sexta-feira, 31 de maio de 2013

abjurado



A meio da semana disse que afinal não podia vir, teria de ficar para depois, um projecto com prazos curtos tomara a dianteira da sua lista de prioridades. E lá estava a carreira profissional, gloriosa, acenando com a medalha de primeiro lugar no topo do pódio. Preparei-me para ocupar o segundo lugar, mas surgiu logo a família, uma massa de pessoas que falavam umas acima das outras e ninguém se entendia. Vá, tens ali o terceiro, é o mais baixo mas ainda fazes parte do pódio, podia ser pior. Já me tinha inclinado para receber a medalha de bronze das prioridades da sua vida, quando sou atingido com uma cotovelada, chega para lá, temos de caber todos, barafustavam os colegas, os amigos, os cursos de culinária, as viagens… e eram tantos que se encavalitavam uns nos outros, e por fim só me restou um pé em cima do estrado e com o outro pelo chão, percebi que na minha vida a tinha colocado no topo, acima do rebentamento das ondas, e sempre que me acenava com um osso, lá ia eu a correr, bem-mandado… senta, rebola… fode-me e podes voltar para o teu canto! 

Esticando-se pela largura da cama, empurra-me até ao limite do colchão, evitando o calor suado dos corpos, o hálito do estômago vazio pela manhã. 

Já nada é como dantes, sob um céu claro de estrelas, adormecidos no enlace depois de desencaixados os sexos. Era um sono contido num sonho, procurando nas mãos sentir a infinita sensação da pele, o apego ao mundo por permeio. Não nos temos na mesma medida. 

Amanho as amarras invisíveis que lancei, retesadas pela distância, com passadas rápidas tem caminhado o tempo, vão perdendo a força, algumas rasgaram e pendem caídas entre a invicta e a capital, outras aguentam-se na esperança de dias mais pertos. Não fazem sentido na vida dela, adia infinitamente um novo encontro… é tempo de as cortar. 


quarta-feira, 29 de maio de 2013

bolacha

As ruas estavam desertas no domingo de manhã, cobertas por uma fina camada de quietação. Sem pressa o carro rolava lento e silencioso pelas vísceras da cidade. O Ribeiro no lugar da frente, concentrava a atenção nas aplicações que acabara de descarregar, e pelo espelho retrovisor, o Quintas conversava, mantendo um olho na estrada e outro nas palavras. Nunca admitiu que ouve mal, com o tempo adquiriu a capacidade de ler os lábios e usa estratégias típicas, como caminhar sempre do lado direito de quem o acompanha, o ouvido esquerdo deve estar menos danificado.
Perto do parque havia vários espaços livres, intercalados sem ordem por um veículo ou outro. Com a mesma calma que conduzira, o Quintas estacionou sem grandes manobras, absorto nas novidades que tinha para contar, é que o tempo parece não esticar quando temos tanto para dizer.
Já estávamos os três fora do carro, espreguiçava-me como um cão ao sol.

Apanho-vos mais à frente, avisei.

Devias ter vergonha, miúdo! Rosnou o Ribeiro com ironia. Quase com 50 anos, headphones nos ouvidos, iphone atado ao braço e umas meias florescentes até aos joelhos! Mas em grande forma.

Não quero ser visto a correr contigo… Desculpei-me!

Já nos tínhamos distanciado um pouco quando ouvimos uma quarta voz dirigir-se a nós, olhamos na direcção do carro e um homem gesticulando furioso, berrava insultos e afrontas, caminhando com alguma dificuldade para trás e para a frente no passeio. O Quintas aproximou-se, mas nós continuávamos sem entender o que o homem dizia, numa precipitação grosseira de adjectivos, saltava-lhe da boca grandes quantidades de saliva. Entrou no carro, colocou o motor em funcionamento, vimos accionar pelas luzes traseiras a marcha à ré, o carro deslocou-se meio metro, puxou o travão de mão, desligou e voltou a fechar as portas com o comando central, sempre muito calmo, agradecendo por fim ao senhor que serenara, estático no passeio.

Que droga andas a tomar? Perguntei-lhe.

E foi então que me contou a história da bolacha, já o Ribeiro tinha desaparecido do nosso alcance, nem mesmo visível pela fluorescência.
Era uma vez uma moça que estava à espera do voo na sala de embarque do aeroporto. Como tinha muitas horas de espera pela frente, resolveu comprar um livro para matar o tempo. Comprou também um pacote de bolachas. Sentou-se numa zona mais isolada para poder ler em paz e descansar. Ao seu lado sentou-se um homem. Quando ela tirou a primeira bolacha, o homem também tirou uma. Sentiu-se indignada, mas não disse nada. Apenas pensou: "Mas que lata que este gajo tem! A sorte dele é que até estou bem-disposta, se fosse em dia não, levava já uma estalada naquela cara, nunca mais se ia esquecer!"
A cada bolacha que ela tirava, o homem também tirava uma. A certo ponto estava tão indignada que nem conseguia reagir. Quando restava apenas uma bolacha, ela pensou: "Quero ver até onde vai a ousadia deste fulano!"

Então o homem dividiu a última bolacha ao meio, deixando a outra metade para ela. Ah!!! Aquilo era demais! Já bufava de raiva! Nervosa, pegou no livro e nas suas coisas e dirigiu-se ao local de embarque. Quando se sentou confortavelmente no interior do avião, olhou para dentro da bolsa para procurar uma caneta, e, para sua surpresa, o pacote de bolachas estava lá... Ainda intacto, fechadinho!

Quantas vezes na nossa vida comemos as bolachas dos outros, e não temos consciência disso? Antes de avaliar, observa melhor! Talvez as coisas não sejam exactamente como parecem! Não penses o que não sabes sobre as outras pessoas. Disse-me o Quintas, e ele sabe muito!


terça-feira, 21 de maio de 2013

canoro



Havia um canário em casa dos meus avós, numa pequena gaiola junto à janela. Chamava-se Canário e sempre o conheci assim, amarelo e manco. 

Não se sabe se aqui também foi a vontade que atiçou a ave, batendo as asas até a gaiola ficar no ar, suspensa. Só se sabe que não ficou inteira, estatelada no terreiro, e lá dentro a pequena ave em sofrimento. A minha avó que tinha o dom de atender às criaturas, cortou o que já não tinha cura e com paciência e extrema ternura, sem falhar um único dia, tratou a pata ferida até ficar um coto rosado. Cantou o canário ainda muitos anos, mais do que aqueles que alguém previra!


segunda-feira, 20 de maio de 2013

tácito



… ou o silêncio das coisas tristes 

O ferro não aqueceu, já estava ligado há cinco minutos no máximo enquanto torrava duas fatias de pão e o café subia na cafeteira, e não aqueceu. Vesti as calças engelhadas e procurei outra camisa. Quando me sentei para tomar o pequeno-almoço, fui assolado por uma estranha vontade de não ir trabalhar, e já estava pronto, vestido e barbeado, faltava terminar o café e sair. Mas não me apetecia levantar. Era como se a minha vontade tomasse conta de mim, ocupando o razoável, abalando desde os alicerces em que me assentaram e moldaram. 

Nunca saberei como foi, pois antes mesmo de achar que tivera uma ideia, o meu cérebro já havia pensado nela, mas aparentemente fizeram crer à vontade que não tinha adversário à altura, e que diante o dilema, as pernas não se levantariam e atrás delas todo o corpo relaxado, degustando o pequeno-almoço. E então proclamaria em grande alegria naquela sexta-feira a meio do mês, como dia de não ir trabalhar e fazer o que lhe desse na real gana! Foi triste a derrota, a consciência com uma direita rápida aniquilou a vontade por nocaute, e lá me levantei sem pensar mais no assunto.


domingo, 12 de maio de 2013

inane



De tão enfadado, nomeei a primavera como a pior das estações do ano. Já não quero as andorinhas a rasgarem os céus, nem ouvir o cuco nas imediações de pauis, basta do colorido das penas dos abelharucos equilibrados nos cabos telefónicos, tapo os ouvidos ao zumbido eléctrico de milhares de insectos, chega de pétalas e sépalas abertas, estigmas repletos de pólen e apocárpicos pendentes ao rubro. 

Tão enfadado ando que me aborreço, na ausência que antecede a partida, as letras não se condensam, as palavras suspendem-se como frutos verdes e largo a caneta, descaído o corpo na cadeira, fecho os olhos com círculos luminosos gravados na retina… invejo os jovens sentados nos degraus do coreto, bebendo sem pressa da boca um do outro em doses pequenas, levitantes como sacos plásticos cheios de esperanças largados à vontade do vento. 

Venha o outro vento, o que trás a chuva e os dias cinzentos.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

tédio



Estou há dois dias encolhido em casa, sai apenas para despejar o lixo e separar a reciclagem, também percorri uns duzentos metros e comprei pão, mas tirando isso estive aqui enfiado, a ver o bom tempo passar lá fora. Perco o apetite, fico deitado até doerem as cruzes e depois levanto-me, penso fazer algo útil, limpar a cozinha ou aspirar. Sento-me só por uns instantes a ponderar, espero que a vontade passe, cinco minutos e afinal decido que vou escrever, ponho o portátil na mesa longe das distracções e das más posições na cama, volto a confirmar que a vizinha não está. Não se vê ninguém, os melros depenicam os quintais à vontade, ontem ainda ouvi a discussão dos vizinhos atravessar as paredes, mas hoje um silêncio alastrou desde cedo, absorvido pelo tijolo manteve-se durante o dia quente, em sossego. Mas não era sobre esse silêncio que eu ia escrever, era sobre perguntas que nunca são feitas, teclas de interrogação que não chegam a ser comprimidas. A curiosidade vai esganando-me lentamente, tem um travo a mel mas arde pela garganta. 
Depois surgem-me dúvidas, o mal é um gajo começar a pensar. Por exemplo, porquê que dizemos pessoas cheias de nove horas? Porque não dez ou oito, e sendo nove, são da manhã ou da noite? 
Juntei os três cadernos pretos em cima da mesa, pautados de histórias, memórias, ou só repositório de palavras sem peias. Folheio o mais antigo, começando pelas últimas páginas, é uma mania, e vou voltando as folhas até ao início, fechando a capa negra com algum delíquio. Quem escreveu sobre estás linhas? Quem substituiu o meu dialecto? É a minha letra, reconheço-a, consigo entender cada letra na sua solidão, mas no conjunto da palavra, numa ordem desconhecida, forma frases sem sentido estranhas ao meu ouvido. Folheio novamente, mas ao contrário, começando pela origem. Já nem é a minha letra, são hieróglifos, e cada vez que passo as páginas de trás para a frente ou da frente para trás, desenham-se por eles, redefinem-se em formas estranhas mantendo as camadas de tinta.