terça-feira, 31 de maio de 2016

misiu

O sol e a sombra atacavam-me à vez. Um de frente, o outro pelas costas, deixando-me as marcas suadas na camisa. Eu quase vencido pelo cimento, o cheiro da solda impregnado, caminhei rápido até achar refúgio na entrada sombria do prédio. Encetei a subida sem accionar o interruptor da iluminação. A inquilina do primeiro esperava-me, porta de casa entreaberta. -Misiu, misiu…   Uma senhora idosa, olhos pequenos, muito sábios e brilhantes, segura-me pelo pulso com medo de me perder afogado na incompreensão, enquanto enche o patamar de palavras. O arrancador disparou, naqueles poucos segundos o interruptor bimetálico, aquece e curva-se, abrindo o circuito eléctrico. Quando a inquilina do terceiro começa a subir as escadas carregada com dois sacos, o fluxo de electrões entre os dois filamentos da lâmpada é constante. A senhora idosa aproxima-se da escada sem me largar o pulso, cumprimenta a mais nova que pousa as compras e com autêntica paciência escuta. Enquanto fala, enrola-me um terço no pulso, sinto que posso estar a pertencer a alguma confraria de patamar de escadas. A mais jovem então explica-me, parece que tenho um espírito que me acompanha, um russo, coisa ruim, entra quando estou vulnerável. Aparentemente tiveram uma conversa interessante, sábado, quando cheguei meio atordoado, muito tocado, até entrei para um chá. Juro que não me recordo de nada. A senhora fica satisfeita e larga-me. Carrego as sacas da vizinha até ao terceiro, tem pequenas estrelas na t-shirt e uma voz morna, convida-me a entrar, mas estou a precisar de um banho. Talvez outro dia. Agarra-me o pulso com o terço ao dependuro. -Não o tire. Diz-me com preocupação. O falecido da inquilina do primeiro, era russo.

cenosilicafobia

segunda-feira, 30 de maio de 2016

cassete

Perdi a conta às cassetes que terei gravado, regravado. Etiquetas arrancadas, rasuradas. Quantas patilhas quebradas, fitas restauradas pacientemente. Quantas foram rebobinadas à la mano para poupar as pilhas. Oferecidas, trocadas, outras salvas até aos dias de decadência. Curioso como sobrava tempo...




sábado, 28 de maio de 2016

hospedaria

Um capítulo por dia escrito a duas mãos e sete tentáculos (o oitavo segura metodicamente uma chávena de chá de gengibre e limão), sobre o acontecimento mais horrendo de que já se ouviu falar na hospedaria. A crítica é unânime.
A não perder, num blog bem perto de si. 


"Oito tentáculos de um crime é um desafio aos estômagos mais sensíveis, um suspense sempre pendente, filetes de polvo e quase duas mãos cheias de suspeitos!"                        The Washington Post
"Brilhante! Soft porn camuflado de policial. Tão negro como a tinta da vítima!"    El País
     "Piovra é o personagem mais divertido, incrivelmente sarcástico, e os seus comentários fazem-me rir imenso. Seria o tipo ideal para namorar, se não fosse um polvo."                                                                                                                 Paris Match

Capítulo V - No caldeirão de Belzebu

Estou como o outro, quando não tenho nada de interessante para ler, aborreço as pessoas com histórias!

sexta-feira, 27 de maio de 2016

fobia


assim sendo talvez nem escreva nada... 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

wątek


Consegui tomar banho num fio de água que escorria do chuveiro.

domingo, 22 de maio de 2016

gruta

Para que conste (e assim possam entender a dificuldade que tenho em decifrar o que escrevem por essa bloga fora, culpa minha, claro):

Não leio jornais, nem digital nem de papel; os livros que tenho são todos antigos, quem os escreveu já morreu, e quando compro, são usados, e acabo por escolher escritores que conheço e por isso sei muito pouco sobre os mais recentes; não ouço rádio, toda a música que me chega vem do mesmo sítio e quase toda foi composta na segunda metade do século XVIII e o início do século XX; não vejo televisão, nem séries (desde que o Poirot deixou de passar na rtp2) e agora que o meu portátil quase deu os últimos suspiros, não vejo filmes ilegais, nem pornografia. Também deixei de ir ao cinema, assim como deixei de beber café. Não fumo, quando posso compro uma garrafa de tinto, e a cerveja é da mais barata. Também não fodo, não como fora, não vou ao teatro, nem a museus. O meu telemóvel é antigo, dá para fazer chamadas e mandar mensagens; a minha roupa está fora de moda e não consigo enumerar nenhuma marca; também não consigo falar de nenhum restaurante fantástico, nem sei que modelos de automóveis saíram no último ano. Até à cinco minutos atrás desconhecia que algumas funcionárias do diap tinham dançado no varão, que a Dilma já não é presidenta e que pode haver vida na Europa de Júpiter. Também não me dei conta que a Áustria pode virar para a extrema-direita... e que o benfica ganhou a taça da liga. Algumas notícias parecem inventadas, e até parece que fui eu que as inventei. 

E agora vou voltar para a minha gruta, deixo o Borodin porque é o Borodin. Já chega por hoje. 



sexta-feira, 20 de maio de 2016

pokój

... ou um almoço regado.

Com a cabeça acima das nuvens, mas os olhos abaixo dos joelhos,
Cruzei-me no passeio com uma moça de sandálias laranja,
Saia esvoaçante e bengala pejada de bicharada e até coelhos.
Manquejava a moça, levemente, no cabelo uma hidranja
Pousada, muito azul, contrastando com seu olhar distante e vago.
Então olhei para as suas mãos buscando marcas de Amélia.
Mas depois acelerei o passo, desviei dali a ideia, carago...
A vizinha do quarto sem cave nunca usaria sandálias com meia!

daqui Amélia vai à praia

terça-feira, 17 de maio de 2016

dissolver

O homem que era segunda opção tomou banho e engomou a melhor camisa. Estava para sair quando recebeu uma mensagem que anunciava que tinha passado de primeira para segunda opção. O homem que tinha tomado banho e engomado a melhor camisa, descalçou os sapatos e pendurou o casaco. Depois sentou-se junto à janela e esperou que a luz eléctrica iluminasse as ruas, e que os carros escoassem das estradas. Por fim, quando a lua subiu por detrás do prédio de escritórios, tirou a melhor camisa e as calças, e mergulhou num sono pouco profundo.

A mulher que mandava mensagens tocou-lhe à campainha ainda o sol não tinha nascido. O homem que temia que os vizinhos acordassem, um deles seu senhorio, abriu-lhe a porta sem vontade. A mulher que estava sem dormir trazia pão fresco e não sabia que o homem que tomara banho e engomara a sua melhor camisa para com ela se encontrar, preferia torradas. O homem que queria desaparecer fechou-se na casa-de-banho e tentou dissolver-se em água quente corrente. Mas a mulher que estava sem dormir abriu a torneira da pia para encher a cafeteira, no exacto momento em que o homem quase se dissolvia… 

Charlie Chaplin, in pay day, 1922

segunda-feira, 16 de maio de 2016

problemas


... a coleccionar desde 1978.




domingo, 15 de maio de 2016

kretyn


o homem que era segunda opção, voltou a descalçar os sapatos e a pendurar o casaco.



sábado, 14 de maio de 2016

pirilampos



"Aquilo são as fêmeas na cowboyada, para atrair os ceguetas dos copuladores. Queres maior poesia de que uma foda cintilante?"

Yume Cyan

sexta-feira, 13 de maio de 2016

volt

O vento dos últimos dias tinha tombado os cedros mais jovens no terreno de Łukasz. Cortamos umas estacas e atamos os que ainda resistiam, compondo sem grande rigor o que podia ser uma sebe. Łukasz deixou-me a terminar a tarefa e saiu para se fornecer de cerveja fresca e algo para jantarmos. Demorou mais do que o previsto e fiquei sem nada para fazer, caminhando para trás e para a frente, junto à sebe restaurada. Do terreno adjacente veio o que parecia ser o resfolgar de um cavalo, no interior de um pequeno estábulo. Aproximei-me da cerca que rodeava o estábulo e ele veio espreitar-me com a curiosidade de um cão gigante. Estiquei-me e depois de me cheirar a mão, deixou-se tocar, excitado com a visita. A cerca que rodeava o estábulo era constituída por postes fortes de madeira, mas o que ligava os postes eram umas fitas plásticas laranjas, que me pareceram frágeis para manter um animal daquele tamanho, mas ao mesmo tempo não pensei bem no assunto. Estava maravilhado com o porte do cavalo, tão interessado nele como ele em mim e foi quando me aproximei mais para lhe afagar as orelhas, que saltei para trás com um choque de alguns volts. O bicho também saltou e relinchou, e espezinhou na lama, assustado, juro que pareceu dizer algo como: és um idiota, não sabes que não podes tocar nessa merda? E voltou aborrecido para o interior do estábulo. Fiquei incrédulo a olhar para as inocentes fitas laranjas, com as mãos ainda a tremer. 

Banksy

domingo, 8 de maio de 2016

wok

Impressiono-me quando vejo sangue. principalmente o meu. Quem me quiser ver a perder os sentidos, só precisa falar-me da sua mais recente operação, ou mostrar o conjunto de vários pontos. Quanto mais frescos, melhor. Sim, é garantido. Uma vez acompanhei um colega que tinha rompido os ligamentos num jogo, estava lá outro fulano aos gritos porque lhe estavam a meter o ombro no sítio. Comecei a ficar branco, o coração desatou a bater, as pernas bambas. Já conheço os sintomas, procurei um sítio livre para me sentar (ou para cair) e assim que avistei uma senhora com aquela farda esverdeada, implorei-lhe por um pacote de açúcar. Ela riu-se, de certeza que contou às colegas, está ali um calmeirão que vai desmaiar, mas trouxe-me um chá que seria 80% açúcar. Abençoada. É automático, volto logo ao normal (ou quase normal). Ossos expostos e ferros a saírem da carne é outra coisa que mexe comigo. 

Wok é uma daquelas frigideiras abauladas. A que tenho aqui é bem grande e pesada e acertou-me na cabeça quando o parafuso onde estava pendurada, cedeu. Talvez atraia este tipo de acidentes. Lembrem-me de vos contar como dei um choque a um cavalo, e como entalei o meu próprio dedo na janela do carro. E foi isto, o wok acertou-me e imaginei logo um grande lanho a jorrar sangue. Mas foi só um "galo". O quanto não vale ser cabeça dura.

já ando à procura de um destes, mas parece que estão esgotados.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

bekväm

Diz-me o que fazíamos ali diante daquele falso terraço baço, ladeado de artificiais canteiros de plástico muito quietos, sem insectos e os tecidos das cadeiras imaculados, sem mordeduras do sol ou deformações do peso dos corpos? Que papel desempenhávamos naquela cozinha estranha, abrindo armários e gavetas que nunca seriam nossos, camuflados por entre os outros casais que tiravam medidas dos móveis e recriavam orçamentos, depenados até à medula? Como foi que me arrastaste para ver as camas se nunca dormimos juntos e depois teimaste que cabia no chuveiro, apesar da largura ser a dos meus ombros e de me teres dado a ideia que lá entrarias comigo? 
Desde quando é que este sofrimento te enche de prazer? 

daqui

quina

... ou canto, estes pra Cuca.

As sandes e os legumes ralados
Que da Ocidental estação metropolitana
Por shoppings nunca de antes visitados
Fomos almoçar, eu e a gostosa da Juliana,
Em perigosos corsários amarelados
Mais do que prometia, precisava de uma cabana,
E entre gente distraída observaram
Cuca, a Pirata que tanto admiraram;


Tocava no piano melodias gloriosas
Competindo a atenção com o relatando
No ecrã a bola e disputas viciosas
Sporting sai empatando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da tv libertando,
Cantando acompanhai por toda parte,
Só o refrão com pouco engenho e arte.
 [Oh think twice, it's another day for
You and me in paradise]


Cessem os campeonatos do ano
As contratações grandes que fizeram;
Tou farto de ouvir falar no Rayo Vallecano
A fama das vitórias que tiveram;
Experimentai o Clair de Lune no piano,
Certeza que até os calhaus absorveram.
Esquece tudo o que na tv encanta,
Que outro valor mais alto se alevanta.


E vós, Cuca Capitã, pois praticando
Tendes aqui um canto de presente
Se sempre em verso humilde celebrado
Fiz tudo para vos ver sorridente,
Dai-me agora um “arrrrr!” alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e diferente,
Nos camarotes sabemos que há pouca higiene
Mas nã há pirata que nã tenha um fato de neoprene.


mais uma vez a sacudir o caríssimo Luís, descanse em paz.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

ecdise

normalmente começa na ponta das orelhas, pequenas lascas de pele soltam-se. e depois há aquele enublar da vista, as articulações endureceram, segunda de manhã parecia que estava de ressaca. tomei dois analgésicos e fui ter com o capataz e disse-lhe que não estava muito bem e que não contasse comigo nos próximos dias. ele que habitualmente é um bicho insensível, mas com receio de tratar-se de alguma coisa contagiosa, ao ver-me naquele tom pálido e febril de sofrimento, disse para tirar o resto do dia. e que fosse ao médico. fui para casa, coloquei mais um cobertor e uma manta por cima da colcha da cama e nu, meti-me lá dentro. agora é esperar. nas costas já vai a meio, os dedos saíram ontem praticamente inteiros junto às unhas. o apetite deve voltar amanhã ou sexta. 

daqui