terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

derrube

“O Domínio dos Deuses” era o nome do complexo habitacional que Júlio César pretendia construir na floresta que rodeava a mítica e indomável aldeia gaulesa. O projecto consistia em derrubar o maior número possível de árvores, algumas mais antigas que o próprio império, dando lugar a vias de acesso e sumptuosos T4 duplex. Um jovem arquitecto foi contratado, o Anglobtusus, para executar a obra, mandaram vir mão-de-obra gratuita como era costume naquele tempo e no primeiro dia conseguiram uma imensa clareira de raízes extirpadas que pareciam implorar clemência aos deuses. Quando os irredutíveis gauleses deram com a lacuna de terra revolvida, confiaram na sabedoria do druida para restaurar a floresta. Lembro-me perfeitamente como se tivesse sido ontem, o druida distribuiu umas bolotas tratadas que assim que tocavam a terra, delas brotava instantaneamente um carvalho desenvolvido, com tronco lenhoso, galhos torcidos e folhas viçosas, sem precisarem de rega ou estacas. No dia seguinte, quando o arquitecto Anglobtusus voltou ao local onde supostamente deixara uma clareira, não a encontrou. Imaginem isto a prolongar-se por uns quantos dias, pelo menos é assim que me lembro do livro, o arquitecto em vias de ter um colapso nervoso, à custa das árvores que miraculosamente renasciam da noite para o dia.

Toda a gente sabe que uma árvore precisa de vários anos para crescer, infelizmente não há bolotas mágicas como no livro do Astérix. Mesmo as pessoas que deitam árvores abaixo sabem disso, como o idiota que vive aqui ao lado e que resolveu abater uma árvore no meu dia de descanso. Demorou várias horas, de moto-serra em punho desde as oito e meia, foi cortando primeiro os ramos, depois o tronco em partes até deixar uma clareira no jardim das traseiras. Assisti de mãos atadas, no sentido figurado que isto não é o trailer das cinquenta sombras, arreliado com o vil acto, mas conservando a esperança que a coisa lhe fugisse das mãos e lhe levasse o pescoço.


sábado, 7 de fevereiro de 2015

faro

Haverá inúmeras razões que justifiquem porque virei na Zoltán e não na Garibaldi, como era habitual, sendo que o caminho mais a direito, sempre que vinha pela Nádor em direcção ao parque de estacionamento na Kossuth Lajos em frente ao parlamento, fosse seguir até ao fim da rua e virar na Garibaldi. Talvez o passeio estivesse com menos gelo, mais limpo de neve, ou os raios de sol no seu poder metafórico me tivessem empurrado, o certo é que me desviei do percurso, virando à esquerda antes de chegar ao fim da rua, contornando o quarteirão pela Zóltan. De muito pouco ou em nada contribuiria aquele súbito desvio para a minha felicidade, mas por momentos julguei que os deuses me eram favoráveis, e por meio de mecanismos ocultos alterassem a minha vontade, colocando-me na mesma rua que ela, vinda sabe-se lá de onde, talvez caída do céu, caminhando com precaução mas determinada. Estaria a uns oito ou nove metros de distância, menos de uma dúzia de passos, uma farta cabeleira dourada ondulando ao vento, atraiu-me como um mosquito esvoaçando em torno de uma lâmpada. Tentei ganhar terreno, diminuir a distância que se entrepunha dando passadas mais longas, com a precaução que o gelo impunha. Talvez viesse de um daqueles prédios, com alguma pressa a caminho do emprego, parecia um pouco vulgar para quem vinha do céu, usando um sobretudo cinza claro largo, que a abrigava do frio até às coxas, cobertas por umas leggings escuras, usadas acima do tornozelo. O mais vulgar na indumentária, para além da bolsa de imitação barata, era o que trazia calçado, uma coisa que tanto podia ser bota ou sapato com um tacão alto, atravancado de ferrolhos prateados que telintavam a cada passo. Continuei a persegui-la, a cada passada ganhava quase duas dela, imaginando que por baixo do sobretudo, as calças justas de malha apertariam um rabinho não muito grande, mas saliente e bem tonificado.  

Pensei como iria abordá-la, podia segui-la até ao seu destino ou passar à sua frente e estatelar-me no caminho. Ela ia achar graça, e não hesitaria em ajudar um cavalheiro bem vestido pegando-me pela mão para me equilibrar. Tinha assim um pretexto para a convidar para um café ou um chá como forma de agradecimento, com a desculpa dos meus sapatos não serem próprios para a neve. Ela ia aceitar, e entraríamos ali mais adiante numa pequena confeitaria muito simpática, onde ela continuaria a rir cada vez que se lembrasse da minha queda aparatosa e bem ensaiada. Mas assim que me aproximei um pouco mais, um cheiro intenso perpetuou-se no meu nariz, uma fragrância com demasiado de tudo quase me arrancou os pêlos nasais, um a um sem anestesia. Se por ventura a tivesse seguido para dentro de um elevador, das duas uma, ou desmaiava, ou vomitava-lhe nos ferrolhos prateados, ou sustinha a respiração até ao primeiro andar e saia.


Mas que desilusão, e nem lhe vira a cara, se calhar era bonita, uma boca pequena sem batom e olhos bagos verdes transparentes e cheios, num rosto perfeitamente oblíquo. Mas aquele maldito perfume que se espalhava e contaminava a brisa pura da manhã, aquele fedor floral que deixava rasto de vários quilómetros, um ramalhete enjoativo espremido de forma contínua contra as minhas células olfactivas, repugnava-me até às entranhas. Atravessei a rua e acelerei a passada o máximo que podia, abandonando o perfume e a ideia de um casamento perfeito. Porque ela podia não ser muito bonita, nem muito inteligente, mas compensava pelo caminhar largo e decidido e a cabeleira loira esvoaçante. 


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

impróprio

A verdadeira natureza era reprimida por várias camadas de um couro que crescera sobre o impróprio, envolvendo religiosamente o profano de maneirismos sociais, até se tornar vulgar e aceitável. Dissimulado, abrigava-se na alta monotonia matizada que ondulava ao sabor da brisa, ostentando sinais de adaptação, uma tez limpa de tatuagens ou estranhas perfurações. A barba perfeitamente desfeita, combinava com o corte barato e rente, muito próximo do zero. Dificilmente o teria reconhecido se ele aparecesse à porta tal como se tinha criado, despido de preconceitos.

Bocejou aborrecida pela sala enquanto ele abria uma garrafa de tinto na cozinha. Nada parecia ser deixado ao acaso, uma estante fria ocupava a parede mais longa, cruzada de livros e pastas de arquivo. Dois candeeiros de pé iluminavam o suficiente em cada extremo e o tapete de lã preta tinha as dimensões certas. Na mesa pequena diante do sofá sem braços, um álbum aberto com pequenos pedaços de papel colorido e carimbos, alinhados por valor sob uma banda de seda. Não havia quadros ou retratos, nem almofadas em excesso, apenas um par de colunas antigas ligadas a um rádio. A colecção de fósseis numa das prateleiras mais baixa da estante, parecia ainda mais morta e enfadonha que os selos. 

 Passou o dedo ao de leve pela espiral rugosa da amonite, procurando o pulsar de vida na superfície mineralizada e escura, mas o que sentiu foi um formigueiro subindo desde o ventre, voltando-se na direcção do olhar que se alimentava nas curvas justas do vestido. Ela sorriu assustada e elogiou a decoração que só não era mais gelada porque ele ligara o aquecimento. Estendeu-lhe um copo largo e serviu-a com destreza até meio. Normalmente não saia com colegas, achava-os insípidos, uns sensaborões de sapatos que chiavam e meias rotas nos calcanhares. Aquele à primeira vista parecia diferente, cheirava a limpo, mas podia ser monótono e sem tesão, despindo mais com os olhos do que com as mãos. Saboreou o vinho, deixando-o correr lento pela garganta ressequida, lá fora o vento fustigava as árvores da avenida em silêncio.