quinta-feira, 2 de abril de 2015

ferrar

Talvez tenha adormecido embalado pelo roçar das ondas. Ela continuava ao meu lado, umas páginas adiante, absorvida numa trama de ladrões gentis e polícias corruptos.
-já ferraste o galho.
-já ferrei o quê?
-o galho, homem! Estavas a dormir…
-achas que sim? Não consigo ter a certeza…
-roncavas como um leitão.
-não seria o restolho do mar a esparramar-se pela areia?
Ela sorriu e voltou ao livro, deixando-me a olhar perdido para a imensidão de céu e mar que confluíam numa linha, depois regressou deixando o indicador direito entalado no miolo para não perder o fio.
-Lembras-me um velhote que parava na biblioteca, assim que abria um livro ou jornal, adormecia automaticamente. O seu ronco era audível a vários metros de distância, mas ninguém o acordava.
Não demonstrei a minha indignação, permaneci calado seguindo o voo incerto de uma gaivota malhada. Ela retomou onde tinha ficado. Quando acordei não havia mar, nem céu, só frio.




8 comentários:

  1. Isso de 'ferrar o galho' é tão romântico:)
    E vento também estava?

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    1. nem por isso... e nem o mar cheirava a mar!

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    2. Isso de 'ferrar o galho' é tão romantico:),resposta:e nem o mar cheirava a mar?
      E vento também estava?,resposta:nem por isso?
      Portanto,associas o mar a dormir e o vento a coisa incompleta!
      Muito bem*

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    3. :) nada será tão romântico como dois velhos a roncarem juntos!

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    4. Será um ferrar o galho em stéreo, certo?

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  2. Eu cá não ressono quando estou acordada !
    Ferrar o galho ou partir cascalho são termos bem interessantes do que ninguém gosta de exibir romanticamente.
    Eu costumava dizer que é sempre bom dormir com uma frigideira ao lado como arma de defesa...
    Pronto, vou pra Páscoa, beijinhos.:)

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    1. continuo a achar que nã ressono, nunca ouvi, acho que nã passa de um rumor...

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