segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

derrube

“O Domínio dos Deuses” era o nome do complexo habitacional que Júlio César pretendia construir na floresta que rodeava a mítica e indomável aldeia gaulesa. O projecto consistia em derrubar o maior número possível de árvores, algumas mais antigas que o próprio império, dando lugar a vias de acesso e sumptuosos T4 duplex. Um jovem arquitecto foi contratado, o Anglobtusus, para executar a obra, mandaram vir mão-de-obra gratuita como era costume naquele tempo e no primeiro dia conseguiram uma imensa clareira de raízes extirpadas que pareciam implorar clemência aos deuses. Quando os irredutíveis gauleses deram com a lacuna de terra revolvida, confiaram na sabedoria do druida para restaurar a floresta. Lembro-me perfeitamente como se tivesse sido ontem, o druida distribuiu umas bolotas tratadas que assim que tocavam a terra, delas brotava instantaneamente um carvalho desenvolvido, com tronco lenhoso, galhos torcidos e folhas viçosas, sem precisarem de rega ou estacas. No dia seguinte, quando o arquitecto Anglobtusus voltou ao local onde supostamente deixara uma clareira, não a encontrou. Imaginem isto a prolongar-se por uns quantos dias, pelo menos é assim que me lembro do livro, o arquitecto em vias de ter um colapso nervoso, à custa das árvores que miraculosamente renasciam da noite para o dia.

Toda a gente sabe que uma árvore precisa de vários anos para crescer, infelizmente não há bolotas mágicas como no livro do Astérix. Mesmo as pessoas que deitam árvores abaixo sabem disso, como o idiota que vive aqui ao lado e que resolveu abater uma árvore no meu dia de descanso. Demorou várias horas, de moto-serra em punho desde as oito e meia, foi cortando primeiro os ramos, depois o tronco em partes até deixar uma clareira no jardim das traseiras. Assisti de mãos atadas, no sentido figurado que isto não é o trailer das cinquenta sombras, arreliado com o vil acto, mas conservando a esperança que a coisa lhe fugisse das mãos e lhe levasse o pescoço.


10 comentários:

  1. Um dia, quem sabe as árvores caem em cima dos derrubadores.

    Bom dia! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. vamos alimentando a esperança de que há árvores vingativas... bom dia!

      Eliminar
  2. Um dia, quem sabe, o homem comece realmente a pensar, que é o mesmo que dizer, seja agraciado com inteligência daquela à séria.

    ResponderEliminar
  3. Dá vontade de imaginar as árvores a revoltarem-se. Não era coisa bonita de se ver...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Hum... árvores com moto-serras a decapitar madeireiros... arbustos a desbastar com tesoura de poda, as extremidades dos jardineiros... isto tem potencial :D

      Eliminar
  4. “Assisti de mãos atadas, no sentido figurado que isto não é o trailer das cinquenta sombras,”
    Eheheh...adorei!
    Invocando a famosa frase de Lavoisier em que “Rien ne se perde, rien ne se crée, tout se transforme” será que não dá para transplantar a árvore no famoso quarto encarnado?
    Se não tiveres um, diz, que a minha arrecadação é muito rubra e acolhedora....e numa árvore nunca experimentei. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. é triste, mas sei perfeitamente do que falas quando te referes ao quarto encarnado... (assumo publicamente que li a versão brasileira do primeiro livro, nã sei o que tem de especial... mas o que interessa no fundo é escrever o que as pessoas desejam ler)
      já nunca teres experimentado "numa árvore", traduzo que seja encostada e não pendurada lá nos ramos, não posso dizer que seja muito confortável, mas depende também da rugosidade do tronco... mas para quem gosta de quartos encarnados, parece-me um bom sítio!

      Eliminar
    2. Este comentário foi removido pelo autor.

      Eliminar
    3. Eu que sofro de irreverência crónica e que não alinho em movimentos de massas, na altura em que saiu o livro e que causou tanto furor, não o quis ler.
      Há umas semanas atrás e por mero acaso, deite-lhe a mão numa das bibliotecas que gosto de frequentar. Era o último da trilogia. Li-o todo e fiquei a perceber muito bem os outros dois, que não tenciono ler.
      Tal como tu, também eu não consegui perceber o que tem o livro de especial, para além de, em termos literários ser paupérrimo. Mas a receita, pelos vistos funciona para os estômagos menos exigentes. E a receita como tu tão bem entendes é fácil, pelo que não vou cansar-te a inumerar os ingredientes e condimentos.
      Em termos sexuais, entendo que entre adultos e por mútuo consentimento, vale tudo e mais alguma coisa desde que ambos estejam confortáveis. Afinal, o prazer é de cada um de nós e só a nós diz respeito. No entanto, gosto e defendo uma relação igualitária, sem dominadores ou submissões.
      Se retirarmos o magnetismo com que é descrito o Mr. Grey, a sua juventude, beleza e riqueza,
      os ambientes luxuosos e as prendas caras, mais as cidades emblemáticas e todo aquele ambiente de sonho e fantasia, creio que estaríamos a classificar o comportamento do Mr.Grey como de um grande e desiquilibrado abusador, e a Mrs. Grey como vítima de violência doméstica, pois as mulheres, tais como os homens, não são brinquedos, não são para serem controlados, mas apenas amados!
      É verdade, que são descritos no livro momentos de uma imensa ternura e de atento cuidar. Destes gostei.

      Quanto ao resto estava a brincar contigo, pois as minhas intimidades sexuais só a mim pertencem, não são para aqui serem divulgadas. Dito isto, acrescento que não gosto de quartos especificamente de dor e/ou prazer, pois o amor faz-se onde os amantes quiserem. Mas gosto do encarnado e, confesso, que o meu quarto tem muitos apontamentos nessa cor quente de paixão. E também é um palco de prazeres e de dores, mas essas são outras lágrimas...

      Eliminar