segunda-feira, 15 de maio de 2017

queda

No momento em que o homem tentava sair do buraco onde tinha caído, pensou: “caso sobreviva, aqui está uma boa história para contar aos meus netos.” O buraco onde tinha caído não era assim tão fundo e sem dificuldade impulsionou-se de lá para fora. Era uma valeta de escoamento de água que estava cheia da chuva que não parava de cair. O homem que queria contar uma história não tinha visto a valeta, ali no seguimento do passeio mal iluminado. De um momento para o outro o chão sólido desaparecera debaixo dos pés, e sem saber como estava submerso até ao pescoço. Não havia ninguém por perto, era madrugada e continuava a chover. O homem que queria contar uma história saiu do buraco e pingou até uma paragem de autocarro, onde se sentou para avaliar o seu estado. O telemóvel no bolso das calças era um pequeno aquário sem qualquer uso. Pensou que tinha de continuar a caminhar ou o frio seria insuportável, mas não tinha bem a certeza de quanto mais teria de caminhar até casa, e uma dor mordia-lhe a articulação do joelho de tal forma que só queria ficar ali e esperar que a manhã lhe trouxesse o primeiro transporte. Foi então que se lembrou de ter passado por uma cabine telefónica e tentou a sorte. A mulher que tinha um sono leve atendeu ao terceiro toque. Dez minutos depois recolhia o homem que queria contar uma história com bafo de álcool, encharcado até aos ossos. Não falaram, o homem estava envergonhado e com dores. Ela ajudou-o a despir-se no meio da cozinha, onde deixou ficar a roupa como se fosse um animal abatido, inanimado na tijoleira. A mancar ligeiramente, meteu-se na banheira e tomou um duche bem quente. A mulher que tinha um sono leve já estava deitada na cama, em breve teria de se levantar e ir trabalhar. O homem que queria contar uma história, deitou-se e abraçou a mulher que não queria saber que o homem tinha bebido um número indeterminado de shots e que por isso não se apercebera do fim do passeio. 


11 comentários:

  1. Não sei, se esse homem é o mesmo, da enxurrada, da inundação e da insistência de chover no molhado, a ser, tem uma queda tremenda para se atirar pró chão, que é como quem diz, pró charco. Por falar em charco, também anda muitas vezes de vela encharcada, que é como quem diz, alcoolizado - Depois vem queixar-se que elas dão de frosques, que ninguém o ama, qual calimero.

    Ó afilhado, dá-lhe um recadinho aqui da madrinha: homem, vai-te curar, aproveita para crescer e depois aparece ahahahah


    Beijocas afilhado mailindo

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  2. Há sempre uma mulher para salvar um homem. :)

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  3. Surpreendentemente, há vida, depois da vida, sr Manel! :))
    Vai-se abusando da sorte ... até um dia ... :)

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  4. que bom ler-te assim, M M-T :)
    boa semana

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  5. Esse homem é um sortudo, Manel!
    Não só poderá contar a história da sua sobrevivência,
    como tem uma mulher com o sono leve. Melhor: ama-o, mesmo, de verdade.
    Por isso deixa-se abraçar e corresponde ao abraço,
    sem se importar da razão que o fez cair no buraco.
    Se tu fores esse homem, então, és um homem feliz!...
    :)

    Beijos, Manel Mau-Tempo. :)

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  6. Manel, há um provérbio que diz; se cair sete vezes levante-se oito. hum!?
    Dia Bom para ti. :)

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  7. Que raio de vida…quanta injustiça e ingratidão grassa entre o género feminino; quando o homem que cai, num buraco ou num charco, olha absorto, sem ver, infeliz, prestes a deixar-se afogar numa banheira velha e ferrugenta...
    Por onde andais vós, jovens, que ainda há pouco vos acotoveláveis, invejosas, para ser o alvo dos sonhos deste garboso homem do mar?
    Afinal, para onde fostes brincar?

    Anónima Triste.

    (que se cansou de tentar provar que não é um robot. Acho bem que se dê a cara...(lol) )

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  8. Fiquei curiosa, qual seria a história?

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    Respostas
    1. A história de ter caído ao buraco e sobrevivido ao naufrágio...digo eu.

      "No momento em que o homem tentava sair do buraco onde tinha caído, pensou: “caso sobreviva, aqui está uma boa história para contar aos meus netos.”

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