terça-feira, 2 de abril de 2013

periélio

A distância entre a Terra e o Sol no periélio é de aproximadamente 147,1 milhões de quilómetros. Isto ocorre uma vez por ano, catorze dias após o solstício de dezembro.

Tocavam um réquiem aguacento por março e aconteceu que jantasse cedo e me deixasse depois caído na cama atento ao silêncio, expectante pelo regresso precoce das nuvens, não pensando para além das paredes. Faço-o com alguma frequência, e quando digo que não ia além das paredes, é porque não pensava de todo, apenas existia ali, longe de imaginar ser engolido pelo improvável, tragado pelo número de causas favoráveis à produção de um certo acontecimento.

A primeira causa favorável terá sido o súbito regresso das chuvas, e era tão intenso o afago desta sobre as vidraças que ela não teve como resistir e saiu, assegurando que a roupa não ficaria de novo encharcada estendida mais um dia na varanda. Não vi, não testemunhei o que estou a contar, nesta altura continuava deitado, orbitando dentro da rota calculada, o meu cérebro já estava de partida: atenção senhores passageiros, o tempo de voo previsto é de 20 ou 10 minutos, ninguém pode saber ao certo, por favor apertem os cintos. Até que algo mais buliçoso que um pingo acertou na minha janela.
Foram necessários vários lançamentos para que dois mais certeiros se tornassem causas favoráveis. Se ao primeiro não dei a relevância que merecia, o segundo inquietou-me o espírito, pôs-me de pé num salto, analisando como tinham batido descompassadas e fortes aquelas duas gotas, tão díspares de todas as outras. Olhei sem olhar, não distinguindo na noite lôbrega formas ou gente, e um terceiro objecto rasgou a chuva, embatendo com o mesmo som no vidro.

Uma mola da roupa, vermelha!

Abri a janela sem mais demoras, estaria o céu a cair em pedaços, soltando-se primeiro as molas que o sustinham? Oh desculpe! Sou eu, aqui em cima… gritou lá da varanda a vizinha, presa do lado de fora, vítima da janela que fechara com demasiada força. Pode chamar os bombeiros por favor, a janela não abre. Tem a porta trancada? Perguntei. Nunca me tinha acontecido… dizia, e mais qualquer coisa que se diluía na chuva ou era arrastada pelo vento. Dê-me um minuto… pedi-lhe, sem certeza que me tivesse ouvido. Calcei-me, e demorando mais que os sessenta segundos que tinha prometido aparecia-lhe do lado de dentro, no calor morno e de velas perfumadas, confortáveis tapetes e pequenos candeeiros.

Encontrava-me no ponto mais próximo da minha órbita, o periélio, apenas um passo ou um estender do braço e podia alcança-la, mas nem ousei tocá-la, a expressão não era bem de alívio, ou seria mas o medo sobrepunha-se. Um estranho entrara em sua casa, com aparente facilidade forçara a fechadura usando um cartão do minipreço e ali estava, assustador, mas perplexo, sem abrir a boca, não sabendo o que fazer às mãos. Vá lá não gaguejei, mantive a conversa muito técnica, como se fosse um ladrão licenciado. Agradeceu, esclarecendo mais uma vez que nunca lhe tinha acontecido. Mantenha a porta da entrada sempre fechada, é muito fácil abrir uma fechadura destas, disse-lhe, encaminhando-me por onde tinha vindo, sem que fosse preciso ela pedir, retomando o meu caminho.



Periélio - O ponto da órbita em que um planeta, planetóide, asteróide ou cometa se acha mais próximo do Sol.

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