terça-feira, 29 de setembro de 2015

ufano

Sonhei com ela, a nova musa. Estávamos na praia, só os dois, ela corria na areia descalça, salpicando a roupa clara. Os cabelos dançavam mas não havia vento, algo brilhante enterrado na areia lhe captara a atenção, quando me aproximei segurava na ponta dos dedos uma concha de náutilo de proporção áurea. Ofuscados pelos reflexos do nácar, não demos pelos pinheiros da orla que se aproximavam, ela deitou-se na areia e mergulhei até ao fundo em apneia, unindo bocas e línguas. Parecia real, o corpo dela encontrava o meu na deriva dos continentes, cheirava a mar e feldspato. Nos dedos percorríamos a pele nua, no contorno das costuras abertas para o interior ainda quente. Ela fechava os olhos, como a tinha visto pelo espelho retrovisor, a boca ligeiramente entreaberta gemendo sem som. Agarrei-lhe um punhado de cabelo no topo da nuca e deslizei com ímpeto mar adentro. "Miau" disse ela, "miau" e de novo insistiu "miau". Acordei estremunhado, era o gato a pedir rua.



Duche de água fria para começar o dia... porra pras rimas.



segunda-feira, 28 de setembro de 2015

pulgas

Domingo foi dia de limpezas. Abri as janelas, sacudi o colchão e almofadas, lavei a pia, o fogão, a mesa e as paredes, depois varri o chão e por fim passei uma esfregona até deixar o linóleo a brilhar. É que agora tenho um hóspede, um gato malhado que resolveu trocar a casa pelo meu pequeno espaço. Ninguém me mandou partilhar o almoço com ele. Dormir encostado às minhas pernas será certamente a forma que encontrou para me agradecer, de vez em quando deixa-me fazer-lhe umas festas. Desconfio é que não veio sozinho, apesar da coleira mal cheirosa que traz ao pescoço, e ainda por cima não são amestradas, vão dar muito trabalho.

Charles Bukowski wrote about cats: "They walk with a surprising dignity, can sleep twenty hours a day, without hesitation and without remorse: these creatures are my teachers."


domingo, 27 de setembro de 2015

pieprzyć

Ontem bem cedo, decidi ir até à cidade para comprar umas calças e para isso informei-me na véspera, que camioneta poderia apanhar aqui no meio de nenhures. Quando vim para cá só trouxe dois pares, as boas e as de trabalho, da última vez que subi no escadote, sobraram as boas. Cheguei à paragem uns dez minutos antes do horário que me tinham indicado, não havia ninguém na estrada, só se ouviam os corvos e as gralhas nos campos. Dez minutos depois aproximou-se uma senhora de idade, com a cabeça coberta por um lenço atado no queixo. Perguntou-me qualquer coisa, provavelmente se a camioneta já teria passado, mas como não entendi e nem sabia como responder, tentei dizer-lhe que não falava polaco, reproduzindo várias vezes “nie” que quer dizer “não” em polaco. Ela sorriu sem parar de abanar a cabeça em sinal afirmativo e então repetiu a pergunta, mais alto. 


sábado, 26 de setembro de 2015

bifurcação

A minha vida não é um sonho.
Mas devia ser, já que viajo bastante, faço montes de amigos, não tenho um horário fixo das nove às seis, todas as noites podem ser de farra, não há miúdos para deixar na escola, ou adolescentes para ir buscar à discoteca, posso dormir nu, ou deixar de lavar os dentes e sou praticamente imune a gripes.
Mas nem tudo é tão idílico, às vezes não me entendem e fazem couve no forno a pensar que é o meu prato favorito. Ou pior ainda, termino as frases com rimas, mesmo sem pensar nisso.

Mas ontem um amigo de infância mandou-me uma foto com a filha pequenita ao colo, e pensei em tudo que estou a perder e como é fácil acharmos que os outros levam vidas de sonho. Para mim a vida dele é de sonho. Para muitos a minha vida será de sonho, e não digo que não seja, porque é uma boa vida, atravessado na estrada, à espera que a bifurcação desapareça. 


tanatose

... ou play dead

O automóvel seguia silencioso numa via de duas faixas em linha recta. Izabela dormia no lugar da frente, conseguia vê-la através do espelho retrovisor, a cabeça abandonada, se eu fosse Romeu, pensaria que Julieta estava morta e emborcava o veneno. Os seus cabelos castanho claros, cortados pelos ombros, eram tocados por ínfimas partículas róseas, da onda mais longa que cruzava a atmosfera. Eu invejava-a, a ela e ao casalinho que dormia ao meu lado no banco de trás.
Marek, o proprietário do pequeno peugeot e do coração de Izabela, tirou o som ao rádio e não trocou uma palavra, nem quando parou na estação para fumar um cigarro e eu aproveitei para esticar as pernas. Achei que era gajo para me abandonar ali, e não me afastei muito.
Enquanto escrevo isto, visto o casaco que emprestei a Izabela quando chegamos ao báltico, está impregnado com o seu cheiro, mas valeu o sacrifício de ter rapado um frio do caraças. Também segurei-lhes as portas e outros hábitos que só os velhos cavalheiros conservam, elas gostaram, eles nem por isso.
Tentei fechar os olhos, nas margens cresciam grandes árvores frondosas que esmagavam a luz, parecia um sonho. Voltei a olhar para ela, aconchegada no meu casaco, imaginando como seria despertar ao seu lado a meio da noite e ficar acordado só para a ver dormir. Nomeei-a musa instantânea, daquelas que basta juntar água e voilà!
Este atributo deve correr nos genes, Izabela é a irmã mais nova de Alicja, a loira que me mostrou Budapeste durante a segunda grande ressaca do milénio, ambas são demasiado novas e comprometidas, ideais para musas. Isto pode não fazer muito sentido, mas acreditem que sou um entendido em musas. Mais do que em mulheres. E nestes anos de aprendizagem, notei que quanto mais jovens e comprometidas, mais distantes as podia (e devia) manter. O relacionamento com musas é catastrófico para a escrita, a alma fica cheia e as palavras tendem a voar.
Izabela consegue ser ainda mais bela que a irmã, o cabelo castanho avoluma os oceanos imensos que lhe saltam das orbitas. Isto não soa nada romântico, mas sinto-me naufragar sempre que me mira, e agarro-me a onde posso. 
No dia seguinte devolveu-me o casaco, foi ter comigo à roulotte e constrangida reparou que ela é pequena demais para mim, talvez porque bati com a cabeça no tecto quando me entusiasmei com a sua presença. Mas não ofereceu metade da sua cama, como eu estava à espera. Nem quis ficar mais um bocado para um chá ou testar a resistência do colchão.
Parece que terei de continuar a fazer-me de morto.


tanatose: [Biologia Estratégia de alguns animais que consiste em simular a mortegeralmente para enganar
 um predador ou uma presa.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

emulação

Que tanto escreves tu?
Escrevo sobre as palavras. Respondeu sem levantar a caneta do papel.
Podíamos fazer uma competição. Eu desenhava a tua cara carrancuda e tu podias fazer da minha carne linhas, arrepiar-me minúsculas, numa ossada de vogais.