segunda-feira, 15 de maio de 2017

queda

No momento em que o homem tentava sair do buraco onde tinha caído, pensou: “caso sobreviva, aqui está uma boa história para contar aos meus netos.” O buraco onde tinha caído não era assim tão fundo e sem dificuldade impulsionou-se de lá para fora. Era uma valeta de escoamento de água que estava cheia da chuva que não parava de cair. O homem que queria contar uma história não tinha visto a valeta, ali no seguimento do passeio mal iluminado. De um momento para o outro o chão sólido desaparecera debaixo dos pés, e sem saber como estava submerso até ao pescoço. Não havia ninguém por perto, era madrugada e continuava a chover. O homem que queria contar uma história saiu do buraco e pingou até uma paragem de autocarro, onde se sentou para avaliar o seu estado. O telemóvel no bolso das calças era um pequeno aquário sem qualquer uso. Pensou que tinha de continuar a caminhar ou o frio seria insuportável, mas não tinha bem a certeza de quanto mais teria de caminhar até casa, e uma dor mordia-lhe a articulação do joelho de tal forma que só queria ficar ali e esperar que a manhã lhe trouxesse o primeiro transporte. Foi então que se lembrou de ter passado por uma cabine telefónica e tentou a sorte. A mulher que tinha um sono leve atendeu ao terceiro toque. Dez minutos depois recolhia o homem que queria contar uma história com bafo de álcool, encharcado até aos ossos. Não falaram, o homem estava envergonhado e com dores. Ela ajudou-o a despir-se no meio da cozinha, onde deixou ficar a roupa como se fosse um animal abatido, inanimado na tijoleira. A mancar ligeiramente, meteu-se na banheira e tomou um duche bem quente. A mulher que tinha um sono leve já estava deitada na cama, em breve teria de se levantar e ir trabalhar. O homem que queria contar uma história, deitou-se e abraçou a mulher que não queria saber que o homem tinha bebido um número indeterminado de shots e que por isso não se apercebera do fim do passeio. 


domingo, 14 de maio de 2017

raleira

o capataz coça a cabeça. tem os pés enfiados na água que não escorreu pelo ralo porque em certo ponto o cano de esgoto não tem a inclinação que devia ter e a água empossa no centro do pátio. se continuar a chover podemos fazer mergulho na nova piscina. agora que penso nisso, o mesmo se passou na minha vida. meti água. muita. ela não está minimamente interessada em mim. sou como aquele cano que não escoa nada. agora que penso nas coisas que me disse, talvez ela só estivesse a ser simpática. coço a cabeça. tento acenar-lhe ao longe, mas ela não está minimamente interessada em mim. difícil era entender se ela estivesse.


domingo, 7 de maio de 2017

wieloryb

... ou baleia.

acordei com a minha mãe a chamar por mim. já vou, respondi a saltar da cama. depois percebi onde estava, e que tudo não passava de um sonho. as baleias também faziam parte do sonho. estavam junto à costa e saltavam fora de água, com as barbatanas abertas como se fossem levantar voo. ou como se as mães delas chamassem por elas. o mergulho de regresso ao azul límpido era estrondoso, provocando o deslocamento de colunas de água que chegavam até ao cimo das rochas de onde as observávamos, salpicando o mundo de sal e felicidade.

roubado daqui


sábado, 6 de maio de 2017

resto

esta sexta-feira, enquanto a maioria das pessoas procurava a iluminação do centro da cidade para afogarem as rotinas em vários decilitros de álcool, optei por seguir a pé pelo percurso mais longo, em sentido contrário da luz. depois lembrei-me que o corpo exige alimento e demorei nas prateleiras cheias, equilibrando com cuidado os preços e o peso dos trocos perdidos pelos bolsos. o espaço estava vazio de clientes, os funcionários esperavam ansiosos para fecharem as portas e também eles rumarem para o centro, atraídos como traças. já não havia carnes expostas nas montras, só embalada. perdi-me no corredor das cervejas, namorei por alguns minutos a importada, mas acabei por trazer nacional. no fim gastei mais porque o azeite português estava em promoção, os tomates a 3.99zł o quilo. chego a casa e descalço-me. antes que a fadiga me atire ao tapete, ponho na grelha duas kielbasas de porco e a cerveja no congelador. arrumo as compras, descubro duas garrafas de azeite no armário e o frigorífico vazio. janto em frente ao portátil, lavo a loiça, faço uma lista de compras, actualizo o orçamento. depois de um streeptease para a máquina da roupa e vizinhança que esteja atenta, desligo a luz e danço sapateado até à cama. quando a cabeça se ajusta à almofada, penso que nunca mais é segunda e desejo que o fim de semana passe rápido, como se tudo fosse um sonho tolo. 


segunda-feira, 1 de maio de 2017

papagaios

a minha versão de "A Senhora dos Papagaios" da Palmier



 outras versões aqui, aqui e aqui e ainda mais aqui
e continua aqui e por aqui, aqui
e espero que me perdoem se esquecer de alguém... mas também há mais aqui, aqui, aquiaqui, e aqui

domingo, 30 de abril de 2017

ouriçar

O problema de não conseguir escrever é em parte também consequência de não ler. Ultimamente não leio. Absolutamente nada. Mas tudo me faz falta. É como se respirasse só com um pulmão, mastigasse com metade da boca. É como estar embriagado, mas ressacado ao mesmo tempo e não conseguisse escapar pela estreita fenda da inibição. O que me salva nestes dias são os sonhos. O último foi com mamas, muitas mamas, algumas tão grandes que nem via o sol. 


quinta-feira, 27 de abril de 2017

шишка*

Não sonhava desde que vi o meu pai morto numa laje negra. Estava numa larga divisão de uma casa centenária que albergava muitas pessoas sentadas, nem todas contra a parede como era o meu caso. O rapaz diante de mim, que partilhava o canapé de três lugares com uma senhora mais velha, perguntou se eu escrevia. Disse-lhe que escrevia ocasionalmente, tinha total domínio sobre as vogais, mas as consoantes às vezes falhavam por serem muitas. A rapariga ao meu lado riu alto, dirigindo a atenção dos presentes para a nossa conversa. Isto é um assunto sério, disse o jovem com ar ameaçador, estendendo-me um inquérito. A rapariga ao meu lado recuperou a seriedade e o silêncio avançou pela sala à medida que os papéis eram distribuídos do centro para os cantos. Alguém no extremo direito da sala ditava instruções, mas eu mal conseguia ouvir o que dizia. A rapariga ao meu lado virara-me as costas e preenchia exaustivamente os espaços em branco. Reparei então que apesar de jovem, usava roupas antigas, um longo vestido com rendas, do tempo dos reis e das princesas. O rapaz estava todo vestido de preto e não voltara a olhar para mim, levantando ocasionalmente a cabeça em direcção da voz feminina que vinha da extremidade da sala. A velha a seu lado também usava um desses vestidos com rendas até aos pés e uma grande peruca dourada, óculos na ponta do nariz. A parte da sala que cabia no meu campo de visão, era decorada com faustosos e pesados gobelins, canapés e bergeres de todas as cores e feitios. Ao fundo, no extremo, toda a parede era rasgada em janelas altas e estreitas, de caixilhos simétricos e alinhados com as faias do jardim A ala direita era interrompida por um grande biombo florido, todo trabalhado em caracóis sem fim. Era desse ponto que a voz da mulher vinha, mas pelo percurso quebrava-se, tornava-se esbatida, perdendo conteúdo, força, desaguava nos meus ouvidos em fragmentos como “crocodilo”, “Anne Frank”, “poeira”, “arremedo”, “pinha*”. 







quarta-feira, 19 de abril de 2017

zimno

às vezes vejo as notícias e acho estranho as pessoas andarem de manga curta. aqui liguei o aquecimento.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

gnossienne

o mundo acaba amanhã, disse o velho que se sentou ao meu lado no mesmo banco virado para o mar. depois puxou de um cigarro e fumou em silêncio. o fumo entrou-me pelos olhos, picando a pupila fragilizada pela claridade. talvez ele não tenha dito que o mundo acabava amanhã, mas outra coisa qualquer sobre o azul esbatido, ou uma reflexão sobre o monte de penas que ali jazia a poucos metros. é estranho, mas era capaz de jurar que o ouvi dizer que o mundo acabava amanhã, e ele parecia tão certo disso quanto eu. e apesar de estarmos os dois certos, para grande espanto, o mundo continuou.



domingo, 9 de abril de 2017

coraçom










omtam este poeta este emxemplo e diz que as espáduas e o celebro acusarom o coraçom, dizemdo:
— Nós ssenpre ssosteemos grande afam em andando de cá e de llá em muytos trabalhos; e todo nos este coraçom come e num faz mais que suspiraar, e numca sse comtenta com amore; e elle está ocçioso e nom faz nem dura trabalho. Nom lhe demos de ver sua amada!
E assy o fezerom, ordenando o celebro os olhos pra nom sse abrirem. Ho coraçom começou a auer fraco, e disse aas espáduas e ao celebro:
— Amygos, dade-me de ver minha amda, ajudade-me, ca eu mouro com desgoosto.
A espádua e o celebro diserom que lh’o nom queriam dar, e dizian-lhe:
— Sse tu queres veer tua dama, toma affam, assy como nós fazemos; d’outra guysa, nom queremos que suspires quanto nós trabalhamos.
Em esta perfia esteuerom per espaço de dias, tanto que o coraçom pos muita fraqueza e as espáduas começarom de enfraqueçer, e outrossy o celebro.
E os pees diserom:
— Nom podemos andar.
E as mãaos diserom:
— Nom podemos trabalhar.
E as espáduas diserom:
— Nom podemos carregar.
Veemdo esto o celebro tomou de abrir os olhos para dar de ver ao coraçom; e o corpo era ja posto em tamta fraqueza, que os olhos nom sse poderom abrir. E per esta perfia o corpo morreo: e elle morto morrerom as espáduas e o celebro com todolos outros membros.

________________________________________

Pom este poeta emxemplo per nosso amaestramento e diz, rreprehendendo que todos somos membros em huma Republica, e todos neçessarios huns aos outros. Soldados e trabalhadores são mãaos e pees, o Rey celebro, os ricos estomago, o poeta coraçom. Sse disser o lavrador que nom quer trabalhar, pra que o outro coma, elle ha de ser o primeiro que ha de padecer fome. Se os soldados nom defenderem a patria, o Rey nom governar, os rricos nom distribuirem o que ajuntárão dantes, e cada membro sse apartar, morrerom todos.

 
Plagiado d' o Livro de Esopo, Fabulário português medieval do séc.XV , "Os membros e o corpo".

domingo, 2 de abril de 2017

कर्म

decides não escrever e passar o domingo a limpar. tens tudo a brilhar, principalmente a cozinha onde demoraste mais tempo. tomas banho porque os lençóis foram mudados, a cama espera-te com cheiro a sabonete. tens fome, aqueces leite, abres o armário de cima para o chocolate em pó. o frasco escorrega e bate no balcão e depois parte-se no chão em mil pedaços. está tudo coberto de chocolate. até tu ficaste coberto de chocolate. 


quinta-feira, 30 de março de 2017

Þríhnúkagígur


o tamanho da solidão duplica em sentido descendente.




niewidzialny

Senti-me soalho gasto agarrado aos teus pés, desejando que não partisses. Onde vais? Espera. Depois fui porta querendo ser obstáculo no teu caminho, e depois da porta de caixilharia em alumínio que atravessaste sem bater, fui escada, corredor, passeio. Fui sombra, gotas de água, perdi o nome quando fui vidro e estilhaçado, dividido em infinitos pedaços, fui no teu enlace, na saliência da tua sola, até perder-me, até ser nada. Fui ar, odor agarrado ao teu pescoço, som de passos, fui até deixar de ver. Voltei sozinho. Menos que uma migalha, cego, sem reflexo ou imagem, um espectro de ausência. Eu não existo quando não estás comigo.




segunda-feira, 27 de março de 2017

desistir

Finto a página em branco. Escrevo que a noite já caiu e depois apago. Não consigo descrever a cor daquela hora. Precisava de uma noite amena propícia a enredos simples, mas nem a noite está amena, nem os enredos são simples. Repito a mesma música até as notas saírem pelos poros, na esperança que elas expulsem palavras alojadas entre as camadas. Fecho os olhos e imagino-a deitada num sonho. Toda a repetição é como uma oração. Volto ao início e tento acalmar a violência dos punhos lutando contra o ar, cansando a raiva, atirando contra o tapete a frustração, mas nem assim as palavras pousam nos ombros e ditam ao ouvido o que vem a seguir. Se desistir, pouco me resta.  


quarta-feira, 22 de março de 2017

sexta-feira, 17 de março de 2017

lanígero

eu queria cinco filhas. o meu avô teve sete, mas eu ficava feliz com cinco, ou quatro, ou mesmo só uma. o meu avô era um bom homem, por isso teve sete filhas. para ele todas elas valiam mais do que ouro, por isso sem ninguém saber, ele era o homem mais rico do mundo. nunca quis ser o mais rico, sempre disse que me contentava com cinco filhas e um rebanho de ovelhas. gostava de ter um rebanho de ovelhas, e atravessar os montes com elas. depois na altura certa, tosava as bichas e tratava a lã, e comprava também um tear, porque sempre me fascinou o entrelaçar dos fios. e com cinco filhas e um rebanho médio de ovelhas, seria o homem mais feliz do mundo.


quinta-feira, 16 de março de 2017

luz

III


A noite foi sem dúvida o pior momento do primeiro dia, e se não fosse o peso do cansaço a esmagar-me como um insecto que é apanhado por um camião a duzentos numa autoestrada, talvez nunca tivesse adormecido. Caminhara com esperanças de encontrar alguém ou um sinal de humanidade quando chegasse ao topo da encosta, mas para onde quer que olhasse só havia mata densa e outras encostas que subiam como corcundas cinzentas do rio. Escureceu rapidamente, não havia qualquer fonte de iluminação até onde a vista alcançava, e o frio enleou-se com cheiro a mar em todas as coisas vivas e não vivas. Valeu-me na altura uma reentrância na rocha abrigada do vento, forrada de musgo seco e caruma. Talvez tenha chorado, não me lembro, fazia tanto frio que as lágrimas congelavam, congestionando os canais. No céu a lua era um risco quase a desaparecer e protegido pela sua luz muito ténue, terei sonhado que a vénus de Botticelli, toda ela pele muito branca e nua, caminhava para mim no areal, empurrada por zéfiro. Acordei com o chilreio de um bando de piscos embrenhados nos arbustos, estiquei o braço para desligar o despertador, mas os pássaros não tinham qualquer respeito. Para além das dores que sentia nas articulações, experimentava uma novidade, tipo um prurido desagradável que não tinha princípio nem fim, e por todo o corpo estalavam bolhas rubras, evidências de que fizera parte do menu degustativo de formigas e aranhas. A sensação de perigo iminente era constante, sabia sem saber muito bem como, que deixara de estar no topo da cadeia, mesmo que os uivos da noite anterior estivessem distantes. Foi com esta ideia em mente que me atirei com todas as forças à fabricação de fogo, já tinha visto vídeos no youtube, precisava de um pau a direito, com cerca de dois palmos, e uma casca de árvore onde, por fricção das duas partes, conseguiria produzir suficiente calor para incendiar um tufo de vegetação seca. Como qualquer indivíduo nascido no século vinte, tinha toda a teoria, mas nenhuma prática. Ao fim de várias tentativas e muitas bolhas nas mãos, uma pequena nuvem de fumo deu origem a umas chamas contidas, quase microscópicas. O primeiro fogo animou-me o espírito, confortou-me a alma,  elevou-me pela cadeia alimentar até ao topo. Estava tão satisfeito com o que havia conseguido que me levantei num pulo e ensaiei uma pequena dança de vitória, quebrando o pau em dois, e apagando o fogo que tão arduamente tinha conseguido avivar. 

domingo, 12 de março de 2017

leucocrata

II

Às vezes penso que o tempo antes daquela madrugada em que acordei na praia, nunca existiu. Era como se tivesse nascido naquele dia, expelido do ventre do mar com quarenta anos, usando apenas umas trusses made in china. Mas onde é que eu estava? Sim, já me recordo, tinha caminhado cerca de três horas pelo areal até à foz do rio, mas nada era como no dia anterior. Não havia casas, nem prédios, estradas, pontes, pessoas. As margens do rio eram aligeiradas no encontro com o mar, arenosas, mas escarpadas, graníticas para o seu interior. Em tudo parecia o mesmo sítio, só que noutro tempo, talvez passado ou futuro. Mas isto sou eu a embelezar o momento, porque naquela manhã de agosto no princípio do mundo, estava completamente cego de sede e não pensava muito. Caminhei o mais rápido que conseguia pela margem do rio até o areal ser substituído por seixos e rochas desgastadas, marcadas pelos diferentes níveis do rio. Desci com cuidado, mas a água era tão cristalina que não me apercebi que o fundo era bem mais fundo e quando o pé não se apoiou na rocha seguinte, caí na água com estrondo. Parecia acabada de descongelar, mas o sabor era algo indescritível, não tinha memória de alguma vez ter bebido assim uma água, mas podia ser da sede excessiva ou da secura da língua. De imediato senti o alívio de todas as dores, a pele que queimara levemente ao sol, recuperou totalmente e as forças voltaram aos membros como por milagre. Completamente saciado, estendi-me numa rocha ao sol, contemplando a margem norte onde era suposto existir a invicta. A escarpa granítica era atravessada por alguns riachos, quedas de água, que desapareciam no volume imenso do rio, brilhando intensamente como fios de prata. Um movimento fora da água fez-me desviar rapidamente o olhar. Não queria acreditar, mas peixes corpulentos saltavam no ar, contra a corrente do rio. Agora que olhava com atenção, via que outros peixes, mais pequenos, se aproximavam nas águas baixas, inspeccionando com cautela a minha sombra. Aqueles peixes não eram exactamente iguais aos que tinha visto na montra do restaurante, pressupus que fossem tainhas, embora nunca tivesse visto tainhas a saltarem à tona. Pus-me de pé e experimentei gritar bem alto “está ai alguém?”; “olá”; “socorro”; “tenho fome”. Mas a única resposta que obtive foi um eco incompleto. Ocorreu-me então que talvez me tivesse inscrito num daqueles programas de sobrevivência em ilhas desertas, mas se calhar tinha batido com a cabeça em alguma árvore e não me lembrava de nada, só daquela noite do restaurante e da mama atrevida que espreitava fora do soutien. Apalpei a cara e a cabeça à procura de uma contusão que atestasse essa novíssima teoria, mas não encontrei nada. Se estava num programa de sobrevivência, era suposto haver câmaras a filmarem, e senti algum embaraço por ali estar de cuecas. Isso era outra coisa que me intrigava, porquê que não tinha mais roupa. Resolvi então escalar a vertente sul até ao ponto mais alto, e daí poderia ter uma perspectiva mais ampliada do sítio onde me encontrava. A subida não foi fácil, descalço e praticamente nu, mas valeu-me o facto de ter encontrado algumas pinhas com pinhões muito mirrados e algumas silvas com amoras silvestres pouco maduras. Foi o primeiro de muitos festins. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

klątwa

Ontem tossi tanto que acabei por perder parte da voz. Mesmo assim, muito rouco, quase afónico, não recusei juntar-me a uns amigos que acenavam de um pub, e é claro também não consegui evitar beber uma (ou duas, isso é irrelevante) cerveja fresquinha, e depois, perdido por cem perdido por mil, também não consegui parar de falar. Tornei-me aquele indivíduo que tem a mania de transformar tudo em piada e tem uma história que se enquadra em qualquer cenário. A mim ninguém me cala. Nem as bactérias. É a maldição dos maneis.


domingo, 5 de março de 2017

trusses

I

A mais bela lembrança que guardei daquele início de noite, foi a sua camisa transparente e a doce revelação de meia auréola saindo à revelia do soutien. Era de um tom pálido rosado, larga, sem ser muito volumosa. Às vezes penso nela. Jantamos num pitoresco restaurante com vista para o mar. Havia o tradicional empregado irritante e o ruído das mesas vizinhas que não permitiam qualquer tipo de intimidade. Quando saímos tentei convencê-la num passeio pela praia quase deserta, o areal tingido por um esplendoroso pôr-do-sol, os meus dedos ágeis acariciando-lhe o pescoço, desejosos por descerem todos por ela abaixo. Mas algo aconteceu, uma urgência qualquer apitou no ecrã e ela despediu-se com dois beijos, desaparecendo num táxi anónimo. Fiquei abandonado ao meu tesão, hesitante à porta do restaurante, entre o que podia vir a ser no dia seguinte uma meia, ou uma ressaca inteira. O sol mergulhava as últimas orlas num mar pastoso, entrei e pedi um whisky duplo. Não tenho bem a certeza do que aconteceu depois, bastante bebido, terei caminhado pela praia e a certa altura deixei as roupas num monte e entrei na absoluta escuridão marinha.

Terá sido assim que comecei o primeiro dia no Paleolítico superior, numa madrugada com dez mil anos, mais coisa menos coisa, de trusses estreadas, encolhido de frio, com metade da cara enterrada na areia. Levantei a cabeça cuidadosamente com medo de entornar o cérebro líquido e fiquei a olhar para a névoa estática sobre o mar. A praia parecia mais extensa, como se a maré tivesse recuado o dobro da distância, mas podia ser uma ilusão de óptica causada pela neblina. Não havia ninguém, nem vestígios de alguém ter passado por ali, mas na altura estava demasiado aturdido para me aperceber da falta de humanidade. Trôpego, questionei a quantidade de exageros que teria cometido na noite anterior, na qualidade rasca do whisky, depois pensei nas minhas coisas. Olhei em volta mas não havia nada que se assemelhasse a roupa ou sapatos, menos ainda chaves de casa, ou carteira. Teria sido roubado? Subi em direcção às dunas esperando encontrar a estrada que percorria a orla marítima. Mas ali não havia estrada, nem casas, apenas uma vegetação rasteira que se estendia até ao limiar do medo, terminando com fileiras densas de pinheiros e bétulas. Voltei a descer para o mar, era mais fácil caminhar pela areia molhada. Se continuasse para norte acabaria por encontrar o restaurante, ou algum telefone público. Na altura não estranhei o silêncio que envolvia o mundo, talvez porque as ondas rebentassem com força na praia e as gaivotas e outras aves marinhas guinchavam agitadas. Não sei quantos quilómetros terei percorrido sem encontrar qualquer sinal de civilização, já não sentia frio, apenas fome e sede. Mais que uma vez voltei a subir as dunas para encontrar sempre a mesma paisagem, ocorreu-me a certa altura que podia estar a ser alvo de uma brincadeira de mau gosto, uma partida dos colegas de trabalho. Se calhar estava mais a norte ou a sul, algum sítio recôndito, mas qual a piada de uma partida dessas? E foi por essa altura, quase sem forças, que comecei a avistar o que me parecia ser a foz do rio. Finalmente chegara, pensei, quando desfizesse a curva, lá estaria a marina de um lado, e do outro, as emblemáticas palmeiras do passeio alegre, e depois mais adiante suspensa nas encostas granítica, a fabulosa ponte da arrábida. Mas não foi nada disso que encontrei.

quinta-feira, 2 de março de 2017

balbuciar


Separados por menos de um metro e não lhe consegui dizer que não sentia a cara quando estava perto dela. Ou o que quer que fosse. Tinha um amigo que quando bebia demais, começava por deixar de sentir o queixo, e depois gradualmente o resto do corpo. Ela não disse nada. Isto são péssimas noticias. Desconfio que o fim pode acontecer antes do início, e sim, isto pode também ser o fim de tudo. Era suposto a escrita afastar-me da loucura, mas sinto que nos aproxima. 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

questão

... ou post barra questionário, às pessoas que sorriem pouco, ou a todos aqueles que um dia foram alvo de um sorriso raro!

Dizem os meus espiões que é raro ela sorrir. Também é raro conversar no corredor com alguém, mesmo os cumprimentos são muito contidos e a sua voz é quase um murmúrio. No entanto eu conheço outra pessoa na mesma pessoa, que em condições diferentes falou pelos cotovelos, como se aproveitasse cada segundo em que estava na minha presença para me mostrar o seu lado que sorri. Mas posso estar enganado. Também me engano e não é assim tão raro. Os meus espiões dizem que a viram sorrir também, e que só a mim ela me acena ao longe. E procurou em várias ocasiões o meu olhar. Tenho testemunhas. E eu que normalmente sou efusivo, provocador, sempre a sorrir com ar de idiota, quando estou diante dela fico mudo, intimidado, como que enfeitiçado pela sua voz que não é mais que um estalar de espuma do mar.  

Pessoas que sorriem pouco e que passam a sorrir para uma determinada pessoa, isso é o quê, exactamente? 



Montt

domingo, 26 de fevereiro de 2017

aburrido

ao fim-de-semana aborreço-me de morte...

Alberto Montt
o que será que ela faz ao fim-de-semana?

sábado, 25 de fevereiro de 2017

trinta

O homem preparou a massa sob o olhar atento dos jovens. Todos queriam ajudar, mas distraiam-se com mensagens no whatsapp, instagram, facebook. Partilhavam fotos, deformavam-se com aplicações, macaqueavam selfies. Outros seleccionavam músicas no youtube, spotify, e iam afinando vozes e passos de dança. Quando a pizza finalmente saiu do forno, correram para a mesa sem ser necessário chamar. O homem pouco comeu, estava cansado, mas agradava-lhe a mesa cheia e barulhenta. Nunca se imaginara a alimentar tantas bocas esfomeadas que elogiavam a sua arte de criar comida a partir de ingredientes simples. Mas comiam tanto, em segundos tudo o que levara horas a preparar, desaparecia em migalhas. Já se tinha esquecido como seria na idade deles. Tentava esse exercício vezes sem conta, lembrar-se como era, o que fazia, do que gostava com pouco mais de vinte anos. Mesmo eles queriam saber como era, que músicas ouvia por exemplo na escola primária. Ele ria dessas perguntas, era tudo tão diferente, não havia mp3, nem sequer cd’s. Não se descarregava música como se fosse tirar água à fonte. Em oitenta e tal podia escolher ouvir rádio, ou os vinis dos pais repetidos vezes sem conta. E foi então que se lembrou do dia em que o Zeca faleceu. Como se fosse um amigo próximo, um familiar que deixava muita saudade. O Zeca que nenhum daqueles jovens conhecia, o mesmo Zeca que lhe ensinara palavras difíceis como liberdade, desterro, vampiros, piranhas. "Eles comem tudo!" pensava. Queria dizer-lhes que aproveitassem cada dia como se fosse único. Também queria dizer-lhes que não "comessem" tudo, que duvidassem de vez em quando, que não se entregassem. Mas em vez disso ficou a admirar as suas brincadeiras, participou delas como se não estivesse tão próximo dos quarenta, como se os olhos já não tivessem visto muito, como se a pele não se encostasse como dunas nos cantos. Não aguentou ficar para além da uma hora do dia seguinte. Mas sabia que a maioria deles ficariam até muito tarde, e antes de se deitarem, haviam de misturar uns ovos com salsichas na sertã. Disso ele lembrava-se, dos ovos e das salsichas que o salvaram várias vezes nas madrugadas frias, e que continuavam a salvar as gerações seguintes. 


não seria nem cigano nem maltês, se o Zeca não o tivesse cantado. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

janota

Há quem me chame de lindinho. mas eu prefiro que me tratem por jeitoso. ou então guapo, lindaço, janota, pedaço. Uma vez gritaram na rua "pão", "casqueiro", "marrucate", "miconde", "oh bom", tudo seguido, por esta ordem. Na altura não dei ouvidos, continuei a assobiar alto, achei que não era comigo. Mas logo se tornou um tormento sair de casa, chegar ao trabalho uma tarefa impossível. As moças caíam-me literalmente aos pés, lançavam-se aos tornozelos, atiravam-se em desespero. Temia pisá-las, dar-lhes desgostos,  não suportava as choradeiras, as olheiras, depressões, resmas de culpa. Então deixei crescer primeiro um bigode, depois uma barba cerrada e durante uns tempos usei um gorro bem feio. Foi remédio santo. 

Alberto Montt

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

haste

lembro-me que naquela manhã, as hastes dos pinheiros derretiam ao sol.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

joule

ilmatecuhtli não dormiu. Esteve toda a noite a batalhar com pesadelos. De arco em punho, disparou um milhão das suas setas feitas do pó que sobra das estrelas. Está sentada na espuma da rebentação, alivia as dores das mãos cheias de bolhas na água fria. O seu elmo de escamas prateadas anda à deriva no mar. ilmatecuhtli não acordou pequenina, não passeou pela praia de mão dada, não escolheu beijinhos na areia. Continua sentada no frio, abandonada de forças. Mesmo assim aproximo-me com cuidado. Sinto a orelha queimar, depois o calor desce por toda a cara, goteja do queixo. ilamtecuhtli prometeu queimar-me se lhe faltasse na batalha. Quanto mais me aproximo, mais me queima. Quando estou a menos de um passo, ela ergue os olhos.






sábado, 18 de fevereiro de 2017

ngultrum

A mulher de olhos rasgados que me pegara na mão para a ler, tinha razão. Mas tudo o que nela estava escrito já era do meu conhecimento. Não é comum, mas algumas pessoas nascem mortas e perdidas, disse com um sorriso amistoso. O sinal mudou e atravessei sem correr por entre a chuva. Podia ser segunda-feira todos os dias, nem me importava, mas o efeito durava apenas um momento, e depois tudo voltava ao mesmo. Na terça as nuvens alinharam-se como um comboio rápido, na quarta as artérias ficaram vazias, e depois na quinta-feira beijou-me a testa na despedida. Pedaços de cal caiam-lhe do peito, enquanto a imagem dela oscilava no precipício do esquecimento. Por fim veio sexta e apesar de ter anotado a morada, a tinta entranhara-se e as campas eram todas idênticas. 





quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

zaklęcie

Nem um único post sobre mamas... é essa a consideração. A vossa sorte é que ela lançou-me um encantamento. Numa sala pequena e cheia, ela num canto, eu no extremo oposto, de permeio uma mesa grande, e à volta uma multidão de vinte ou duzentos esfomeados. Ela do outro lado evocou um feitiço. Eu no meu canto não me desviei.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

defeito

Prontos! Podem começar a namorar os biquínis, tirar o pó aos sombreros, repor os stocks de protector solar. Ontem mandei retirar o último lote de nuvens que ainda pairavam sobre o território nacional. Afinal estavam com defeito e fugas tremendas nos depósitos. As andorinhas que venham, é seguro.



livrem-se agora de vir praqui falar em s. valentim e cenas tristes... 
sugiro que postem sobre biquínis, ou sobre topless, mamas ao léu, nudismo, coisas assim,. não sou esquisito. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

sábado, 11 de fevereiro de 2017

defunto

o ponto alto da semana foi o sonho que tive numa superfície de venda a retalho de origem alemã que agora não interessa mencionar porque os gajos são uns aldrabões e não me querem pagar a publicidade que lhes fiz. dito assim é assustador mas mais grave é desconfiar que estou morto e não dei conta disso. 



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

lidl

não contava lembrar-me dos sonhos destes dias de fevereiro. há qualquer coisa de estranho num mês que começa numa quarta e termina a uma terça, mas hoje aconteceu lembrar-me. talvez por ser quarta, ou porque foi um sonho longo, desfiado durante toda a noite. era longo e lindo, e lembro-me muito bem da parte do beijo, os seus lábios grudados nos meus como se fosse uma polva gigante, e os braços como tentáculos enrolados em torno do pescoço mantinham as nossas bocas unidas. o beijo parecia não ter fim. não lhe conseguia ver a cara, mas sabia que aquela mulher era mãe dos meus filhos. a menina tinha os olhos grandes que só podiam ser como os da mãe. era manhã cedo e ela cavaqueava com todas as pessoas que encontrava no autocarro. alguém lhe perguntava a idade, e eu não sabia responder. se havia mais filhos eles não apareceram. tinha três empregos. no restaurante a cliente habitual que eu tratava pelo primeiro nome pedia-me um acompanhamento de legumes. depois eu servia-lhe um prato com pequenos cubos de carne que pareciam peças de lego negras. ela comia tudo. ao fim do dia, depois de fechar a loja, repunha prateleiras de supermercado. mas antes tinha de escorraçar as pessoas que se disfarçavam de capas de edredão e dormiam nessas prateleiras. penso que era o lidl pois vendiam roupa em prateleiras. foi no momento em que encontrei um indivíduo no meio das sweats verdes embaladas que ela apareceu e pregou-me o beijo. 


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Сталкер

O porteiro que nos viu entrar juntos uma vez, diz que a probabilidade de ser divorciada é grande. Sem filhos, acrescenta, ou não ficaria a trabalhar até tarde. Sabe ainda pela senhora que tira os lixos e limpa o chão, que gosta de chocolates da máquina e chá. 

Сталкер ou Stalker,  filme de 1979,  Andrei Tarkovsky

domingo, 5 de fevereiro de 2017

olfacto

Abri três páginas de word, com esta quatro, mas não ponho muita confiança em nenhuma. Tenho três narrativas em avanço, em qualquer das frentes emperrei, ou por falta de pesquisa, ou por falta de cabos que liguem as ideias. Balestra é uma palavra nova. Digo-a em voz alta enquanto separo a roupa branca na máquina. Acumula-se loiça na pia, o cesto da roupa transbordou, há um rasto de migalhas em todas as divisões, e eu aqui a tentar o impossível. Ontem nem tirei o pijama, perdi o olfacto, passei horas a olhar para o tecto, imaginando seios macios, dedos a deslizar pelo pescoço, pés descalços e frios. Às vezes esqueço-me do c em olfacto, mas nunca no tecto. 



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Dulcineia

Todos os dias tenho perdido o autocarro da manhã. Independentemente da hora a que saio de casa, o autocarro passa por mim a todo o gás e fico a vê-lo ir, sem hipóteses de correr para o tentar apanhar. Já nem sei porquê que fiquei surpreendido, foi assim durante toda a semana, hoje sucedeu o mesmo. A consequência desta perda é que tenho de esperar pelo próximo, e não sou muito de esperar. Depois também acontece que chego tarde e abro a loja depois da hora, mas também não há clientes à espera desejosos de entrar, e os que por vezes aparecem, é por engano. Fico então toda a manhã a olhar para o aquário de nuvens, vendo-as flutuarem umas contra as outras numa atmosfera de azoto, enquanto bebo cinco ou seis chávenas de chá. Quando alguma coalha e fica espalmada contra a superfície, vou lá com o coador do leite e pesco-a. Depois do almoço costumo descer à cave e ligo o gerador de baixas pressões. Gosto de manter o stock cheio para alguma eventualidade. Em seguida verifico a carga das trovoadas das últimas prateleiras, agito os tornados e tufões, meço os níveis plúvios, confirmo os boletins meteorológicos e noticiários, ou acerto as comissões com a indústria de guarda-chuvas. A tarde passa num correr. Mas hoje não fiz nada disto, deixei-me ficar todo o dia a olhar para as nuvens, a bebericar chávenas de chá que gradualmente iam perdendo o sabor. Sinto-me cansado. Mas toda a gente diz que é normal, foi do trabalho, que realmente a tempestade é de categoria. Há quem pense que carrego num botão e sai da máquina uma ventania já empacotada, pronta a enviar. Mas não é assim, e quando são ventos ciclónicos, é de suar as estopinhas. Mas fiz tudo com muito gosto, esperando que seja do seu agrado, que lhe levante o animo e lhe arranque todo o mal para longe. Porque já lhe sinto a falta do sorriso e ela ainda aqui está. Mas também porque não quero que outros façam o mesmo. Quero que se sintam avisados. Tentem-me, e mando cair o céu. 

Prairie Rain Storm, by Min Ma





Dulcineia foi o nome que criei originalmente para a tempestade em questão, mas alguns entendidos acharam que Doris ficava mais no ouvido... divindade aquática... coisas de marketing. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

meditation

pensei talvez fechar os olhos e não ver mais o lado negativo. construir durante a noite uma estufa e plantar às apalpadelas rebentos de vontades. já os vi enlatados, vinham lá do sudeste asiático, banhados pelas cheias do mekong. e cansado, morto pelo trabalho, deitava a cabeça nas mãos e imaginava um sonho em que ela tivesse ido, que ficasse sentada ao meu lado e lhe confessava ao ouvido, porque o barulho era alto, coisas que só se dizem quando estamos perdidos. ou bebados. não será motivo suficiente para morrer, mas desde aquele dia já não sei se vivo, ou se é somente uma lesão.




não consegui escolher qual a versão preferida deste Meditation de Massenet

domingo, 29 de janeiro de 2017

undívago

Afago-lhe a cabeça no sentido do pelo, mas ela recusa abrir os olhos. Cheia de ronha faz-se morta aos pés do moço. Está um dia tão bonito lá fora e este desperdiça a juventude dele a dormitar até tarde, mas não adianta dizer-lhe que um dia as pernas vão-lhe faltar e se amargurara das horas que dedicou à preguiça. A fome salta para cima da cama, pisa o moço com elegância. A preguiça rosna-lhe baixo, mostra-lhe os comilhos brancos. Mas a fome não se deixa intimidar, procura outro ângulo de ataque, e com a língua de lixa, lambe a preguiça da cama. 

roubado daqui



Ela volta a procurar a minha companhia, convida para jantar lá em casa, pede-me receitas, conselhos, e eu recuso tudo, desculpo-me com poucos argumentos. Desola-me ela não perguntar porquê que estou triste, não queira saber o que se passa, o que mudou. Na noite passada voltou aos meus sonhos. Estávamos sentados na cozinha, e a chuva batia com força na janela, era tanta que a rua e as casas em frente se tinham tornado manchas desbotadas. Conversávamos de trivialidades e ela confessou que tinha feito uma tatuagem, no pé. Não quis saber o que era, o meu subconsciente fazia a pergunta e respondia sem articular qualquer som. Fiquei em silêncio, imaginando os caracteres japoneses com o nome dele. E ela que tinha uns pés perfeitos, agora estavam marcados e registados como posse de outro, para sempre. É notório que continuo a gostar dela, a preocupar-me com ela, embora sempre que me aparece com aquele horrível cachecol de lã laranja que o chefe lhe ofereceu e ela desde esse dia nunca mais o tirou, que só tenho vontade de a estrangular. 







首 (kubi) -  pescoço
Laranja seria um título muito mais apropriado, embora a primeira escolha tenha sido esganar.

sábado, 28 de janeiro de 2017

jejuno

... ou o dinheiro do frigorífico, os dedos do meu avô escrevem neste teclado e outras desgraças normais. 

Juntei dinheiro durante quase meio ano para um pequeno frigorífico. O outro velho que entrou lá em casa começou a fazer barulhos estranhos, e foi quando comecei a colocar dinheiro de parte para o substituir. No fim do ano o frigorífico ainda não tinha dado o último suspiro e então paguei ao Peres. Dei-lhe o dinheiro que tinha de parte e outro tanto que pedi emprestado. Quinze dias depois o frigorífico avariou.

Herdei os dedos do meu avô. Quando o sono se aproxima e a cabeça começa a tombar, ele toma conta dos meus dedos e escreve por mim. Entre cada parágrafo leva o cigarro à boca e fecha os olhos quando o fumo o envolve. De manhã tenho várias linhas escritas que não me recordava de ter, e um montinho de cinzas no chão. 

Agora em vez de uma tenho duas para esquecer. E a primeira não está a facilitar as coisas. Não quero escrever mais sobre isto, aliás, não quero escrever sobre mais nada. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

gówno

Um pardal no passeio faz-me perder o passo. Finta-me do chão a menos de um metro dos meus pés, mas depressa retorna ao frenético debicar pelas migalhas que a carrinha do transporte do pão sacudiu. O pardal não me temeu. Olhou-me lá da sua pequenez com tranquilo desdém como se dissesse: sim, és uma merda!

daqui

isquemia

ontem o dia foi de nuvens. "L'amour est un oiseau rebelle" cantarolei no caminho de regresso a casa, saltitando como um melro apaixonado.

 hoje o dia foi de cimento.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

imperial

Gustav Klimt - water snakes I



Descobri que não sonho em tecnicolor. Também não é preto no branco. É algo mais complexo, como as palavras. Nos sonhos as palavras escritas são traços sem sentido, abro livros ou sigo sinais na estrada e só vejo traços, símbolos abstractos. Mas quando preciso de entender o que dizem, as palavras conjugam-se dos traços e surgem tal e qual como agora as escrevo. Descobri isto recentemente e convenci-me que o mesmo acontecia com a cor: ela só aparecia quando era necessária, dependendo do contexto. Mas estava equivocado, agora sei que só existe uma cor com diferentes tons e às vezes a mínima diferença entre desmaiado e palha é suficientes para conferir profundidade aos planos. Ou dar ao mar o sabor de cerveja e a todos os pássaros a voz do canário. Hoje descobri  que sonho em amarelo.

quimera



Metade de mim acordou a meio da noite morto.
A outra metade continuou a sonhar. 


domingo, 22 de janeiro de 2017

pés

Perdi a oportunidade de a pisar, ou de ela me pisar a mim. Bastava ter dado um passo, um simples passo e tudo podia ter sido diferente.
Nunca nos tocamos. Podíamos ter começado pelos pés.

Sir Galahad Fotografia de Keystone no Getty Images

sábado, 21 de janeiro de 2017

vongole



Caríssima Vieira Pecten maximus

Encontrei a sua página de correio sentimental na rede e não hesitei em pedir-lhe ajuda. O meu nome é Gamba, camarão Gamba, e vivo na secção de congelados de uma grande cadeia de supermercados cujo o nome não vem agora ao caso. Estou com um sério problema relacionado com bivalves, e não é intoxicação de mercúrio. Tudo começou em meados de novembro, quando fui abandonado por uma mexilhão de bisso longo. Achei que ela nutria um sentimento especial por mim, mas ela só me quis para mudar de concha, e assim que o fez deu-me com os pés. O problema é que ainda gosto dela e tenho feito de tudo para a esquecer, inclusive inscrevi-me num torneio de patinagem em algas, corridas de chocos eléctricos e lições de faquir com ouriços. O que aconteceu é que numa destas actividades conheci uma amêijoa vongole e estou a começar a gostar dela. Mas eu não sei nada sobre esta amêijoa, não sei se há um amêijo na sua vida, se vai ficar por aqui algum tempo, nem sei mesmo se estará interessada em mim, ou se é apenas uma daquelas amêijoas simpáticas. Tem ainda outro problema, não fosse eu como um íman de problemas, ela, a amêijoa trabalha na mesma secção de congelados e ainda por cima, está umas prateleiras acima da minha embalagem. E o que acontece é que nos estamos sempre a encontrar, e já a olhei bem nos olhos, mas não tenho coragem para a convidar para um chá de fitoplâncton. Entretanto a mexilhão que eu pensava estar apaixonada pelo búzio do seu chefe, voltou a mostrar interesse em estar comigo, e isto tudo porque estou com o poder sedutor em alta, coisa dos astros e afins… Na verdade ainda sinto os bigodes eriçarem quando ela me liga, mas cá dentro sei que me vai dar com os pés outra vez, ou com o pé, que os mexilhões só têm um pé. Agora e se esta atracção pela amêijoa for só uma forma rápida de descartar a mexilhão da minha cabeça? Para esquecer um bivalve, qual é o tempo médio que se deve manter de afastamento? Não seria mais sensato conhecer percebes ou uma ostra? Agradeço desde já a sua atenção e se puder responder-me, era muito importante para mim ter o conselho de uma profissional. 
Atentamente, 

Gamba


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

vaga

“Aberto” podia ler-se do lado de fora na tabuleta dupla que ainda oscilava na porta. Uma mulher entrou na loja e foi directa ao balcão onde o funcionário ajeitava as últimas geadas que haviam chegado na entrega das seis. Quando se virou e deu de caras com a cliente, quase morreu de susto. A mulher trazia a cabeça coberta com um gorro de pelo negro e um cachecol de lã rosa tapava-lhe a boca e as bochechas. No interior da loja fez tenção de tirar as luvas, mas arrependeu-se de imediato. Ali fazia tanto ou mais frio como lá fora, só assim se conservavam trovoadas e granizos em frascos e vasilhas. Eram prateleiras cheias desde o chão até ao tecto. Mas a mulher não perdeu tempo a olhar para as âmbulas de borriço, ou para as bomboneiras de vidro fosco cheias de cacimbo. Ela nem sequer olhou para o aquário de nuvens que se estendia pelo fundo da loja, nem tão pouco se interessou pelos sinistros canopos ornamentados com figuras de deuses, onde se armazenavam tornados e ciclones em pó. 
-Olhe, eu queria qualquer coisa para a vaga. Disse a mulher com o cachecol à frente da boca.
-Para a vaga? Perguntou o funcionário, carregando bem na tónica da “vaga”.
- Sim, para a vaga. Insistiu a mulher, afastando o cachecol da boca. Preciso de algo para acabar com esta vaga de frio. Explicou. Não se consegue viver assim, é impossível, tenho vinte camadas de roupa sobrepostas. Disse a mulher, a quem saia pela boca nuvens de vapor quente. O frio não me deixa mexer, nem pensar, nem dormir, isto mais parece um pesadelo. Já viu onde estão as temperaturas? 
-Pois não sei como a posso ajudar. Disse o funcionário olhando para as estantes cheias de perturbações atmosféricas. É que sabe, nós aqui é mais mau-tempo. 


Roald Amundsen

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

sardónico

por tua causa e só por ti, estou a aprender a dizer não em todas as línguas. nie, нет, לא, ingen, no, いいえ, nem, nei, ไม่,  ez, 沒有, ne, لا, nein, nu, නැත, non, όχι, dim, geen, አይ, yox, aihwa, kee, ei, ບໍ່ມີ, ag,  innò, ebda, ਕੋਈ, nej, nē, жок.  no entanto a boca seca-me cada vez que ligas. a língua enrola-se num novelo mudo. um esgar sardónico toma-me conta da face, involuntário, provocado pela contractura espasmódica dos músculos. e desligo sem dizer não. não, tu não me fazes nada bem. hoje mais do que nunca preciso de Bechet. 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

ouro

enquanto escrevo reparo que me faltam dois pedaços de carne em cada dedo da mão direita, logo abaixo da unha. quase jurava que ainda ontem estava completo, salvo aquele órgão desconcertado que deixei preso no prego. o frio interrompe as vias de transmissão nervosa e continuo a escrever, apertando com força a esferográfica que teima em desafiar a ordem e sair da linha. não tem fim este caderno, a cada nova folha que preencho com tinta, brotam cinco ou seis viçosas de nervuras alongadas que se seguram à capa pelos agrafos. o que me salva são as linhas, principalmente as descosidas e os buracos nas meias que engolem o universo. mas sei que foi mais um reflexo que um acto pensado, um impulso, ter olhado para as mãos dela à procura na união dos dedos por aros em ouro.


domingo, 15 de janeiro de 2017

uke

Os horóscopos de fim-de-semana são como os trailers dos filmes. Servem para nos dar um pequeno adiantamento do que nos espera, e alguns são bem melhores que os próprios filmes. Ou não.

gentilmente enviado por uma amiga

naïf

Não é certo que fosse ela, a que tem de sair mais cedo porque tem ensaio. Mas parecia, à porta da sala, surgindo no momento em que escorregava no mármore húmido e caia no chão desamparado, e sem olhar a ver se ela tinha visto, me erguia num pulo e tentava a fuga pela porta que dava para o jardim. Foi o riso, o riso num tom baixo. Ela fala baixo, mas fala muito. E quer saber coisas e diz coisas, principalmente sobre ela. Até disse que tinha de ir embora mais cedo porque tinha ensaio. Se calhar queria que perguntasse o que ensaiava, por orgulho, ou simpatia. Mas eu não perguntei. E agora fico aqui a imaginar o que será que ela ensaia. Pode ter ido ao ensaio do seu casamento. No sonho estava sozinha, encostada na ombreira da porta a rir da minha queda. 

“ce rire naïf que vient du ventre et qui explose en cascade, comme des perles dévalant l’escalier.”
un ressui - Laurence Gaillard

aqui

sábado, 14 de janeiro de 2017

trova

A outra dona por que eu trobava,
a dos sinais que nom 'ntendi,
do fundo do autocarro ela chamava,
Manel, que bom te ver aqui?
e com [tam] bom parecer, como esqueci
seu belo nome de flor brava.

Me pus 'ncarnado e a voz falhava
um tímido olá como 'stás respondi.
Que mui bõa conversa começava
vagando a seu lado um lugar vi,
nom contando que o varão que se ia,
lhe desse dos beijos! que invejava.

Quedei-me logo ali como estava,
à sorte numa página do caderno escrevi;
silêncio rei, nem um nem outro falava,
até ela me seguir onde sai.
Caminhando ao meu lado, a tudo respondi
Nom desconfiando que era mas longo o caminho que tomava.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

ensaio

Quando a Brassica oleraceae é infestada pela lagarta da Pieris brassicae, a enzima lítica presente no regurgito da lagarta, provoca a emissão de compostos voláteis por parte da planta, de forma a atrair parasitoides da espécie Cotesia glomerata

Traduzindo: quando a couve é infestada por lagartas de borboleta, antes de desaparecer no estômago da bicha comilona, a planta manda uma mensagem às vespas cujas larvas são predadoras daquela lagarta específica de borboleta. A vespa então insere os ovos dentro da lagarta e depois é tipo cena do Alien, o oitavo passageiro. A planta não tem salvação, mas impede que a borboleta se dissemine para as vizinhas.

Concluindo: é mais fácil a um insecto captar um sinal enviado por uma planta, do que eu entender quais as intenções daquela outra mulher, a que me disse que tinha de sair mais cedo porque tinha ensaio. Desconfio que tenho um problema na captação de sinais. 



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Nesso

Era uma vez uma rapariga de saia e poncho. Havia neve e frio, e a rapariga esperava no passeio do centauro para atravessar. A saia era curta e rodava e o poncho curto também, e rodava de forma a sobrepor-se numa segunda roda, o que originava um efeito interessante. Mas o que realmente concentrava nela a atenção de trinta e dois indivíduos nas imediações, era a porção boa das suas coxas, visíveis a partir de uma certa altura em que as meias vindas dos pés, deixavam de ser opacas e pretas, e passavam a ser transparentes, com pequenos pontos que pareciam flores bordadas na própria pele. Caminhava naquela roda à minha frente e parou no passeio para atravessar. Do outro lado o centauro continuava dominado pelo semideus, mas só as estátuas não voltaram a cabeça na sua direcção. Estava frio e passei por ela, e reparei que nem era bonita, mas as coxas por si garantiam que o trânsito parava antes do sinal mudar. 

Héracles e o centauro Nesso, 1599 | Giambologna | Loggia dei Lanzi, Florença



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Norma

do ponto de vista anatómico não fomos feitos para chorar enquanto deitados, olhando o quarto de lua e o firmamento estrelado, pois que as lágrimas escorrem pelos cantos delgados dos olhos e deslizam por acção da gravidade para o interior do canal auditivo. 
quem diz observação das estrelas, diz observação do tecto. 
no entanto esta minha descoberta pode não ter qualquer sentido, e na realidade seremos tão anatomicamente perfeitos que quando deitados a olhar o céu, as nossas lágrimas vazam encaminhadas para os ouvidos num propósito especifico, sendo que o ouvido é protegido por uma camada de cera repelente da água e por isso a sensação é muito idêntica à que sentimos quando estamos imersos. talvez seja isso,  a submersão, essa tranquilidade estranha e opaca de sons. embora os peixes não chorem, o mesmo não se pode dizer das lagostas e dos homens que olham o tecto. sim, é verdade que os homens choram, se assim não fosse a natureza não os tinha dotado com cera nos ouvidos. 



domingo, 8 de janeiro de 2017

tombée

«La vie c'est comme une patinoire, il y a beaucoup de gens qui tombent»

Le tout nouveau testament, ou em português, Deus existe e vive em Bruxelas.





sábado, 7 de janeiro de 2017

hygge



Esta manhã o céu fechou-se escuro e o cinzento da cidade acordou coberto de um manto branco cristalino. Sento-me na cama com uma chávena de chá à espera que a inspiração me dê um soco. Sobe ao ringue, mas não faz mais que saltitar e esquivar-se, para depois voar até ao tecto onde se deixa ficar pendurada com a língua de fora. E lá fora, pela cidade, flocos da cor do leite caiem e então escrevo um anúncio na janela com letras grandes para que toda a gente veja: Felicidade, procura-se!


Chien blue

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

amateur

Cada um de nós ainda tinha o copo cheio à sua frente. Łukasz é tímido e calado, a não ser que um grão se lhe entranhe na asa, e ai é moço para abrir as goelas e verter um manancial de factos e acontecimentos. Henri gosta de se manter informado, está a par das noticias e novidades e fala dos assuntos da actualidade, desde política, economia, tudo o que me passa ao lado. A meu cargo ficam as histórias estranhas e vulgares, e quando se esgotam as histórias, treino palavras. Algumas já se sentam e rebolam quando quero. Mas como eu estava a dizer, cada um de nós ainda tinha o copo cheio, por isso foi muito estranho quando Henri começou a contar uma história.
Tratava-se de uma notícia que tinha ouvido na rádio sobre dois amigos que todas as semanas apostavam um certo montante, e como nunca a sorte lhes tinha bafejado, um deles decidiu que a partir do início do ano iria parar de jogar e juntar o dinheiro que gastava nas apostas. Ao mesmo tempo, o seu amigo tinha continuado a apostar o mesmo valor de sempre, e agora que chegavam ao fim do ano podiam comparar os valores arrecadados e ver qual dos dois tinha o saldo mais positivo.
Henri fez uma pausa para beber um longo trago de cerveja, devolvendo o copo à mesa sem acrescentado nada ao enredo. Łukasz estava empolgado, e tentava adivinhar um fim improvável, com um grande prémio da lotaria, repartido pelos dois, porque no fundo eles eram grandes amigos. Mas Henri entretanto tinha desistido da notícia, mudara de canal sem ouvir o fim da história, dizia, era música que gostava de ouvir de manhã cedo.
Bebi o resto da cerveja que tinha à minha frente e antes de lhe dar um sermão, levantei-me e fui buscar outra. Amadores, o mundo está cheio de amadores.

aqui


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

mālūlū

Uma família de três entra no autocarro. Escolhem não se sentarem todos juntos. Os que ficam lado a lado não trocam palavras. Às vezes sinto falta da conversa, mas não hoje. Hoje fartei-me de pessoas e bastaram poucas. Foi o frio que as avivou, estranhamente.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

blåhval

Ilmatecuhtli não dorme. Sentada na cama de madrepérola, coberta com um manto de algas pardas, espera que lhe conte o fim do universo. Estou cansado, passei o dia a coser nuvens em fio brando, deixando pequenos orifícios para que a água escorra num dilúvio. Mas se Ilmatecuhtli não dormir, amanhã será ainda adulta e passará o dia birrenta, e em vez de polvos, vai criar enguias eléctricas no meu pescoço. Sento-me num banco de sargaço e entrego-lhe os meus dedos para que neles enlace coloridas lesmas marinhas. Fala-me da matéria negra mais uma vez, pede a criadora de estrelas. É uma forma postulada de matéria que só interage gravitacionalmente e a sua presença pode ser inferida a partir de efeitos gravitacionais sobre a matéria visível, como estrelas e galáxias. Dou como exemplo o nosso sistema solar em que os corpos mais afastados do sol possuem uma rotação mais lenta que os que se encontram mais perto, e que isto não sucede por exemplo com a velocidade de rotação de galáxias. Elas por assim dizer rodam todas à mesma velocidade, quer estejam no centro ou na extremidade do universo, e esse fenómeno é explicado pela existência de uma massa extra não visível - a matéria negra. E então o que é isso da bolha? Pergunta a deusa que boceja. O universo está em constante e rápida expansão, e o que acontece é que basta uma flutuação quântica que cria uma bolha de vácuo, suficiente para engolir todo o universo. Ilmatecuhtli deixa-se cair nas almofadas e pergunta se posso continuar amanhã, mas antes de fechar os olhos quer saber se as estrelas vão sofrer quando chegar o fim. Asseguro-lhe que não. Sofre o krill ao ser engolido pela imensa goela de uma baleia-azul? A deusa sorri e adormece.


domingo, 1 de janeiro de 2017

ondinas

Não possuindo o engenho indispensável para empreender uma obra original, persuadido porém de que a astúcia e o frequente crime de plágio me habilitam para verter por minhas palavras os acontecimentos ocorridos após a operação "Roubo do Ano". Por contente me dou com o prazer bebido na saga da mitologia alemã, o Anel do Nibelungo do caríssimo Richard Wagner, de onde sem escrúpulos roubei o prólogo, Das Rheingold. Este prazer, em verdade, foi o que me sustentou em tão árdua e longa tarefa, ainda mais que o desejo de louvores; os quais todavia agradam ao nosso amor próprio e folgarei de os merecer.


PRELÚDIO

PRIMEIRA CENA-Visão fantasmagórica do fundo do rio Alviela. Uma débil luz azul-esverdeada causada pela descarga de efluentes de uma industria da região, permite distinguir enormes rochas depositadas no leito do rio. Bastante difusas, quatro figuras são vistas a nadar caprichosamente, divertindo-se em perseguições mútuas e evoluções graciosas. Geralmente, uma delas está lendo o livro “A Aranha”, outra tem ares de Capitã exótica, uma mexe uma panela de coxas boas, e a quarta a quem chamam Generala, bebe moet da garrafa. São as donzelas do Alviela, cuja incumbência é zelar pela guarda de um precioso tesouro que acabaram de roubar: o Ano Novo! 
Em outro plano, no alto de uma rocha, vê-se uma repulsiva figura humana de anão da raça Pernilungo, de cabelos emaranhados e revoltos, usando vestes antiquadas por cima do pijama. Acaveira, desajeitado, cambaio, deslizando no lodo, faz todos os esforços para se aproximar das donzelas, embargando-lhes os passos e tentando abraçá-las. Ágeis e divertidas, elas conseguem sempre escapar do audacioso Acaveira, rindo-se impiedosamente dele. Uma luz rósea começa a se fazer notar nas águas profundas. Ela simboliza a refulgência do misterioso Ano Novo de 2017. Acaveira, maravilhado, e sabendo que aquele efeito luminoso decorre do incalculável tesouro, indaga das donzelas qual o segredo daquela luz com efeito de purpurinas. Sem perceber a extensão do mal que poderão causar com a revelação dos mistérios do Alviela, as donzelas contam a Acaveira que aquele que tiver o novo ano civil se tornará senhor de um poder sem limites. Será ainda mais poderoso do que os próprios gestores da caixa geral de depósitos. Uma condição há, porém, para que esse alguém se possa investir desses extraordinários poderes. E essa condição é a renúncia para sempre ao amor. A ambição desmedida de Acaveira faz com que seus olhos se incendeiem, mesmo se para tal fortuna seja necessária a tão terrível renúncia. Elevando-se ao cimo de uma rocha, proclama essa renúncia, em uma dramática exaltação no seu blog. Corre, depois, ao local onde está guardado o Ano Novo, arrebata-o, com ele desaparecendo com um gargalhar zombeteiro e triunfante. Novamente a escuridão domina a cena. O Ano Novo foi roubado por Acaveira, e nas trevas as donzelas do Alviela lamentam-se profundamente, com desesperados gritos.

(Deixo um excerto da extensa obra, espero que seja do vosso agrado)


ACAVEIRA
Ei, ei! Vós ondinas! Como sois formosas, gente apetecível!
Da noite de Alcanena vim e me aproximo com prazer, se forem generosas comigo.

WOGLINDACOXA
Ei! Quem está aí?

FLORSHILDE
Amanhece e alguém chama...

WELLPALMIER
Espia, quem nos espreita!

CUCAWISPER
Pfui! O feio antipático!

FLORSHILDE
Vigiai o Ano! O tio pipoco advertiu sobre semelhante inimigo.

AS QUATRO FILHAS DO ALVIELA
Que queres tu aí em baixo? 

ACAVEIRA
Estorvo a vossa representação, se permanecer pacificamente aqui parado? Mergulhai para cá embaixo, que o Pernilungo vos acompanhará na brincadeira...

WOGLINDACOXA
Ele quer brincar connosco?

WELLPALMIER
É uma troça dele?

ACAVEIRA
Como no brilho das purpurinas pareceis claras e belas! Como tomaria em meus braços, com prazer, a delgada, se ela se enfiasse graciosamente até aqui.

FLORSHILDE
Agora eu rio de medo: O inimigo está apaixonado!

CUCAWISPER
O cobiçoso tipo esquisito!

WOGLINDACOXA
Vamos conhecê-lo! Quero oferecer-lhe bolachas!

ACAVEIRA
Elas inclinam-se para baixo. Como eu adoro bolachas!

WOGLINDACOXA
Agora, aproxima-te de mim!

ACAVEIRA
Xisto antipático, escorregadio, escorregadiço! Poluição suína. Como eu escorrego!
Nem apoiando-me nas mãos e nos pés eu deixo de escorregar nesta pedra. O elemento molhado e úmido enche-me o nariz. Maldito espirro!

WOGLINDACOXA
Espirrando, aproxima-se meu pomposo pretendente!

ACAVEIRA
Sejas minha namorada.Tu, juvenil donzela com uma panela cheia de boas coxas!

WOGLINDACOXA
Queres me fazer a corte? Então, faze-o aqui! 

ACAVERNA
Ó dor; tu me escapas? Ora, vem de novo! Para mim é difícil o que tu tão facilmente consegues fazer...

WOGLINDACOXA
Passa para o fundo: Lá tu me pegarás em segurança!

ACAVEIRA
Como posso pegar num salto um peixe que foge rápido? Espera, tu, falsa criatura!

FLORSHILDE
Raiá! Tu, amigo! Tu não me ouves? Tás surdo, ou quê?

ACAVEIRA
Estás me chamando?

FLORSHILDE
Eu te dou um bom conselho: dirige-te para mim, evita WOGLINDACOXA!

ACAVEIRA
Tu és muito mais bela do que aquela medrosa, que é menos brilhante, e, na verdade, escorregadia. Somente mergulhando fundo queres me servir?

FLORSHILDE
Estou agora perto de ti.

ACAVEIRA
Ainda não o suficiente! Os elegantes braços me entrelaçam, a tua cabecinha eu toco e a provoco com carinhoso ardor. Em teu intumescido seio eu me aconchego!

FLORSHILDE
Estás enamorado e ávido de volúpia. Deixa-me ver, belo amigo: qual é o teu aspecto?
Pfui! Tu és peludo, janota corcundo! Escuro, caloso, anão de enxofre. Busca um amigo ao qual tu dês prazer!

ACAVEIRA
Falsa criança! Fria, peixe frio cheio de espinha! Se eu não te pareço belo, engraçado e provocador, escorregadio e brilhante, ei, então vai fazer a corte às enguias, se para ti minha pele for repugnante.

CUCAWISPER
Por que te zangas, pesadelo? Já tão desanimado? Tu fizeste a corte a duas dentre nós, se tu perguntares à terceira, a bem-amada te dará doce consolação.

ACAVEIRA
Ela me dirige doce canção. Como é bom que de vocês uma não seja igual.
Pelo menos a uma eu agrado, e até agora ninguém me deu um beijo. Devo crer em ti, desliza então para cá!

CUCAWISPER
Como sois bobas, estúpidas irmãs! Este não vos parece belo?

WELLPALMIER
Já sei quem esvaziou todo o provisionamento de moet!