarem e partirem do destino, cada qual no seu veículo.
Já não se oferecem flores, nem oblongas tulipas ou perfumadas gardénias...

O fim do cavalheirismo, extinto, morto e enterrado, para dar lugar ao individualismo vestido de hodierno social, nem sei se mascarado de igualdade ou outra treta qualquer! Mas dizem que é bem aproveitado na pior das suas vertentes por oportunistas atentos, parasitas que espezinham o romantismo com soberba habilidade. Será que o sexo se tornou tão acessível que nem perdem tempo a disfarçar o que realmente são? Ou andarão tão vazios os corações que se enchem de ar e vento?

sábado, 23 de março de 2013

sangue

Na escadaria da igreja nova, o fotógrafo conseguira o milagre de alinhar no primeiro degrau, a canalha que andava na tôrada, cascabulhos de gente em camisas de domingo. Ao meio o meu primo mais velho vestido de branco, segurava disciplinado a vela de baptismo, a que lhe iluminaria o caminho mantendo-o afastado e guardado das trevas.

” E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas”

Apesar de grande e ostensiva, não foi suficiente e alguns anos depois iluminado pela pálida chama do isqueiro, queimando as pratas com ácido, ouvi dizer que as encontrou, às tais muito faladas trevas, num caminho que lhe cavalgava pelas veias.

Ao olhar para o retrato sinto que nunca ali estive, no primeiro degrau da escadaria, aquele de calças de bombazine vermelhas, camisola azul e sandálias com meias não sou eu com quase seis anos, olhando com admiração, diria até veemência, para o meu primo no nosso meio.
São árduas as linhas com que se cose a vida, emaranhadas pelos intrincados nós e pontos, concreções que jamais se desagregaram, outros apenas persistem em imagens depois de limpa a memória.

Idolatrava o meu primo, quatro anos mais velho, ponta de lança dos infantis. Escusado será dizer que ele não me ligava nenhum, os nossos pais eram irmãos, mas a condição social e económica colocava-nos em patamares distintos, mais íngremes que a escadaria da igreja, principalmente quando tinha na sua companhia os colegas do colégio.

Ombros parelhos está o seu melhor amigo, não sei o que foi feito desse, com que linhas o futuro se costurou, mas certamente o meu primo bateu-lhe à porta mendigando para a dose do dia.



domingo, 17 de março de 2013

descalço

Descalço percorri o teu chão brando, já a lua deixara o canto da janela, deitara-se sozinha do outro lado do monte, um quarto apenas.
Descalço quase pisei a cauda do teu gato, pachorrento no tapete persa, assustado deu um pulo sem miar.
Descalço toquei as paredes nuas, acariciando-as tenebrosas pelo rebordo, não achando a luz da casa de banho.
Descalço mijei às escuras, sem mira não sei se acertei na sanita, ou no rebordo limpo da tampa.
Descalço voltei aliviado à cama, calcando com cuidado o chão e o gato!

terça-feira, 12 de março de 2013

entorpecer

Qual é o nome científico para filhoses?

Rodei a cabeça e disse que não tinha entendido, ela repetiu. Qualquer dia vai pedir que desenhe uma ovelha, e terei de lhe dizer que só sei desenhar montanhas e dias cinzentos de chuva. Abri com dificuldade os olhos encarando sem vontade a claridade do início da tarde. Não vale a pena acordar cedo e abrir os olhos para uma noite interminável. E ela ali estava, enrolada nua numa manta, óculos na ponta do nariz, fazendo levitar um cigarro que se extinguia muito lento, por vezes tive a sensação que era sempre o mesmo. Um dos pés balançava suspenso, tatuado por sombras geométricas e reflexos, gelado quando tocasse o chão pela extremidade dos dedos. O outro ocultava-se no rebordo tricotado de lã, resguardado do frio mas adormecido pelo estrangulamento do nervo. Escreve com a mão do fumo, só usa uma na máquina antiga, castigando as teclas bastante gastas, e quando uma frase surge na abstracção do fim desperdiçado da manhã, segura o cigarro pelo canto do lábio, esborratado do que foi vermelho. Não há cinzeiros nesta casa, usa um vaso abandonado, sempre a par com uma chávena almoçadeira transbordando de café. Parou o matraquear dos caracteres em alto relevo, esperando pela resposta que vem acordando, a noite foi longa...

Diria que é foliolum… ou no plural foliola.

quinta-feira, 7 de março de 2013

decepção

Deixaste de me ler e aos poucos deixei de escrever para ti… nunca deixei de te sentir algures, por baixo do ninho de melros, sabia-te por lá na tua aparente alegria. Nem sei porque escrevo dirigindo-me a ti que não vais ler. Nunca me entendeste no confuso enredo, pois não?... não te censuro. Quando te digo que às vezes apetece-me devorar-me, mastigar os dedos e não parar, tu respondes Só conseguias chegar ao ombro, e depois?

domingo, 3 de março de 2013

aperto

Aproximou-se sorrateira pela retaguarda na fila para o café, convicta no arrebate supressa sobre a cândida presa, pisando ligeira em molhos de algodão.
Mal vejo a hora de ver na íntegra esses boxers azuis, sussurrou ao ouvido.
Aqui não bela Inês, depois lá fora terás toda a minha atenção.
Tens medo que a Beatriz descubra que andas a babar pelas duas?
Babar-me-ia de vos ver juntas, isso sim… em reduzidas vestes, perpetrando curtas manifestações de afecto… apesar de a minha imaginação ser tão fértil…
Que aconteceu ao gajo gentil e cordial?
Aqui dentro tenho uma reputação a manter.
Feio e convencido, tudo o que as mulheres podem querer. Às sete lá fora.

O roupeiro estendia-se a toda largura do quarto, de parede a parede, portas de correr silenciosas, grandes e dispendiosas. Metade do seu interior era vivo, palpitante, de tons claros e vibrantes floridos ocasionais, usando o perfume dela. A outra metade de fatos e sacos da lavandaria, escura, metamórfica, vários casacos, sobretudos por medida, calças vincadas penduradas, sem rasgos ou nódoas, imaculadas.
Um dia de manhã abri uma das suas grandes porta e senti que a nossa vida era proporcional ao seu interior, sem a paixão desenfreada e doentia de roupa largada pelo chão e migalhas na cama, inesperadamente a mesa da cozinha passou a servir só para refeições, e a da sala para receber os amigos, sexo ficou restrito à cama, podendo o sofá ocasionalmente ser palco de preliminares, já não entrava no chuveiro vestido para a surpreender no meio do banho, principalmente usando aqueles fatos de lã ou as camisas de algodão egípcio. Tudo era metodicamente organizado, arrumado e comedido, sempre perfeito e belo à espera de ser fotografado para uma página do catálogo.

Isto é para homens?
Não moço, esta parte ainda é secção feminina. Tenho de te dar a mão?
Passamos a outra secção sem que conseguisse estabelecer a diferença, deixando que ela se ocupasse com uma pilha de calças azuis escuras.
Já estamos na secção de homem?
Que número vestes?
Grande
Grande já vi que és, mas um número ajudava.
Do fundo da pilha puxa um par, confere a etiqueta e depois desdobra-as à minha frente pela cintura. Acho que estas servem.
São azuis!
Alguma objecção?
O meu sobretudo é azul, não vou andar de azul da cabeça aos pés…
Não tens outro?
Já me viste com outro?
Vai ser mais difícil do que tinha imaginado, podem ser pretas?
Acho que sim…
Tem este modelo em preto? perguntou à funcionária depois de correr com o olhar a secção supostamente masculina. Falam as duas como se eu não estivesse presente, tirando-me as medidas, salientando a minha fisionomia ali e acolá, referindo os meus gostos e a minha preocupação com o azul marinho… finalmente entro na solidão claustrofóbica dos provadores com quatro pares de calças, mal tenho espaço para abrir os braços. Cá fora ela vai gritando indicações. Veste primeiro as pretas.
Quais delas?
Lá visto umas quaisquer, apesar de ela continuar a relatar os pormenores das calças que ela deseja que eu experimente primeiro, para mim são todas iguais. Saio amuado para ouvir, não eram essas. Tira, não te ficam bem.
Tens a certeza que isto é para homens?
Segundo par nem vale o sacrifício, reclamo que me apertam nos testículos. Deixa ver. Mas ficam-te bem, ai todo apertadinho…
Talvez seja melhor pedir o número acima!
Tem calma, experimenta as outras, o corte é diferente. E pára de bufar, não és um touro na arena!
nem o toureiro em collants…