terça-feira, 26 de abril de 2016

arremedo

I was holding the book open, trying to guess  what the word "chess" might mean, when Mary Lou spoke. "What is it exactly that you do with a book?" 
 "You read it." 
"Oh", she said. And then, "What does read mean?" 
I nodded. Then I began turning the pages of the book I was holding and said, "Some of these markings here represent sounds. And the sounds make words. You look at the marks and sounds come into your mind and, after you practice long enough, they begin to sound like hearing a person talking. Talking-but silently."

Mockingbird - Walter Tevis

Estava tão empolgado com o livro que cometi o deslize de partilhar o meu entusiasmo com algumas pessoas. Talvez não tenham sido as pessoas indicadas, apesar de terem passado por um criterioso processo de pré-selecção. No primeiro caso o sujeito mudou de assunto assim que lhe foi possível, respeitando o período de tempo estipulado nas regras de conversação. Quem terá inventado este convencionalismo? Será que se conta até vinte para dentro e depois podemos começar outro tema? Não me recordo bem, mas penso que terá pegado numa conversa anterior e resolveu dar-lhe continuidade por cima do assunto que eu queria discutir. Na altura fiquei aborrecido e sou capaz de o ter ignorado, ou acenei com a cabeça indicando que o estava a ouvir, mas não estava. Não voltei a referir o livro, achei que quem estava a perder era ele. Abordei mais tarde um segundo sujeito, mas infelizmente o resultado foi idêntico. "Não aprecio ficção científica."

No domingo dediquei umas horas a terminar a leitura e foi como uma revelação. Intimamente sentia que isso podia acontecer e corri esse risco. Talvez seja sempre esse o risco que corremos quando abrimos um livro. Entendo que não tenha o mesmo desfecho para outros e em parte é uma pena. Mas acho que o momento foi propício, como semear abóbora em Abril. Estava a viver sem paixão, sem prazer naquilo que fazia. Deixei de escrever porque tudo me parecia fútil, ridículo, quando comparado com as noticias do que se passava no mundo. Mas o mundo melhora cada vez que decido não escrever? Se calhar até melhora. Não sei. É possível que alguém viva mais feliz com isso, acho pouco, mas já conheci pessoas muito estranhas. 
E o que ganha o mundo cada vez que escrevo? Nada, absolutamente nada. 
Tenho de partir desse nada, tenho de o suportar, de aguentar, de entender que nada vai mudar porque coloco letras numa página em branco. Mas eu preciso de escrever, nem que seja sobre os sonhos absurdos que me atormentam, nem que escreva só para mim, para memória. E foi isso que o Tevis me fez ver. Tenho de me salvar, se quero salvar o mundo. Não, não vou usar colãs, nem uma capa colorida. Nem vou contar o fim, isso então seria um sacrilégio. Só quero dizer que vou escrever, tenham lá paciência, contem até vinte e muda-se o assunto.



 octopus tattoos...


26 comentários:

  1. O meu mundo melhora quando escreves.

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    1. Pára de duvidar dos sérios :)

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    2. como é que não acreditas? não conheces o meu mundo. e além disso, porque havia eu de escrever se não o sentisse?
      ai, Manuel Trovisco, zango-me.

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    3. No fundo, não é em nós que ele não acredita - é pior do que isso, o moço não acredita nele. Até dá vontade de lhe bater. :)

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    4. Formemos um grupo para lhe dar um arraial de pancada!!!!

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    5. Bora lá!!!
      Mas tem que ser com carinho, quesse mê afilhado vale ouro, menina
      :)

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    6. nã te zangues Maresia... eu acredito :)

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    7. Não sejas pateta além de polvo e acredita na amiguinha ana! :)

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    8. agora é amiguinha? ainda à 5 minutos estavam as duas a discutir por causa da chuva...

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  2. Eu gosto de te ler. Já to disse vezes sem conta. E na minha enorme ignorância, sei que o fazes muitíssimo bem. Como sei, se sou ignorante? Sei, porque o escreves me faz sentir... é pouco? Para mim não!
    Mas, te digo, é certo isso do escrever primeiro e, antes de tudo, para ti, que és a figura importante e central. A partir daí, se irradia, tanto melhor, sabes que não estás só, nas dúvidas, nos tropeços, nas inseguranças, nas solidões, e nós, que te lemos, passamos a ter companhia...

    Beijo afilhado mailindo quinté

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    1. é muito bom saber que nã se está só... que tenho sempre excelente companhia na minha travessia, nos tropeços... :) obrigado
      beijo madrinha

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  3. Escreva sr Manuel, se o faz feliz. Escreva tudo o que lhe der prazer e o que não lhe der prazer, escreva também. :) O momento presente é o mais importante de todos os momentos.
    Não sei se lhe "disse" alguma vez, gosto de o ler!

    Boa semana com muita escrita. :)

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    1. muito agradecido, mesmo... vou fazer por merecer e escrever tudo o que vier :) boa semana.

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  4. Continuo aqui comodamente sentada. De sorriso vestido do princípio ao fim. :)

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  5. Gosto de te ler...Gosto de ver o mundo através dos teus olhos.
    E já te li textos maravilhosos.
    Beijo Moço Bonito.

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    1. preciso regressar a esses textos... se é que alguma vez existiram :D
      beijo, menina

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  6. Nunca li Walter Trevis, mas aquele trecho ali em cima abre-me o apetite.
    Manel, compreendo muito bem, se compreendo, essas dúvidas do "escrevo ou não escrevo". Eu acho que basta a vontade de escrever: devemos segui-la. É esse o ganho do mundo, começa pelo nosso próprio ganho, depois propaga-se, porque há quem goste de te ler. Eu gosto e gosto muito, até me parece que tenho gostado cada vez mais.
    Um abraço. :-)

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    1. raramente recomendo leituras... descobri que os meus gostos se afastam dos da maioria, mas consigo viver com isso. Em português deram-lhe o título de ave do arremedo :) gosto de escrever, mas ainda mais se souber que alguém vai ler, e é claro, muito mais se alguém gostar daquilo que escrevo...
      abraço e obrigado.

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  7. Creio, mesmo, que o dia em que se constata a inutilidade em termos relativos da nossa escrita é aquele dia em que se percebe que jamais se deixará de escrever.

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  8. É muito bom ler-te. Será porque escreves com oito braços? ;)

    Beijos, Stormy :)

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    1. só uso dois na escrita, os outros são para estender a roupa, descascar os amendoins, fazer festas ao gato, segurar o copo de leite e o outro para coçar a cabeça :D

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  9. Manel,
    Preciso de dividir em duas partes:

    1 - A forma como acolheram os teus comentários.
    Se não estavam interessados, deveriam ter dito claramente.
    Assim, é de uma enorme falta de educação. Reajo muito mal a esse tipo de atitudes. Já me tem acontecido estar a falar com pessoas que a certa altura começam a olhar para o telemóvel, a responder a outros ao mesmo tempo... Páro. Nessa altura dizem 'mas estou a ouvir'. Retomo e as cenas repetem-se. Páro e digo que assim não podem funcionar comigo. Não aceito isso. Quando se fala com alguém aquela pessoa deve ser a mais importante naquele momento.

    2 - O Mundo não muda quando nós escrevemos ou deixamos de o fazer.
    Mas o mundo de algumas pessoas, incluindo o nosso, pode mudar, ainda que por via de transformações pouco perceptíveis.
    Essencialmente, escrevo porque preciso de escrever. Parece que é o mesmo que se passa contigo.

    Manel, fico contente porque gosto muito de te ler. Culpa tua: tens assunto, sabes o que dizer e como fazê-lo. E isso não se encontra muito.

    Beijo

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    1. lamento que nem sempre as minhas respostas possam ser tão completas quanto os comentários que me deixas :) mas vamos por partes:
      1- a culpa é minha, pois há milhões de assuntos que nã me interessam minimamente, e é bem verdade que nã me esforço muito em conversas convencionais. Sim, mesmo assim há quem me aguente, mesmo quando digo que adormeci ao tentar ver o filme das suas vidas, ou que fiquei na página doze do novo romance do Peixoto... agoniado! sou um monstro e mereço tudo o que recebo.

      2-escreve, que também é um prazer ler-te! e é isto por agora :)
      beijo

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