quinta-feira, 28 de novembro de 2013

fluído

Não sei qual terá sido o primeiro, lembro-me de acordar a meio da floresta e voltar noutro sítio com o mesmo enredo, mas não consigo precisar se o episódio com o guarda mexicano foi antes ou depois. por isso começo pelo mexicano, sentado de mãos cruzadas no colo, farto bigode que ocultava o traço delineado onde supostamente existiria uma boca e na cabeça um chapéu de guarda bastante puído. havia uma vedação em arame do lado direito, não olhei para lá da cerca, era demasiada informação para arquitectar. havia também muitas pessoas sentadas, outras deambulavam pelo recinto em terra batida sem abrigos do sol. havia sol, mas não era quente. não me lembro se mais alguém tinha as mãos algemadas como eu, aproximei-me do guarda explicando que precisava de mijar. apesar de estar algemado, e ele ser claramente a autoridade, falei como se lhe desse uma ordem. não se levantou logo, talvez estivesse a ponderar uma resposta, apoiou-se nos joelhos e levantou-se sussurrando qualquer coisa pelo buraco oculto, como um cão rabugento. já não era novo, nem magro. segui-o ao correr da cerca onde havia um edifício térreo com uma primeira porta para um pequeno hall, e mesmo em frente uma segunda porta envidraçada pela metade em fosco, dava acesso a uma sanita e um lavatório com sarro. manteve as duas portas abertas, tanto a do exterior como a envidraçada, encostando-se à parede cansado do percurso de vinte metros. perguntei se não podia fechar uma das portas, ignorou-me, destacando pedaços de lixo debaixo das unhas, mantendo um pé fincado na porta. quem passava na claridade, olhava para a casinha escancarada com curiosidade, na eminência de testemunharem um cigano de calças nas mãos numa necessidade fisiológica. eram todas mulheres e demoravam-se. desapertei os botões soltos dos jeans velhos, as algemas começavam a deixar marcas nos pulsos. num último acto de rebeldia, mijei para cima dos pés do mexicano. saltou irritado, podia ver pelo olhar, mas nem abriu a boca.




quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Zabela

Zabela prometera dar-lhe a volta em trinta dias.
trinta dias apenas para encontrar um manancial e perfurar um poço de esperança, nem mais nem menos a partir daquele minuto, contados os dias, trinta, pelos dedos do cigano.
em troca, comprometia-se o cigano que empresta mau tempo sem juros, a aguentar-se esses dias sem partir com as malas aviadas, comparecendo em todos os que podia de bidão vazio.

se não aparecesse, avisaria de véspera com um recado no postigo.


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

mensurável

Na queda da noite sobre o dia,
Procuras por mim chamando Maltês
Corro pelo monte saltitando
Julgas que sou um cabrito-montês!

Dispo-te então no avesso da cama,
Deleitada de prazer gemes e arfas,
Sei-te em todas as medidas,
Contigo não quero saber das ninfas.

Torturas-me no gume do ciúme,
Mas eu só busco o calor do teu colo.
Atiras-me tudo à cara,
Hoje nem barro nem tijolo!


terça-feira, 12 de novembro de 2013

obsidiana

Expusera-se demasiado. Era aquele atmosfera estranha que lhe enchia os pulmões e o esvaziava de experiência, alimentando como achas a cegueira moral, ignorando os signos na bifurcação, soando vazios e ocos os fonemas estrangeiros.

Não se lembrava de a ter conhecido, era tudo novo, acabara de chegar, mas Alicja jurava a pés juntos que os havia apresentado. Como era possível não se lembrar daquele olhar de vidro vulcânico? Esquecido também do nome, reservou-se na vergonha de um cumprimento simples, ocupando-se das cebolas cortadas grosseiramente. No avesso da medida, ela mostrava interesse no que refogava no tacho, dissimulando o desejo no forasteiro, contentando-se com a lacónica explicação da confecção do molho.
Foi o último a sentar-se à mesa, no extremo oposto onde ela estava. Só os olhares podiam tocar-se, e tocaram-se várias vezes, magnetizado pelas obsidianas reluzentes que enchiam os seus olhos amendoados. Se ao menos estivessem mais próximos, pensava, à distância de estender um braço ou a perna por baixo da mesa. Que tolice, nunca se atreveria mesmo que a distância o permitisse, a cerveja toldara-lhe o discernimento, só podia.

Arrumados os pratos, sacudida a mesa, permaneceram sentados guardando mais ou menos os mesmos sítios, salvo uma ou outra permuta consentida. Os dois continuavam nas orlas mais distantes, orbitando atentos por rotas diferentes. Em inglês! Alguém ordenou, cessando de uma só vez as conversas que decorriam em paralelo. Toda a atenção ficou nela concentrada, corando-lhe a face morena maculada de sinais. Ele mais que ninguém ansiava saber o que teria para dizer, até então permanecera na total ignorância sobre o que discutiam naquele hemisfério remoto, falando sempre em húngaro.
Os homens têm duas vezes mais lugar no cérebro para sentimentos sexuais, afirmou, a mente masculina é menos activa, enquanto as mulheres pensam constantemente, é por isso que os homens estão sempre à procura de sensações excitantes… Depois voltou-se para ele num tom meio irritado e perguntou sem qualquer pudor, usando-o como exemplo. Por acaso lembras-te do meu nome? Ou da cor dos meus olhos? Ou ficaste embeiçado a olhar para o peito da minha amiga Tatiana quando fomos apresentados? Ele engoliu em seco, mas num misto de satisfação e alívio, sorriu. Era realmente grande o peito da Tatiana, respondeu, mas agora entendo como era possível não me lembrar do teu nome, ou da singularidade das tuas íris tão escuras que se unem numa única esfera negra às pupilas… Ela corou ainda mais, alguém disse para arranjarem um quarto.

Na mesa estariam sentados não mais que uma dúzia, roçando braços com braços, em bancos desirmanados, emprestados ou improvisados. A sala era espaçosa, cabendo nela a cozinha e uma mesa pintada de azul. Por cima do frigorífico tocava um rádio, não era um slow, mas dançavam juntos. Quando se inclinou no fogão para espiar o jantar, parecera-lhe mais baixa do que ali diante de si, sentindo o seu corpo mover-se quase líquido nos seus braços, volátil e extremamente inflamável.

Não seria mais que uma armadilha, premeditadamente tecida para o capturar, sem qualquer possibilidade de lhe resistir.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

canhestro

Arredada do sono pela madrugada, deixava-se debruçada sobre o seu corpo despojado de energia e roupas, observando o respirar tão ténue, quase ausente o movimento de subida e descida do tronco.
Tocou-lhe ao de leve no sobrolho, roçando o bordo rosado da sutura de cinco pontos.
Does it hurt, ponto de interrogação. Sussurrou por não o saber acordado, achando amargas e demasiadas as palavras ditas em estrangeiro.
Não. Respondeu-lhe, beijando afeiçoado a polpa dos seus dedos.

Naquela noite temera por ele, no meio da confusão que se instalou no szimpla kert, saíram do bar com destinos opostos. Bálint agarrara-a instintivamente pela mão, e só veio a saber muito mais tarde que o Maltês estava bem, cinco pontos alinhavados acima do supracílio.
Bálint sempre tivera um sentimento de pouca consistência por ela, um fraquinho, não correspondido nas inúmeras tentativas, decidiu que era tempo de partir. Regressara nesse dia a Budapeste depois de uma longa estadia em Zagreb, trazia na bagagem saudades e presentes, tinham tanto para falar que por momentos se esquecera do novo amigo que não falava húngaro, ali sentado ao seu lado.
Mas o Maltês não se sentia intimidado, muito pelo contrário, os ciúmes de Bálint deixavam-no vaidoso, fanfarrão, e contra a sua natureza, acariciava-a em público, tocando-a no fundo das costas, subindo lateralmente pelo tronco rasando a ponta dos dedos no seu peito, acrescentando em várias línguas, indecências ao ouvido.
Stop, ponto de exclamação, disse-lhe tentando um ar sério, não conseguindo reprimir um sorriso. Beijou-a satisfeito no arco de cupido escarlate e decidido em pedir mais uma rodada, caminhou para o balcão à procura de trocos perdidos nos bolsos.

Mais valia que tivesse ficado sossegado, sentado ali ao lado, morrendo à sede mas ancorado pelos seus divinos lábios. Quando chegou ao balcão, encontrou o troco certo, e certos também os problemas. É que nem os dotes de cigano o vão livrar deste destino, e para grande gáudio de Bálint, aquele seria o último beijo da noite.
Na mesa, só Jochen se apercebeu do que estava prestes a acontecer, um matulão com a camisola do Leverkusen bebera demais e impedia o regresso do Maltês à mesa, provocando-o com qualquer coisa na sua língua de cobra manhosa. Vou ser muito pouco útil nesta parte da narrativa, porque o que foi dito entre o boche e o Maltês permanece um mistério. É possível que um deles tenha dito qualquer coisa desdenhosa sobre os polacos, e o outro sem pejo na língua, tenha faltado ao respeito à mãe ou namorada do outro interveniente… O alemão já cuspia as suas declinações e flexões, rot vor Wut parecia um vulcão prestes a libertar a sua fúria, um Krakatoa que se conseguia ouvir a cinco mil quilómetros de distância.
Santinho, ponto de exclamação. Retribuía o Maltês mantendo o seu ar calmo e sereno, de quem não se agita nem pelo vento, segurando firme na mão direita, a fresca, a bela, a mais preciosa cerveja! O boche sem meias medidas, aturdido com o insulto, partia para a violência, expelia saliva descontrolada pela boca, e sem pensar na desgraça, empurrou o Maltês contra o balcão.

Respingado de cerveja perdendo quase um terço, o sangue começava a ferver na guelra, e sem largar o copo, puxava um gancho pela esquerda. Not the left, alguém jurou ouvir na mesa, ou então foi nie w lewo, que é mais ou menos o mesmo em polaco. A esquerda não, ponto de exclamação, implorava Jochen, sabendo que o Maltês não poupava a esquerda, socando em cheio na bochecha do boche obstinado. E lá voava um alemão em câmara lenta, em low cost aterrava pouco depois pelo chão. Mas estava descuidado o Maltês, embriagado de paixão e algum álcool, bebericou vitorioso na cerveja, ou do que dela restava, e sem dar conta do que ai vinha, foi atingido na cabeça, abrindo-se um lanho onde não caberia o juízo, por muito pequeno que fosse!