quarta-feira, 16 de abril de 2014

silêncio


A tabuleta informativa que deixava muito a supor na sua base enferrujada, apontava na incerteza para uma abertura no silvado. Não havia muito mais para ver, em vinte minutos dera a volta ao lugarejo, fotografara todos os gatos e até os bezerros a pastar no campo. Da estrada de alcatrão mal se percebia a existência de uma vereda, escondida pela altura nímia das silvas, assinalada pela tal placa que alguém facilmente podia ter desviado. Seguiu céptico pelo trilho arenoso que a água em força arrastara do cume, sem vislumbre de castro ou construção humana onde imperava a paisagem granítica de caos de blocos e grandes diaclases. 
Por toda a vertente ecoava o cacarejar dos turistas, despejados aos magotes no chalé da montanha, escarrados das camionetas directamente para uma varanda com vista sobre o planalto. Embora excepcional fosse unicamente a paisagem onde perdera o fôlego, os pacotes turísticos incluíam bebidas, música ao vivo e farta comezaina. 
Nas rochas intrusivas como o granito, as diaclases, ou fracturas, teriam ocorrido durante a consolidação e arrefecimento do magma, ou então da acção de tensões internas da crusta. Em semelhança ao que acontecia à superfície da pele, também a Terra enrugava e quebrava. Devido à remoção das rochas suprajacentes, os granitos afloraram à superfície, provocando um alívio de carga e assim permitindo a abertura das fracturas existentes e até o aparecimento de novas, onde a água se infiltrava levando a uma gradual desagregação do maciço rochoso. Um dia tudo seria areia como aquela por onde caminhava no sopé do penedo, todavia já nada restaria da sua presença, nenhuma memória ou indício da sua existência, ele e todos aqueles que conhecia ou pudesse vir a conhecer, seriam sedimento muito antes. O tempo tudo consome, como diz o Zambujo. 
Um galo rouco anunciava dez minutos antes a uma da tarde, o trilho plano ganhara inclinação e sulcos cavados que a abundância das águas do inverno talharam com paciência, subiu procurando pisar as pedras evitando a areia solta que resvalava. No meio da vegetação rasteira de urze e carqueja, um tronco serrado com uma inscrição gravada, dava indicações da distância a que se encontrava da porta do sol, voltada a nascente. O trilho desaparecia adiante, serpenteando pela direita contornando o maciço, roçando os tojos espinhosos. A encosta protegida de vento segurava vegetação mais alta, pincelada de cor por giestas e singelas flores de montanha. Parou para se desprender do casaco que o incomodava, aproveitando a mochila aberta para molhar a garganta e roer uma maçã, comprimindo tudo sem ordem de novo na mochila. Sentia-se um pouco melhor, irritado somente pelo ruído ampliado de um tractor que subia do vale, à mistura com os alaridos bem regados dos visitantes na esplanada ali ao fundo. 
Abstraiu-se de ouvir, contemplando a delicadeza dos contornos frágeis de um Narcissus triandrus, e ao lado um pequeno escaravelho fingia a morte, fervilhando de vida cada exíguo recanto. Caminhava cada vez mais lentamente, absorvendo na pele a textura do mato, recebendo os cheiros que desconhecia, adivinhando formas humanas nas penhas, abençoado por um sol caindo a pique de um céu limpo de nuvens e sem vento. 
No ar estático, a terra abrandava mas não chegava a parar. O trilho cortava numa reentrância depois de uma passagem estreita, e redescobriu o que há tanto sentia falta. 


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