segunda-feira, 29 de abril de 2013

clandestina



"Uma longa viagem começa com um único passo." Lao-Tsé




Há uma paisagem em movimento, rasgada por tracejados de precipitação, blocos de prédios cinzentos estéreis, ordenados por maiúsculas letras negras que se repetem alternadamente do M para o N, e em vez de continuarem pelo alfabeto, retornam ao M, e mais uma vez segue-se o N. 
“Estamos perdidos.” 
Há uma rotunda mais adiante, mas todas as placas estão escritas numa língua que não experimento, movimento os lábios tentando soletrar as silabas, só sinto sede, um deserto abafado agarrado ao céu-da-boca. 
“Em que hemisfério a chuva pode cair com esta orientação?” 
Estamos sentados no banco de trás, seguindo calmamente por uma larga avenida dividida a meio por uma parede de betão sem grafites. Ela não tira os olhos da bússola que segura na palma da mão, e gira sem parar, apontando descontrolada para os quatro cardeais, e em todos eles há um norte. Volta a perguntar se sei onde estamos, em que hemisfério... não encontro um ponto de referência, tudo parece deslocado de sítio, apenas o silêncio é familiar. 

Ela tem razão, estamos perdidos, mas é como se estivéssemos invertidos e a chuva subisse desde o asfalto brilhante, rastejando pelos vidros sujos, libertando-se em direcção ao céu carregado de nuvens. 
Um semáforo amarelo corta na distância as inumeráveis tonalidades de cinzento, aproxima-se transversa uma rua, não tão larga, nem separada dos sentidos por uma parede de betão. O fulgor pálido desaparece, encarnando um rubor mais intenso, mas ninguém ocupa o lugar do condutor, parece seguir por vontade própria. O impacto é eminente. 

Acordo na roupa enrolada, perdida no fundo onde terminou no abismo o colchão. Não passou de um sonho, o mesmo sonho que se repete como as letras nos blocos urbanos, M, depois N, de novo M... O que fazias tu no meu sonho?


sexta-feira, 19 de abril de 2013

lenho

D. Justina depositava a confiança no banco de quatro pernas, como se nos próprios braços de Deus fosse elevada às alturas da imagem do cristo em agonia. Era um banco robusto, da mais rara e valiosa madeira vermelha trazida do outro continente, ainda no tempo das naus largadas ao vento. Resistira ao caruncho, às invasões francesas e ao aumento de peso da devota viúva que nunca descurara a limpeza da igreja. 
Com a estopa húmida, lavava com extremo cuidado o corpo crivado, fendido, falso sangue e pus escurecidos sob o verniz de protecção, infeccionado até ao cerne. Contornou-lhe o tronco magro de costelas salientes, e enrolando a ponta do pano no dedo indicador, esfregou o umbigo do redentor, recanto onde se acumula o pó dos santos. 
Ninguém poderá testemunhar efectivamente o que aconteceu de seguida, há quem diga que a beata espirrou e o cristo lhe disse “santinho”, ou “o pai lhe salve!”. Outros juram a pés juntos que o coroado de espinhos de rosto ensanguentado parecia sorrir lá do alto da cruz, com cócegas no umbigo, mas era apenas uma ilusão criada pela fenda na zona de assemblagem. 

A minha teoria é um pouco rebuscada, mas certamente a mais credível, sem cristos palradores ou sorridentes. Retomemos então à limpeza profunda do crucifixo em tamanho real, colocado acima do altar-mor. Lá está também o inabalável banco de Caesalpinia echinata, encomendado da mesma madeira dos genuflexórios, e D. Justina que sacode os restos mortais, consigo vê-los a pairar no espectro de luz que trespassa os vitrais, movem-se pela aragem sem darem pistas donde se vão depositar na vez seguinte. Sim, que isto do pó não desvanece por magia, não deixa este mundo para assentar na lua ou numa terceira dimensão, apenas o fazemos andar de um lado para o outro. Mas ainda não é do pó que falamos, ainda falta uns largos anos para que tanto o banco como a viúva assentem em camadas na litosfera. 
Voltamos ao fiável banco, cuja altura deixava a beata mais ou menos de cara pelo tronco nu do senhor e apenas necessitava de se esticar um pouco para alcançar a coroa de espinhos. Nunca acontecera antes aquele vacilar que quase a derrubou lá do alto, podem ter sido as tensões que andavam um pouco altas, aquele pezunho ao jantar sabia-lhe pela vida. O que é certo, é que teria caído desamparada na pedra gasta não fosse segurar-se ao trapo mal enrolado do salvador, e sendo este feito de sólido pau apenas oscilou sem se desviar dos suportes ou do propósito que o sustinham. Olhou o senhor em penitência e benzeu-se sobre o rosto três vezes com a mão direita, sem da esquerda largar a ilharga, mas de nada lhe valia a remição, o pecaminoso pensamento revelava-se num intenso rubor que subia desde o pescoço até à raiz dos cabelos eriçados, inflamada no âmago, açoitada por um calor que já nem conhecia, o coração batia animado por um cocktail químico que lhe invadia os sentidos, gotejando pelas pernas ali diante de cristo. 

Aquela visão de rosto coberto de pêlo lembrara-lhe um outro homem, não o falecido que esse já antes de morrer estava frio. O saudoso era um santo homem, jogava a dinheiro na cave húmida do café local, pequenas quantias, ela nem sonhava. Quando o dinheiro não sobejava retirava algum do pé-de-meia, mas em apostas mais sérias nem a caixa da associação recreativa escapava. Esse, pensava ela, seria o seu vício: a associação, organizando passeios com os compinchas aos quatro cantos da terrinha, amantes das excursões pelos tascos e tavernas, entornando o licoroso, maduro ou verde, branco ou tinto, havia para todos os gostos. E quando regressava a casa, parava na confeitaria junto à estação de camionetas e comprava uma pequena caixa de doce sortido. 

Nunca estranhou D. Justina os doces serem sempre idênticos, independentemente do destino. Foi precisamente por ocasião duma ausência do marido em passeio, que o tal do destino resolveu-se a ajustar contas com a vida e proporcionar à fiel esposa uma divina tentação, e foi tal que mesmo passados tantos anos recalcados, ainda despertava nela os mais recônditos e prazerosos sentimentos. Não seria por sinal a única lembrada daqueles dias, mas o assunto tornara-se tabu, interdito às conversas de salão, nem mesmo as bocas mais chocalheiras da aldeia se atreviam a mencionar o acontecimento que marcara aquele inicio de Primavera tão quente…

domingo, 14 de abril de 2013

furto



Espreitei sobre o muro sem me aproximar demasiado. As portadas do andar superior estavam cerradas par a par, as debaixo ficavam cobertas pelo arvoredo agitado pela azáfama dos chapins. 
Que estás a fazer? 
Aproximei-me da copa da árvore junto ao portão, ali nem precisava trepar pelo granito, deitei a mão por entre as folhas lacrimosas até a sentir enchendo-me a mão e rodei o fruto que se soltou sem grande reboliço, para sossego dos cães da vizinhança. 
Que mania essa, qualquer dia enchem-te de chumbo por causa de uma laranja! 
Não lhe respondi. 
Da última vez deixou-me para trás num terreno arado, acolá para os lados de Mirando do Douro, aliviando do peso um pé de macieira com pouco mais de um metro de altura. Os pequenos frutos rosados seriam descendentes directos da árvore da vida, mas não havia ali serpente, e Eva já descia a colina amuada. Tivesse eu provado a doçura do pecado e não tinha nos ramos sobrado repasto para os pássaros. 
Desta só roubei uma laranja, e retomamos o caminho em silêncio por entre as casas dispersas, Adão e Eva banidos, escondendo o fruto do pecado até ao limiar do casario. Quando a estrada terminou num caminho enlameado, abri um rasgo na superfície não tratada do fruto. 
Podia ter trazido duas… 
Parece seca. 
A raposa disse algo parecido sobre “maduros cachos pendentes de alta latada”… queres um gomo? 
E de um gomo de cada vez, comeu metade do número certo de gomos, nem muito doce nem muito ácida, sumarenta apesar da sua aparência seca, de fruto careca desprovido da casca.


domingo, 7 de abril de 2013

fosso



Há um fosso de sentimentos entre nós, abissal quanto possa ser entre duas pessoas que nunca se conheceram, que nunca partilharam o ar arrumado de uma sala, nem repartiram um simples olhar por detrás de uma janela, duas pessoas que nunca estiveram dentro das mesmas fronteiras em simultâneo, nem nunca se falaram em dialectos distintos fazendo uso de gestos. 


Há um fosso de palavras, arquitectado na sua profundidade de silabas soltas, vogais esquecidas de tão usadas que deixam as consoantes amarelecidas. Ontem uma carta atravessou-o, um sobrescrito sem remetente, trazendo mais que palavras, desejei enquanto o rodava nos dedos que fosse um postal de algum sítio distante, com notícias de dias azuis e águas plácidas, corpos dourados deitados sobre sedimentos quartzíticos. 


Há um fosso de desalento cada vez mais fundo, cavado de esmorecimento por um mar encapelado de desânimo. Cada letra que imprimiste apressada no pedaço de papel sem forma de carta, soam estranhas aos meus ouvidos, nem imagino o som da tua voz em cada palavra porque me irritaria de certeza, nem sonho com o teu caminhar descalço junto à espuma das ondas gigantes, se sonho é porque não és tu. 


Havia um fosso de tempo e na vertigem das suas orlas empurrei o passado, ainda fiquei para o ver rolar, sacudido pela gravidade. Quem diria que mo podias reaver com um formato normalizado, trinta e seis cêntimos. Podia ter-se extraviado, arrastado pela corrente, perder-se para sempre no interior da estação dos correios ou pela conduta de esgotos sem nunca chegar às minhas mãos. 


Há um fosso. Não foi escavado por máquinas, nem pela motivação lenta das placas. Não foi minha a criação, apesar de dizeres que o uso para me fortificar, repara que apenas nos separa, a ti e a mim.



terça-feira, 2 de abril de 2013

periélio

A distância entre a Terra e o Sol no periélio é de aproximadamente 147,1 milhões de quilómetros. Isto ocorre uma vez por ano, catorze dias após o solstício de dezembro.

Tocavam um réquiem aguacento por março e aconteceu que jantasse cedo e me deixasse depois caído na cama atento ao silêncio, expectante pelo regresso precoce das nuvens, não pensando para além das paredes. Faço-o com alguma frequência, e quando digo que não ia além das paredes, é porque não pensava de todo, apenas existia ali, longe de imaginar ser engolido pelo improvável, tragado pelo número de causas favoráveis à produção de um certo acontecimento.

A primeira causa favorável terá sido o súbito regresso das chuvas, e era tão intenso o afago desta sobre as vidraças que ela não teve como resistir e saiu, assegurando que a roupa não ficaria de novo encharcada estendida mais um dia na varanda. Não vi, não testemunhei o que estou a contar, nesta altura continuava deitado, orbitando dentro da rota calculada, o meu cérebro já estava de partida: atenção senhores passageiros, o tempo de voo previsto é de 20 ou 10 minutos, ninguém pode saber ao certo, por favor apertem os cintos. Até que algo mais buliçoso que um pingo acertou na minha janela.
Foram necessários vários lançamentos para que dois mais certeiros se tornassem causas favoráveis. Se ao primeiro não dei a relevância que merecia, o segundo inquietou-me o espírito, pôs-me de pé num salto, analisando como tinham batido descompassadas e fortes aquelas duas gotas, tão díspares de todas as outras. Olhei sem olhar, não distinguindo na noite lôbrega formas ou gente, e um terceiro objecto rasgou a chuva, embatendo com o mesmo som no vidro.

Uma mola da roupa, vermelha!

Abri a janela sem mais demoras, estaria o céu a cair em pedaços, soltando-se primeiro as molas que o sustinham? Oh desculpe! Sou eu, aqui em cima… gritou lá da varanda a vizinha, presa do lado de fora, vítima da janela que fechara com demasiada força. Pode chamar os bombeiros por favor, a janela não abre. Tem a porta trancada? Perguntei. Nunca me tinha acontecido… dizia, e mais qualquer coisa que se diluía na chuva ou era arrastada pelo vento. Dê-me um minuto… pedi-lhe, sem certeza que me tivesse ouvido. Calcei-me, e demorando mais que os sessenta segundos que tinha prometido aparecia-lhe do lado de dentro, no calor morno e de velas perfumadas, confortáveis tapetes e pequenos candeeiros.

Encontrava-me no ponto mais próximo da minha órbita, o periélio, apenas um passo ou um estender do braço e podia alcança-la, mas nem ousei tocá-la, a expressão não era bem de alívio, ou seria mas o medo sobrepunha-se. Um estranho entrara em sua casa, com aparente facilidade forçara a fechadura usando um cartão do minipreço e ali estava, assustador, mas perplexo, sem abrir a boca, não sabendo o que fazer às mãos. Vá lá não gaguejei, mantive a conversa muito técnica, como se fosse um ladrão licenciado. Agradeceu, esclarecendo mais uma vez que nunca lhe tinha acontecido. Mantenha a porta da entrada sempre fechada, é muito fácil abrir uma fechadura destas, disse-lhe, encaminhando-me por onde tinha vindo, sem que fosse preciso ela pedir, retomando o meu caminho.



Periélio - O ponto da órbita em que um planeta, planetóide, asteróide ou cometa se acha mais próximo do Sol.