sábado, 23 de julho de 2016

visitante

É diária a sensação de que acabei de aterrar na Terra vindo de um planeta distante. Por muito que tente, não consigo encaixar nos padrões da maioria da humanidade, o que me leva a suspeitar que não serei deste mundo. E digo isto não com uma sensação de superioridade, mas de terror e medo, pois não me lembro onde deixei a nave. É um belíssimo planeta, não imaginais a vossa sorte. Todos os dias são de descoberta, ontem bebi pela primeira vez água gaseificada e estou encantado. Mas há tanto de belo como de horripilante, e com facilidade me emociono com o abate de uma árvore, ou a tortura de um animal. E posso parecer humano, pelo menos por fora direi que sou quase idêntico, se excluirmos o meu tom esverdeado papaia, mas por comparação com o que sinto, tenho quase a certeza que sou um visitante amnésico. É que eu sofro em demasia pela humanidade, principalmente pelo que fazem uns aos outros e pelo modo como se auto-destroem. Não tenho ideia de alguma vez ter encontrado uma espécie assim, supostamente inteligente e sensível, em que uma parte privilegiada vive rodeada de pequenos e grandes luxos, e uma outra parte, grande parte, morre pela falta do básico. E esse básico é constantemente desperdiçado pela outra parte, é o que chamam de lixo. 
Olho à minha volta e vejo máquinas. Máquinas em vez de pessoas, vivendo cada vez mais focadas nos seus umbigos. Sorte a minha não ter umbigo, mas azar o meu este encantamento pelo que vocês são. E não vale a pena lembrar o quão limitado em recursos é o vosso maravilhoso planeta. Só vos interessa o que podem ter e o que vos preocupa é o que não têm. Essa obsessão pelas ninharias ridículas. Não esperem depois que vos salve, mesmo que soubesse onde deixei estacionada a nave, não levaria nenhum comigo. Vocês são uma praga e apesar das coisas belas que alguns produzem, é vos sempre mais fácil gerar o mal do que o bem.
Não sei quantas mais gerações este calhau aguenta, mas se forem minimamente inteligentes pode ser que ainda os vossos bisnetos nele caminhem. Não tenho grandes esperanças, nem quero que se iludam, até porque encontrar humanos "minimamente inteligentes" é como achar um planeta "cachinhos dourados" no universo. Sim, não vos aborreço mais, vão lá caçar os vossos poquequalquercoisa. Antes isso que caçar raposas ou espetar bandarilhas em touros... ou sondas em humanóides esverdeados.

Illustration by Kay Nielsen from East of the Sun and West of the Moon (1914)

13 comentários:

  1. Bebe mais água com gás que atenua a azia e consequentemente o esverdeado, depois, olha o espelho e : 'ups, afinal isto também é comigo! Eu não sou um extraterrestre!'...

    Saudações!

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    1. já bebi pra cima de 30 litros e nã há jeito de atenuar...
      saudações terráquea!

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  2. Bebe mais água com gás que atenua a azia e consequentemente o esverdeado, depois, olha o espelho e : 'ups, afinal isto também é comigo! Eu não sou um extraterrestre!'...

    Saudações!

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  3. o que eu acho estranho é porque moram em construções com uma forma tão fria, tão paralelipipeda. não admira que fiquem estranhos também...
    mas depois chego ao mar...e tu sabes...

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  4. Também me sinto MUITAS vezes uma ET...digo também isso de forma natural sem arrogância nem vaidade.

    Gostei da forma como se expressa.
    Anonima

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  5. M-MT, fez-me lembrar o assunto da minha peça nova... :)

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    1. já ouvi dizer ali no canto da Isabel, muito interessante... nem sei que diga, sinto-me honrado com tal visita... é claro que nem se pode comparar estas linhas maltrapilhas e uma peça... se a minha mãe sabe que me dou com pessoas inteligentes e deste gabarito :)

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  6. Uau. Adorei.
    Menos a parte em que percebi que não me salvarias.
    ;)

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    1. é um mundo cruel :) e depois nã ias achar piada ao meu mundo, nã tem nem metade das coisas boas da terra :)

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    2. Cruel és tu, Manel. :p E deixares uma pessoa decidir por si mesma da piada ou falta dela, não é opção? ;)

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