segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

segunda

Não me lembro precisamente de onde vim, estava a setecentas e noventa e nove léguas para leste, num banho quente de travertino, quando ela cruzou o átrio e foi bater à porta errada. Ergui-me das águas pouco profundas com cuidado, atoalhado pela cintura, arriscando o resvalo nos depósitos de carbonato de cálcio.
“Posso ajudar? “

Trazia um uniforme escuro com um logotipo qualquer em letras fortes e um envelope grande debaixo do braço, mas isto foi o que consegui ver enquanto permaneceu de costas, quando se voltou, a terra literalmente susteve-se no espaço e a paragem foi tão brusca que me atirou contra a muralha esbranquiçada que descia pela colina.

“Sente-se bem?” Perguntou, oferecendo uma mão para me levantar, não cedendo o embrulho ainda irrelevante, nem o sorriso subjugado aos lábios. Aturdido, segurei o pudor como pude e ajeitei na ilharga o velame, vexado até às costelas, balindo palavras sem nexo.

“Só costuma chegar por volta das dez, mas se quiser posso receber em seu nome… “

A órbita continuava estática na curva que contornava o seu lábio, aquele pequeno movimento de músculos sincronizados, sob uma pele que afundava e se fundia no tom rosado e carnudo, resultando no mais belo sorriso do mundo.

“ou então pode voltar mais tarde… vou estar por aqui… ou amanhã… nem saio daqui se me disser que regressa…”

Em catadupa, abalado por fora e por dentro, não continha a procissão de vocábulos que se abeiravam do precipício, e quando tentava bater em retirada, mais o solo se perdia na voragem colorida, infinita da sua íris.

"também já falta pouco para as dez..." continuava, insano "podemos ir tomar um café..."

Consequência inédita da desesperada súplica, assomavam todos os tons de vermelho ao seu rosto delicado, acentuando a simetria temporal ornada por finos filamentos, claros e arruados, e no centro da fronte divina, um piramidalis nasi mais que perfeito.
Só faltou lançar-me aos seus pés.
Então por fim desviou inusitadamente o olhar, achando o equilíbrio numa guia de transporte dobrada, mas sem nunca privar-me do seu sorriso.

“Basta que assine aqui o seu nome”


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

oblação

Cheira o meu novo perfume…

Pediu com veemência ao lobo mau, rodando a cabeça despida do capucho vermelho que a cobria, oferecendo a cova pálida e suculenta do pescoço. Aproximou a disforme venta da leitosa pele e aspirou intensamente a morna doçura que emanava, rude e efémera juventude, oblação salpicada com a cara fragrância artificial.

Cheiro bem?
Ébrio de prazer deixou escapar um sorriso na sua enorme e escancarada bocarra, com uma miríade de dentes à vista. Concupiscência tola, lume ateado pela escarlate capa que descia na pele nua, e rodopiava na ponta dos dedos. Debilitado pela volúpia das mãos que o corriam, deixava-se vencer, entregava-se sem luta inteiro ao lábios entreabertos, provocantes e húmidos, brilhantes, onde se achava uma língua devoradora que perguntava ao lobo depois de o comer…

porque tens uma boca tão grande?



*oblação
(latim oblatio, -onis)
s. f.
1. Sacrifício a Deus.
2. Oferenda.
3. Oblata.