terça-feira, 31 de dezembro de 2013

adulterado

A mesma escadaria surgia por volta das três. Degraus curtos e largos, madeira envernizada atapetada a vermelho, com guarda torneada em balaustres. No topo iluminado por uma janela mainelada, estava ela de costas voltadas. As escadas eram infinitas, estendendo-se por andares acima e abaixo num labirinto angustiante. Mas era ela, sem sombra de dúvida.

A temperatura do corpo não fica estabilizada em trinta e sete graus durante todo o dia. Sobe para trinta e sete ponto dois por volta das cinco ou seis da tarde e vai caindo até atingir os trinta e seis durante a madrugada.

O cheiro a mofo do quarto fechado, lembrava as pensões baratas de Coimbra em dias mornos na avenida. As camas eram estreitas apartadas por um metro. Abriu a janela com vista sobre o rio, turbulento castanho carregado das chuvas que não cessavam. Ouvia-se o rugido moendo as margens por entre os seus gemidos.





segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

depósito II

Acordei perdido na espreguiçadeira. O sol já ia alto, torrando o ar estático que feria os pulmões. Em mais de uma década pouco ou quase nada havia mudado em redor da piscina, as espreguiçadeiras eram diferentes ou então os coxins eram outros, listrados em tons de azul triste, mas o jardim e os canteiros de azáleas podadas estavam como naquele tempo. Aproximei-me do rebordo, não havia pedaços de frango nem formas gigantes ondulantes no fundo, como no sonho que me acordara no sofá da João. Mergulhei.

A mescla de aversão e remorso colada ao suor que cobria a pele, não se diluíram na água clorada. Era tarde demais, já não havia como voltar o tempo atrás. Apenas uma questão de minutos ou horas, e ela conseguiria reconhecer-me sem o fato caro de dois botões.

Reconheci-a pelos pés. As sandálias abertas de saltos estreitos tornavam-na mais alta, mas os pés eram iguais, talvez a cor do verniz fosse outra, o alinhamento perfeito das falanges, a estreiteza do escafóide e a singularidade do tornozelo tornavam-nos únicos e imensamente belos. A primeira vez que os vi foi na borda daquela piscina, não tirei os olhos deles enquanto ela gritava comigo, e eu pingava, humilhado pelos insultos. Porco… nojento… tinha caído na sua preciosa piscina de princesa. Caído é como quem diz! Empurrado com roupa, botas sujas de terra, suado, empestando as suas águas cristalinas e refrescantes.
Continuava bonita, mesmo com aquele nariz empinado de menina caprichosa, habituada a ter o mundo a seus pés.

O meu tio perdeu um bom cliente. As azáleas que ele havia plantado sobreviveram a maus jardineiros, invernos rigorosos e diversas pragas. Também sobrevivi a muitas raparigas mimadas, ouvi muitos insultos, mas nunca a esqueci. Gostava dela, naquele dia entendi que habitávamos dimensões paralelas, equidistantes em toda a sua extensão. Doze anos depois, com o cabelo clareado, a cinta delgada e um peito mais farto na borda do decote, não foi instantâneo. O ar fresco que subia do mar arrastou-me até ao jardim, havia um bar plantado na relva, ela dirigiu-se a mim de cigarro moribundo na ponta de dois dedos esguios pedindo que atravessasse a relva por ela e lhe enchesse o copo, salientando que naquelas sandálias se enterraria no percurso, enaltecendo a falta de competência de quem organizara aquele casamento, com um bar no meio do relvado… não vim de chuteiras, rematou, sacudindo o fumo. Foi quando olhei para os seus pés e senti a repetição do momento, incapaz de a olhar nos olhos com receio que me reconhecesse, mas não. Naquele fato azul-marinho de risca leve, barba desfeita com navalha, sapatos resplandecentes, copo de whisky na mão imiscuído num nicho social lá do topo, cheirando a aftershave estrangeiro, nem eu me reconhecia.

Deixei-me ir, apreciando o disfarce, a pele de ovelha que a João comprara para o lobo a acompanhar no casamento dos primos, era tudo tão falso desde o início. E ela encantara-se com as minhas histórias, fiava a conversa numa trama, o álcool toldava-me o juízo e entrava com ela no descapotável de duzentos e vinte e quatro cavalos, estofos em pele bege, gingando pela nacional duzentos e quarenta e sete a grande velocidade, as minhas mãos percorriam-lhe o corpo como se conhecessem o caminho. E quando chegamos ao destino irónico, na ânsia de nos devorarmos ficamos pelas espreguiçadeiras junto à piscina, sob o manto negro de uma lua nova.

Arrependido sai da água, decidido a fugir antes que ela voltasse.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

depósito I

Estranhei as formas que se depositavam no tanque mais profundo, pareciam quadris de frango desproporcionais, despedaçados do resto da ave repousando no azul celeste da pastilha. Quando a sombra negra com mais de cinco metros deslizou sem agitar as águas, afastei-me receoso do rebordo.

Acordei seco no pequeno sofá da João, ainda não havia indícios de sol. Lembro-me que Junho começara muito quente, rico em fenómenos estranhos como uma impressionante queda de granizo acompanhada por uma das piores trovoadas de sempre. Sentei-me no escuro, distinguindo os contornos geométricos da mobília no percurso que tomaria até ao lava-loiça, acumulando vontade para matar a sede. Antes que me decidisse a maçaneta do quarto rodou, e um vulto nu percorreu a sala a direito em direcção ao que era suposto ser uma cozinha, detendo-se em frente do frigorífico. Apesar do cabelo curto e da largura dos ombros, caminhava como uma fêmea, rodando na saliência do osso ilíaco. A luz fria iluminou-lhe a totalidade do corpo, com excepção do rosto. Inclinou-se alcançando uma garrafa de água gasificada, os seios eram pequenos e rijos. Permaneci imóvel na esperança de passar despercebido, imiscuído na penumbra, contive cada músculo enquanto ela bebia encostada à porta escancarada, abrindo ligeiramente as pernas para entre elas sentir a garrafa fria. Inconscientemente engoli em seco, sequioso e açorado, quebrando o silêncio. Voltou a cabeça na direcção do sofá soltando um grito de horror.

Tacteei pela parede à procura do interruptor, desviando-me dos objectos que a moça de cabelo curto encontrava, e com exímia pontaria lançava no escuro. Disparada do quarto saía a João, de raquete em punho, quase levara com um limão na tola, não se lembrando que horas antes me abrira a porta para ir cair no sofá dela durante uma ou duas noites.

A namorada da João já estava a dormir quando cheguei. Não havia quartos livres, a capital estava ao rubro, infernalmente apinhada de turistas de chinelas, precisava dormir pelo menos umas horas, tomar um banho e na manhã seguinte ter-me decentemente apresentável para uma entrevista de emprego. O estreito e exíguo sofá da João era um luxo comparado com o terminal de camionetas.

Não ficamos amigos. Além de vários cacos e diversas mossas nas paredes, recusou-se a partilhar o tecto, mesmo que fosse só por duas ou três noites. Para a João era a oportunidade de ter uns dias de liberdade e respirar fora da relação, como um cetáceo à tona da água, e ao mesmo tempo, a chantagem perfeita para me requisitar como acompanhante no casamento dos primos.