domingo, 30 de abril de 2017

ouriçar

O problema de não conseguir escrever é em parte também consequência de não ler. Ultimamente não leio. Absolutamente nada. Mas tudo me faz falta. É como se respirasse só com um pulmão, mastigasse com metade da boca. É como estar embriagado, mas ressacado ao mesmo tempo e não conseguisse escapar pela estreita fenda da inibição. O que me salva nestes dias são os sonhos. O último foi com mamas, muitas mamas, algumas tão grandes que nem via o sol. 


quinta-feira, 27 de abril de 2017

шишка*

Não sonhava desde que vi o meu pai morto numa laje negra. Estava numa larga divisão de uma casa centenária que albergava muitas pessoas sentadas, nem todas contra a parede como era o meu caso. O rapaz diante de mim, que partilhava o canapé de três lugares com uma senhora mais velha, perguntou se eu escrevia. Disse-lhe que escrevia ocasionalmente, tinha total domínio sobre as vogais, mas as consoantes às vezes falhavam por serem muitas. A rapariga ao meu lado riu alto, dirigindo a atenção dos presentes para a nossa conversa. Isto é um assunto sério, disse o jovem com ar ameaçador, estendendo-me um inquérito. A rapariga ao meu lado recuperou a seriedade e o silêncio avançou pela sala à medida que os papéis eram distribuídos do centro para os cantos. Alguém no extremo direito da sala ditava instruções, mas eu mal conseguia ouvir o que dizia. A rapariga ao meu lado virara-me as costas e preenchia exaustivamente os espaços em branco. Reparei então que apesar de jovem, usava roupas antigas, um longo vestido com rendas, do tempo dos reis e das princesas. O rapaz estava todo vestido de preto e não voltara a olhar para mim, levantando ocasionalmente a cabeça em direcção da voz feminina que vinha da extremidade da sala. A velha a seu lado também usava um desses vestidos com rendas até aos pés e uma grande peruca dourada, óculos na ponta do nariz. A parte da sala que cabia no meu campo de visão, era decorada com faustosos e pesados gobelins, canapés e bergeres de todas as cores e feitios. Ao fundo, no extremo, toda a parede era rasgada em janelas altas e estreitas, de caixilhos simétricos e alinhados com as faias do jardim A ala direita era interrompida por um grande biombo florido, todo trabalhado em caracóis sem fim. Era desse ponto que a voz da mulher vinha, mas pelo percurso quebrava-se, tornava-se esbatida, perdendo conteúdo, força, desaguava nos meus ouvidos em fragmentos como “crocodilo”, “Anne Frank”, “poeira”, “arremedo”, “pinha*”. 







quarta-feira, 19 de abril de 2017

zimno

às vezes vejo as notícias e acho estranho as pessoas andarem de manga curta. aqui liguei o aquecimento.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

gnossienne

o mundo acaba amanhã, disse o velho que se sentou ao meu lado no mesmo banco virado para o mar. depois puxou de um cigarro e fumou em silêncio. o fumo entrou-me pelos olhos, picando a pupila fragilizada pela claridade. talvez ele não tenha dito que o mundo acabava amanhã, mas outra coisa qualquer sobre o azul esbatido, ou uma reflexão sobre o monte de penas que ali jazia a poucos metros. é estranho, mas era capaz de jurar que o ouvi dizer que o mundo acabava amanhã, e ele parecia tão certo disso quanto eu. e apesar de estarmos os dois certos, para grande espanto, o mundo continuou.



domingo, 9 de abril de 2017

coraçom










omtam este poeta este emxemplo e diz que as espáduas e o celebro acusarom o coraçom, dizemdo:
— Nós ssenpre ssosteemos grande afam em andando de cá e de llá em muytos trabalhos; e todo nos este coraçom come e num faz mais que suspiraar, e numca sse comtenta com amore; e elle está ocçioso e nom faz nem dura trabalho. Nom lhe demos de ver sua amada!
E assy o fezerom, ordenando o celebro os olhos pra nom sse abrirem. Ho coraçom começou a auer fraco, e disse aas espáduas e ao celebro:
— Amygos, dade-me de ver minha amda, ajudade-me, ca eu mouro com desgoosto.
A espádua e o celebro diserom que lh’o nom queriam dar, e dizian-lhe:
— Sse tu queres veer tua dama, toma affam, assy como nós fazemos; d’outra guysa, nom queremos que suspires quanto nós trabalhamos.
Em esta perfia esteuerom per espaço de dias, tanto que o coraçom pos muita fraqueza e as espáduas começarom de enfraqueçer, e outrossy o celebro.
E os pees diserom:
— Nom podemos andar.
E as mãaos diserom:
— Nom podemos trabalhar.
E as espáduas diserom:
— Nom podemos carregar.
Veemdo esto o celebro tomou de abrir os olhos para dar de ver ao coraçom; e o corpo era ja posto em tamta fraqueza, que os olhos nom sse poderom abrir. E per esta perfia o corpo morreo: e elle morto morrerom as espáduas e o celebro com todolos outros membros.

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Pom este poeta emxemplo per nosso amaestramento e diz, rreprehendendo que todos somos membros em huma Republica, e todos neçessarios huns aos outros. Soldados e trabalhadores são mãaos e pees, o Rey celebro, os ricos estomago, o poeta coraçom. Sse disser o lavrador que nom quer trabalhar, pra que o outro coma, elle ha de ser o primeiro que ha de padecer fome. Se os soldados nom defenderem a patria, o Rey nom governar, os rricos nom distribuirem o que ajuntárão dantes, e cada membro sse apartar, morrerom todos.

 
Plagiado d' o Livro de Esopo, Fabulário português medieval do séc.XV , "Os membros e o corpo".

domingo, 2 de abril de 2017

कर्म

decides não escrever e passar o domingo a limpar. tens tudo a brilhar, principalmente a cozinha onde demoraste mais tempo. tomas banho porque os lençóis foram mudados, a cama espera-te com cheiro a sabonete. tens fome, aqueces leite, abres o armário de cima para o chocolate em pó. o frasco escorrega e bate no balcão e depois parte-se no chão em mil pedaços. está tudo coberto de chocolate. até tu ficaste coberto de chocolate.