sábado, 20 de dezembro de 2014

mintaka

A noite apressou-se gelada sobre a tarde, varrendo inelutável os últimos resquícios luminosos de dia. Nas sombras das copas nuas, uma aragem de nordeste roçava as folhas caídas, empurrando até à clareira um manto esparso de nuvens. Deixei-me sentado no frio, esperando paciente a chegada das três Marias, alinhadas no centro da constelação de Orion. Aprendera com ela os nomes, deitados numa noite sem lua em cama de erva crescida, mas das que constituíam o cinto do caçador, só Mintaka sobrevivera aos dias. O céu continuava idêntico, imutável sobre nós, correndo o escorpião atrás do caçador e do seu cão pelo firmamento, sem nunca o alcançar. Podíamos ter sido assim, constelações opostas cruzando os céus, mas a vida é lacónica e desesperadamente seguimos o afastamento de dias passados, terras estranhas de permeio, crescendo a distância na medida do que se perde na memória. Ontem um nome de estrela, hoje um beijo mais ardente na reentrância de uma tarde. E lembro-me, ou tento lembrar-me de cada fragmento, encostada a um freixo já velho, de corpo lânguido escorrendo sobre a casca, o cabelo solto por onde meus dedos passearam, galgando a morna e tremente pele coberta e na boca o desejo esperando, sem pressa que a noite tem dono. Lentamente, como o papel que se desfaz na água, a memória do seu riso, do seu cheiro, de cada palavra dita fervendo de amor, desvanecendo num rio de esquecimento.

Se olhasse para oeste, talvez ainda conseguisse um vislumbre de escorpião a desaparecer no horizonte. 

video

12 comentários:

  1. Não te esqueceste do nome Mintaka. A pele não conseguiu apagar da memória a noite sem lua deitada em cama de erva crescida.
    Deixo um beijo Manelito:)))

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. é o último dos nomes... já pouco resta. beijos ao quadrado

      Eliminar
    2. Este comentário foi removido pelo autor.

      Eliminar
  2. Bonita e inteligentemente construída esta tua "constelação", em que as palavras e os sentires brilham como estrelas fulgentes num céu de tela negra.

    Como canta Melody Gardot:

    "If the stars were mine I'd give them all to you
    I'd put those stars right in a jar and give them all to you"

    E se já só te resta a Mintaka, eu não te posso oferecer as minhas estrelas, mas empresto-tas.
    Depois, devolve-mas, que me fazem falta...
    Beijo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. devolvo sempre tudo... aos poucos, ossos, ligamentos, pele... vai tudo!

      Eliminar
  3. Obrigada por devolveres o que me pertence. Assim, voltarei a emprestar-te o que necessitares. Mas cuidado com o que pedes...(sorriso).

    Feliz Natal e um excelente Ano de 2015 para ti e para os teus.

    Beijo

    PS. Meu querido, estou a ficar louca com esta coisa do google+. Irra!
    Não fui notificada do teu comentário e os meus comentários aparecem em duplicado, ou então desaparecem por magia que me é incompreensível.
    Tem paciência e apaga o que estiver a mais, se fazes o favor. Obrigada.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. nunca pedi muito... espero que o natal tenha sido feliz, um bom ano é o que te desejo.
      quanto ao ps, para seres notificada julgo que é preciso colocares um visto na caixa do notificar-me... julgo... nã tenho a certeza, vá...

      Eliminar
  4. Eu sou escorpião! Mas não desapareço. Estou sempre no mesmo sítio... Até me canso de estar parada.

    ResponderEliminar
  5. Então é aqui que se comenta?E temos que ter um coiso destes?Estou mesmo Aleste

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. qual coiso destes? pode ser aqui... mas ainda nã sei como se sabe que alguém comentou... e depois é isto

      Eliminar