terça-feira, 14 de agosto de 2012

proa

quatro letras, treze horizontal, a parte dianteira do navio no terço do seu comprimento, [figurado] soberba, vaidade…

A fome voltou, mais fraca que o cansaço, mas ainda assim capaz de me arrastar das profundezas de um sonho, onde a parede sul era o sustento das raízes de um carvalho, e pelo chão da sala rolavam à deriva bolotas do tamanho de laranjas. Passei revista ao frigorífico e depois ao armário de cima. Restos de um doce avermelhado, bolachas numa lata azul de metal, meio saco moído de café. Enchi ao nível com água, atestei de pó castanho aromático, alisando a superfície com o verso da colher, e acendi o fogão, agitando o fósforo que se extinguia num fio de fumo, imprimindo a primeira pausa num ritual antigo repetido vezes sem conta, executado em adagio affettuoso, entre 66 a 76 batidas por minuto.

O café quente empurrou pelo esófago duas bolachas partidas sem doce, moles pelo tempo esquecido numa caixa descorada. O sol cavava rasgos na densidade cinzenta das nuvens, iluminava os terraços vizinhos e lá ao fundo a copa redonda de uma imensa tília, estranho camaleão que viradas as folhas pelo vento, mudava de tons escuros a claros.

Ela acordou, está sentada na cama, olhar sujo de tinta, cabelo encrespado, lençol enrolado pela barriga das pernas. Vai seguir o cheiro do café que entretanto verti numa segunda chávena, a chávena que eu nunca uso, que se destaca das restantes pelo tamanho, delicadeza, a que ocupa o primeiro espaço da fila de loiças no único armário envidraçado. Esperou este dia pacientemente, cheia de café, já falta pouco para que ela lhe pegue com ambas as mãos.

Já contei como se queima, como é bela a sua nudez, já mencionei pelo menos duas vezes que ela vai dizer que me odeia, sem saber porquê... e depois a chuva voltara a cair e então vai perguntar como sei…

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