sexta-feira, 31 de outubro de 2014

rubicundo



O homem que ansiava fechar os olhos e acordar uma semana depois, sofria de uma estranha condição de fobia social. Assim que se despia na presença de estranhos, um súbito afluxo de sangue corava-lhe não só o rosto, mas também o torso. Um fenómeno raro descrito pela primeira vez por um dermatologista que fez questão de o observar minuciosamente com uma enorme lupa, reparando nessa mobilização do sangue que não atendia a nenhuma necessidade fisiológica. É provável que tenha sido este sinal constrangedor que o safou do serviço militar, mas lembrava-se de pouco, ou esquecera muito. Passou para a sala seguinte, a vista era idêntica, mas agora a meio sobressaia uma mesa de massagens. No canto mais afastado da janela, havia uma cadeira onde deixou a roupa impecavelmente dobrada, ficando apenas de boxers e meias. Sentia o calor aflorar-lhe, o coração batia mais ligeiro e na testa formava-se uma goteira, em segundos ia parecer um camarão demasiado cozido ou um inglês que adormeceu na praia. Tirou as meias e enfiou-as no bolso do casaco, estavam de tal modo húmidas, que desenhara no tatami duas formas estranhas ressoadas, muito parecidas com feijões. Sentou-se na mesa junto ao monte ordenado de turcos negros, uma música suave enchia a sala, talvez fossem cânticos, sentia-se mais calmo, mas podia ser do incenso. 


sábado, 11 de outubro de 2014

meiguices

Atravessou as inúmeras divisórias como fazia num dia qualquer, cumprimentando à medida que passava com o habitual “bom dia” distribuído equitativamente pelos colegas, segurando o sorriso amarelo até ao cubículo onde desaparecia, para só voltar a ser visto à hora do almoço, distribuindo da mesma forma “boa tarde”, segurando o mesmíssimo tom enjoado nos lábios. Não suportava as conversas de circunstância, não tinha paciência nem tempo para esbanjar com o que ele considerava de gentinha, onde incluía, grosso modo, os colegas, vizinhos e grande parte da família, em especial o lado paterno. Eventualmente surgiam excepções, e a mulher que nunca queria que o amanhã chegasse era uma dessas raras pessoas que conseguia extrair um sorriso sincero ao homem que ansiava fechar os olhos e acordar uma semana depois.
Bizarra combinação.
Fora ela que sugerira a massagem como presente de aniversário, e se antes já via nela algo mais que uma “pessoinha”, agora que ali estava deitado de bruços mal segurando a saliva na boca, achava que realmente ela era um ser excepcional, e que tinha de a compensar de algum modo por aquela brilhante ideia.
Nada tinha acontecido como previra, assim que a porta do lado norte do estreito patamar do oitavo andar, se abriu, uma senhora que teria sensivelmente a sua idade convidou-o a entrar, usando mais gestos que palavras, mas de um jeito muito tranquilo e pacífico, até diria hipnotizante. Irradiava de forma estranha uma luz, um calor, mas talvez fosse por ser loira, e simultaneamente a pele ser muito branca, mas um branco bonito, não o tom pálido do homem que ansiava constantemente o futuro.
A porta de entrada abria para um hall estreito mas comprido que servia todas as divisões do apartamento. Estava levemente iluminado com candeeiros espalhados, tornando o ambiente acolhedor e simultaneamente intimo, perfumado com chá e flores que decoravam um dos cantos. Entraram numa sala com vista para a rua, dominada por uma grande secretária com duas cadeiras, e nas paredes posters de corpos ou partes, vistos de frente ou de dorso, legendados numa língua estranha.
Lá fora as pessoas moviam-se como insectos mudos, tinha parado de chover.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

malogrado

... ou a continuação de um mau dia!

Diante da porta trocou o guarda-chuva de mão, molhando a ponta dos sapatos, para consultar mais uma vez o relógio rodando o pulso, suspirando por se encontrar em cima da hora. Passou de novo o guarda-chuva para a mão esquerda e preparava-se para tocar novamente à campainha, tinha decidido que só tocaria mais uma vez, duas era suficiente. Se ao fim de tocar duas vezes ninguém surgisse, então era porque se tinha enganado, se calhar tinha confundido a hora, ou o dia, ou estava diante da porta errada, podia também ter trocado o andar, ou mesmo o prédio, a rua podia não ser aquela, porque ali naquela zona da cidade as ruas eram todas muito parecidas com os seus prédios altos, todos muito idênticos, levantados em torno de um pátio amplo ajardinado.
Mas como é que se tinha enganado no dia? Estava marcado no calendário, tinha feito um enorme círculo, e a hora tinha sido confirmada por mensagem. Agora sentia-se um pouco ridículo, a etiqueta da roupa interior nova incomodava-o, tinha-se dado ao trabalho de a comprar uns dias antes, só não planeara a chuva naquela altura do ano, era possível que as meias estivessem ligeiramente suadas por ter de caminhar rápido. Mas naquele momento era indiferente, já não se ia descalçar, tinha gasto vários dias a imaginar como ia ser, para nada. Por um lado sentia-se satisfeito por não ter de lidar com uma situação que o deixava muito constrangido, mas por outro sentia-se desapontado.
Mas que raio de ideia teria passado na cabeça da colega para sugerir darem-lhe de presente de aniversário um voucher de massagem? Nunca se imaginara antes nessa situação, e passou duas semanas a lidar com isso, e depois mais duas a ensaiar as possíveis conversas que teria com o massagista, e consultou o que havia para consultar sobre os diferentes tipos de massagens na internet, embora o voucher só lhe permitisse a massagem de relaxamento, e por fim mais uma semana a programar a compra da roupa interior. Ali diante da porta, o homem que ansiava fechar os olhos e acordar uma semana depois, já tinha imaginado antecipadamente o interior do apartamento, e cheirava-lhe a humidade e mofo, comida requentada, e as toalhas de tanto uso eram de um branco cinzento.
Já que ali estava, pelo menos tocaria mais uma vez à campainha, era o que tinha estipulado assim que pisou o tapete, mas no preciso momento em que encostou os dedos sem chegar a pressionar o pequeno interruptor, ouviu a fechadura rodar no interior do apartamento.


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

massagem

O homem pálido que ansiava fechar os olhos e acordar uma semana depois, ajeitou o cabelo da imagem que pensava não ser sua, desgrenhada pelo vento carregado de chuva. Confirmou estar adiantado olhando pela quarta vez a lentidão do ponteiro no pulso. O elevador parou no oitavo andar e abriu as portas silenciosamente, depositando o homem num patamar estreito e mal iluminado, típico do início dos anos oitenta. Observou a discrepância que havia entre a entrada do edifício e o próprio elevador, e aquele patamar com pouca luz e paredes cinzentas, era como se viajasse através do tempo, retorcendo três décadas na moderna cápsula que ascendia ao oitavo piso, forrada a inox e espelhos.
O elevador desceu vazio, e esse era o único ruído que repercutia no prédio, tornando-se distante à medida que atravessava os andares. Em cada extremo do patamar havia uma porta, ambas idênticas, com uma placa branca noutro material onde se podia ler qualquer coisa que o homem não entendia. Hesitou perante o silêncio, não se ouviam passos, nem vozes, não havia um televisor ligado ou um relato na rádio, como se ambas as casas estivessem vazias, mas ele tinha hora marcada, em qual é que não tinha a certeza. Optou então por tocar à campainha da que tinha uma dúzia de caracteres chineses por duas linhas na placa branca, ao seu lado o guarda-chuva pingava no tapete.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Yùnqì

O empregado recolheu o prato onde metade da comida estava intacta, a deslizar entre o yakisoba mal se distinguia um cabelo demasiado longo para lhe pertencer. Ficou perturbado e sem sobremesa ou reclamação, pediu a conta. O empregado sempre calado voltou com um pratinho onde oscilava um bolinho da sorte com o habitual talão da conta por baixo. Nunca abria o bolinho da sorte, acreditava demasiado na sorte para a receber depois do jantar dentro de um biscoito de farinha. Retirou uma nota da carteira e esperou pelo troco, incomodado pelo olhar que a cozinheira lhe pudesse atirar, lá por detrás do balcão. Ponderava se voltaria, era dos poucos sítios tranquilos para jantar, sem televisão e com toalhas de pano que não picavam os braços. Voltou a levantar a cabeça em direcção à cozinha, precisava de arranjar algo com que se entreter enquanto o empregado calado não voltava com o troco, então sem reflectir abriu a embalagem de plástico inchada e estalou a meio o bolinho da sorte, saltando do seu interior um pequeno papel enrolado. Olhou em volta, o restaurante estava praticamente vazio, para além de duas moscas a circular no centro da sala, havia um casal de jovens junto à janela que entrelaçavam os pés e os dedos ao longo da mesa. Mirou com receio o papel enrolado, pegando-o com estranheza. As letras eram demasiado pequenas para o cansaço dos olhos e pouca iluminação da sala, apareciam-lhe juntas num traço indistinto negro. Procurou os óculos no bolso do casaco, pendurado nas costas da cadeira, primeiro no esquerdo depois no direito. Esticou o papel segurando-o pelas extremidades, mas o empregado voltava, de olhos sempre baixos e um sorriso educado, deixando na mesa o troco e um tímido obrigado. Disfarçou desastradamente o interesse na sorte, amarfanhando o papel na mão e rapidamente  arrumou o troco no bolso sem deixar gorjeta, pegou no casaco e saiu com pressa para lado nenhum.