terça-feira, 29 de abril de 2014

Érato

... ou a Amável

A musa de lábios inconsequentes abriu a agenda sem pressa em cima da mesa ignorando a minha ansiedade. Desfolhou para a frente e para trás a última semana de abril, molhando o indicador com a língua à passagem de cada dia. E cada vez que o fazia, mortificava-me no jugo daquele gesto, desejando afogar-me na sua saliva, morrer agarrado ao rebordo do seu beiço.
Lamento Sr. Maltes, mas esta semana é impossível… Disse secamente, sem afastar os olhos das páginas pautadas em branco. Se me tivesse falado a semana passada tinha conseguido, mas assim, tão em cima da hora… Terminou, fechando o pequeno caderno negro com um leve sorriso a provocar no canto, enfrentando-me sem sinais de comiseração.
Mas eu contentava-me apenas com umas horas. Quase implorei, eu que até então dominara a negociação, exigindo a sua presença a tempo inteiro, minha possessão, sem antever o efeito que aquela boca exercia sobre mim, agora declinava aflito. Veja lá ai na sua agenda menina Clara, é muito rápido, nã lhe ocupo um dia, só preciso de uma leve inspiração e depois a coisa há-de ir… ou vir


sábado, 26 de abril de 2014

beijo

Quando Adão acordou e viu Eva, não se fiou nos seus olhos e estendeu a mão ainda deitado, tocando ao de leve na pele rosada e arrepiada com a ponta dos dedos. Tal como ele, ela era carne fraca em osso rijo, mas recriada de uma costela flutuante, envolvida numa suavidade perfumada que parecia ter origem nos seus lábios, pequeno botão delicado, entreaberto exalando o morno orvalho. Aproximou o seu rosto muito lentamente, impelido por uma força divina rodou a cabeça cinco centímetros para a direita, desviando a protuberância nasal de chocar de frente e por fim, encostou os seus lábios aos dela.
E fez-se o beijo.


domingo, 20 de abril de 2014

delinear

Os banhos eram demorados, um cilindro inteiro de água vertia-se por ela abaixo, desamarrando os sonhos emaranhados em chocas no cabelo. Numa névoa de vapor lá saia dando a mão a D. Sebastião, a nuca enrolada numa toalha a cheirar a tabaco, deixava-se cair perpendicular e molhada na cama. Eram cansativos e longos os banhos, acendia um cigarro e ficava a observar os mapas de tinta descascada até a pele secar.
A cama e a água quente não eram suficientes para os dois, sendo raras as manhãs em que lá acordava com ela atravessada e nua. Todos os dias era o mesmo, fumava o primeiro cigarro de estômago vazio, planeando a viagem ao hemisfério sul. Sempre para sul, dizia desenhando uma rota imaginária com o dedo pelo ar, leva-me para o sul. Depois enrolava-se na manta de lã e descalça em pontas, punha a cafeteira de quatro cafés ao lume. Enquanto esperava que a água fervesse, secava o cabelo com a cabeça inclinada entre as pernas, ambas operações levavam exactamente o mesmo tempo, por isso quando desligava o secador, ouvia as últimas gotas subirem do depósito. 
De chávena almoçadeira cheia enfrentava de frente a máquina, posicionava uma folha na prensa e antes de accionar a alavanca de retorno, acendia o segundo cigarro. Já disse noutra altura que ela escrevia só com uma mão, martelando com força as teclas velhas, segurando o vício ao canto do lábio. 
Numa das vezes em que a encontrei ainda no preâmbulo do abandono vinda do banho, tracei-lhe na pele molhada, as curvas de nível do seu mapa topográfico. Nunca segui por aquela estrada a branco, disse olhando uma falha do tecto, mas eu já não ouvia, envolvido no perfume que libertava na saliência do seio, e a língua repetia os mesmos círculos feitos a dedo, sorvendo a humidade, cheirando a yuzu.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

silêncio


A tabuleta informativa que deixava muito a supor na sua base enferrujada, apontava na incerteza para uma abertura no silvado. Não havia muito mais para ver, em vinte minutos dera a volta ao lugarejo, fotografara todos os gatos e até os bezerros a pastar no campo. Da estrada de alcatrão mal se percebia a existência de uma vereda, escondida pela altura nímia das silvas, assinalada pela tal placa que alguém facilmente podia ter desviado. Seguiu céptico pelo trilho arenoso que a água em força arrastara do cume, sem vislumbre de castro ou construção humana onde imperava a paisagem granítica de caos de blocos e grandes diaclases. 
Por toda a vertente ecoava o cacarejar dos turistas, despejados aos magotes no chalé da montanha, escarrados das camionetas directamente para uma varanda com vista sobre o planalto. Embora excepcional fosse unicamente a paisagem onde perdera o fôlego, os pacotes turísticos incluíam bebidas, música ao vivo e farta comezaina. 
Nas rochas intrusivas como o granito, as diaclases, ou fracturas, teriam ocorrido durante a consolidação e arrefecimento do magma, ou então da acção de tensões internas da crusta. Em semelhança ao que acontecia à superfície da pele, também a Terra enrugava e quebrava. Devido à remoção das rochas suprajacentes, os granitos afloraram à superfície, provocando um alívio de carga e assim permitindo a abertura das fracturas existentes e até o aparecimento de novas, onde a água se infiltrava levando a uma gradual desagregação do maciço rochoso. Um dia tudo seria areia como aquela por onde caminhava no sopé do penedo, todavia já nada restaria da sua presença, nenhuma memória ou indício da sua existência, ele e todos aqueles que conhecia ou pudesse vir a conhecer, seriam sedimento muito antes. O tempo tudo consome, como diz o Zambujo. 
Um galo rouco anunciava dez minutos antes a uma da tarde, o trilho plano ganhara inclinação e sulcos cavados que a abundância das águas do inverno talharam com paciência, subiu procurando pisar as pedras evitando a areia solta que resvalava. No meio da vegetação rasteira de urze e carqueja, um tronco serrado com uma inscrição gravada, dava indicações da distância a que se encontrava da porta do sol, voltada a nascente. O trilho desaparecia adiante, serpenteando pela direita contornando o maciço, roçando os tojos espinhosos. A encosta protegida de vento segurava vegetação mais alta, pincelada de cor por giestas e singelas flores de montanha. Parou para se desprender do casaco que o incomodava, aproveitando a mochila aberta para molhar a garganta e roer uma maçã, comprimindo tudo sem ordem de novo na mochila. Sentia-se um pouco melhor, irritado somente pelo ruído ampliado de um tractor que subia do vale, à mistura com os alaridos bem regados dos visitantes na esplanada ali ao fundo. 
Abstraiu-se de ouvir, contemplando a delicadeza dos contornos frágeis de um Narcissus triandrus, e ao lado um pequeno escaravelho fingia a morte, fervilhando de vida cada exíguo recanto. Caminhava cada vez mais lentamente, absorvendo na pele a textura do mato, recebendo os cheiros que desconhecia, adivinhando formas humanas nas penhas, abençoado por um sol caindo a pique de um céu limpo de nuvens e sem vento. 
No ar estático, a terra abrandava mas não chegava a parar. O trilho cortava numa reentrância depois de uma passagem estreita, e redescobriu o que há tanto sentia falta. 


segunda-feira, 14 de abril de 2014

amarelo


Contei três no relance, mas podiam ser quatro ou mais, todas da mesma cor, aquele amarelo com que pintávamos o sol quando éramos pequenos. Depois polvilhava o céu com algumas nuvens azuis, não obstante elas serem brancas, cinzentas ou mesmo negras. Talvez não fosse o mesmo amarelo, passaram muitos anos, os meus olhos já não são canídeos fiéis como costumavam ser, e foi de relance, naquela curva da estrada. Envelhecer é uma merda na generalidade, dores ganham familiaridade, pequenos rombos na memória e pedaços da vida vão vazando, crescimento capilar em cavidades que não fazem falta, sentidos afectados definhando a cada ano, mas em compensação aguçamos a intuição, a paciência torna-se uma aliada, as vitórias ganham um sabor mais intenso, aprendemos a gostar do tempo, e até da morte de forma carinhosa. O silêncio… Quase que me atreveria a afirmar que aquele tom só a natureza o conseguiu, distinto na paleta, vibrante, quase queimando a pupila mas exuberante, sem perder o viço, entre a lima e o limão, manteiga, puro mas não carregado como as searas do holandês. Voavam todas juntas, três ou quatro ninfas, em perfeita sincronia como se fossem uma, num breve relance, na berma da estrada bailando os primeiros dias mornos, suspensas à espera naquela hora adiantada que nos separava.



I counted three at a glance, but it could be four or more, all the same color, that yellow we used to paint the sun with when we were little. Then I'd sprinkle the sky with some blue clouds, despite their being white, gray or even dark. Maybe it wasn't the same yellow, it was many years ago, my eyes are no longer the faithful canines they used to be, and it was only at a glance, on that curb in the road. Getting older sucks in general, pains become familiar, small cracks in memory and pieces of life leaking away, hair growth in cavities that are not lacking, senses affected and withering every year, but on the upside intuition sharpens, patience becomes an ally, victories acquires a more intense flavor, one learns how to enjoy time, and even death in a fond way. Silence… I'd almost dare to say that that specific tone only nature could make, distinct in the palette, vibrant, almost burning the pupil but exhuberant, without losing vitality, between lime and lemon, butter, pure but not loaded as the Dutch's cornfields. They flew all together, three or four nymphs, in perfect sync as if they were one, in a brief glance, at the roadside dancing the first warm days, suspended in waiting at that late hour that separated us.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

basculho

basculho, disse, és um basculho, não te quero voltar a por a vista em cima, seu basculho...