segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

depósito II

Acordei perdido na espreguiçadeira. O sol já ia alto, torrando o ar estático que feria os pulmões. Em mais de uma década pouco ou quase nada havia mudado em redor da piscina, as espreguiçadeiras eram diferentes ou então os coxins eram outros, listrados em tons de azul triste, mas o jardim e os canteiros de azáleas podadas estavam como naquele tempo. Aproximei-me do rebordo, não havia pedaços de frango nem formas gigantes ondulantes no fundo, como no sonho que me acordara no sofá da João. Mergulhei.

A mescla de aversão e remorso colada ao suor que cobria a pele, não se diluíram na água clorada. Era tarde demais, já não havia como voltar o tempo atrás. Apenas uma questão de minutos ou horas, e ela conseguiria reconhecer-me sem o fato caro de dois botões.

Reconheci-a pelos pés. As sandálias abertas de saltos estreitos tornavam-na mais alta, mas os pés eram iguais, talvez a cor do verniz fosse outra, o alinhamento perfeito das falanges, a estreiteza do escafóide e a singularidade do tornozelo tornavam-nos únicos e imensamente belos. A primeira vez que os vi foi na borda daquela piscina, não tirei os olhos deles enquanto ela gritava comigo, e eu pingava, humilhado pelos insultos. Porco… nojento… tinha caído na sua preciosa piscina de princesa. Caído é como quem diz! Empurrado com roupa, botas sujas de terra, suado, empestando as suas águas cristalinas e refrescantes.
Continuava bonita, mesmo com aquele nariz empinado de menina caprichosa, habituada a ter o mundo a seus pés.

O meu tio perdeu um bom cliente. As azáleas que ele havia plantado sobreviveram a maus jardineiros, invernos rigorosos e diversas pragas. Também sobrevivi a muitas raparigas mimadas, ouvi muitos insultos, mas nunca a esqueci. Gostava dela, naquele dia entendi que habitávamos dimensões paralelas, equidistantes em toda a sua extensão. Doze anos depois, com o cabelo clareado, a cinta delgada e um peito mais farto na borda do decote, não foi instantâneo. O ar fresco que subia do mar arrastou-me até ao jardim, havia um bar plantado na relva, ela dirigiu-se a mim de cigarro moribundo na ponta de dois dedos esguios pedindo que atravessasse a relva por ela e lhe enchesse o copo, salientando que naquelas sandálias se enterraria no percurso, enaltecendo a falta de competência de quem organizara aquele casamento, com um bar no meio do relvado… não vim de chuteiras, rematou, sacudindo o fumo. Foi quando olhei para os seus pés e senti a repetição do momento, incapaz de a olhar nos olhos com receio que me reconhecesse, mas não. Naquele fato azul-marinho de risca leve, barba desfeita com navalha, sapatos resplandecentes, copo de whisky na mão imiscuído num nicho social lá do topo, cheirando a aftershave estrangeiro, nem eu me reconhecia.

Deixei-me ir, apreciando o disfarce, a pele de ovelha que a João comprara para o lobo a acompanhar no casamento dos primos, era tudo tão falso desde o início. E ela encantara-se com as minhas histórias, fiava a conversa numa trama, o álcool toldava-me o juízo e entrava com ela no descapotável de duzentos e vinte e quatro cavalos, estofos em pele bege, gingando pela nacional duzentos e quarenta e sete a grande velocidade, as minhas mãos percorriam-lhe o corpo como se conhecessem o caminho. E quando chegamos ao destino irónico, na ânsia de nos devorarmos ficamos pelas espreguiçadeiras junto à piscina, sob o manto negro de uma lua nova.

Arrependido sai da água, decidido a fugir antes que ela voltasse.


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