sábado, 30 de julho de 2016

rodadas

"Os cantos também servem alegria. Pouca, mas servem.
Mais uma rodada para a mesa do canto. Pediste que eu ouvi."

lido no nascer na praia


storia

Tirei uma senha azul e esperei pela minha vez. Poucos minutos depois o meu número surgiu no ecrã. Notei que diversos números haviam saltando aleatoriamente até chegarem ao meu, mas nenhuma das pessoas que esperavam em silêncio reclamou. Aproximei-me do único balcão de atendimento em funcionamento, mas informaram-me que estava no sítio errado. Muito prestável e sempre com um sorriso, a funcionária indicou-me que devia subir ao segundo andar e então ai retirar uma senha amarela e esperar pelo meu número. Também me entregou um formulário que devia preencher com letra legível e entregar nesse guiché. Quando sai em direcção às escadas reparei que havia um descomunal sinal onde se podia ler Rescisões 2º piso. Subi ao segundo e depois de retirar uma senha amarela, procurei um lugar desocupado onde pudesse tranquilamente preencher o pedido de rescisão. Havia mais de vinte números à minha frente, mas não seriam mais de cinco as pessoas que esperavam ser atendidas, todas também em silêncio. Quando completei o formulário de duas perguntas, o meu número surgiu de imediato no ecrã e dirigi-me ao único guiché posicionado no centro da parede mais distante, onde uma outra funcionária, ainda mais sorridente e prestável, recebeu o meu pedido. Pressionou levemente os dedos no teclado colocado à sua frente, sem nunca olhar para este ou para o ecrã do computador. Depois uma máquina posicionada no seu lado esquerdo engoliu o formulário e mantendo o sorriso e os olhos próximos dos meus, quis saber o destino. Não tinha pensado em nada em concreto, só queria mesmo era sair.



sexta-feira, 29 de julho de 2016

neve

Neva apenas uma vez em nossos sonhos.
Orhan Pamuk



figos

Nunca fui o favorito da minha avó, nem o favorito de nenhum dos meus professores. Os meus pais nunca tiveram favorito, mas vacilavam cada vez que trazia bicharada morta para casa. Nunca fui o primeiro a ser escolhido numa equipe, nunca fui o melhor em nenhuma prova. Nunca recebi medalhas ou taças, nunca fui promovido num emprego, nunca tive daquelas palmadinhas nas costas. Nunca fui muito rápido, nem muito inteligente, nem o mais bonito, nem o mais feio. Nunca entrei na história, em nenhuma, mas um dia roubei figos de muros altos, e beijos. Roubei todos os que consegui. 

“A Stolen Kiss,” by Ron Hicks

sábado, 23 de julho de 2016

visitante

É diária a sensação de que acabei de aterrar na Terra vindo de um planeta distante. Por muito que tente, não consigo encaixar nos padrões da maioria da humanidade, o que me leva a suspeitar que não serei deste mundo. E digo isto não com uma sensação de superioridade, mas de terror e medo, pois não me lembro onde deixei a nave. É um belíssimo planeta, não imaginais a vossa sorte. Todos os dias são de descoberta, ontem bebi pela primeira vez água gaseificada e estou encantado. Mas há tanto de belo como de horripilante, e com facilidade me emociono com o abate de uma árvore, ou a tortura de um animal. E posso parecer humano, pelo menos por fora direi que sou quase idêntico, se excluirmos o meu tom esverdeado papaia, mas por comparação com o que sinto, tenho quase a certeza que sou um visitante amnésico. É que eu sofro em demasia pela humanidade, principalmente pelo que fazem uns aos outros e pelo modo como se auto-destroem. Não tenho ideia de alguma vez ter encontrado uma espécie assim, supostamente inteligente e sensível, em que uma parte privilegiada vive rodeada de pequenos e grandes luxos, e uma outra parte, grande parte, morre pela falta do básico. E esse básico é constantemente desperdiçado pela outra parte, é o que chamam de lixo. 
Olho à minha volta e vejo máquinas. Máquinas em vez de pessoas, vivendo cada vez mais focadas nos seus umbigos. Sorte a minha não ter umbigo, mas azar o meu este encantamento pelo que vocês são. E não vale a pena lembrar o quão limitado em recursos é o vosso maravilhoso planeta. Só vos interessa o que podem ter e o que vos preocupa é o que não têm. Essa obsessão pelas ninharias ridículas. Não esperem depois que vos salve, mesmo que soubesse onde deixei estacionada a nave, não levaria nenhum comigo. Vocês são uma praga e apesar das coisas belas que alguns produzem, é vos sempre mais fácil gerar o mal do que o bem.
Não sei quantas mais gerações este calhau aguenta, mas se forem minimamente inteligentes pode ser que ainda os vossos bisnetos nele caminhem. Não tenho grandes esperanças, nem quero que se iludam, até porque encontrar humanos "minimamente inteligentes" é como achar um planeta "cachinhos dourados" no universo. Sim, não vos aborreço mais, vão lá caçar os vossos poquequalquercoisa. Antes isso que caçar raposas ou espetar bandarilhas em touros... ou sondas em humanóides esverdeados.

Illustration by Kay Nielsen from East of the Sun and West of the Moon (1914)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

fuselo

avancei pela nuvem tremular de moscas até ao balcão. queres ir a algum lado? perguntei-lhe sem saber o nome. deslaçou o avental e dirigindo-se para a mesa do fundo gritou: oh Zé, toma conta aqui do tasco que eu venho já.

Dead Flies by Magnus Muhr 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

materac

Os funcionários dispersavam aborrecidos após a primeira rajada de perguntas. No início da noite já tinham experimentado mais de metade da exposição, mesmo sabendo que as suas poupanças só permitiam adquirir o modelo económico. Nos melhores deixavam-se ficar deitados mais tempo do que seria normal, alheios ao movimento à sua volta, depois olhavam-se nos olhos e entre bocejos teatrais diziam: -Bom dia querida, bom dia querido. 




sábado, 16 de julho de 2016

hüzün

Henri fica a meio de uma frase. Na outra sala deixei de o ouvir e espreito pela porta. O geral foi desligado, mas nunca se sabe. Está parado diante de uma calha, os braços desabados junto ao tronco. Foi alívio que sentiu de madrugada ao confirmar que nenhuma das vítimas era seu familiar, mas mesmo assim não deixa de sentir uma imensa tristeza que fica com ele, ali especados a olhar para nada. No dia seguinte somam-se mais números.Temo habitar num certo distanciamento melancólico. 

medusa in Yerebatan Sarayi

quarta-feira, 13 de julho de 2016

principezinho

é impressionante como a nossa perspectiva muda enquanto envelhecemos. feitas as contas, parece-me que perdemos muito mais do que aquilo que de facto ganhamos. o melhor exemplo disso é que actualmente só consigo desenhar polvos, mas em tempos idos (pelo Paleolítico), eu era menino para desenhar tudo. 





terça-feira, 12 de julho de 2016

sanção

No domingo fui assistir ao jogo com o meu colega francês. Quando nos sentamos no melhor sítio e pedimos duas cervejas polacas, só tínhamos uma certeza em mente: Festejar, independentemente do resultado. Agora são dois dias para curar a ressaca, e esperar que para além da França e da Itália, outros apoiem o esforço de Portugal.


domingo, 10 de julho de 2016

hétero

Apesar do meu ar sofisticado de calças rotas e barba de várias semanas, por dentro continuo a ser um individuo tosco e provinciano. É natural que engane algumas pessoas com este look de jagunço, mesmo amigos de longa data, mas eu não estava preparado para ouvir alguém se referir a mim como hétero.
Foi no seguimento de uma actividade ao ar livre organizada pelos colegas de trabalho, naquele longínquo tempo em que ainda tinha um emprego normal com colegas normais, ou quase normais, e algumas das colegas levaram maridos ou amigos para equilibrar o género durante as ditas actividades. Estava dependente de transportes públicos ou boleias para regressar a casa e uma das minhas colegas ofereceu-se para me levar, apesar do desvio de alguns quilómetros que o amigo (e vizinho) dela teria de fazer, morando eu no sentido oposto ao deles. Ele insistiu e eu aceitei. E na verdade ele era simpático, apesar de não o conhecer e de pouco termos falado durante o dia, mas até aquele momento não tinha pensado muito no fulano, nem se ele seria só vizinho da minha colega. É daquelas coisas que normalmente não me saltam de imediato. E entramos no carro, ele ia a conduzir, a minha colega ao lado, eu sem saber onde meter as pernas no lugar de trás. A conversa desviou-se para aparelhos nos dentes porque alguém tinha caído de cara na areia, com o dito aparelho nos dentes, terei dito qualquer coisa como: -Estive para usar em tempos. 
Ao que a minha colega disse: -Não precisas, porquê que havias de usar? E o vizinho dela respondeu por mim: -Ele tem um dente ligeiramente metido para dentro, antes do canino. 
Automaticamente concluí: “Este gajo é dentista” e então disse sem pensar, porque na realidade eu não penso muito: -É esse mesmo, mas a minha dentista disse que ficava sexy
Ao que o vizinho completou: -E fica, tens um sorriso muito sexy, foi a primeira coisa que reparei em ti.
 Nesse momento terei engolido em seco, se pudesse tinha engolido os dentes, mas ocorreu-me que ele estivesse na brincadeira, só que antes de conseguir verbalizar fosse o que fosse, a minha colega cortou a conversa com uma afirmação escabrosa sobre mim (como se eu não estivesse ali ao lado, encafuado no estreito banco traseiro):
-Já te disse que ele é hétero! Podes parar!

Nunca ninguém se tinha referido a mim por “hétero”, pelo menos na minha presença. Era estranho, foi estranho. Fiquei calado durante mais tempo do que é correctamente aceitável numa conversa, a processar o que acabara de ouvir. O vizinho não se sentiu ofendido, muito menos envergonhado, e prosseguiu: -Não me importo que ele seja hétero. Estamos num país livre, aparentemente. Não o estou a insultar.
-Mas estás a deixá-lo desconfortável. Rematou a minha colega. Era altura de eu dizer alguma coisa, mas nada me tinha preparado para aquela situação. Estaria vermelho como um pimento quando ele olhou pelo espelho retrovisor e pediu desculpas.
Caraças, havia mulheres que literalmente mudavam a língua delas para dentro da minha boca e nunca tinham reparado que eu tinha um dente torto. Com excepção da dentista, que realmente tinha-me convencido com a teoria do sorriso sexy
Ainda faltavam alguns quilómetros para chegar a casa, mas eu tinha vontade de sair em andamento, nem que partisse os dentes todos. Mas que desconforto era aquele? Seria vergonha? Umas horas antes não teria qualquer problema em falar com aquele sujeito e agora mal o enfrentava. Não conseguiar deixar de associar a sua preferência sexual da pessoa que ele era.
O ambiente ficou pesado. Tentei justificar-me com o meu provincianismo, não conseguia entender o que mais me aborrecia, se era a atitude homofóbica que eu sempre negara, ou se era o rótulo “hétero” que me acabavam de colocar. Não é bonito colocar rótulos em pessoas.


Voltamos a falar, talvez uns meses depois do "incidente". Encontrei-o na rua, acho que ele já me tinha visto, mas fez de conta. Enchi-me de coragem e convidei para irmos tomar um café. Contei-lhe o meu choque perante a palavra “hétero” e da minha costela homofóbica, ele riu. Falamos de livros, filmes, séries, evitamos falar de dentes. Deixou de ter qualquer interesse por mim quando lhe disse que adormeci no primeiro episódio da Guerra dos Tronos. 

Curta-metragem Stop Calling Me Honey Bunny (clicar no nome para ir ao filme)

sábado, 9 de julho de 2016

sangria

para acompanhar as sardinhas em lata da Luísa, uma sangria desatada...


sexta-feira, 8 de julho de 2016

mercúrio

Já não me lembro porque arrastei para aqui duas espreguiçadeiras de lona puída. Hun Kal nesta altura do ano está praticamente às moscas apesar da aragem agradável. Os cubos de gelo que flutuavam na superfície da água tónica evaporaram antes de levar o copo à boca. Ergui o braço para o empregado mas ninguém apareceu. O melhor disto é sem dúvida o silêncio, mas os dias são demasiado longos e os anos estranhamente curtos. Se ficar aqui uma semana, festejo quatro vezes o meu aniversário.  Isto até é parecido com Cancún, mas sem os turistas. E sem a praia. Olho mais uma vez para o relógio, faltam sensivelmente quinhentas e vinte horas para anoitecer, talvez ainda dê um pulo a weird terrain, dizem que abriu um novo restaurante por lá.


terça-feira, 5 de julho de 2016

devorador

estava a olhar para a embalagem descolorida do detergente que ficou na beira da janela e uma dúvida atroz apoderou-se do meu pensamento: para onde vão as cores que o sol come?







já que perguntam, o sol é branco... e não, o universo não é racista, pois os buracos são negros!

domingo, 3 de julho de 2016

invídia

Descobri que também invejo as pessoas que gostam de fazer anos. Aqueles que mal dormem nos dias de véspera, que vão riscando a marcador com impaciência o calendário. Um mês antes anunciam o grande acontecimento, alguns até enviam convites. Invejo também as festas que preparam, há casos em que estendem o festejo pela semana, como se fosse uma versão aciganada de aniversário. Juntam os amigos num jantar, mordem as velas depois de as soprarem, encomendam bolos intragáveis personalizados, recebem pilhas de presentes repetidos, brindam até sentirem os braços fraquejarem. Invejo os que adoram ouvir os parabéns a você! e ainda mais aqueles que conseguem aguentar o sorriso até ao fim. Invejo os que metem o dia de férias, ou a semana, ou o mês, e vão de viagem para tornar o acontecimento ainda mais inesquecível. Tiram fotos de havaianas num areal branco, erguendo um copo decorado com frutas, ou abraçados a um grande amor, ou a uma pessoa que acabaram de conhecer. Invejo os que desfrutam as duas mil mensagens e os trinta mil telefonemas que recebem, mesmo que isso os deixe com as orelhas queimadas e sem bateria. Invejo sobretudo aqueles que são mesmo felizes nesse dia, mais do que nos outros, mesmo sabendo que para o ano pode haver mais, e que dificilmente será melhor.


sábado, 2 de julho de 2016

oito

o homem que fazia trinta e oito abriu o livro no regresso a casa e sentiu que algumas letras lhe fugiam pela página na trepidação do transporte. apesar de preferir as letras aos números, o oito era confortável, familiar. podia ser prenúncio de um bom ano. fechou o livro deixando a marca no mesmo sítio e focou a paisagem que descia pela janela, depois os pássaros, seguindo a sua sustentação imprecisa. bocejou pela oitava vez. talvez fosse só a vista cansada. um débito maciço de horas de sono.