segunda-feira, 6 de outubro de 2014

malogrado

... ou a continuação de um mau dia!

Diante da porta trocou o guarda-chuva de mão, molhando a ponta dos sapatos, para consultar mais uma vez o relógio rodando o pulso, suspirando por se encontrar em cima da hora. Passou de novo o guarda-chuva para a mão esquerda e preparava-se para tocar novamente à campainha, tinha decidido que só tocaria mais uma vez, duas era suficiente. Se ao fim de tocar duas vezes ninguém surgisse, então era porque se tinha enganado, se calhar tinha confundido a hora, ou o dia, ou estava diante da porta errada, podia também ter trocado o andar, ou mesmo o prédio, a rua podia não ser aquela, porque ali naquela zona da cidade as ruas eram todas muito parecidas com os seus prédios altos, todos muito idênticos, levantados em torno de um pátio amplo ajardinado.
Mas como é que se tinha enganado no dia? Estava marcado no calendário, tinha feito um enorme círculo, e a hora tinha sido confirmada por mensagem. Agora sentia-se um pouco ridículo, a etiqueta da roupa interior nova incomodava-o, tinha-se dado ao trabalho de a comprar uns dias antes, só não planeara a chuva naquela altura do ano, era possível que as meias estivessem ligeiramente suadas por ter de caminhar rápido. Mas naquele momento era indiferente, já não se ia descalçar, tinha gasto vários dias a imaginar como ia ser, para nada. Por um lado sentia-se satisfeito por não ter de lidar com uma situação que o deixava muito constrangido, mas por outro sentia-se desapontado.
Mas que raio de ideia teria passado na cabeça da colega para sugerir darem-lhe de presente de aniversário um voucher de massagem? Nunca se imaginara antes nessa situação, e passou duas semanas a lidar com isso, e depois mais duas a ensaiar as possíveis conversas que teria com o massagista, e consultou o que havia para consultar sobre os diferentes tipos de massagens na internet, embora o voucher só lhe permitisse a massagem de relaxamento, e por fim mais uma semana a programar a compra da roupa interior. Ali diante da porta, o homem que ansiava fechar os olhos e acordar uma semana depois, já tinha imaginado antecipadamente o interior do apartamento, e cheirava-lhe a humidade e mofo, comida requentada, e as toalhas de tanto uso eram de um branco cinzento.
Já que ali estava, pelo menos tocaria mais uma vez à campainha, era o que tinha estipulado assim que pisou o tapete, mas no preciso momento em que encostou os dedos sem chegar a pressionar o pequeno interruptor, ouviu a fechadura rodar no interior do apartamento.


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