quinta-feira, 28 de abril de 2016

aljubatota

... ou a batalha do tanganica.

Deu sinal a trombeta Lamborghiana,
Horrendo, fero, roxo e um pouco choco;
Ouviu-o um pastor surdo no Botswana
Assustado, caiu no tanganica um passaroco.
Ouviu[-o] também a prima da Cristiana, (grande alcoviteira da aldeia)
Que Palmier era sem dúvida a preferida do Pipoco;
E as outras ciumentas, que o som terríbil escuitaram,
Aos peitos as medalhas reluzentes apertaram.

Quantos rostos ali se vêm sem cor,
Diante do brilho ofuscante da medalha!
Exibi-a Palmier Encoberto sem temor
Para os seus inimigos temos palha!
E se o não é, parece-o; que o furor
De ofender ou vencer aquela gentalha.
Faz não sentir que é perda grande e rara
Dos membros corporais, ou um chapa na cara.

Começa-se a travar a incerta guerra:
De ambas partes se move a primeira ala;
Uns levam piratas e magos de salvaterra,
Outros as esperanças de ganhá-la.
Está Sansão, a ave-alfa  a ver se ferra (ele bica aqui e acolá)
Ainda o vamos ver com uma pala.
Cheira-me que foi frango assado
A janta, e nem partilharam um bocado.


Já pelo espesso ar saem seiscentos
Canhões de polegadas, fisgas e vários tiros voam;
também se plastificam documentos
De identidade, fotocópias, a cor ou preto e branco.
Espedaçam-se depois as lanças, e os tinteiros
Isto no fim vai-me sair caro.
Recrecem os imigos no tapete da porta
Gente que enche a caixa com publicidade, merecia ser morta.


Eis ali outras flamingas e pardalas contra ela vão
(Caso feio e cruel!); mas não se espanta,
Vem Cuca, a Pirata com aguçado arpão
Que contra a Preferida se alevanta.
Destas arrenegadas muitas são
Aves belas da margem do lago, que lhes adianta
Contra aquela que o passaroco venera,
Devem pertencer todas ao Reino Monera.


Ó tu, Senhor Ministro, ó nobre Outro Ente,
Maria Alice, Mirone e vós outros dos antigos
Que buscam Cutxi encarecidamente.
Da Cuca vos fizestes inimigos:
Armai-vos de clava e tridente,
Virotes de besta não são meigos.
Dizei-lhe de uma vez que só tem garganta,
Mesmo sendo uma Pirata que encanta.


Rompem-se ali as suas penas,
Tantos dos inimigos a ele vão!
O polvo narra mentiras pequenas,
Mal disfarça, sempre atento camaleão.
Que cercado se vê pelas dezenas.
Que dos céus vão descer de foguetão:
Perseguem-no com as malgas (de rum), e ele, iroso,
Torvado um pouco está, mas não medroso.


Plagiado d' Os Lusíadas do caríssimo Luíz Vaz de Camões.

terça-feira, 26 de abril de 2016

fateixa

Já estavam sentados à espera do pedido quando um casal entrou e os cumprimentou amistosamente. Agradava-lhe isso. Aquele gesto de simpatia, um olá sem conhecer a pessoa de lado nenhum, e assim vindo do nada, a troco de nada. Admirou a cesta das lagostas que balouçava suavemente por cima da sua cabeça. Alguém aprisionara pequenos barcos coloridos de papel no interior. Bebeu mais um trago da cerveja ruiva. Lá fora o sol ainda não se lançara no mar, mas já se sentia o frio nas pedras da parede. Dali onde estavam sentados não via os rochedos, mas sabia-os mais abaixo, a terminar no azul límpido. Ela tinha os braços a descoberto carregados de sal, o cabelo penteado para o lado pelo vento. E ria, sem horas para voltar. Varreu com a palma as migalhas da madeira, ela própria dilacerada pelo tempo, quebrada em vários sentidos, como se fosse feita dos barcos que oscilavam junto à costa. Podia morrer aqui, terá dito, vezes e vezes sem conta.

gentilmente oferecido por uma amiga... 


arremedo

I was holding the book open, trying to guess  what the word "chess" might mean, when Mary Lou spoke. "What is it exactly that you do with a book?" 
 "You read it." 
"Oh", she said. And then, "What does read mean?" 
I nodded. Then I began turning the pages of the book I was holding and said, "Some of these markings here represent sounds. And the sounds make words. You look at the marks and sounds come into your mind and, after you practice long enough, they begin to sound like hearing a person talking. Talking-but silently."

Mockingbird - Walter Tevis

Estava tão empolgado com o livro que cometi o deslize de partilhar o meu entusiasmo com algumas pessoas. Talvez não tenham sido as pessoas indicadas, apesar de terem passado por um criterioso processo de pré-selecção. No primeiro caso o sujeito mudou de assunto assim que lhe foi possível, respeitando o período de tempo estipulado nas regras de conversação. Quem terá inventado este convencionalismo? Será que se conta até vinte para dentro e depois podemos começar outro tema? Não me recordo bem, mas penso que terá pegado numa conversa anterior e resolveu dar-lhe continuidade por cima do assunto que eu queria discutir. Na altura fiquei aborrecido e sou capaz de o ter ignorado, ou acenei com a cabeça indicando que o estava a ouvir, mas não estava. Não voltei a referir o livro, achei que quem estava a perder era ele. Abordei mais tarde um segundo sujeito, mas infelizmente o resultado foi idêntico. "Não aprecio ficção científica."

No domingo dediquei umas horas a terminar a leitura e foi como uma revelação. Intimamente sentia que isso podia acontecer e corri esse risco. Talvez seja sempre esse o risco que corremos quando abrimos um livro. Entendo que não tenha o mesmo desfecho para outros e em parte é uma pena. Mas acho que o momento foi propício, como semear abóbora em Abril. Estava a viver sem paixão, sem prazer naquilo que fazia. Deixei de escrever porque tudo me parecia fútil, ridículo, quando comparado com as noticias do que se passava no mundo. Mas o mundo melhora cada vez que decido não escrever? Se calhar até melhora. Não sei. É possível que alguém viva mais feliz com isso, acho pouco, mas já conheci pessoas muito estranhas. 
E o que ganha o mundo cada vez que escrevo? Nada, absolutamente nada. 
Tenho de partir desse nada, tenho de o suportar, de aguentar, de entender que nada vai mudar porque coloco letras numa página em branco. Mas eu preciso de escrever, nem que seja sobre os sonhos absurdos que me atormentam, nem que escreva só para mim, para memória. E foi isso que o Tevis me fez ver. Tenho de me salvar, se quero salvar o mundo. Não, não vou usar colãs, nem uma capa colorida. Nem vou contar o fim, isso então seria um sacrilégio. Só quero dizer que vou escrever, tenham lá paciência, contem até vinte e muda-se o assunto.



 octopus tattoos...


quarta-feira, 20 de abril de 2016

ilíaco

Talvez esteja a perder o juízo. Nunca foi muito, mas depois do sonho de hoje, desconfio que comecei a deixá-lo no bolso descosido. Tinha saído do banho, o turco apanhado na crista ilíaca e era tudo muito real, o quarto, a claridade, a cama desfeita. Apesar do insólito da cena, nunca desconfiei que se tratava de um sonho. Estava a secar-me e reparei numa madeixa de cabelo escuro que se prendera na toalha. Eram longos, uns cinquenta centímetros, e negros, ondulados, e lembro-me de pensar que não podiam ser meus, no entanto eles pareciam nascer no fundo das minhas costas, e quando puxei toda a madeixa, reparei que não eram só cabelos, havia algo mais rijo no meio, esguio, com o mesmo comprimento: uma cauda. Sim, eu tinha não uma, mas três caudas de ratazana envolvidas em cabelos que saiam do fundo das costas. E é isto. Focas no chá, caudas de rato... 


domingo, 17 de abril de 2016

herbata

antes de adormecer, já de olhos fechados, vi emergir a cabeça de uma foca na superfície do chá.

da net

sexta-feira, 15 de abril de 2016

quarta-feira, 13 de abril de 2016

limbo

Para quem me julgue morto ou de férias, já estive pior, mas também já estive muito melhor... diria que me encontro no limbo. Sem palavras para partilhar. Numa longa espera. Diagnosticaram preguicite crónica, um fungo antropofílico que coloniza vontades. Mas acho que é só caspa. E é isto.
roubado da net
pensamentos avulso: em miúdo, algumas pessoas mais fervorosas diziam que quando morresse, ia para o limbo... e eu pensava sempre naquela dança de passar por debaixo da vara num sítio tropical. isso sim, era morrer com estilo. 

domingo, 3 de abril de 2016

obliquar

O homem que temia escadotes não acreditava no destino. Para ele tudo estava relacionado com a pouca ou grande probabilidade de algo acontecer. O problema de acreditar em probabilidade, é que deixamos de ter explicação quando um grande número de acontecimentos com baixa probabilidade,  ocorrem em simultâneo num curto espaço de tempo, por exemplo, uma semana.
Tudo terá começado no domingo de páscoa, apertado no banco de trás, o homem que temia escadotes adormeceu na viagem de regresso de um mau dia. Ninguém entendeu o seu silêncio no momento em que se cruzou na praia com uma mulher que caminhava com uma criança pela mão. Ela também ficou em silêncio, consternada, olhos nos olhos, o braço estendido pela criança que entretanto se soltara e continuava a caminhar sozinha. Os silêncios são línguas complexas, na maioria dos casos só conseguimos entender se suprimirmos um ou vários sentidos. Até esse momento na praia, o homem que temia escadotes estava normal. Talvez um pouco ébrio com a suave ondulação marítima, o ar fresco. Desafiado para uma corrida pela praia com uma das raparigas às cavalitas, não se fez rogado. Dobrou as calças acima dos tornozelos e correu o mais rápido que conseguia com a moça a incentivá-lo. E foi nesse momento que se cruzou com ela, a mulher que tinha oceanos nos olhos. Pararam os dois, reconhecendo-se, mas como se tivessem por momentos entrado numa outra dimensão paralela e esperassem compreender o que fazia ela com uma criança pela mão, e no caso dele, uma rapariga pelo menos dez anos mais jovem, montada nas suas costas. A mulher foi a primeira a afastar-se, em silêncio. Chamou a criança e correram uma ao encontro da outra. O homem que temia escadotes ficou no mesmo sítio, não se importando com a corrida, nem com a amiga que lhe perguntava se estava bem. Cheio de dúvidas, incertezas, analisando as poucas probabilidades daquele encontro, e no entanto ele acontecera, não era um sonho.
No dia seguinte, o homem que temia escadotes não se segurou quando viajava no tram e numa travagem brusca perdeu o equilíbrio, embatendo com força no outro extremo da carruagem. Ninguém o ajudou a levantar-se. Mas algumas pessoas perguntaram se estava bem, só que o homem não respondia. Segurando o braço ao nível do cotovelo com sofrimento, saiu antes da sua paragem e perdeu-se por ruas onde nunca passara, até sentir que as dores o abandonavam. Não contou a ninguém o sucedido, não explicou o seu atraso, não temeu o escadote, não se queixou do estado do tempo, não bocejou, não almoçou, não jantou.

Na manhã seguinte, o homem que não temia o escadote analisou o cotovelo em frente ao espelho e reparou que não tinha boca. Três dias depois embateu contra uma porta de vidro, nem um ai se ouviu.