segunda-feira, 27 de abril de 2015

sábado, 25 de abril de 2015

segunda-feira, 20 de abril de 2015

descontinuado

Disse-te uma estupidez qualquer a respeito das palmeiras estarem mortas, o carro voava pela nacional, estava fresco mas mesmo assim levavas o vidro aberto e rias despenteada. Talvez tenha esgotado contigo o que restava de felicidade. Naqueles dias não exigíamos muito, bastava a tabuleta de passagem anunciando uma terra estranha, e a meio da tarde procurávamos um sítio para pedir duas imperiais e sacudir a poeira. Paramos à saída de Imaginário e fotografaste o início. O sol queimava-te a pele, venerava-te estranha de copo na mão, lábios frios amargos do lúpulo. No teu decote caiam suspiros, os olhos dos outros não acostumados ao eclipse e por onde nos guiavas, havia sempre uma estrada, uma rota sem mapa mais perto do mar. Não o víamos, mas ele ali estava, rebentando na densa escuridão, sacudindo a crina indiferente à nossa presença. Foi de comum acordo, nenhuma palavra atirada na fronteira, deitados no leito húmido e movediço, mal abrigado do vento, sons abafados pelo rugido, telhado de corpos celestes. Descobri de ti ínfimas partes, células expostas ardendo invisíveis a quem passasse por acaso, disse-te para não contares as estrelas, cinco camadas acima da pele. O teu cheiro vertido avulso na areia, estupidamente inebriado e cativo, amei-te no limite da linha de espuma. Foi contigo, tenho a certeza, as últimas reservas de felicidade. 


sábado, 18 de abril de 2015

rabugem

Recentemente o meu tempo encheu-se de esperas. Sou remunerado pela ubíqua capacidade de esperar, desfiando paciência pelos minutos, quartos, meias e até horas inteiras. Eu que nunca gostei de esperar, que sempre fiz questão de me atrasar para não esperar, agora espero, pacientemente.


domingo, 12 de abril de 2015

seco

desconfio que havia uma fuga...





sábado, 4 de abril de 2015

emersão

Havia um cristo pendurado que observava em sofrimento, os castigos físicos que a senhora professora nos infligia. Lembro-me dele, terei suplicado por um milagre no momento em que a palmatória esvoaçava no ar em direcção à minha mão, a minha avó fazia-o muitas vezes. Mas ele não me atendeu. Por isso comecei a pensar que deus não existia, só quando algo de mau acontecia, achava que estava a ser castigado devido à minha insolência. Outras questões foram surgindo sem resposta à vista, se cristo era filho de deus, e deus criara o homem e todo o universo, porquê que não tinha deus intercedido, lançando um raio fulminante sobre pilatos? Como é que um pai permitia que o seu filho fosse pregado e morresse em sofrimento? Mas afinal, se deus era o criador, ele era pai de tudo, e sendo pai de tudo, como podia permitir que crianças morressem à fome?  Estaria deus tão ocupado a castigar-me, que não lhe sobrava tempo para fazer chover em África? Onde é que deus estava quando Hiroxima e Nagasáqui foram bombardeadas? E os dinossauros? Que mal teriam feito os dinossauros para serem exterminados da face da terra? E se eles foram, nós também podíamos ser, foi então que decidi retirar deus da equação e tudo fazia mais sentido. Tornei-me no que se denomina um ateísta, e permaneci ateísta durante algum tempo.

No auge da minha adolescência, Kurt Cobain matou-se com um tiro de caçadeira no dia 5 de abril de 1994. No dia seguinte, Juvénal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira foram assassinados. Um era o presidente do Ruanda, o outro do Burundi, mas isso fica algures nos confins de África e deus não quer saber. Dá-se início ao genocídio no Ruanda, em 100 dias calcula-se que morreram 800 mil pessoas. O mundo e deus assistiram em silêncio. No final de agosto de 1994 estima-se que cerca de dois milhões de pessoas refugiaram-se nos países vizinhos, como a Tanzânia, Burundi, Uganda e Zaire (actual República Democrática do Congo). Vinte anos depois, alguns ruandeses continuam sem regressar.
Nesse mesmo ano ainda decorria uma outra limpeza étnica que começara quando um clima de paz finalmente pairava sobre a Europa. O cerco a Sarajevo foi o mais longo da história moderna. Entre 1992 e 1996, morreram cerca de 100 mil pessoas. Atiradores furtivos alvejavam crianças, animais domésticos, homens e mulheres que passavam nas ruas para procurar comida e água. Jornalistas instalavam-se em zonas estratégicas e fotografavam ou filmavam a população a ser alvejada. Em Srebrenica, oito mil muçulmanos bósnios, entre os 10 e os 77 anos, foram executados, alguns foram empurrados vivos por retro-escavadoras para uma vala comum. A comunidade internacional assistia impávida e serena no conforto das suas casas, e deus ou alá, de férias numa estância balnear em Èze.


Também gostava de um dia ir até Èze, aquilo parece bonito. E quem sabe até encontrava deus esparramado numa espreguiçadeira a fumar charros. Eu sou mais de amêndoas e não tenho nada contra os feriados, nem que os coelhos ponham ovos, mas por estas e por outras, não comemoro a ressurreição de ninguém, apenas vou relembrando os que já partiram.
Quando a minha sobrinha nasceu em 2010, tornei-me agnóstico.


emersão: trata-se de «acto de emergir, de vir ou trazer à tona» e, em astronomia, «fenómeno da reaparição de um astro depois de ter sido eclipsado pela sombra ou interposição de um outro» (in Dicionário Eletrônico Houaiss).

sexta-feira, 3 de abril de 2015

naʼiidzeeł

Uma alameda larga desembocava no areal. Não se viam automóveis, no entanto caminhava pelo passeio. O céu era brilhante, azul claro que feria os olhos e que se intensificava junto do mar. O som da música e das pessoas misturava-se com os guinchos das aves marinhas. Havia muita gente, a maior parte permanecia em grupos com aspecto homogéneo, sentados nos medos no limite dos pinheiros. Outras caminhavam em sentido contrário, todas me olhavam com um estranho receio, baixando a cabeça quando se aproximavam. Notei que devíamos pertencer a tribos diferentes, não sei qual era o meu aspecto, mas bastava a distância de uns cinco metros para baixarem a cabeça e desandarem da minha frente.
Um grupo desordeiro de dois homens e uma mulher vinha em sentido contrário, falavam alto em grunhos imperceptíveis e enquanto se afastavam da orla marítima, provocavam os outros transeuntes com insultos e gestos obscenos. Observei-os atentamente à medida que nos aproximávamos, traziam as cabeças rapadas e os rostos riscados na vertical a vermelho. A rapariga que parecia a mais aguerrida, foi a primeira a calar-se quando me viu, os dois homens ladearam-na largando os paus que empunhavam, passando por mim em silêncio, olhando-me de soslaio. Uns metros mais à frente retomaram os insultos, conseguia ouvi-los, olhei para trás e vi que se afastavam rapidamente.
Continuei em direcção à luz, a praia era um pequeno areal que a preia-mar ia engolindo, onde se encavalitavam guarda-sóis e corpos da cor da areia. Um gradeamento acompanhava a orla marítima para norte, que terminava abrupta numa escarpa. Então o som do mar elevou-se acima de tudo, abafando a música e as gaivotas, seguindo-se um estranho e prolongado silêncio. O céu cobriu-se com uma gigantesca onda, tornando o sol vermelho, estático. Agarrei-me instintivamente ao gradeamento esperando a força avassaladora e impossível da ressaca. Olhei à volta, uma mulher de cabelos compridos sorria de uma janela do outro lado da vedação, gritei-lhe que se segurasse, mas ela não ouviu. Pensei abrigar-me no mesmo edifício, talvez a parede de tijolo resistisse ao impacto. Tinha quase a certeza que não ia suportar a força da onda, agarrado a uma cerca de arame galvanizado, e mesmo que aguentasse sem ceder, o pior era o recuo, o retorno da onda ao mar, arrastando consigo tudo o que tinha engolindo pelo caminho.
Já estava pronto para morrer, mas mesmo assim larguei o gradeamento e corri para o edifício de tijolo.


naʼiidzeeł : sonho na língua navaja..

quinta-feira, 2 de abril de 2015

ferrar

Talvez tenha adormecido embalado pelo roçar das ondas. Ela continuava ao meu lado, umas páginas adiante, absorvida numa trama de ladrões gentis e polícias corruptos.
-já ferraste o galho.
-já ferrei o quê?
-o galho, homem! Estavas a dormir…
-achas que sim? Não consigo ter a certeza…
-roncavas como um leitão.
-não seria o restolho do mar a esparramar-se pela areia?
Ela sorriu e voltou ao livro, deixando-me a olhar perdido para a imensidão de céu e mar que confluíam numa linha, depois regressou deixando o indicador direito entalado no miolo para não perder o fio.
-Lembras-me um velhote que parava na biblioteca, assim que abria um livro ou jornal, adormecia automaticamente. O seu ronco era audível a vários metros de distância, mas ninguém o acordava.
Não demonstrei a minha indignação, permaneci calado seguindo o voo incerto de uma gaivota malhada. Ela retomou onde tinha ficado. Quando acordei não havia mar, nem céu, só frio.