domingo, 9 de abril de 2017

coraçom










omtam este poeta este emxemplo e diz que as espáduas e o celebro acusarom o coraçom, dizemdo:
— Nós ssenpre ssosteemos grande afam em andando de cá e de llá em muytos trabalhos; e todo nos este coraçom come e num faz mais que suspiraar, e numca sse comtenta com amore; e elle está ocçioso e nom faz nem dura trabalho. Nom lhe demos de ver sua amada!
E assy o fezerom, ordenando o celebro os olhos pra nom sse abrirem. Ho coraçom começou a auer fraco, e disse aas espáduas e ao celebro:
— Amygos, dade-me de ver minha amda, ajudade-me, ca eu mouro com desgoosto.
A espádua e o celebro diserom que lh’o nom queriam dar, e dizian-lhe:
— Sse tu queres veer tua dama, toma affam, assy como nós fazemos; d’outra guysa, nom queremos que suspires quanto nós trabalhamos.
Em esta perfia esteuerom per espaço de dias, tanto que o coraçom pos muita fraqueza e as espáduas começarom de enfraqueçer, e outrossy o celebro.
E os pees diserom:
— Nom podemos andar.
E as mãaos diserom:
— Nom podemos trabalhar.
E as espáduas diserom:
— Nom podemos carregar.
Veemdo esto o celebro tomou de abrir os olhos para dar de ver ao coraçom; e o corpo era ja posto em tamta fraqueza, que os olhos nom sse poderom abrir. E per esta perfia o corpo morreo: e elle morto morrerom as espáduas e o celebro com todolos outros membros.

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Pom este poeta emxemplo per nosso amaestramento e diz, rreprehendendo que todos somos membros em huma Republica, e todos neçessarios huns aos outros. Soldados e trabalhadores são mãaos e pees, o Rey celebro, os ricos estomago, o poeta coraçom. Sse disser o lavrador que nom quer trabalhar, pra que o outro coma, elle ha de ser o primeiro que ha de padecer fome. Se os soldados nom defenderem a patria, o Rey nom governar, os rricos nom distribuirem o que ajuntárão dantes, e cada membro sse apartar, morrerom todos.

 
Plagiado d' o Livro de Esopo, Fabulário português medieval do séc.XV , "Os membros e o corpo".

17 comentários:

  1. Sejas muito bem aparecido, Manel! Já tinha saudades. :)

    Também te deste à mesma trabalhêra que eu, de transcrever textos de livros?
    Quando vi este bonito coraçom pensei que fosses falar à moda do Puorto.
    Sabes? essa fábula aprendi-a há muito tempo, na escola primária, mas com o título:
    "Os Membros do Corpo e o Ventre"
    O braços queixavam-se que se fartavam de trabalhar e o ventre «ocioso, tudo nos come»...
    A moral da história era a mesma, mas creio que descrita em verso.

    Por último, mas não menos importante, Manel. Tu não estás a plagiar nada.
    Plágio, seria, se publicasses sem referir o autor.

    Um beijo, Manel.
    Contente por te ver voltar às lides blogueiras.:)


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    1. Janita :) é plágio pois que peguei no texto do membros e o corpo e transformei em espáduas, cérebro e coração
      beijos

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    2. Mas isso não é mais uma adaptação, Manel?
      Para mim, plágio é outra coisa...coisa feia, até. :)
      O que tu fizeste é bonito. :)

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  2. Suspira coração, suspira, que os teus suspiros são essenciais à vida. :)
    A fábula é antiga mas certeira. Transcrita assim tem um encanto especial.

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    1. o coração é que manda nestes dias que passam... hoje até a mão me tremeu

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  3. Que estória tã linda, Manel.
    Um coração caprichoso...

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  4. Até que enfim. Ando eu a pregar aos peixinhos que se deve ver e ouvir e falar com o coração...

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  5. Ai afilhado, já se me acalmou o coraçon, ao sentir-te por aqui de novo.

    beijo gordo

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    1. sem ideias e restrito de tempo... era suposto dar um ramo por esta altura, certo? :)
      beijos madrinha mai linda

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    2. Era suposto eu saber o endereço para onde enviar as amêndoas :-))

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  6. que bem altereada esta esturia :)

    beijinho e que bom que voltaste.

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    1. nã voltei completamente, mas uma parte nunca parte :)
      beijos

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  7. Pronto...chamemos-lhe um "microplágio", :) mas feito com mestria.

    Confesso que não conhecia o Livro de Esopo. Aproveitei para ler "Os membros e o corpo" na sua versão original e mais duas ou três fábulas. Muito giro!

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