quinta-feira, 16 de agosto de 2012

imortal

Sete letras, dois vertical, que não morre, eterno, inextinguível, perdurável, pessoa cuja memória ficará para sempre…

Com o olhar a divagar no horizonte, a boca articulava cuidadosamente cada vocábulo, ela têm destas coisas, num minuto cospe pelo ar, noutro move os lábios como um ventrículo não conseguiria mover, e fala como se não fossem dela as palavras. No bar ia pedir-te um cigarro, nunca tínhamos falado e no entanto algo me disse que nem valia a pena... já não fumas, tenho a certeza que não és um policia, o teu nome enrola-se na minha boca como bolo… Como posso saber que vais gaguejar, como é que me cheiras a laranjas e que vontade é esta de sentir as tuas mãos pelo meu corpo e ao mesmo tempo te odiar?

Demorei algum tempo a responder, e no entanto não saíram belas palavras, derraparam pela calçada, gaguejadas como ela previra. Comecei pela parede Norte. Esta era a nossa casa antes de eu ir preso, nas paredes havia quadros e fotos das férias, casamos num dia cinzento de Maio. O olhar desviou-se da chuva e numa trajectória sem pensar passou por mim como um pássaro grande que plana, pousando num fenda invisível na parede. Não conseguia decifrar se era um olhar incrédulo ou piedoso, e continuei para Este. As laranjas eu roubava para ti nas traseiras no jardim do vizinho, saltava o muro de bolsos cheios, néctar dos deuses espremido que se colava aos meus dedos… e que tu lambias.

A língua passeou pelo lábio, lenta, diabólica, dolorosamente tortuosa… maltes… sussurrou, como se dissesse para ela mesma, para ver como soava na sua memória. Prendi o maxilar, aguentei o nó que me ia apertando a garganta.
Tu não te lembras porque te apagaram a memória de mim…
Como assim?

Eu sou o que chamam de um resistente… tenho todos os nomes, era isso que eles queriam, e como não falei, acharam que conseguiam extrair da minha memória. Mas não podiam ficar por ai, tinham de limpar a minha existência… quando acordei estava num hospital, não me lembrava de nada, disseram que tinha tido um acidente. Aos poucos a memória foi voltando em sonhos, todas as noites eu sonhava cada dia que tínhamos vivido juntos, eram belos pesadelos, torturado pela tua ausência não tenho tido descanso… lembras-te do choque? Ia-mos na camioneta, ficaste ao meu lado o tempo todo, pulmão colapsado, no dia seguinte foste visitar-me ao hospital, trazias um vestido azul…

Como é que a memória voltou em sonhos? Não entendo, parece que nem falamos a mesma língua…

Repara na parede Sul, consegues ver o emaranhado estrangulador das raízes?
Levantou-se em direcção à parede, com receio tocou ao de leve na aspereza do troço forte, a pele do braço arrepiou, era como se tocasse em mim.
Continua.

Foi um velho muito velho que me ensinou a construir sonhos, a entrar e sair deles deixando todas as recordações salvaguardadas, por isso mesmo sem memória, quando Morfeu chegava pela noite, eu voltava aos teus cabelos, aos teus braços… ao centro do teu corpo. Levei algum tempo a entender que o que sonhava eram de facto momentos que tinha vivido… nem imaginas quantas vezes te procurei e te encontrei… e nunca sequer olhaste para mim.
E ela contemplou placidamente, caminhando da parede Sul à Norte cautelosa, segurando a bússola dentro do peito na minha direcção. Debruçou-se para me cheirar, confiando no nariz mais do que em qualquer outro sentido. Fechei os olhos baixando a guarda da alma, sentia o calor da aproximação do seu corpo, as pontas do cabelo roçando, o ar quente que expirava junto à minha cara e o bater do coração, agitado pelo perigo.

Quando a chuva parar…disse, mas ela não me deixou continuar, juntando os meus lábios no seu dedo indicador, abri de novo os olhos, a cara dela tão junta, os lábios tocaram-se primeiro só comprimidos, tímidos, lábio superior com inferior abraçados, uma dança húmida que terminava com o enrolar de línguas ávidas, ferozes caçadores de bocas, animais insaciáveis. Passeiam trémulas inseguras, recuperando a sensibilidade, as minhas mãos pelas costas nuas dela, dedilhando pelas concavidades.E ela continuou com a profecia... quando a chuva parar vais estar dentro de mim, vivo, pulsante como um enorme peixe que se agita fora de água.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

lodo

Quatro letras, dois horizontal, sedimento terroso no fundo das águas, [figurado] vergonha, ignomínia, aviltamento, degradação...

Não tinha completado cinco anos quando me apercebi que ao contrário da maioria das pessoas, eu não era capaz de sonhar. Os relatos aterradores de fantasmas, monstros, quedas em espiral, camas mijadas, luzes sempre acesas… eu não sabia o que isso era. Para me reconfortar a minha mãe dizia que toda a gente sonhava, mas que algumas pessoas simplesmente não se lembravam de nada na manhã seguinte. Seria esse o meu caso e ficou por ali. Uns anos mais tarde, o tio de Alcácer ficou lá a dormir em casa por ocasião de uma celebração qualquer, dizia-se que tinha noites violentas, um trauma de guerra, e eu na curiosidade dos onze fique acordado, como um soldado raso de sentinela. Quase que perdia a paciência nessa noite, mas compensou, próximo da madrugada um leve agitar teve início nos pés, subindo pelas mãos que retesavam o lençol, o luar iluminava-lhe o rosto de perfil e a uma expressão agonizante juntava algumas palavras imperceptíveis de aflição. Fiquei maravilhado, não conseguia sequer imaginar o que ele estaria a sentir, como era possível que ele estivesse ali e ao mesmo tempo num outro mundo. Acordou agitado mergulhado em suor. O que fazes aqui rapaz? Volta para a cama… Disse com pouca autoridade. Como era? Perguntei, desperto pela curiosidade. Era horrível, respondeu, com duas quebras em cada canto da boca. Mas é como um filme? Voltava eu à carga… Não, é como o Inferno… Mas sentias dores? Perguntei mais uma vez, não dando sinais de que fosse desistir. É pior que isso… é como ter vermes a comer-te a mioleira… agora vai dormir, se tiveres pesadelos ainda vão dizer que foi culpa minha… Eu não sonho! Disse com muita convicção. Sorte a tua! Terminou o meu tio. Mas para mim não era sorte nenhuma, eu queria sonhar…

Muitos anos depois em Lhasa, conheci um homem velho enquanto fumávamos ópio, contou-me o sonho que acabara de ter, com um sorriso sem dentes que trespassava todo o rosto. Uma mulher, chinesa da província de Gansu, nascida das gotas de orvalho, perfeita flor de lótus, sabor a mel que lhe permanecia na boca. Por cima das nossas cabeças, o fumo desenhava o contorno de corpos despidos, um homem e uma mulher. Eu não sonho, confessei-lhe. Ficou sério, levou demoradamente o narguilé à boca cerrando ligeiramente os olhos, exalou uma outra nuvem de fumo e depois disse. Os sonhos trazem à tona os nossos desejos mais íntimos, e mascaram com trajes festivos os nossos medos. Um homem que nada deseja e nada teme, não é um homem.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

proa

quatro letras, treze horizontal, a parte dianteira do navio no terço do seu comprimento, [figurado] soberba, vaidade…

A fome voltou, mais fraca que o cansaço, mas ainda assim capaz de me arrastar das profundezas de um sonho, onde a parede sul era o sustento das raízes de um carvalho, e pelo chão da sala rolavam à deriva bolotas do tamanho de laranjas. Passei revista ao frigorífico e depois ao armário de cima. Restos de um doce avermelhado, bolachas numa lata azul de metal, meio saco moído de café. Enchi ao nível com água, atestei de pó castanho aromático, alisando a superfície com o verso da colher, e acendi o fogão, agitando o fósforo que se extinguia num fio de fumo, imprimindo a primeira pausa num ritual antigo repetido vezes sem conta, executado em adagio affettuoso, entre 66 a 76 batidas por minuto.

O café quente empurrou pelo esófago duas bolachas partidas sem doce, moles pelo tempo esquecido numa caixa descorada. O sol cavava rasgos na densidade cinzenta das nuvens, iluminava os terraços vizinhos e lá ao fundo a copa redonda de uma imensa tília, estranho camaleão que viradas as folhas pelo vento, mudava de tons escuros a claros.

Ela acordou, está sentada na cama, olhar sujo de tinta, cabelo encrespado, lençol enrolado pela barriga das pernas. Vai seguir o cheiro do café que entretanto verti numa segunda chávena, a chávena que eu nunca uso, que se destaca das restantes pelo tamanho, delicadeza, a que ocupa o primeiro espaço da fila de loiças no único armário envidraçado. Esperou este dia pacientemente, cheia de café, já falta pouco para que ela lhe pegue com ambas as mãos.

Já contei como se queima, como é bela a sua nudez, já mencionei pelo menos duas vezes que ela vai dizer que me odeia, sem saber porquê... e depois a chuva voltara a cair e então vai perguntar como sei…

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

padieira

Oito letras, três horizontal, verga superior de porta ou janela, sobretudo quando é de madeira; face lateral do lagar…

Anda, gatinho maltês, salta cá para a minha cama… dizia ela à janela rompendo o silêncio da madrugada, reino dos melros que pilham os jardins. Carregados os bolsos com laranjas, calças a cair pelos fundilhos, atravessava o muro do vizinho e voltava vencedor ao meio das suas pernas.

Agora sobram laranjas na árvore, espera o fruto maduro cair por terra, sobracem a mim forças e treparia mais uma vez o muro por ela. Olho o dia que nasce pela janela, enquanto dorme profundamente, ninfa nua aterrada no colchão. Sentei-me na poltrona da sala para abrir o quarto dos sonhos e esconder as memórias daquela noite. Era difícil de acreditar que tudo não passava disso mesmo, um sonho ou uma cena de um filme que se viu faz muito tempo no cinema. O carro a voar pela estrada, a chuva que se dissipava à sua passagem corrida por um limpa-vidros gigante, a perseguição e depois o embate, o carro a rodopiar no ar centrifugando os ocupantes. O segundo sujeito cuspido, o primeiro saindo cambaleante em direcção à fuga, fiz tenções de o perseguir, fazê-lo pagar a divida que abrira na minha testa, mas Guinevere gritava, não me deixes…

O barulho da rua entrou nas casas, acordam uma a uma, correm persianas, acendem luzes. Então o céu manda que seja tecido um manto de nevoeiro com que nos cobre a saída, pego nela e desaparecemos pelos empedrados, bairros cinzentos, esquinas vazias. Ao quinto lanço de escadas, esgoto as últimas forças, ela dorme nos meus braços, encosto-me à parede fria. Desde fevereiro que o elevador não funciona, a esta hora também não queria acordar o prédio inteiro. Respiro fundo, já falta pouco, sem o ar frio da noite o cheiro dela rascunha-me o passado na mente, o mesmo perfume aspergido apenas do lado esquerdo.

domingo, 12 de agosto de 2012

borrifo

Sete letras, quatro vertical, líquido que se expele da boca apertando os beiços ou que cai em gotas miudinhas...

Não sei se alguma vez sentiram a chuva berrar-lhes ao ouvido, talvez ela já o tenha feito e estavam tão distraídos com o mundo, que nem se deram conta disso… é uma sensação única, é quase como ter um oficial da guarda, vermelho de gritar, que pergunta sem respirar pelos nomes dos teus companheiros, e está tão próximo que sentimos a saliva salpicar-nos a cara, o bafo do tinto que regou o almoço, as aliterações numa pronuncia que nasceu bem a sul … eu corri, além das minhas capacidades, das dores e do peso que se tornavam quase insuportáveis. Quando os alcancei, já o semáforo tingia tudo de verde e o resto já foi dito, rolamos numa luta pelo chão, um bolego na mão errada, um respingo de sangue quente no sobrolho.

Gosto da palavra bolego, para quem só se sentou agora, é nada mais nada menos que uma pedra, um seixo.

Adiante… o certo é que não desmaiei, talvez até quisesse, era o caminho mais fácil, deixar-me por ali caído sob um aguaceiro, desistir de vez dela, já que nem sabe quem sou, para quê esta persistência. E é então que reparo nas gotas, de rosto contra o chão, são elas que me vão levantar da inércia, é que parecendo frágeis, fragmentadas em outras tantas quando embatem no pavimento, vão perfurando com extrema paciência o asfalto. Pois é, o provérbio é antigo, mas nem sempre temos a oportunidade de ver mesmo de olhos abertos…

Conjugo então as minhas forças, vindas sabe-se lá de onde, congelo o sangue à saída do lanho, não há fome, nem saliva ou dor que aflija, tudo em mim é areia que vitrifica. O carro dela já vai lá ao fundo, braceja, esperneia, não vai sem dar luta, fera sem espécie! Entro no outro carro deixado pelos dois homens, na ignição oscila um macaco de expressão suja preso à chave. Pedal ao fundo, deslizo ruidoso pela cidade, pista brilhante à luz amarela dos faróis.

sábado, 11 de agosto de 2012

istmo

Cinco letras, dois vertical, terra que liga uma península ao continente…

No desconforto do encosto do corpo à roupa molhada, veio unir-se num cerco o frio. As mãos aninham-se nos bolsos, procuram um consolo que ande escondido. E então surge a fome, rainha e senhora das necessidades, à sua frente encabeçando o desfile caminha um grande lobo, rosna um vazio dentro do estômago.

Aqui te pilho, além te ganfo… murmurava para a companhia de botões sentinelas apertados nas guaritas de fazenda. Cortei por uma viela de arcadas escuras e cantos de mijo, aberta para uma outra rua mais ampla de margens arborizadas, entre edifícios compactos de casas vazias, lojas abandonadas. Na leve inclinação da estrada, alcandorada de um semáforo preguiçoso, o carro dela não se movia. Iluminada a rubro distinguia a porta ligeiramente aberta, cabeça de fora, cabelo caindo a direito, espectador da boca que vomita. Acelero o passo, quase em corrida, uma dor antiga regressa ao joelho esquerdo, o ar frio fere os pulmões, respira pelo nariz, digo para mim.
Um carro de faróis amarelos cruza a mesma rua parando um pouco mais abaixo, dois vultos apressados deixam o seu interior, caminham para ela.

Respira devagar, dizia, acalma-te… já chamaram a ambulância. O ar falhava-me, entrava a miúde, queria parecer forte, mas as dores condensavam-se em volta do peito, os olhos enchiam-se de névoa. As palavras não se formavam, não conseguia perguntar se ela estava bem, o céu da boca deslocava-se, um bolo de sangue crescia sobre a língua. Naquela espera que pareceu interminável, o rosto doce melancólico, em que eu mal reparara, apoderou-se do meu destino, entreguei-lhe sem palavras todos os meus dias. Na manhã seguinte faltou às aulas e visitou-me, trazia uma caixa de raivas e um vestido azul. Uma semana depois casamos.

Um descompasso agita o bater que nasce no peito, a chuva brade-me ao ouvido, corre, corre o mais que puderes…

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

érebo

Cinco letras, catorze horizontal, inferno em linguagem poética…

Dois homens lutam pelo chão no reflexo metálico de um carro. Um deles sou eu. A chuva declarou guerra, lançando uma carga de água que cai com prumo. No interior ela resistia ao segundo sujeito, o primeiro vai atingir-me na cabeça com algo, talvez um bolego, não vou cair inconsciente, apenas de rosto no chão ao nível das gotas que pulverizam o asfalto. Volta trôpego ao interior, arrancam com velocidade.

Não tens cara de Fernando Cassola de Miranda, disse brincando com a minha falsa identidade, a poucos metros da entrada do bar.
Deixa-me levar-te a casa, pedi sabendo de antemão que a súplica nunca resultava com ela.

Eu sei cuidar de mim, não preciso nem admiro cavalheirismos, mais depressa necessito de um cigarro… e de repente perdeu a graça, atirou o olhar ao chão na mesma direcção onde a beata tinha morrido e afastou-se apressada pela chuva, martelando o passeio, interrompendo o precipitar. Segui-a até à porta do carro, a mesma que dai a instantes vai reflectir uma luta corpo a corpo, quase equilibrada, até que uma pedra que rolou da calçada virá para corromper a essência humana.
Atirou com a gabardine encharcada, bateu a porta com estrondo e sem olhar de novo para mim, subiu uma roda pelo passeio e desceu pela avenida retardada pela chuva e pelo etílico, ainda não diluído.
Recebo até aos ossos a minha aliada, ali parado sem rumo no meio da cidade. Já é tarde para táxis, a rua vai deserta, adormecida nua num lençol líquido que se escoa pelas entranhas. Decido-me pelo norte, tomo a mesma direcção que ela escolheu sem saber que a vou encontrar de novo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

medo

Quatro letras, sete vertical, ausência de coragem, apreensão ou receio…

Pagou a despesa e antes de descer, remexeu o conteúdo da bolsa, depositando a totalidade dos bens no cimo do balcão. Visivelmente irritada, arrumou tudo à pressa e ao passar por mim hesitou, mas não me abordou. Encontrei-a novamente na rua, um pouco acima da entrada do bar, abrigada da chuva na escuridão de uma noite sem lua, mortificava um cigarro que se acendia mais intenso cada vez que parava nos seus lábios viciosos. Um sujeito aproximou-se, segurou-a pelo braço, o tom de voz elevara-se mas a chuva a esquartejar o paralelo não me deixava entender o que diziam. Aproximei-me.

Só cá faltava Sir Lancelote no seu corcel branco.

Sempre teve o dom da palavra, é um talento natural. A boca abria-se e jorrava coisas assim, apanhando-me desprevenido. Respirei fundo para não gaguejar e perguntei se ela queria que a levasse a casa. O sujeito baixinho, careca brilhante sob o guarda-chuva, já não a segurava pelo braço, no entanto continuava a insistir que ela o devia acompanhar à esquadra, não pode fumar assim aqui, dizia o individuo, é uma irregularidade.
Sou inspector-adjunto, pode ir à sua vidinha que de irregularidades trato eu. O cão pequeno vacilou, pouco persuadido pela mentira débil, quebradiça, sem cabouco que a segure. Oh homem, ainda ai está? Vá-se antes que o leve a si por desrespeito à autoridade. Mas o abelhudo não arredava pé, já o cigarro chegava ao fim e a criatura mastigava-me os calcanhares. Tirei do bolso um cartão que apresentei perante os seus olhos gordos inquisidores, podia ler-se em letras garrafais, polícia internacional e de defesa do estado. O suficiente para escorar a mentira que agora crescia, imenso arranha-céus por cima de nós.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

clarabóia

Nove letras, treze horizontal, parte envidraçada de um telhado para entrar claridade…

Não me perguntem como é a parede sul. A mobília sóbria monocromática espalha-se apenas pelas paredes norte e este. A oeste uma janela ladeada de carregados reposteiros, deixa entrar a luz cinzenta da tarde. O único rasto de objectos decorativos são formas geométricas descoradas nas paredes, onde em tempos telas e quadros conviveram com retratos de férias, livros sem ordem, álbuns de vinil, candeeiros e mantas. Estou sentado na poltrona a norte, na mesma roupa que entretanto secou nos ossos. Disse-me, já não me lembro bem quando, mas foi no início dos tempos.

não és nada do que se diz por ai.

Sorri prudentemente, continuando a rabiscar o toalhete de papel salpicado de gordura, estava desde domingo sem fumar, os dedos pediam ocupação.

Devias experimentar sorrir mais, as pessoas tendem a ficar com uma ideia errada de ti.
Quando nasci, a varinha de condão da fada madrinha da simpatia, estava avariada, tinha sido enviada para a grundig de Nuremberg, uma reparação que lhe iria custar, literalmente, os olhos da cara.
O que me ficou mais marcado na memória, foi precisamente a expressão que lhe ficou no rosto, então acendeu um cigarro, aborrecida com o comentário, bafejando o fumo tentador na minha cara. E continuei. Que mania essa de classificarem as pessoas em dois grupos, se não são simpáticas, é porque são más… não sou de sorrisos, como aquele fulano que se cruza no elevador com o vizinho de cima, o mesmo que andou a arrastar móveis pela noite adentro, e em vez de o chamar a atenção, espevita o zigomático e sob a iluminação fluorescente, rasga-se-lhe a cara num belo sorriso, formalmente acompanhado de um cumprimento qualquer matutino, estado do tempo, blá, blá, blá…

Deixa-me adivinhar, tu és o vizinho de cima!

smoke

terça-feira, 7 de agosto de 2012

uade

quatro letras, nove vertical, curso de água temporário num deserto.

Um aguaceiro atirou-se contra a grande vidraça da sala sem que nada o previsse. Cortava o silêncio como uma lâmina que rasga a carne, e no cenário mudo a preto e branco, um fio liquido, vermelho vivo, descontinuava a cena.

Como sabias que é assim que gosto do café?

É um corpo belo despido de memória, habitado por um vazio inexpressivo de sentimentos. Um vaso, recipiente de ar, mente assaltada pela constante sensação de déjà-vu. E por isso pergunta como sei que ela gosta do café amargo, simples, escuro e brilhante sem espuma, a escaldar numa chávena larga de rebordo fino.

As partidas da mente, lembra-se do café mas não se lembra que fomos íntimos, trinta e sete vezes casados no mesmo dia, adormecida mais de duas mil e quinhentas noites ao meu lado até perdermos o rumo.
É assim que o corpo entranha-se no café, e não o café no corpo e ordena que a boca pergunte. Não te lembras de mim, boca? Claro que não, a boca tem fraca memória, apenas cospe o que lhe mandam, sejam perguntas, saliva, escarro e por vezes até sangue, mas isso é mais lá para a frente. O sabor dela tão buliçoso permanece na minha boca.

E a chuva regressa, ainda mais forte, numa desigual disputa pela sua atenção, diverge-lhe o olhar mantendo-o cativo no horizonte sombrio. Olha mas não vê.

Central Park Statue in the Rain

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

arnês

Cinco letras, quatro horizontal, armadura completa…

Entre dois goles de café diz que me odeia mantendo a expressão com que saíra da cama, o ar altivo de baronesa bebericando pela fina loiça, massa de caulino, feldspato e quartzo. Um estranho à língua que presenciasse este comedido monólogo, decerto julgaria tratar-se de uma declaração apaixonada, e por suas palavras diria satisfeito que era amor e nada mais que amor o que ela sentia.

A palavra desprendia-se da sua boca sem esforço, deslizando num tapete acetinado. “Odeio-te” era declamado através do espaço, a manifestação terna soava a “amo-te”, mas quem diz “amo-te” nos nossos dias? Caiu em desuso, a conjugação verbal enrola-se na língua, travado no palato… boca escancarada para libertar o “a” aberto, qual peixe esperneando fora de água.
Uma vez sonhei que me tinha desabado a abóbada palatina, e no seu interior descobri que vivia um caranguejo de armadura mole, mergulhado num charco de águas salgadas. No topo da carapaça tinha gravado o rosto de uma bela gorgóna.

A pele branca, arrepiada pela aragem que sobe a rua e entra à sua procura, ilumina-se na proximidade dos raios solares. É magnetizante e isenta de marcas, apenas cortada obliquamente por esverdeadas veias. As mãos juntas seguram a chávena, tapa candidamente os seios nus com o interior dos antebraços. Nas costas direitas, os ombros relaxam, pernas que se cruzam ligeiramente, sexo que daqui onde estou só se adivinha.

Perseus with the head of Medusa by Theodor Charles Gruyere (1814-55). Ujazdów Park, Warsaw. (detail 1/9) by Adam Gut.

sábado, 4 de agosto de 2012

khanjarli

nove letras, oito vertical, tipo de adaga Hindu, com uma forte lâmina de duplo gume e largo pomo de formato semi-circular...

No dia seguinte já os ponteiros marcavam a tarde, e ela levantou-se sem certezas e sem roupas, seguindo o rasto quente do café que a esperava, ansioso por se esvaziar nela em sinal de veneração e a preencher de conforto. O olhar ainda mais tenso parou em mim, analisou-me por fora, não me encontrado por dentro.

Sentou-se na beira mais distante de mim, parece estranho, mas é exactamente a mesma distância a que se sentou na noite passada, nem mais nem menos um milímetro. Eu sei que é a mesma distância, ela também. Um afastamento propositado, medido, planeado sem erros, que errar só é permitido a humanos, e nós não somos bem isso.

Bebe da chávena sem marcas de bâton. Parece uma imperatriz, empanturrada de vaidade a quem um trago mais súbito vai queimar o céu da boca, escaldar a abóbada palatina e pintar a castanho a língua bifurcada, que toca os lábios sibilante para me dizer. Odeio-te!


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

diabo

Cinco letras, um horizontal, pessoa astuta ou habilidosa...

Pousou o copo com demasiada força, atraindo as atenções dispersas pelo bar. O fundo mais espesso, porventura concebido para resistir a movimentos desmedidos como este, esperava ser enchido no meio do balcão, e tornar rapidamente aos lábios que o marcavam no rebordo de vermelho.

Leva o etílico as memórias, copo atrás de copo. Vai cheio levado aos lábios, volta vazio com força ao balcão. O empregado por detrás na sua vida, nem ousa levantar os olhos, mira o copo vazio, miraculosamente inteiro, pronto a ser atestado até ao rebordo tatuado.

Reparei nela assim que se sentou cinco lugares para a esquerda. Sem desviar o olhar da maquineta tecnológica, pediu um whisky, e depois outro, e outro mais, todos sem gelo até eu perder a conta, esvaziando-se em cada gole o meu interesse. O cabelo liso escuro, caindo calmo pela cabeça, sem remoinhos ou ondas distintas, pouco se agitava apesar dos movimentos irritados. O olhar intenso, delineado a carvão, estava preso como eu já disse, passeando livre uma ou outra vez pelo espaço em redor, uma vez em direcção a mim. Mordeu o lábio, carne viva pintada a sangue, onde mergulhava doce o álcool, amargo o céu do dia seguinte.