quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

translação



Todos os anos sucede mais ou menos o mesmo, sinto-me perfeitamente desenquadrado, como se alguém me tivesse deixado entrar de pijama numa festa de smoking. E nunca penso nisso até às vésperas, quando os votos começam a cair, vou macaqueando sem grande imaginação, mas juro, é isento de maldade. Era de esperar que surgisse naturalmente, como as conversas sobre o tempo, … dias frios, sinto-me capaz de escrever uma tese sobre eles. Mas esta coisa do novo, do que ainda não aconteceu, isto pode ser contagiante e já vi muita boa gente cometer a loucura de estabelecerem metas olímpicas, depois de emborcarem uma dúzia de passas e quase morrerem entaladas. É mais um dia no paraíso, trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas, até ao fim de uma rotação em torno do sol que não é mais que o início de outra, e lá voltamos, gira o disco e toca o mesmo à mítica e vertiginosa velocidade de cento e oito quilómetros por hora pelo espaço…






uso o bom ou o feliz?


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

indulto

E se te dissesse de uma vez tudo o que tive coragem de calar? Não estavam mortas agora essas palavras, sacudidas em nuvens de poeira, penduradas pelos pés como as árvores. Nem sei se te abracei, estava frio, mas penso que não te abracei, as palavras foram caindo escorregadias, selando a desilusão nos lábios.

E se substituísse todas as palavras que escrevi por outras... ou pelas mesmas, já muito gastas e remendadas, mas dispostas de outra maneira? Aposto que numa noite conseguia recriar todos os meus passos sem que isso me levasse a lado nenhum, ou me desse um pouco mais de conforto. 

Dormir, isso sim, é algo maravilhoso.


sábado, 27 de dezembro de 2014

assonia



Os sonhos nas noites longas são como a roupa de inverno, demasiado volumosos para caberem nas gavetas do costume...


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

gula

Na estreiteza redonda da mesa, os pedidos acumularam-se em pequenas taças com pouca variedade. Uma salada média com três garfos fora colocada ao centro, depois a ladear meia de batatas cortadas em gomos com aparência crocante, uma de falafel de grão e outra taça com um aspecto semelhante, de bolas panadas do tamanho de uma dentada, mas recheadas com carne, ou a saberem a carne. É só isto, perguntaram, mas a empregada de mesa respondeu apressadamente que os pedidos estavam demorados, voltando rapidamente as costas deslizando sem harmonia para o interior da cozinha.
O meu estômago ressoava, tínhamos levado cerca de dez minutos a escolher, Péter encomendou um menu de cada para experimentarmos. Entretanto tinha passado uma hora e o restaurante enchera, e na mesa estava uma salada com três garfos, as batatas e duas taças das tais bolas, tudo acompanhado de molhos diferentes. Comecei pelas batatas, deixando que os outros batalhassem pela salada. São boas, perguntaram, menti torcendo a cara mas como não parava de as comer, assim que puderam precipitaram-se sobre elas, ou do que delas restava. Não provei a salada, as batatas eram realmente boas, ligeiramente picantes, pareciam caramelizadas. O falafel não tinha grande sabor, faltava-lhe sal e como era seco, obrigava-me a beber mais para o conseguir empurrar. Com todas as mesas preenchidas, as empregadas já nem olhavam, passando só por necessidade na proximidade, em que esticávamos os braços para lhes implorar mais um copo de cerveja e o resto da comida.
Na eminencia de desistir do resto do pedido, pousaram na mesa mais uma dose do que parecia ser outra vez falafel, desta vez acompanhado de duas taças com batatas fritas triangulares, umas bem mais picantes que as outras. As batatas compensavam a espera e enquanto estive entretido, esqueci que praticamente só comera batatas e que o copo estava vazio. O bolchevista irritado com a falta de bebida, levantou-se, instigando as tropas a desertarem, mas Péter puxou-o pelo braço persuadindo o russo com a promessa que já faltava pouco, que o melhor estava para vir. E tinha razão, faltava pouco, ainda o bolchevista não se tinha voltado a sentar e a música subia de volume, calando as conversas avulso, encaminhando a atenção para um pequeno palco iluminado. Pelo meio das mesas surgia do ar uma dançarina de rosto tapado, gingando descalça ao ritmo da música. Sem me aperceber, estávamos na primeira fila de mesas diante do palco, muito próximos para poder apreciar todas as formas generosas que a dançarina voluptuosamente não cobrira. Mas eu tinha fome, e enquanto todos olhavam embasbacados, continuava a petiscar as batatas, alheio ao ventre que se contorcia a pouco metros da minha cara.
Não encontro explicação plausível para o que aconteceu de seguida, talvez fosse do fumo que subia de várias mesas onde se fumava shisha, ou das especiarias que condimentavam os pratos, a plateia hipnotizada no perfeito umbigo da dançarina do ventre, pareciam estátuas sentadas em poltronas, esparvoadas, envoltas numa bruma. Continuei a comer, imune ao encantamento geral, e nem dei conta que ela descera do palco, decidida a dar-me uma lição. Foi tudo muito rápido, no meu estado normal nunca teria feito o que fiz, mas tenho a certeza que não estava em mim, foi aquela comida, o pecado errado.
Ela irritada por não lhe estar a prestar atenção, tirou-me da frente a taça com as poucas batatas triangulares que restavam, mantendo os movimentos ondulantes da dança, levantou-a bem alto fora do meu alcance. A plateia ria, mas eu não lhe achei piada nenhuma, estava obcecado com as batatas, levantei-me com rapidez por pouco não lhe pisei os dedos, ainda tentou desviar-se, mas com facilidade esvaziei a taça com a mão, enfiando as batatas de uma só vez na boca. Não imagino a minha figura, mas dizem que estava muito próximo de um babuíno. O público ainda riu mais alto, pensando que tudo fazia parte da actuação, ela desandou pelas outras mesas, olhando ocasionalmente para mim com ar de reprovação. Ainda havia outra taça com alguns restos, não eram tao boas, mas estava disposto a continuar o jogo. Ela voltou, desta vez para puxar Péter para o palco, onde desajeitadamente o húngaro tentava imitar os seus movimentos. As batatas chegavam ao fim, ela devolvia o húngaro ao seu sítio, vermelho como um pimento, de marrafa desalinha e sorriso parvo, levando com ela outro espectador ansioso.
Despediu-se com várias vénias, alguns aplaudiram de pé, Péter era um deles. Consegui mais uma cerveja que bebi em dois tragos, estava farto de ali estar, mas o meu exército queria permanecer entrincheirado, ansiosos por conhecerem o inimigo. Paguei na senhora do sarcófago e sai para o frio onde o ar era respirável. Já havia pouca gente naquela zona da cidade, encostei-me ao carro e esperei pela boleia, vendo sair os grupos aos tropeções. Finalmente o húngaro apareceu com o bolchevista, e com eles vinha a dançarina, mais tapada e de saltos altos, acompanhada por outra rapariga.
Vais ter de ir táxi ou a pé. Disse o húngaro. Só tenho lugar para quatro.
Cabemos os cinco. Resmunguei, acrescentando uma asneira qualquer.
É possível, mas ela diz que só vai se tu não fores…  E eu gosto mais dela!




sábado, 20 de dezembro de 2014

mintaka

A noite apressou-se gelada sobre a tarde, varrendo inelutável os últimos resquícios luminosos de dia. Nas sombras das copas nuas, uma aragem de nordeste roçava as folhas caídas, empurrando até à clareira um manto esparso de nuvens. Deixei-me sentado no frio, esperando paciente a chegada das três Marias, alinhadas no centro da constelação de Orion. Aprendera com ela os nomes, deitados numa noite sem lua em cama de erva crescida, mas das que constituíam o cinto do caçador, só Mintaka sobrevivera aos dias. O céu continuava idêntico, imutável sobre nós, correndo o escorpião atrás do caçador e do seu cão pelo firmamento, sem nunca o alcançar. Podíamos ter sido assim, constelações opostas cruzando os céus, mas a vida é lacónica e desesperadamente seguimos o afastamento de dias passados, terras estranhas de permeio, crescendo a distância na medida do que se perde na memória. Ontem um nome de estrela, hoje um beijo mais ardente na reentrância de uma tarde. E lembro-me, ou tento lembrar-me de cada fragmento, encostada a um freixo já velho, de corpo lânguido escorrendo sobre a casca, o cabelo solto por onde meus dedos passearam, galgando a morna e tremente pele coberta e na boca o desejo esperando, sem pressa que a noite tem dono. Lentamente, como o papel que se desfaz na água, a memória do seu riso, do seu cheiro, de cada palavra dita fervendo de amor, desvanecendo num rio de esquecimento.

Se olhasse para oeste, talvez ainda conseguisse um vislumbre de escorpião a desaparecer no horizonte. 

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